Na Mira do Vampiro
6 O cúmplice
Enquanto Duda tentava pensar num meio de penetrar no edifício, Kid descarregava outra vez na mesma poça, aumentando a lagoa.
Após estudar o ambiente, Duda saiu de trás do carro e caminhou em direção ao porteiro. Kid seguiu-o.
— Oi, moço — falou meio encabulado.
— Oi, garoto — respondeu o porteiro, Tião, com simpatia.
Duda ficou olhando em volta sem saber o que falar.
— O mascarado aí tá com sede — comentou o homem sorridente, apontando para Kid e quebrando o gelo.
— É, acho que ele tá, sim — concordou Duda, muito sem jeito para entrar no assunto que lhe interessava.
— Você mora por aqui? — volveu Tião, após novo silêncio.
— Não exatamente — respondeu Duda, desviando o olhar.
— Mora perto daqui? — perguntou o porteiro, encarando Duda.
— Mais ou menos — voltou a responder ele, inseguro. — Quer dizer, não é tão perto, mas também não é muito longe.
— O que você está fazendo por estas bandas, garoto?
— Eu tenho amigos da escola que moram nesta rua.
— Sei — disse o porteiro, acreditando. — E você está indo pra casa de algum deles?
— Isso mesmo! — concordou Duda, surpreendendo Tião com um entusiasmo repentino. — E justamente quando eu estava passando, eu vi... bem, eu estava indo pra casa desse amigo meu, aí eu vi... bom, eu vi um caixão entrando aqui — finalizou, encolhido, esperando por uma reprimenda.
— Sim, e daí? — falou o porteiro, intrigado. — Você se impressiona com essas coisas?
— Não — respondeu Duda secamente.
— Você não sabe que muitas pessoas morrem todos os dias?
Duda fez que sim com a cabeça, porém sem dizer nada.
— Então — continuou Tião -, isso acontece. Todos os dias morrem muitas pessoas. E crianças também. Pra morrer é que vivemos — finalizou, com uma pontinha de malícia, tentando assustar Duda.
O garoto arregalou os olhos, espantado. A partir daquele momento, caso Toninho aparecesse morto, o porteiro, certamente, seria um dos suspeitos. O garoto começou a imaginar a cumplicidade dele, já que um caixão havia sumido e o criado do vampiro e seu ajudante foram embora sem levar nada com eles.
"Talvez o porteiro esteja escondendo o caixão com Toninho morto lá dentro." Duda arrepiou-se todo ao pensar nessa possibilidade. Temeroso, olhava fixamente nos olhos do porteiro, como se pudesse desvendar algo por telepatia.
Kid estava totalmente indiferente aos acontecimentos, quase dormindo aos pés do dono. Ele não ligaria caso Toninho nunca mais aparecesse. O esquecimento faz parte da natureza animal.
— Você quer alguma coisa, garoto? — voltou a perguntar Tião, quebrando o silêncio pela terceira vez.
— Então morreu alguém aí, né? — indagou Duda, cauteloso, com receio da resposta.
— Algum dos seus amigos mora neste prédio?
— Não.
— Então por que você quer saber, garoto? — retrucou Tião friamente.
— Quer dizer...
— Mora?
— É...
— Mora ou não mora? Você disse que não conhecia ninguém aqui! — falou o porteiro, deixando a simpatia de lado. — Onde moram os seus amigos?
— Têm uns ali, outros lá — balbuciou Duda, apontando aleatoriamente, sem especificar nenhum lugar.
— Onde?
Duda repetiu o mesmo gesto displicente. Estava amedrontado.
— Não vai me dizer que você conhecia a falecida?
— Quem?! — disse Duda, automaticamente, com certo alívio.
— A Da. Catherine, do 201...
— Ah! Que bom! — gritou Duda, saltitante de alegria. Porém, recompondo-se, falou solenemente: — Que chato, né?
— Você conhecia ela de algum lugar? — perguntou Tião, admirado, franzindo a testa, como que medindo a sinceridade de Duda.
— É, eu a vi algumas vezes lá na praça...
— Praça?
O homem estava confuso, não sabia sobre o que falava Duda. Este, por sua vez, pensava que o porteiro estivesse dissimulando.
— Mas não tem nenhuma praça aqui por perto! — espantou-se Tião.
— É que ela costumava aparecer de vez em quando lá no colégio pra apanhar o neto...
— Apanhar o neto no colégio?! Mas de quem é que você está falando? Ela quase não saía de casa, nem tinha família! Muito menos um neto! Ficava trancada em casa vários dias seguidos. Eu acho até que ela era meio...
O porteiro fez um gesto como que querendo indicar que a mulher fosse louca.
— Quem sabe ela não ia lá escondida fazer alguma doação — disse Duda, tentando contornar uma situação difícil, criada por ele próprio.
— Eu acho que você está confundindo as coisas, viu, garoto? Ou então se enganou de prédio! Essa velha que morava aqui era uma tremenda unha-de-fome — Tião encerrou o assunto secamente.
— Será que eu não poderia entrar pra ver ela? — arriscou Duda, medindo as palavras.
— Pra quê? — tornou o porteiro, surpreso.
— Para fazer uma homenagem, ora!
— Você gosta de ver defuntos? — perguntou Tião, preocupado.
Duda fez que não com a cabeça, engolindo em seco.
— Então não vejo por que você quer ir lá em cima ver a velha. Onde já se viu? Um garoto fanático pra ver gente morta! Você é muito novo pra ter essas manias, rapazinho. Vai jogar bola com seus amigos, vai. Olha, vai dar água pro seu cachorrinho que ele está morrendo de sede.
Duda teve uma ideia luminosa. Se ele conseguisse convencer o porteiro a deixá-lo no edifício, talvez pudesse descobrir o paradeiro de Toninho, mesmo que tivesse de arriscar o pescoço.
Restava saber se, uma vez lá dentro, ele sobreviveria para chegar ao seu objetivo.
Enfim, com esses pensamentos misturados em sua cabeça, Duda decidiu jogar a última cartada...
— Tem alguma torneira aqui? — indagou ele a Tião.
— Só lá na garagem, por quê?
— Porque até eu chegar em casa vai demorar um pouco e o Kid tá com a língua pendurada de tanta sede — alegou Duda, tentando convencer o porteiro.
Tião pensou um pouco no assunto e emendou:
— Não sei... com essa onda de assalto a edifícios que anda por aí... Não sei, não...
Tião hesitava. Ainda que em seu íntimo não achasse Duda um trombadinha, a forma com que ele se aproximara da portaria tinha sido muito estranha.
— Pô! Deixa... o Kid tá morrendo de sede. Eu não sou nenhum ladrão — suplicou Duda, apontando para o vira-lata, que continuava com a língua de fora.
O porteiro olhou para ambos pensativo, pesando as consequências da autorização.
— Tá bom, leva ele lá embaixo — disse, após pensar muito bem. — Mas rápido, hem! Se algum morador pegar você lá é bem provável que me mandem embora, e eu não posso perder este emprego. Tenho duas filhas para criar.
— Pode deixar que ninguém vai me pegar, falou? "Bom, assim espero", pensou Duda.
Tião abriu a porta da garagem, que ficava um andar abaixo da portaria, no subsolo.
— Obrigado — disse Duda com certo desânimo, descendo a rampa da garagem seguido por Kid Pulga.
O porteiro fechou a porta logo em seguida.
"Ai, meu Deus! É agora!", pensou Duda, apavorado.
Ele não acreditava na sinceridade do porteiro. O que ele achava era que o homem estava fingindo toda aquela situação para encobrir sua participação no desaparecimento de Toninho.
Vagarosamente, tateando na penumbra com todo o cuidado, Duda foi descendo a rampa da garagem, imaginando o que teria pela frente. Kid seguia seu ritmo como fiel cão-de-guarda.
Chegaram ao salão repleto de colunas e encanamentos externos. Não havia ninguém. Duda foi até a torneira num canto da garagem, abriu-a e deixou que Kid bebesse à farta, enquanto chamava o elevador.
Quando estava quase chegando à garagem, Duda ouviu vozes. Imediatamente pegou Kid no colo e escondeu-se atrás de um dos muitos carros estacionados por ali.
Duas elegantes senhoras saíram do elevador muito entusiasmadas com a conversa que travavam.
Duda ficou na expectativa para ver de qual dos carros elas se aproximariam. Manteve-se quieto, torcendo para Kid fazer o mesmo.
Ouviu vozes cada vez mais próximas. Elas vinham na direção do carro que Duda usava como esconderijo...
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