Notas iniciais
Ao entrarmos no carro e até – o que eu suponho ser – metade do caminho, ficamos em silêncio. Eu estava no banco do meio da parte de trás do carro e ficava olhando para os lados, e vez ou outra eu olhava para os meus pais. E sempre que eu olhava pra eles, via a mesma expressão. Confusa. Minha mãe disfarçava seu olhar de vigilância que lançava para mim batendo os dedos no joelho, em um ritmo mais acelerado do que ela já costuma fazer.
Algo está errado, penso. Ambos faziam como se estivessem escondendo algo de mim. E estavam fazendo isso muito, muito mal.
– Se estão escondendo algo de mim, acho melhor fazerem uns cursos de interpretação – digo.
– Desculpe-nos querido – diz mamãe – É que nós...
– Nós estamos pensando em fazer uma viagem pelos 20 anos de casamento – completa meu pai, tapando o buraco que mamãe abriu.
– Ah, é... Isso aí.
– Sério?! Isso é ótimo! Não precisavam ficar com medo da minha reação.
– É que nós queríamos ir sozinhos e não temos com quem te deixar – responde papai.
– Ah, não. Por favor – digo cruzando os braços – Esqueceram que eu já tenho 19 anos?
– Mas é que nossos espíritos de pai não lidam com o fato de que teremos que te deixar. Nem que seja por um tempinho – completa minha mãe.
– Pra início de conversa, vocês me deixariam sozinho, mesmo que se fosse pra eu ficar na casa de alguém. – os dois ficam calados – Tá vendo?
O silêncio predomina por mais uns 15 segundos, até que meu pai aviste uma lanchonete.
– Estão com fome? – pergunta meu pai – Acho melhor pararmos numa lanchonete.
Ele encosta o carro e entramos lá. Peço apenas um milk shake de morango e uma pequena porção de batatas fritas. Já meus pais pedem o que eu consumiria praticamente em um dia inteiro.
– Muito adequado para as 9h da manhã – os dois sorriem ironicamente.
Termino minha refeição e fico um bom tempo esperando que meu pai e minha mãe terminem as suas. Mexo no celular, dou uma volta pela rua e até respondo umas mensagens de quem descobriu que eu havia deixado o hospital. Quando eles terminam, embarcamos novamente no carro e vamos pra casa, que já não está mais muito longe.
Cinco minutos depois, estou de volta. Em casa. Minha casa. Foram apenas quatro dias fora, mas pareceu uma eternidade. Corro até meu quarto e me atiro na minha cama. Um sorriso orelha-a-orelha se encontra estampado em meu rosto. Ainda deitado, olho pra trás (ou melhor, pra baixo) e vejo a parede azul de meu quarto. Um choque do brilho intenso de mesma cor, misturado com o barulho dos vidros quebrados e do zunido chato vem a mim rápido quanto um arrepio. Levanto rapidamente e sento no chão, com minhas costas escoradas na ponta da cama e encaro a parede.
–Vai. – peço – Faz isso de novo.
Nada acontece. Faço o máximo que posso para que aquilo volte. Mas nada.
– Anda! Você me atormenta nas horas mais sem noção, e quando eu menos desejo. Aí quando eu quero você me ignora? Não é tão difícil assim, por favor.
Mas é como se a parede não tivesse nada a ver com isso. Na realidade, ela não tem, mas é como se eu não tivesse revisto tudo aquilo.
Meu maior desejo é que o dia passe logo. Mas quanto mais eu desejo, mas devagar o ponteiro dos segundos se mexe. Depois de assistir alguns programas de TV, ler um pouco, ouvir umas músicas, e então decido dormir, para que o sono passe e eu possa executar meu plano bem acordado. E já que eu o mencionei, vou explica-lo.
Esses dias, vasculhando o sótão, encontrei um cinturão, com uns suportes. Neles, estavam pendurados uma lanterna, um canivete e uma pistola. Depois que as luzes se apagarem pelo Condado de Orange e o zunido reaparecer, vou vestir o cinturão e entrar na mansão dos Smith pra vasculhar e tentar achar alguma coisa. Se tiver algo acontecendo, é lá que eu vou descobrir.
A luz e as harpas voltam em meu sonho. Estou nadando na imensidão azul, mas ela está me levando cada vez mais pra baixo, como se cada movimento meu fosse inútil, ou até piorassem a situação. Os vidros – que eu não faço a mínima ideia de onde vêm, até porque ‘estou’ no meio do mar – se quebram e o zunido começa. Acordo no impulso. Está tudo escuro. Minha mãe esteve no meu quarto e me cobriu. São 0h37.
Levanto rapidamente e corro até a sacada. Os segundos parecem correr o mais devagar que podem, até que o relógio marque 0h38 e tudo comece. As luzes dos jardins se apagam e o zunido começa. Mas desta vez, vejo uma luz. Ela é azul. Mas eu não sei distinguir de onde ela vem. Mas quando são 0h42 tudo para e os grilos voltam a fazer barulho.
Visto o cinturão e, por precaução, pego um pedaço razoavelmente grande de corda. Nunca se sabe. Desço as escadas e abro a porta no maior silêncio possível.
Já estou do lado de fora e casa. À primeira vista, a escuridão me assusta, mas, aos poucos, vou me acostumando com a ideia. Ando devagar até alcançar a calçada da casa dos Smith.
Quando eu era criança e vinha aqui, lembro que havia uma entrada por trás da casa e que a chave ficava num vaso de flor. Dou uma vasculhada pela volta da piscina. Ligo a lanterna. E encontro o vaso. O mesmo, desde os meus nove anos de idade.
– Aqui! – sussurro.
Encontro a única chave que há dentro do vaso e coloco-a na fechadura. Giro lentamente a chave até que o barulho que vem da maçaneta indique que a porta está aberta. Coloco a chave de volta no vaso e entro na casa.
Suponho que ninguém esteja acordado há essa hora. Então começo a vasculhar a mansão – que parece bem maior de quando eu costumava ficar aqui. Aponto a lanterna para todos os cantos possíveis da casa. Até que ouço o som de uma porta abrindo.
– Tem alguém aí?
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