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2 PRÓLOGO, Epi.2: Aquele que habita no abismo


Notas iniciais
................ ★✮☆✯★ ................ ❣ ATUALIZAÇÃO: 16/06/2017 ................ ★✮☆✯★ ................ Este "capítulo" já passou por 3 edições. Quando eu estava relendo o prólogo, algumas coisas me incomodaram. A falta de cenas e diálogos estava deixando a história bem mais chata, então tomei a liberdade de editar algumas coisas. Se você acompanhava a história antes dessa edição, fique tranquilo, pois nada que foi adicionado aqui interfere diretamente com ela.

A sereia e o dragão-serpente nadavam tranquilamente em direção ao seu destino.

Além da pequena bolsa com seus suprimentos, a garota carregava um grande objeto mal embrulhado em suas costas. A julgar pelo seu formato e partes à amostra, era possível deduzir que aquilo era um arco feito com os ossos de algum animal gigante.

Felizmente, ninguém por ali pareceu se interessar pelo estranho objeto.

Althum, a cidade em que os dois passeavam sob os calorosos raios solares, era bem conhecida por seu distrito comercial. Era ali que os comerciantes, aventureiros e até mesmo contrabandistas se encontravam para negociar as suas mercadorias e artefatos.

Porém, todo o clima da cidade pareceu mudar graças ao Festival de Primavera.

Uma rápida análise foi suficiente para a sereia perceber a repentina mudança.

— Aquele cara estranho com os dentes de baleia vermelha sumiu.

— Por causa do festival, a segurança em Althum foi reforçada.

Ryuuki nadava ao lado dela, e suas nadadeiras pareciam brincar com a água.

— Não me surpreende que os contrabandistas fiquem escondidos por um tempo. Mesmo os comerciantes não querem ter as suas mercadorias confiscadas. Isso é um ponto positivo, milady.

A sereia suspirou.

— Será que as pessoas que estão atacando os genories também pararam?

— Precisamos confirmar isso, até porque a mudança de temperatura também pode ter influenciado na sua produção. Genories são bem sensíveis a temperaturas mais altas.

— Eu espero que seja isso…

De acordo com as observações de Ryuuki, algo ou alguém estaria pondo em risco a sociedade de genories que vivia próximo àquela cidade. Por serem criaturas minúsculas e amistosas, recolher o néctar que eles fabricavam era fácil, e não demorou para contrabandistas abusarem dessa prática.

A garota olhava para o vazio, e seu olhar parecia distante.

“Quem ousaria fazer algo tão horrível com eles? Pobrezinhos...”

Ela estava tão distraída que sequer percebeu uma voz feminina que a chamava.

— Princesa Ayase!?

A dona da voz era uma jovem sereia de cabelos lisos tão negros quanto os abismos do planeta. Enquanto se aproximava, sua roupa rendada em azul pastel balançava suavemente, como se seguisse o ritmo das águas. As escamas douradas de sua cauda pareciam brilhar com os raios solares, assim como os seus olhos de um bonito tom perolado.

A desconhecida repetiu a pergunta, mas desta vez com um tom mais alto e animado.

— É a senhorita mesmo, princesa Ayase?

— Shhhhh!!! Fale mais baixo, por favor!!

A garota se desculpou de maneira desajeitada, curvando-se para Ayase.

— Ahhh!! Perdão, princesa…! E-Eu não…

— E não se curve!! As pessoas vão perceber!

A jovem se levantou rapidamente.

A última coisa que queria era causar problemas.

Ayase apenas murmurou em um tom baixo.

— Espero que ninguém tenha visto isso...

— Mas o que a senhorita faz aqui, princesa? Veio participar o Festival de Primavera? Faz muito tempo desde a última vez que a senhorita esteve em Althum. É uma honra recebê-la novamente!

Era nítido que a garota estava animada em falar com Ayase.

A princesa sorriu timidamente, e sua face tomou uma cor avermelhada.

— Fico feliz em ouvir isso. Althum está maravilhosa como sempre!

— Eu não posso acreditar que estou diante de vossa alteza…

Os olhos perolados brilhavam, fazendo Ayase ficar ainda mais envergonhada.

Ela não esperava ser reconhecida por alguém daquela cidade comercial.

Na verdade, Ayase nunca foi o tipo de princesa que tinha admiradores.

Boas maneiras, música e dança eram coisas que não lhe chamavam muita atenção, e mesmo sendo tão bem criada no Palácio das Estrelas, ela não conseguia se adaptar às rotinas propostas por seus professores e mestres.

Ayase não queria ser uma simples princesa. Ela queria ser uma exploradora.

A garota costumava se disfarçar para passear entre as cidades, frequentando bares e mercados a fim de ouvir as histórias contadas pelos anciãos e caçadores. Locais fantasmas, criaturas fantásticas, poderes sobrenaturais e tesouros enterrados nos abismos mais profundos do planeta.

Cada uma daquelas histórias pareciam fascinar a princesa.

Ayase, então, passou a escrever sua própria história de aventuras.

Suas expedições logo lhe renderam tesouros preciosos, os quais a princesa guardou com muito carinho. Dentre eles estava o arco feito com a espinha dorsal de uma criatura marinha e o brilhante colar feito com a carapaça de um pequeno náutilo.

Porém, esses tesouros não significavam nada diante de sua maior descoberta.

Foi em uma de suas idas aos abismos de Atlansha que Ayase o conheceu.

— E, bem… O monstro marinho me enviou para observar os genories.

— ...

O monstro marinho.

Uma criatura colossal que se escondia nos abismos.

A expressão da outra sereia logo foi tomada por curiosidade.

— Perdão pela informalidade, mas… o boato sobre a senhorita era real, princesa?

— Boato? Que boato...? A-Ah, desculpa! Esqueci de perguntar o seu nome.

— É uma honra para mim que vossa alteza pergunte o meu nome.

O sorriso tímido de Ayase estampava o seu rosto mais uma vez.

Ela definitivamente não estava acostumada com esse tratamento.

— Eu me chamo Sumire, princesa Ayase!

— Não precisa ser tão formal comigo, senhorita Sumire. Me chame apenas de Ayase!

— Eu não ousaria, vossa alteza. Mesmo fora do castelo, a senhorita ainda é uma das princesas de Atlansha. E há uma grande possibilidade de se tornar a nossa rainha! Eu tenho certeza que todos nós estaríamos em boas mãos.

Ao ouvir isso, o rosto de Ayase tomou a cor rosada de seus cabelos.

Aquele sentimento, porém, não durou por muito tempo.

— E quanto o boato, princesa…

Sumire fez uma pausa, como se procurasse palavras para se expressar.

Ela abaixou a cabeça, e seus olhos perolados se desviaram de Ayase.

— Dizem que vossa alteza vendeu a alma para o monstro marinho.

— …!!

Ayase colocou a mão sob a boca, disfarçando um riso descontrolado.

Histórias sobre o monstro marinho eram passadas de geração em geração.

Em grande parte delas, tratava-se de uma criatura abissal capaz de realizar qualquer tipo de desejo por um preço. Pessoas que almejam poder, fortuna e até mesmo amantes seriam as favoritas do monstro, que logo cobrava o seu preço em sangue.

Em outras histórias, o monstro marinho era responsável pelos redemoinhos e terremotos que traziam terror aos moradores de Atlansha, além de também ser o responsável por afundar todo o planeta.

Mesmo não passando de histórias, todas tinham um ponto em comum.

Aquele monstro marinho era uma criatura terrível e temível.

Essas histórias, porém, passavam bem longe da realidade.

— Não é nada disso, senhorita Sumire.

— Como assim, senhorita?

Em parte, Sumire tinha razão, mas a forma que isso foi dito soava engraçado aos ouvidos da princesa. O monstro marinho nunca esteve interessado nas almas dos moradores de Atlansha. Pelo menos não em todas elas.

Quando Ayase finalmente conseguiu conter o riso, ela tentou explicar.

— Sabe…

Ela logo pausou, buscando palavras que pudessem transmitir seus sentimentos.

Como Ayase poderia explicar que o monstro marinho era apenas um observador em seu próprio território? Ou que ele foi abandonado em um abismo, fadado a viver por toda a eternidade em solidão? Ou que foi graças ao pacto que fizeram que ele é capaz de circular livremente por Atlansha, desde que não fiquem separados por muito tempo?

Um pacto que não significava dominar sua existência, mas sim protegê-la.

Quando finalmente conseguiu encontrar as palavras certas, ela continua.

— Se o monstro marinho realmente estivesse interessado em almas, ele seria visto mais vezes por aqui, em Sarrhna, em Acchri. Ele iria ganhar a atenção dos moradores, seja por meio de milagres ou ameaças.

Sumire ouvia tudo atentamente, e seus olhos perolados estavam fixos em Ayase.

— Seria muito fácil para nós se um ser superior resolvesse todos os nossos problemas e indecisões. Se algo de bom acontecesse, iriam agradecer a ele. Se algo de errado acontecesse, a culpa seria dele.

— Mas isso não seria uma coisa boa para todos?

— …

Ao perceber a confusão da princesa, ela tentou refazer a sua frase.

— Digo… deixar que alguém tome as decisões.

— Ai, não… Nossa vida seria traçada desde o começo.

Ayase era o maior exemplo de vida traçada que conhecia.

— Eu seria a princesa ideal para o reino, me casaria com algum descendente dos reinos vizinhos e teríamos vários filhos para levar o nosso legado adiante.

Um calafrio percorreu sua espinha se ouvir falando sobre casamento e filhos.

Sumire, por outro lado, ficou ainda mais animada quando a ouviu falando sobre isso.

— Mas isso não seria maravilhoso, princesa?

— B-bem… Eu ainda prefiro que as coisas continuem dessa forma!

A resposta de Ayase saiu tão desafinada quanto uma baleia doente.

Ela só queria esquecer o que acabou de ouvir da sua própria boca.

— De qual forma, princesa Ayase? Algo envolvendo deveres reais?

Sumire ainda estava animada com toda aquela conversa.

Talvez por estar conversando tão casualmente com uma princesa.

Talvez por estar tirando suas dúvidas a respeito do monstro marinho.

De onde quer que viesse aquela determinação, Ayase se sentia feliz.

— Não… O monstro marinho me diz onde estão os problemas e eu vou resolver! Dessa forma, conseguimos resolver qualquer coisa inconveniente que esteja atrapalhando o bom funcionamento dos reinos!

A julgar pela expressão de Sumire, toda aquela explicação tinha dado certo.

— Então a senhorita é como uma mensageira para ele? Isso parece maravilhoso!

— É bem divertido, apesar de perigoso...

— É por isso que vossa alteza está em Althum?

— Sim! No momento, eu preciso visitar os genories.

O sorriso no rosto de Sumire desapareceu, dando lugar a um ar preocupado.

Mesmo Ayase estranhou a repentina mudança de humor da sereia.

Sumire levou uma de suas mãos para o rosto, e sua voz soou baixa.

— Há algo de errado com eles?

— Existe algo ou alguém atrapalhando a sociedade deles. Pode ser culpa da mudança de temperatura também, mas eu ainda preciso investigar.

— Alteza…!

Sumire repentinamente segurou as mãos de Ayase.

Os olhos perolados estavam fixos aos olhos verdes.

— Faça isso pelos ionames! Eu confio no seu trabalho!

Mesmo surpresa com o gesto de Sumire, Ayase entendeu perfeitamente suas intenções. No fundo, ela se sentia aliviada por encontrar alguém que compreendesse os seus sentimentos.

— Eu darei a minha alma para salvar os docinhos!

— Sim! Tudo pelos nossos docinhos deliciosos!!

Ryuuki fingiu um pigarro, cortando o clima propositalmente.

O rosto de Ayase ficou levemente corado ao perceber o que tinha feito.

Ela deu o melhor sorriso que conseguiu e logo se despediu da outra.

— Então… Nós já vamos, senhorita Sumire!

Enquanto observava Ayase acenando e desaparecendo na multidão, Sumire gritou.

— Voltem para participar do Festival da Primavera!! Eu estarei esperando por vocês!

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Notas finais
Prólogo, parte 2/3. ʕ•̀ω•́ʔ✧ Obrigada por ler Stellarium~! Feedbacks são apreciados. ☆