NY, Lá Vamos Nós.
2 A nova escola.
Já não era nada aconchegante o fato de eu estar caminhando sozinha por uma cidade nova rumo a uma escola desconhecida, e o fato de o dia estar horrível, com diversas nuvens escuras chuvosas e um vento gélido tocando o meu rosto triste e cansado só me deixava mais preocupada. Como seria a minha vida de agora em diante? Será que vou conseguir sobreviver pelo menos metade de todos esses problemas?
Parada em frente a minha nova escola finalmente cheguei; apesar de parecer que os 20 minutos de caminhada se transformaram em segundos o nó da garganta ficou mais forte.
Tinha uma aparência comum, o prédio, com adolescentes por todos os lados; ao me aproximar notei alguém conhecido. Na verdade, dois alguéns. Billie, meu novo vizinho, e Rachel. Estavam trocando gestos afetuosos realmente escandalosos. Com certeza, animais selvagens teriam vergonha de fazer isso em público.
Desviei a minha atenção para dentro da grande edificação na qual eu passarei a maior parte do meu tempo a partir de agora ou até chegar a hora de não poder mais sustentar o meu segredo.
Qualquer pessoa normal pode concordar que, mudar de escola no meio do ano letivo, em pleno 2º ano do ensino médio, é jogar o seu futuro pela janela. Porém, mudar de escola com o ano letivo iniciado foi apenas uma das atitudes drásticas que eu e a minha família vimos obrigadas a tomar. A grande diferença entre mim e uma pessoa normal é que alguém normal sabe, ou pelo menos acha que sabe o que pretende fazer da vida. Eu, eu não sei de absolutamente nada. Eu nem sei mais que sou eu; não sei qual será a minha profissão, não sei se terei coragem de cumprir o meu objetivo mais importante no momento, não sei o nem o que vou comer no jantar!
E é assim que me sinto agora, olhando para esse purê de batatas: PER-DI-DA!. Acho que essa é a hora do dia que eu menos me sinto deslocada. Essa vibe de horário-de-almoço é o que me faz relaxar um pouco, apesar de saber que nenhuma das pessoas presentes nesse local saibam ao menos quem eu sou ou que eu sequer exista. Muito menos o que escondo...
Minhas aulas até agora foram péssimas, estou me sentindo mais burra do que um cervo que acabou de cair na armadilha. Apenas uma não que eu tivesse muitas — tarefa cumprida: conseguir que Billie ou Rachel não notassem a minha presença. Por sorte, não tive nenhuma aula com eles.
Acabo de me servir quando sinto um toque no meu ombro do tipo eu te conheço. Me virei, com aquela vozinha na minha cabeça: Por favor, não, não, não, não, não, merda.
— Roberta? Não sabia que você tinha se matriculado aqui no South Star College, porque não avisou? disse com um sorriso digno de capa de revista. Bem, querido, você não perguntou.
— Hmm... é...
— E como você está? Está gostando daqui? — Ah, estou gostando mesmo é da sua presença...
— Eu... estou bem... foi tudo o que consegui dizer, parecendo um tanto hipnotizada.
— Deve ter sido um choque você precisar mudar de escola e de cidade, assim, ao mesmo tempo...
— É... não está sendo muito fácil...
— Bom se você precisar de qualquer tipo de ajuda, alguém que carregue seus livros ou te proteja de algum professor enlouquecido, estarei as ordens!
— Ah... Obrigada eu estava começando a me sentir incomodada.
— E o seu namorado, como se sentiu com essa mudança? Ele deve estar sofrendo por ser obrigado e ficar longe de você.
— Namorado? Não, eu não tenho namorado...
— Ah não? Bom saber. ele deu um sorriso e eu fiquei sem palavras, de boca aberta. Brincadeira. Bem, as vezes é melhor é melhor nem ter, se for pra ficar do lado de uma pessoa insuportável, grudenta e irritante, sabe? Tenho experiências nem um pouco agradáveis desse tipo.
Nesse momento, eu me virei para procurar uma mesa vazia e me livrar desse poder sobrenatural que ele estava exercendo sobre mim- mais para me livrar daquele deus grego quando uma garota surge na minha frente. Tudo aconteceu numa fração de segundos: antes eu olhava aqueles olhos, hipnotizadamente, e no outro eu sujava a blusa da namorada do dono daqueles olhos inteirinha de suco de laranja e meu almoço.
De longe, era uma situação tensa. Mas ela teve de tornar tudo ainda pior.
— VOCÊ DA EM CIMA DO MEU NAMORADO E AINDA DERRUBA ESSA SUA COMIDA DE VACA EM CIMA DE MIM?
Todos pararam o que estavam fazendo e voltaram a sua atenção para nós. Uma menina que estava com o garfo cheio de salada a meio do caminho para boca também parou e quando se lembrou do que estava fazendo e terminou de levar o garfo a boca percebeu que tinha derrubado tudo no prato novamente.
— Rachel, o que você está dizendo? Nós só estávamos conversando! disse Billie com uma cara de inocente que comoveria qualquer um.
— Eu ouvi muito bem a conversa de vocês, você viu o jeito que ela estava te olhando? Essa é a mesma menininha de ontem, não é? Você primeiro vai a casa dela, depois fala com ela na escola e dentro de quanto tempo eu serei trocada por ela? Uma semana? Duas? Só espero que ele faça a mesma coisa com você! disse Rachel a mim, ainda gritando.
E depois foi embora. Para piorar, Billie a seguiu, correndo.
Eu não sabia onde enfiar a minha cara enquanto pegava a minha bandeja do chão e juntava os restos de comida.
— Você não devia deixá-la falar assim com você a garota do incidente com a salada se aproximou e me ajudou a limpar aquela bagunça Eu sou Camille. E você, como se chama?
A chuva caía agressivamente quando o meu primeiro dia de aula chegou ao fim. Decidi ir para casa assim mesmo. Lembro-me de minha avó dizendo: Você não é de açúcar para ter medo de se molhar.
Enquanto penso no quanto gostaria de estar em casa agora, as cenas do almoço desastrado não param de invadir minha mente. Um carro passa a alta velocidade bem perto de mim, e joga toda a agua acumulada na rua em minha direção. Esse dia poderia ter sido pior?
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