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3 PRÓLOGO, Epi.3: Não me deixe aqui sozinha


Notas iniciais
................ ★✮☆✯★ ................ ❣ ATUALIZAÇÃO: 16/06/2017 ................ ★✮☆✯★ ................ Este "capítulo" já passou por 3 edições. Quando eu estava relendo o prólogo, algumas coisas me incomodaram. A falta de cenas e diálogos estava deixando a história bem mais chata, então tomei a liberdade de editar algumas coisas. Se você acompanhava a história antes dessa edição, fique tranquilo, pois nada que foi adicionado aqui interfere diretamente com ela.

— A primavera está chegando…

— Então vamos todos juntos celebrar…

— Na nossa bela cidade de Althum!!

Crianças cantarolavam enquanto passeavam de mãos dadas.

Ayase queria cantarolar junto com elas, mas não sabia a música.

— Parece que todos estão animados com o festival.

— Vamos torcer para que o problema com os genories seja resolvido de maneira rápida, então você pode passar o resto do dia aproveitando o Festival de Primavera.

Apesar de não admitir, Ryuuki também estava animado com aquele festival.

A dupla avistou algumas barracas sendo montadas por alguns moradores.

— Ahh… Como seria bom comer algo gostoso para variar!!

Só de pensar nas guloseimas, Ayase ficava com água na boca.

— É até melhor fazermos o serviço antes do festival. Do jeito que você é, vai se entupir de comida e dormir até o dia seguinte.

— QUÊ?! Até parece que isso é algum problema!! Desde quando isso é um problema? Comer é uma das melhores coisas da vida!

Franzindo a sobrancelha, Ayase parecia indignada com o que acabara de ouvir.

Ryuuki, então, começou a rir com o fato da garota não ter desmentido suas palavras.

— Não tem problema nenhum nisso, milady.

— Ahhh, por que você fica implicando comigo, Ryuu?

— Porque a maneira como você se expressa é… interessante.

— Ah!! Então você só está me testando? Como você é cruel!!

O dragão-serpente continuou rindo, especialmente ao perceber que Ayase não estava levando a conversa a sério, assim como ele. Logo a sereia abriu um sorriso e começou a rir junto com ele.

E já era de se esperar que comentários irônicos viriam em seguida.

— Eu não vou dividir os meus doces com você!

— Tudo bem… eu prefiro os bolinhos de algas.

— Seu paladar é muuuuuito estranho!!

Aquele momento descontraído foi interrompido por barulhos que vinham na direção oposta. Curiosos com o burburinho, Ayase e Ryuuki perceberam que sereias, tritões e outras criaturinhas se amontoavam em grupos, cochichando uns com os outros enquanto apontavam para o mesmo lugar.

— O que é aquilo, amor?!

— Mamãe, venha ver que bonito!!

— Ahhh...?! O Festival de Primavera já começou?

Perceber o que estava chamando a atenção de todos fez a expressão de Ayase mudar repentinamente. Um misto de ansiedade e medo percorria por todo o seu corpo, fazendo o seu coração acelerar.

No final do horizonte, luzes coloridas se aproximavam da cidade de Althum.

Ryuuki percebeu que Ayase parecia distante e tentou chamar sua atenção.

— Milady? Você está bem?

— …!

Ayase não respondeu.

Ela não conseguia tirar os olhos das luzes coloridas.

Espirais coloridas espalhavam-se em várias direções, engolindo qualquer coisa que entrasse em seu caminho. Elas deixavam um rastro com todas as cores do espectro visível, transformando toda a visão em uma grande tela abstrata sem começo, meio e fim.

— F-fractais…!

— Como nos seus sonhos, milady.

Ryuuki entendia perfeitamente o medo de Ayase.

A energia que emanava daqueles fractais era diferente de tudo o que ele havia sentido durante sua vida. Uma energia tão caótica e destrutiva que poderia facilmente varrer qualquer forma de vida daquele planeta.

Coisa que, de fato, estava acontecendo.

Aqueles que observavam os fractais com olhos curiosos eram engolidos por suas formas e multicores, tendo um fim tão rápido que pareciam não sentir o mínimo de dor.

Os demais não percebiam o que estava acontecendo, e apenas ficavam parados enquanto esperavam aquelas luzes coloridas avançarem até eles.

— Precisamos fazer alguma coisa, Ryuu!

Ayase temia que seu sonho se tornasse realidade, mas não sabia o que fazer para impedi-lo. Se ela corresse para alertar a todos, eles iriam acreditar nela? Para onde fugiriam? Existiria alguma forma de escapar?

Conforme as luzes iam avançando, menos tempo Ayase tinha para pensar.

Não. Fugir não parecia ser um bom plano.

Ao olhar para Ryuuki, ela lembrou-se.

“O monstro marinho!”

Se ela usasse os poderes do monstro marinho, talvez conseguisse salvar a todos.

Ela tinha que fazer isso. Ela era a única que podia fazer isso. Ela morreria por isso.

Movendo-se em direção aos fractais, a sereia sussurrava um cântico.

— Energias que me cercam, sigam a minha voz e obedeçam aos meus comandos…

Círculos de magia surgiam ao redor de seu corpo, banhando Ayase em uma aura azul.

Antes que pudesse terminar, o dragão-serpente a interceptou, opondo-se à ela.

— Milady, o que você pretende…?!

— Eu não posso deixar essas luzes avançarem...

— Isso não vai ser suficiente, você não vai–…

Antes que pudesse terminar de falar, Ayase o interrompeu.

— E o que você sugere? Que eu fique parada assistindo?

— ...

Durante alguns segundos, Ayase esperou por uma resposta.

Apenas uma simples resposta.

Resposta essa que nunca chegou.

— Não me atrapalhe, por favor!

— …

A sereia respirou fundo, tomando fôlego antes de continuar a recitar a sua magia.

— Reúnam-se e transformem-se em um-...

Antes que pudesse terminar a conjuração, Ayase sentiu algo gélido envolver cada parte de seu corpo, o que lhe fez tomar um grande susto. A sua visão tornou-se trevas, e a única coisa que a garota conseguia sentir era uma onda de pânico que tomava conta de seu corpo.

Ryuuki tinha assumido a sua verdadeira forma.

— ...?!

Ela tateava desesperadamente por uma saída, mas tudo que conseguia sentir eram as escamas frias que apertavam ainda mais o seu corpo. Em suas costas, ela sentia o arco se partindo, fazendo com que as pequenas partículas de ossos machucassem a sua pele.

— Ryuu, me deixe sair!! O que você está fazendo?

— …

— Ryuuki, me solte agora mesmo!!!

Os seus gritos pareciam abafados por aquelas escamas.

Ayase não conseguia escutar nenhum barulho vindo do lado de fora.

Não importava o quanto se debatesse ou socasse as escamas, Ryuuki não se rendia.

O desespero e o cansaço logo tomaram as forças da sereia, e ao sentir que tudo aquilo estava sendo vão, ela decidiu poupar o pouco fôlego que lhe restava.

— …

O tempo que ela passou encolhida ali pareceu uma eternidade.

O pânico de antes deu lugar ao medo, a fazendo sussurrar coisas incompreensíveis enquanto o seu corpo tremia. Ela se sentia cada vez mais sufocada, e respirar parecia queimar os seus pulmões.

“O que está acontecendo lá fora? Ryuu, por favor...”

Em questão de segundos, a sua prisão sucumbiu, assim como os fractais.

Ayase tinha certeza de que estava livre do corpo de Ryuuki, mas sua visão continuava dominada pelas trevas. Ao passar uma das mãos em frente aos seus olhos, não conseguiu enxergar nada. Não havia sequer uma sombra.

Foi naquele momento que ela se deu conta do que estava acontecendo.

O seu pesadelo havia se tornado realidade, e tudo agora eram trevas.

Sua respiração pareceu ter parado por um segundo.

— O-o que… aconteceu?!

Ela olhava para os lados como se procurasse algo.

— R-Ryuu...?

Não houve respostas.

— Ryuuki, onde você está?

Ayase nadava desesperadamente em busca do dragão-serpente, mas não conseguia encontrá-lo em lugar nenhum. A escuridão e o silêncio pareciam lhe sufocar a medida que os segundos passavam, e logo o medo se transformou em lágrimas.

— R-Ryuuki… O-onde… onde você está? Por favor, responda…

Ela finalmente parou, exausta. Estava tremendo ainda mais, e sentia como se o seu coração fosse quebrar a qualquer momento. Sequer fazia questão de limpar as lágrimas que embaçavam a sua visão e coravam o seu rosto, afinal, tudo o que ela podia enxergar era o nada.

— Por favor, não me deixe aqui sozinha…

Antes mesmo do silêncio e da escuridão, a dor que a solidão lhe causava machucava mais, e ela não tinha mais forças para suportar tudo aquilo.

O choro de Ayase lentamente se transformava em baixos murmúrios.

Baixos o suficiente para ouvir alguns gemidos vindos da escuridão.

— Arghh…! O-o que… aconteceu…

— …!!

Mesmo falando pausadamente, Ayase sabia perfeitamente a quem aquela voz pertencia. Era grave e relativamente alta, como um trovão, e seu tom amedrontador parecia mexer com a tranquilidade daquelas águas.

— Ryuu?! É você mesmo…?

— M-milady… você está viva.

— S-sim. E você também…

Chorando e tremendo, a garota tentava tatear o vazio.

— Achava que eu tinha te perdido para sempre.

— Eu não me importaria de morrer… se fosse para te salvar.

Um forte cheiro de sangue chegou ao nariz de Ayase.

Logo que alcançou algo frio e escamoso, ela sentiu o seu coração aliviar.

— Por que você fica falando essas bobagens?!

— …

Quando finalmente conseguiu se localizar, Ayase nadou em direção à cabeça de Ryuuki. Algumas escamas bioluminescentes pareciam traçar a rota que a sereia deveria percorrer para finalmente chegar ao seu destino, e o corpo que antes era tão pequeno e frágil, agora parecia maior que uma baleia azul.

Após alguns segundos, Ayase estava diante daquilo que procurava.

Um par de olhos dourados lhe observavam na escuridão.

Os olhos da verdadeira forma do monstro marinho.

Os olhos do abismo.

— Milady, você está bem?

— E-eu acho que sim…

Ayase passou a acariciar as escamas de Ryuuki como se procurasse algo.

— Você se machucou, não foi?

— Não foi nada. Eu vou ficar bem.

— …

Aquela resposta não acalmou Ayase. Ryuuki era um péssimo mentiroso.

Porém, mesmo que o dragão-serpente lhe contasse a verdade, ela não seria capaz de ajudá-lo, assim como não era capaz de fazer nada diante daquela situação. Talvez nem o próprio Ryuuki fosse capaz de fazer alguma coisa.

Ela tentava conter a sua vontade de chorar.

— Ryuu… o que nós vamos…

Alguns segundos se passaram após a pergunta incompleta de Ayase.

Segundos que o silêncio e a escuridão transformavam em mil anos.

— Eu não sei.

A resposta de Ryuuki deu início a mais mil anos de silêncio.

Ayase estava cansada demais para pensar no que poderia fazer.

Cansada demais para se preocupar com os ferimentos em suas costas. Cansada demais para pensar que nunca mais veria Atlansha. Cansada demais para lamentar cada uma das mortes.

Em sua cabeça, inúmeras perguntas dançavam com as memórias das músicas, rostos e coisas que tinha visto durante o dia. Dançavam lentamente com os genories, com Sumire e com cada um dos moradores. E também com os fractais. Dançavam com os barulhos se extinguindo com a escuridão.

O que outrora fora a tão reluzente Atlansha, agora não passava de trevas.

— Milady… durma um pouco, por favor.

A voz de Ryuuki misturava o seu cansaço com a sua preocupação.

A sereia deitou sob o seu corpo, que logo se enrolou para acolhê-la.

O ferimento em suas costas ardia, mas as escamas de Ryuuki aliviavam a sensação.

Escamas que ele usou para proteger uma existência tão insignificante quanto a dela.

— A primavera está chegando...

Ayase começou a cantarolar baixinho, mas Ryuuki ainda podia escutá-la.

O coração do dragão marinho parecia se quebrar a cada palavra sussurrada.

— Então vamos todos juntos celebrar… na nossa bela cidade de Althum…

— ...

— Como será o resto dessa música, Ryuu?

— Acho que nós nunca saberemos, milady.

Ayase se aconchegou ainda mais em Ryuuki, segurando o pequeno colar que agora estava com uma rachadura em sua carapaça. Ela desenhava a fissura com os dedos de maneira delicada, como se confortasse uma criança machucada, e manteve seus olhos nela até finalmente fechá-los, cansada.

Ela conseguia ouvir as batidas do coração de Ryuuki.

Estranhamente, o seu corpo exausto parecia encontrar algum conforto nas batidas ritmadas que quebravam o silêncio daquele lugar. O silêncio de um planeta morto.

Antes de fechar os seus olhos, um sussurro se dissolveu nas águas.

— Boa noite, Ryuu.

— Tenha uma boa noite, milady.

Notas finais
Prólogo, parte 3/3. ʕ•̀ω•́ʔ✧ Obrigada por ler Stellarium~! Feedbacks são apreciados. ☆