Duda foi até a delegacia, próxima à sua casa, procurar o seu grande amigo, o policial Ferretti.

Logo que chegou, encontrou o delegado Paranhos, que ia saindo. Quando este o avistou, brincou com o pequeno:

— Ô, meu caro detetive! Como vai você?

— Tudo certo — respondeu Duda, meio convencido.

— Como vai o Capitão Campos? — perguntou Paranhos, referindo-se ao pai de Duda, um oficial do Exército.

— Vai bem. Esta semana ele tá de plantão no quartel...

— Ih! Então você vai aproveitar, hem, malandro! — voltou a brincar o delegado com sua costumeira irreverência. — Já almoçou?

— Já, obrigado.

— Pra você ver, eu estou indo agora — volveu Paranhos meio contrariado. Duda olhava para ele sério. — É! Tá pensando que vida de policial é moleza?

— Cadê o Ferretti?

— Ele estava fazendo um relatório na sala dele, mas eu acho que já deve ter acabado.

— Eu posso ir até lá?

— Pode, você é de casa. O que é agora, mais um caso sem solução?

Duda esboçou um sorriso amarelo e não disse nada, foi entrando. Paranhos despediu-se e continuou seu caminho.

Duda chegou na sala de Ferretti e o viu lendo o jornal tranquilamente, o que demonstrava que o tal relatório já estava encerrado.

— Oi, Ferretti, tudo beleza? — disse Duda da entrada da sala.

— Ô rapaz! Você por aqui. Que que manda? Seu pai está bom? — cumprimentou o homem alto e robusto.

— Está. Ele vai ter que ficar esta semana no quartel, de plantão — respondeu Duda, já meio entediado de ter que repetir sempre a mesma coisa para todo o mundo.

— Sei... E aí, alguma novidade?

— Bom, Ferretti, tem umas coisinhas pra você me ajudar a resolver... — disse Duda sem rodeios.

— Vamos ver o que eu posso fazer. O que é desta vez, detetive Duda?

— Eu tenho aqui o número da placa de um carro.

Duda retirou do bolso da bermuda um pedaço de papel dobrado e agitou-o no ar, mostrando ao policial.

— Qual é o problema?

— Eu gostaria que você descobrisse de quem é o carro e o endereço do dono...

Ferretti levantou-se da mesa, foi até um armário em frente, pegou uma garrafa térmica e encheu o copinho de plástico com café. Ofereceu a Duda, que não quis.

Voltou a sentar-se, sempre em silêncio, fitou Duda durante alguns segundos e depois disse:

— Duda, você está inventando o que desta vez?

— Nada, só que tem umas coisas que a gente precisa investigar — respondeu ele, propositalmente distraído.

— Você quer ser mesmo um policial quando crescer?

Duda apenas respondeu que sim com a cabeça e não falou nada.

— Você sabe que é uma vida difícil, que somos mal remunerados, além de arriscarmos o pescoço o tempo todo?

— Ih! Não vem com essa lição de moral de novo, Ferretti! E nem me fale de pescoço!

— Por quê?

— Pra começar, antes que você descubra o endereço e o dono desse carro, nós temos que ir até um edifício de luxo aqui perto identificar dois cadáveres...

— Como é que é?! — indagou Ferretti estupefato, abandonando o copinho de café.

— E o pior não é isso: um vampiro está solto na cidade — tornou Duda secamente, sempre indo direto ao assunto.

— O quê? — espantou-se Ferretti, numa surpresa crescente. — Peraí Duda, isso não é hora para brincadeira...

— Eu não tô brincando, é sério. O Toninho está de prova, ele é que viu o homem...

Nesse momento, Elias, companheiro de ronda de Ferretti, passava por ali; quando viu Duda agitado na cadeira, entrou e foi logo fazendo aquela festa:

— Olá! Como vai o nosso Batman mirim? — disse o homem de porte médio, pele morena e cabelos lisos como os de um índio.

— Elias, sente-se e ouça a história do Duda — sugeriu Ferretti, refeito da surpresa.

— Que que é? — Elias mudou de tom na mesma hora.

— Eu estava falando com o Ferretti que o Toninho viu uma mulher morta num apartamento aqui perto e que eu, conversando com o porteiro do prédio, descobri que pode haver também uma velha morta no mesmo apartamento e um vampiro...

— Peraí, Duda — interrompeu Elias, embaralhado. — Isto está muito confuso...

— E você não me deu esses detalhes... — interrompeu, por sua vez, Ferretti.

— Por que você não conta pra gente como tudo aconteceu desde o início? — pediu Elias com calma.

— Tudo bem...

Duda recontou toda a história, em detalhes, na frente dos dois policiais. Ao terminar, Elias comentou com Ferretti:

— Será que essa história que o Duda nos contou tem alguma relação com aquele caso da moça assassinada com dois furos no pescoço e sem sangue no corpo?

— Vocês já sabem alguma coisa sobre isso? — retrucou Duda, admirado.

— Provavelmente algum lunático fazendo-se passar por vampiro. Agora, é possível que os garotos tenham presenciado esse suposto vampiro agindo e, pelo que o Duda falou, com outros homens ajudando. O que nos faz pensar que essa história de vampiro não é tão louca assim, a menos que um bando de malucos tenha fugido do hospital junto...

— Quer dizer, agora são duas vítimas — afirmou Duda.

— Não sabemos se os dois casos têm ligação, Duda — rebateu Elias na sua conhecida tranquilidade. — E nem temos provas do que você nos contou...

— Mas então estamos perdendo tempo! Temos que descobrir...

— Duda, eu já te falei: se você quiser ser um policial, ainda vai ter que comer muito feijão, malandro.

— Tá bom, mas enquanto o feijão não faz efeito, que tal nós irmos juntos lá pra investigar?

— Nada feito. Você vai ficar aqui bonitinho nos esperando. Daqui a pouco nós trazemos novidades. Até já...

Ferretti e Elias iam saindo, quando Duda chamou a atenção para um fato:

— Como vocês vão lá se eu não disse onde é?

Ferretti e Elias se entreolharam com cara de bobos, enquanto Duda dava uma sonora gargalhada de satisfação.

— Tá bom, vem logo — falou Ferretti, fingindo um ar zangado.

Os três saíram...