Na Mira do Vampiro

3 "Morta com dois furos no pescoço"


Duda e Toninho ainda correram alguns metros, parando defronte a uma outra casa velha, na mesma rua. Os dois estavam ofegantes. Sentaram-se no portão da tal casa um pouco tristes pela tentativa frustrada de levar algumas frutas para casa, poupando, assim, boa parte da feira da semana.

A mão direita segurando a cabeça, o cotovelo direito apoiado no joelho do mesmo lado: era o gesto final dos dois, que pareciam agora duas estátuas gêmeas.

— Caramba! — acordou Duda subitamente. — Esquecemos o Kid! — disse em pânico.

Contudo, antes que voltasse em disparada para a casa da "velha maluca", avistou Kid Pulga aproximando-se lentamente, com a língua pendurada. Ele não aguentara correr tanto quanto o dono.

Passado mais este susto, Duda e Toninho voltaram a sentar, observados por Kid Pulga, que ainda tinha meio palmo de língua para fora.

Um silêncio absoluto tomou conta deles. Kid Pulga esparramou-se no chão para descansar.

Súbito, Toninho retirou do bolso do short uma baita goiaba amarelinha. Ofereceu-a a Duda, mas quando este se preparava para abocanhá-la, Toninho desviou a trajetória dele, zombando:

— Essa não, xará! Essa é do papai aqui — disse ele, mordendo a fruta com gosto.

Duda levantou-se com raiva e uma pontinha de inveja, deixando Toninho sozinho para saborear a goiaba. Kid Pulga seguiu-o.

— Peraí, Duda, eu só estava brincando. Toma, dá uma mordida.

Duda não atendeu e continuou a andar. Toninho chamou por Kid, que parou e olhou para ele. Duda voltou-se, pegou-o no colo e desapareceu na esquina da avenida Fontenelle, transversal à rua do Cortiço e que também se comunicava com a rua dos Lírios, onde moravam os meninos.

Toninho foi atrás.

Emparelhou com o amigo e foram seguindo para casa sem se falar. Todavia, ao passarem por uma banca de jornal onde havia um grupinho de pessoas lendo as manchetes dos principais jornais da cidade, Duda, curioso, decidiu parar para espiar também. Viu, em letras garrafais, a manchete de um jornal sensacionalista: "MORTA COM DOIS FUROS NO PESCOÇO". Abaixo, vinha a explicação: "Maria Aparecida Imaculada dos Santos foi encontrada morta, esta manhã, em sua casa no bairro de Fátima, centro do Rio, com dois furos no pescoço, sem hemorragia e com perda parcial de sangue..."

Duda parou de ler e olhou boquiaberto para Toninho, sem dizer nada.

O amigo, lendo também a manchete, retribuiu o espanto.

Kid não tirava os olhos da enorme goiaba, que ia sendo devorada aos poucos por Toninho.

Os dois garotos, impressionados, retomaram o caminho, mas quando se preparavam para atravessar a rua Provinciana, que distava ainda cerca de um quarteirão da rua deles, depararam-se, do outro lado da avenida, com uma caminhonete funerária.

Fora da caminhonete, no chão, jazia um caixão fechado, aparentemente deixado ali com certa displicência. No local não havia ninguém.

Os dois pararam.

Toninho ainda estava de mal com Duda, porém, não se contendo mais, abriu o bico:

— Que é aquilo?

— É um caixão, moleque — retrucou Duda com os olhos brilhando de assombro. — Eu já vi um igualzinho num filme de Drácula, o vampiro mais famoso do mundo...

— Drácula?! — balbuciou Toninho.

Duda tapou a boca do amigo com a mão esquerda, pedindo silêncio, e completou abaixando a voz, como quem não quer ser ouvido:

— É, é aquele vampiro que suga o sangue das pessoas... Vai me dizer que você nunca viu um vampiro? — desafiou Duda.

— Quê? Ah, claro que já vi — respondeu ele sem muita convicção, observando a caminhonete funerária.

A essa altura a boa relação deles já estava restabelecida. As briguinhas eram comuns entre os dois.

Ao invés de seguirem para casa, decidiram adiar a volta e ficaram esperando pelo dono do caixão.

Sentaram na porta de uma loja e aguardaram.