Notas iniciais
Olá! Comecei a escrever o capítulo pelo tablet, só pra registrar as ideias. De repente, bum, estava pronto. Espero que gostem!

A rua de baixo. Grandes lembranças. Não somente boas, obviamente, mas também — as de menor quantidade — ruins. Um filme se passa em minha cabeça.

Sou criança novamente e estou com sete anos de idade brincando com meus amigos de pega-pega. Sou eu quem corro atrás dos outros. Agora, com 10, ando de bicicleta, descendo a rua, com John, filho de Mary. A imagem de eu brincando de pegar vem à minha cabeça novamente, mas desta vez mais intensa. Corro atrás dos outros com pressa e desespero. Com 11, estou na piscina da casa de Mary com John e mais alguns outros. A festa de Halloween daquele ano na casa dos Smith também é memorável. Estou novamente correndo atrás dos outros, tentando de diversas maneiras tocar em alguém. Flashes ultra rápidos tomam conta de minha mente. Pega-pega. Bicicletas. Piscina. Halloween. Pega-pega. DESESPERO. Bicicletas. Halloween. Piscina. Estou afogando. Corro cada vez mais rápido. Bicicletas.

Meu afogamento na piscina e o carro que me atropelou quando eu estava correndo se juntam e quando eu volto à sanidade já é tarde demais. O último som que vem aos meus ouvidos é o de minha xícara quebrando ao cair no chão e minha visão fica totalmente escurecida.

Meus olhos se abrem aos poucos. O sentido que mais trabalha agora é o da audição, pois parece que ouço cinco vezes mais. É tarde, a luz do sol entra pela janela, dispensando iluminação artificial. Percebo que há dois médicos conversando entre si então não tento mais abrir meus olhos, para que eu possa ouví-los sem me preocupar.

– O quadro dele não é muito bom — diz o doutor — Os exames mostram altos níveis de ansiedade, mesmo no coma.

Coma? Agora perguntas tomam conta de mim. Por quanto tempo fiquei dormindo? Por que fiquei em coma? Como estão meus pais? Meu coração bate mais rapidamente depois de descobrir a notícia e os médicos notam o aumento nos meus batimentos cardíacos. Um deles chama a enfermeira, que entra no quarto.

Abro meus olhos, tento perguntar o que está acontecendo, mas não há tempo, pois a mulher aponta uma máscara com tranquilizante em mim e eu adormeço mais uma vez.

Luzes azuis. O som de arpas. Mergulho por entre uma piscina gigante, talvez esteja até no meio do mar, no qual a imensidão azul se junta com as luzes de mesma cor. Crianças passam correndo em pequenos flashes. Tudo em câmera lenta. Até que os vidros se quebrem e as coisas fiquem mais intensas, e eu acorde no meio de um quarto de hospital, onde tudo está escuro — e intacto.

Dou uma analisada em minha volta. Tento enxergar ao máximo, mas a única fonte de luz (a não ser a natural, que atravessa as janelas) é uma que vem do corredor, em seu final, que fica alguns passos à direita da porta.

Meu tio George está dormindo sentado em um sofazinho na lateral de onde estou deitado. Meu pulso direito está enfaixado, provavelmente por conta dos cacos de porcelana da minha xícara, enquanto o meu braço esquerdo recebe soro injetado na veia.

Encontro meu iPod em cima do bidê ao lado de minha cama. Os fones estão conectados a ele. É 0h38. Mas dessa vez não há zunido nenhum para me perturbar. Porém, nota-se que a iluminação do hospital deu uma bela falhada. Noto também que há alguém vindo e jogo o aparelho de volta ao bidê.

– Isso vem acontecendo desde sexta-feira passada — diz a enfermeira passando pelo corredor — Estranho é que uma mulher desapareceu naquele dia.

– Isso é bobagem, como uma falha no sistema elétrico tem a ver com isso? — responde a outra.

– Mais pessoas desapareceram, e só aqui no Condado de Orange.

A voz das duas some enquanto o som dos passos de salto alto ecoam pelas paredes do corredor. O resto da noite eu fico oscilando entre algumas músicas, umas sonecas e partidas de "Temple Run", até que a manhã chegue e a claridade tome conta.

A luz azul — e seus companheiros — voltam, o que eu menos queria em uma situação como essa, onde tenho que lidar com o fato de que eu estava em um coma. Uma enfermeira me acorda antes que o inferno comece, mas mesmo assim estou todo encharcado de suor.

– Você está bem? — pergunta ela educadamente — Está encolhido, todo suado, parece estar com medo de algo.

– Estou bem sim. Obrigado.

– Seus pais estão vindo, você já vai pra casa logo logo — explica ela — Se quiser tomar um banho, a água do chuveiro está bem quentinha. Tire os curativos e antes de você ir eu os refaço pra você.

A moça deixa o quarto. Sento na cama, com os pés apontados para o chão, onde há um par de chinelos esperando por mim. Tiro minha roupa, os curativos e entro no chuveiro. É impossível notar os cortes em meus braços.

Que se dane o banho quentinho, tudo que eu preciso agora é, literalmente, um balde de água fria. Escoro minha cabeça na parede e deixo a água escorrer pelo meu corpo. Uma sensação de liberdade toma conta de mim enquanto o líquido percorre minha pele. Não consigo conter as lágrimas, que saem de meus olhos. Estou desatando em lágrimas.

– O que está acontecendo comigo? Eu sou uma aberração! — grito enquanto dou um soco na parede, na esperança que isso vá resolver algo.

Estou secando meus cabelos quando meus pais entram no quarto. A enfermeira já refez meus curativos e eu vesti uma roupa que deixaram no quarto para o dia que eu deixasse o hospital.

– Filho! — diz mamãe chegando perto para me abraçar — Que bom ver que você está bem!

– Como se sente, filhão? — pergunta meu pai.

– Me sinto com saudadede ficar acordado à noite — respondo ironicamente.

– Então vamos pra casa para que você possa matar a saudade.

Ele coloca o braço por cima dos meus ombros e nós nos encaminhamos para casa. Mal posso esperar para chegar, e mais ainda, pela noite, para que eu possa ficar na sacada de meu quarto mais uma vez. E, claro, colocar meu plano em prática. Espero que tudo dê certo.

Notas finais
O que vocês estão achando da história até aqui? A opinião de vocês é sempre bem-vinda! E, como eu me empolguei com isso, vou postar dois capítulos por semana.