Na Mira do Vampiro
4 O criado do vampiro
Poucos minutos depois, dois homens saíam da casa em frente a qual estava estacionada a caminhonete. O bairro de Duda e Toninho ainda conservava muitas casas de arquitetura antiga.
Um dos homens aparentava uns 50 anos, tinha um aspecto carrancudo e um rosto cadavérico. Trajava um velho terno preto. O outro, mais jovem uns vinte anos, era moreno e vestia um macacão surrado e desbotado.
Transportavam um caixão para dentro do bagageiro da caminhonete, e, pelo esforço, ele parecia estar bastante pesado.
Duda não deixou que esse incidente passasse em branco:
— Alá! Aqueles homens estão em atitude suspeita...
— Ué, Duda, não vejo nada de suspeito. Eles estão fazendo o trabalho deles, mané. Eles tão tirando outro caixão e levando pra casa de novo...
— Está vendo aquele velho todo de preto? — apontou Duda em direção à caminhonete.
— Tô. Que que tem?
— Ele é esquisitão...
— Não acho nada de esquisito nele, Duda — disse o garoto com convicção.
— Você não vê pelo jeitão dele?
— Ver o quê? — indagou Toninho, sem captar o que o amigo tentava transmitir.
— Os criados dos vampiros são sempre assim: mal-encarados e misteriosos — concluiu Duda com certo suspense na voz.
Os dois homens entravam na casa novamente.
— Ah, é? Se você diz — concordou Toninho sem contestar.
— Um daqueles caixões deve ser o do mestre deles, os outros servem de disfarce...
— Será? — tornou Toninho aparentando interesse.
— Claro que é! Pode apostar uma goiaba — acrescentou Duda maliciosamente, olhando para o amigo.
— Se você diz — voltou a concordar Toninho, observando a caminhonete.
— Repare que casa mais sinistra é aquela pra onde eles foram.
— Ah! Isso não, Duda — discordou o amigo com veemência. — Aqui no bairro tá cheio de casa assim.
— Devem estar preparando tudo para ressuscitar o mestre deles — continuou Duda, já envolvido pelo clima de suspense, sem dar atenção às palavras do amigo.
— Quem é o "mestre" deles, Duda? — quis saber Toninho, exagerando na pronúncia da palavra "mestre".
— O vampiro, moleque! — replicou Duda asperamente.
— Ah, tá. O vampiro, claro.
Os dois homens saíam novamente da casa sob o olhar atento e perscrutador de Duda.
Toninho fez uma pausa para refletir sobre o que se passava, então perguntou de novo:
— E como eles vão fazer isso?
— Fazer o quê? — perguntou Duda, concentrado na atividade dos dois homens.
— Ressuscitar o mestre deles — cochichou Toninho.
— Com uma "missa negra".
— Ué, e como é que se reza uma missa assim? Todo mundo vestido de preto? — volveu Toninho com inocência.
— Não! — exclamou Duda, esquecendo seus suspeitos e encarando o amigo. — Não é nada disso, Toninho! "Missa negra" não é uma "missa preta"! É um ritual demoníaco, onde eles matam alguém, aí o sangue da vítima é despejado nas cinzas do vampiro, que o criado guardou. Com isso, o vampiro vai reencarnar...
— Reencarnar?
— É, Toninho, é a mesma coisa que ressuscitar.
Toninho não compreendia todas essas histórias de vampiros e coisas fantásticas tão bem quanto Duda e, apesar de lhe fazer companhia de vez em quando diante da televisão, não se deixava influenciar de maneira alguma pelo que assistia e tampouco encontrava tempo para dedicar-se à literatura juvenil ou aos quadrinhos como Duda fazia. Quando Toninho não estava estudando, estava ajudando a mãe em algum serviço doméstico.
— Puxa! É complicado, né?
— Ô Toninho, eu acho que você nunca viu filme de vampiro coisíssima nenhuma!
Implacável, Duda olhava com superioridade para Toninho.
— Claro que já vi, Duda! É aquele sujeito mau que chupa o sangue das pessoas e que tem dois dentes pontudos — retrucou Toninho.
Ele não gostava dessas coisas. Sua diversão era jogar bola, soltar pipa, coisas mais saudáveis, na sua opinião.
— E aí, depois de ser ressuscitado pelo servo, ele desperta todas as noites, transforma-se num morcego horripilante e ataca suas vítimas na calada da noite sedento de sangue... — Duda deu um grito apavorante, e depois continuou: — ...principalmente as mulheres e as criancinhas — completou, sombrio, com o intuito de assustar o amigo.
— Puxa vida! Isso parece perigoso! Vamos embora daqui...
Duda caiu na risada com o impressionado Toninho, que já se preparava para sair correndo. Mas o garoto o impediu, segurando-o pelo braço.
— Calma, moleque! Eu só tava brincando. Além do mais, isso só acontece de noite, e não tá nem na hora do almoço.
Faltavam vinte minutos para as onze horas.
Mal disse a frase, os dois homens suspeitos terminaram de ajuntar os caixões dentro da caminhonete e preparavam-se para sair, quando Duda advertiu Toninho:
— Olha! Eles vão embora.
— E nós também, né, Kid? Eu já estou com fome.
— Não, senhor — disse Duda autoritário, pegando Kid no colo. — Olha, eles devem ter esquecido alguma coisa. O cara de macacão está saindo do carro de novo.
O homem bateu a porta do automóvel e voltou à casa. Segundos depois, reapareceu chamando pelo mais velho, o que usava um terno preto.
O velho saiu do carro, bateu a porta e foi ao encontro do outro.
— Olha, ele tá indo pra casa... — Duda descrevia a cena como se Toninho não estivesse acompanhando.
— É o que eu vou fazer também — afirmou Toninho, levantando-se e dando os primeiros passos.
— Negativo. Essa é a nossa oportunidade...
Dito isso, Duda atravessou a rua e foi em direção à caminhonete. Toninho, sem ouvir o amigo, seguiu em direção à rua dos Lírios, pensando estar sendo acompanhado. Parou quando percebeu que não era seguido, então, virando-se, viu Duda aproximar-se da caminhonete. De repente, gritou:
— Ei! Peraí! Que que você está fazendo?
— Vamos entrar no carro e descobrir para onde vão esses homens — disse Duda baixinho, do outro lado da rua, por entre os carros que passavam.
— Quê?! — berrou Toninho sem entender uma palavra.
Duda esperou que os carros que transitavam pela avenida Fontenelle passassem para em seguida atravessar de volta.
— Nós temos que ir investigar para onde eles estão indo, Toninho.
— Tá louco! Eu não vou! Parece que bebe! — gritou Toninho.
— Então vamos nós, Kid — falou Duda fazendo-se de vítima, enquanto acariciava o cãozinho. — Deixa o medroso pra lá. Se alguma coisa acontecer com a gente ele vai passar o resto da vida com a consciência pesada por não ter ajudado — chantageou, como lhe era peculiar. Depois, atravessou a rua com Kid no colo.
Olhou em volta para saber se alguém o observava, então entrou na parte traseira da caminhonete, exatamente onde ficavam os caixões.
Toninho ficou observando.
Os dois homens saíram da casa. O mais jovem deles bateu a porta e passou a chave. O mais velho entrou no carro e sentou-se ao volante. Deu a partida...
O motor do velho Chevrolet engasgou. O velho tentou ligar o carro novamente, mas ele não pegou...
Toninho atravessou a rua correndo e pulou para dentro do bagageiro da caminhonete no mesmo instante em que o velho tentava pela terceira vez ligar o motor...
Desta feita conseguiu, e a caminhonete saiu sacolejando.
Olhando contrariado para Duda e Kid, que abanava o rabinho em saudação a ele, Toninho praguejou:
— Você só me mete em enrascada — chiou, visivelmente irritado, mas baixo, para não ser ouvido.
Dito isso, só teve tempo de notar o sorriso satisfatório que se desenhou no rosto de Duda. Em seguida, olhou para fora da caminhonete funerária e pôde ver que o bairro deles ia ficando cada vez mais distante.
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