Quando estavam em frente ao carro, as duas mulheres pararam de repente. Duda podia ver seus pés por baixo do chassi.

Uma delas comentou com a outra:

— Que barulho é esse?

— Não ouvi...

— Esse... Não está escutando?

— É... realmente.

A que falou primeiro vasculhou a garagem procurando a origem do som.

— Venha cá, Heloísa — disse ela, finalmente, achando a fonte do barulho.

A outra foi ao seu encontro e ambas viram a torneira que Duda esquecera aberta.

Uma delas comentou, zangada:

— Tá vendo só? A gente paga um dinheirão pela água pra esses serventes desperdiçarem... Impressionante!

— Eles não têm cuidado nenhum porque não são eles que pagam — acrescentou a outra, reforçando o argumento da primeira.

Graças a esse esquecimento, Duda estava salvo. Ele aproveitou a oportunidade para esconder-se em outro carro, mais afastado, livrando assim sua pele, porém prejudicando consideravelmente a imagem dos serventes de condomínios, que não tinham nada a ver com o peixe.

As duas mulheres entraram no carro, fizeram a manobra que exigia a arquitetura da garagem e subiram a rampa...

Duda correu para o elevador e até se esqueceu de Kid, que correu atrás do dono pensando que ele estava brincando.

As mulheres buzinaram chamando o porteiro. Sem pestanejar, Tião veio abrir o portão...

Enquanto isso, Duda enterrava o dedo no botão do elevador, que havia subido e agora demorava a descer...

Elas deixaram o prédio.

Tião fechou a porta da garagem e em seguida voltou à portaria.

Finalmente, o elevador chegou ao subsolo. Duda tinha pressa em ingressar nele...

Já dentro do elevador, o garoto parecia estar aliviado. Porém, mal começara a subir, parou no andar seguinte.

— Você ia subir, não ia? — Era o porteiro, que, abrindo a porta, olhava para Duda com uma expressão de contrariedade.

Duda empalideceu.

— Eu não falei pra você que não podia subir? — disse Tião, controlando a raiva. — Já pensou na brinca que eu ia levar se alguém visse um garoto desconhecido rondando o prédio?

— Mas seu...

— Não tem nada de seu nem meu, garoto! Eu falei pra você não subir e você tinha que me obedecer! Eu fui legal deixando seu cachorrinho ir beber água na garagem...

De súbito, o porteiro interrompeu seu raciocínio e, ligando uma coisa a outra, perguntou:

— A Da. Cristina não viu você, viu?

Duda fez que não com a cabeça.

— Ah, bom! Agora você quer fazer o favor de ir passear em outro lugar, quer? Vai jogar bola, já disse! Se você gosta tanto assim de ver defunto, vai no cemitério que lá defunto é o que não falta, viu garoto?

Duda foi saindo do edifício desanimado. Kid ficou parado, abanando o rabinho para Tião, que logo o colocou em marcha também. Da portaria, o homem os observava.

Duda voltou ao carro estacionado na calçada em frente ao prédio. Olhava para lá como se estivesse diante de um brinquedo que se admira na vitrina de uma loja, sem se poder tocar.

Kid Pulga fuçava novamente a roda do carro, velha conhecida sua. Fazendo a famosa pose dos cães machos, inundou-a mais uma vez.

— Vamos, vamos! Me deixem trabalhar! — gritou o porteiro, zangado.

Duda caminhou pela rua até afastar-se do edifício.

Kid, como sempre, seguia o dono, indiferente a tudo. Claro, ele não sabia nada sobre histórias de vampiros.

Duda chutou um maço de cigarros amassado que estava no seu caminho, depois encostou-se em outro carro, estacionado na mesma rua, e ficou olhando o chão, pensativo.

Kid parou também. Após alguns segundos, deitou-se e permaneceu de olhos fixos no dono.

Passava-se do meio-dia. A essa hora sua mãe já os devia estar caçando para o almoço. A aula, naquele dia, estava perdida.

"Onde será que eles meteram o Toninho?", pensava Duda, tentando adivinhar.