NY, Lá Vamos Nós.

3 Frank e Camille


Notas iniciais
Boa leitura.

Se no início eu acreditava que Nova York estava sendo afetuosa comigo, agora eu achava exatamente o oposto. Em outra ocasião, talvez, eu poderia rir dessa situação (pessoas loucas jogando o meu prato do almoço no chão dizendo que estava dando em cima do namorado delas, garotos seminus na minha porta pedindo açúcar...), mas não hoje. Esses acontecimentos renderiam boas conversas, pensei enquanto olhava para meu quarto agora limpo e mobiliado. Quase que automaticamente a imagem risonha de Bárbara, minha amiga que havia ficado na Dakota do Sul, venho a minha mente. Ela diria para aproveitar a situação, tenho certeza. Um sentimento ruim, provavelmente remorso, se apossou de mim quando imaginei como ela e meus outros amigos deveriam estar agora. Eram três da tarde do dia 29 de outubro e eu tinha combinado de ir ao cinema com ela. Já faziam três dias que eu estava em Nova York, não tinha dado notícias e nem checado as mensagens do meu celular até então. Aliás, eu nem fazia ideia de onde o meu celular se encontrava.



Deitei na minha cama e suspirei derrotada, colocando as mãos na barriga. Não havia muito o que fazer, a não ser esperar as coisas piorarem de vez (porque elas sempre pioram). Nunca fui extremamente sensível, de chorar por qualquer coisa. Pelo contrário, sempre tento ver uma saída em tudo. No entanto, naquela tarde eu não fiz nada a não ser olhar para o nada enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto. E assim eu cai no sono.


Acordei com minha mãe aos pés da cama e sua mão em minha perna, enquanto meu pai estava encostado no batente da porta. O olhar de piedade dos dois caia sobre mim, algo extremamente novo que me deixou desconfortável.

– Teve outro dia ruim? – minha mãe perguntou, me limitei em assentir com a cabeça – Não se preocupe, meu anjo. Tenho certeza que as coisas vão melhorar.

– Já teve a oportunidade de andar pelo bairro? Tenho certeza que ia adorar, é bem diferente do nosso antigo. – meu pai disse numa tentativa de me animar. Me sentei na cama, negando.

– Tá tudo bem, sério. Não se preocupem.

Passaram um minuto em um silêncio arrepiante, até que trocaram um olhar cúmplice. Senti que tiveram alguma conversa séria antes de virem falar comigo, o que me deixou mais apreensiva. Segurei a respiração quando minha mãe fez menção de começar a falar.

– Falei com seu pai mais cedo. – ela media as palavras, olhando diretamente para mim. – marquei uma consulta para sexta da semana que vem. Sei que não foi o que combinamos, mas...

Ela me olhou apreensiva. Até aquele momento, ninguém havia se importado com a minha opinião ou ficado apreensivo com as minhas reações. Encolhi os ombros, o que poderia fazer?

– Tudo bem então, semana que vem. – meu pai venho até a cama e me beijou na testa, seguido da minha mãe. – o jantar está na mesa, querida. Vá lavar o rosto e desça.


Acordei mais cedo do que deveria no dia seguinte, mal havia dormido. Fui surpreendida pelo meu pai se oferecendo para me levar até a escola.



Meu coração começou a apertar quando chegamos, era horrível ter de passar todas as aulas e o intervalo sozinha. Eu não havia feito nenhum amigo ainda, e mesmo que eu nunca tenha sido popular ou algo do tipo, isso era extremamente desconfortante. Meu pai olhou para mim, como se soubesse o que estava pensando.


– Vai logo, você consegue. – deu um sorriso encorajador. Devolvi o sorriso como agradecimento e sai do carro. Eu estava tão dispersa nos meus pensamentos que nem me dei conta quando uma mão agarrou o meu braço. Só pude escutar um “é ela”, em meio as outras vozes.

– Ei! – me virei para ver que era (e não posso fingir que não me decepcionei.) Era Camille, a menina “do incidente da salada”. – faz três dias que eu te procuro e nada de te achar!

– Me procura?

– É! – ela disse. Só então eu percebi uma terceira pessoa ao lado dela. Era um menino, alto e moreno. Ele rolava os olhos enquanto ela tagarelava, o que me fez rir. – O que foi? Ah, esse é o Frank. Frank, essa é a Roberta. Como eu ia dizendo, procurei você por toda parte. Fique sabendo que você venho da Dakota do Sul, sabe como que é né, essa gente fofoqueira.

– Nós temos aulas de geografia juntas, você não me viu? – eu não estava mentindo. No começo eu fiquei animada por conhecê-la, depois pareceu ignorar a minha presença nas aulas de geografia. Ou simplesmente não me viu, já que me sentei no fundo e nem fui falar com ela. Camille parou alguns segundos para pensar.

– Temos? Ah. Tudo bem, eu já te encontrei. Que aula você tem agora?

– Matemática – respondi, torcendo o nariz.

– A minha é de história. – ela olhou para Frank, que estava moscando. – E a sua, Frank?

– Ah sim, matemática também.

– Que ótimo, não vamos perde-la de novo. – ela piscou para ele, depois saiu saltitando. – Até mais, Roberta!

Fiquei alguns segundos observando a criatura se perder no meio dos outros alunos. O que não era difícil, ela era baixinha e andava tão rápido quando falava.

– Ela é sempre assim?

– Na verdade ela é pior. – ele respondeu sorrindo. – com o tempo você se acostuma.

Com o tempo. Esse frase ecoou em minha mente, e sorri sem perceber. O sinal bateu, portanto sai por aquela escola enorme caminhando com Frank a caminho da sala de matemática.

Descobri que os dois andavam sozinhos na maior parte das vezes e eles não pareciam se importar, pelo contrário. Camille fazia parte do grupo de teatro, da banda da escola, do grupo de estudos de matemática e um monte de outros que eu não me dei o trabalho de decorar. Frank não participava de nada (nem das aulas de matemática, pelo que parecia) e fazia questão de mostrar que repudiava aquele lugar. Não me importaria com isso, mas algo no intervalo, enquanto esperávamos Camille, me chamou atenção.

– Quase me esqueci que você já arrumou briga no primeiro dia de aula – ele riu. – e ainda por cima com a pessoa mais nojenta desse lugar.

– Conhece aquela menina? – perguntei, tentando esconder a curiosidade.

– Rachel? Todos aqui a conhecem. Ela é insuportável. Ela e o namorado dela, diga-se de passagem. – ele parou de falar por um momento e depois continuou. – preciso parar com esse costume da Camille de ficar falando da vida alheia.

– Não, tudo bem. É bom eu ficar sabendo quem são as pessoas. – dei uma desculpa esfarrapada – o namorado dela é o Billie, certo?

– É – ele torceu o nariz. – a gente não tem um bom histórico com o grupo dele. Ele o Logan, pra falar a verdade. Longa história. Conhece ele?

– Digamos que sim.

– Digamos que sim. – ele imitou com uma voz engraçada, me fazendo rir.

Frank era um ótima companhia, percebi isso nos primeiros minutos que andei com ele. Sentada numa das mesas mais afastadas do refeitório, eu ri como não ria a semanas, chegando até a esquecer de meus problemas (o que não era uma tarefa fácil).


Minha próxima aula era de filosofia, sozinha. Segui pelos corredores tentando encontrar a sala, sabendo que estava atrasada. Quando enfim achei, tentei me recompor e abri a porta da sala ofegante. Todos olharam para mim.



– Você deve ser a aluna nova... – um gordo baixinho olhou para mim junto a todos os outros alunos, enquanto pareceu procurar meu nome em uma lista. – Roberta, certo?


– Sim. Eu tive problemas para encontrar a sala, senhor...

– Tudo bem, que não se repita. – ele me surpreendeu com um sorriso amarelo, me permitindo entrar na sala. Sentei na única cadeira vazia, sem me dar o trabalho de olhar para os lados. Apenas para o mais lindo par de olhos azuis que me fitava do fundo da sala. Billie acenou para mim e o meu coração disparou.

– Como eu ia dizendo, o trabalho ira ser feito pelas duplas que eu escolher. – ele disse, seguido de uma porção de reclamações. – nenhuma objeção? Certo, vou começar a sortear.

Trinta minutos de reclamações depois, o meu nome foi sorteado. Uma menina ruiva com sardas, simpática até, venho se sentar ao meu lado. Mal pude terminar de dar graças a Deus por terem me colocado com alguém decente, uma imagem me chama atenção.

Billie se levantou de seu lugar no fundo para falar com o professor. Só pude ver as bocas se movendo, enquanto ouvia a garota ao meu lado dizer algo. Depois ele começou a andar na minha direção e, instantaneamente, a menina também parou de falar. Parece que ela o achava tão belo quanto eu o achava.

– Bridget, você não quer trocar de dupla? – ela fez uma cara de ponto de interrogação, talvez até maior que a minha. – eu falei com o professor.

Ela ficou alguns segundos pensando, enquanto tudo o que eu fazia era observar sem entender nada.

– Hm... tudo bem, claro... Tudo bem pra você? – ela virou para mim sem expressão, me limitei a assentir. Ela se levantou e Billie tomou o seu lugar. Um silêncio constrangedor tomou conta.

– Eu não tive tempo de pedir desculpas pela Rachel naquele dia. Ela pode ser bem estúpida as vezes.

– Tudo bem, não foi sua culpa. Por que pediu para trocar de dupla? – ele deu ombros.

– Eu prometi te proteger dos professores loucos, certo? – sorriu. E eu não pude fazer nada senão sorrir também. – Assim eu aproveito e te ajudo a se adaptar na escola, já que você se mudou quase no final do ano.

– Ah claro, é verdade. – tentei me controlar. – é sobre o que esse trabalho?

Enquanto ele falava pude sentir o olhar do resto da sala sobre nós, junto com um mau pressentimento.

– Você ainda não tem amigos por aqui, não é?

– Na verdade eu tenho – pensei antes de responder. – O Frank e a Camille.

– Vai ter uma festa daqui uma semana na casa do meu amigo Logan. Você devia ir, assim conhece gente nova. Todo mundo da escola vai ir. – ele ignorou o modo que eu disse que já tinha amigos na escola, e eu não gostei nada disso.

– Vou pensar. – o sinal bateu. Ele me beijou no rosto e se levantou rapidamente, me deixando sem ação.

Na aula de biologia consegui que Camille falasse um pouco dele (o que não era difícil, ela falava de todo mundo). Billie namorava com Rachel desde o começo do ano, era capitão do time de futebol.

Mesmo sentindo que deveria não comentei que ele pediu para o professor de filosofia deixar ele fazer dupla comigo, nem que me chamou para a festa na casa de seu amigo.


Notas finais
Esse capítulo foi chatinho (e cheio de erros, eu não tive tempo de revisar).Prometo que os próximos serão melhores.
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