NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
21 “Sementes do Ciúme”
Com a chuva finalmente dando trégua, Sara e Grissom seguiram viagem até Kingman.
O clima entre os dois ainda era de conexão… mas agora misturado com foco.
Eles tinham uma missão.
Ao chegarem na delegacia local, se identificaram e, com a ajuda dos policiais, foram guiados até o endereço indicado na carta.
Uma casa simples… tranquila… aparentemente sem nada fora do comum.
Grissom bateu à porta.
Alguns segundos depois, uma senhora atendeu.
— Bom dia! O que desejam?
— Bom dia, senhora — respondeu ele, educado — me chamo Gilbert Grissom e essa é minha colega, Sara Sidle. Somos peritos do Laboratório Criminal de Las Vegas… viemos falar sobre Mary Hentz.
A mulher os observou com atenção.
— O que exatamente querem saber sobre Mary? Sei que ela faleceu…
Grissom manteve o tom calmo.
— Qual o nome da senhora, por favor?
— Susan Michel — respondeu — sou tia da Mary. Como chegaram até mim?
Sara então deu um passo à frente.
— Antes de morrer, Mary me deixou uma carta com este endereço… pediu que eu viesse até aqui.
A senhora pegou a carta, analisando com cuidado.
— Sim… é a letra dela…
Suspirou, visivelmente emocionada.
— Mary havia feito um seguro de vida…
Os dois trocaram um olhar rápido.
— Quando foi escolher o beneficiário, eu recomendei que fosse o filho… Augusto.
Sara sentiu o coração apertar ao ouvir o nome.
Susan continuou:
— Eu nunca gostei de Anthony… sempre temi pela vida dela se ele descobrisse esse documento.
O clima ficou mais pesado.
— Ela decidiu deixar a apólice comigo… e disse que eu deveria entregá-la a quem ela confiasse, caso algo acontecesse.
Olhou diretamente para os dois.
— E ela confiava em vocês.
Sara se emocionou.
— Mary comentou que vocês estavam ajudando com o menino… — completou Susan — tenho certeza de que ele ficará bem com vocês.
Grissom respondeu com firmeza:
— Se depender de nós… ele vai ser muito feliz.
A senhora assentiu.
— Vou buscar o documento.
Ela entrou e voltou alguns minutos depois com uma pasta.
Grissom abriu.
E, no instante seguinte…
Ele e Sara se entreolharam, completamente surpresos.
— Um milhão de dólares… — murmurou Sara, quase sem acreditar.
Susan confirmou com a cabeça.
— Mary pagou caro por essa apólice… queria garantir que, acontecesse o que acontecesse… Augusto teria um futuro seguro.
O peso daquilo caiu sobre os dois.
Não era só dinheiro.
Era o último ato de amor de uma mãe.
Sara segurou o documento com mais cuidado, como se estivesse segurando algo precioso demais.
— Agora tudo faz sentido… — disse, olhando para Grissom — é por isso que Anthony quer o Augusto.
Grissom fechou a pasta devagar, o olhar sério.
— E é exatamente por isso… que não podemos deixar ele chegar perto desse menino.
Susan Michel levou a mão à boca, visivelmente abalada com a informação.
— Como assim… ele quer o menino? — a voz saiu trêmula — como o Anthony descobriu sobre o seguro?
Olhou de um para o outro, aflita.
— Será que alguém contou pra ele?
Sara trocou um olhar rápido com Grissom, o pensamento vindo quase ao mesmo tempo.
— É o mais provável… — respondeu Sara, com cautela — ou ele encontrou alguma pista depois da morte da Mary.
Grissom completou, já analisando a situação:
— Ou alguém próximo acabou falando mais do que devia… mesmo sem intenção.
Susan balançou a cabeça, angustiada.
— Meu Deus… eu sempre tive medo disso… Mary também tinha.
Apertou as mãos, nervosa.
— Eu guardei esse documento justamente pra evitar que ele colocasse as mãos nisso… e agora ele está atrás do próprio filho…
Sara se aproximou, com um tom mais acolhedor:
— A senhora fez a coisa certa.
Olhou firme para ela.
— Se esse documento estivesse com ele… Augusto estaria em risco ainda maior.
Grissom assentiu.
— Agora que sabemos o motivo, conseguimos nos antecipar.
Fechou a pasta com cuidado.
— Vamos proteger o menino… e garantir que esse dinheiro seja usado exatamente como a Mary queria.
Susan respirou fundo, ainda assustada, mas um pouco mais tranquila ao ver a segurança dos dois.
— Por favor… cuidem dele…
Sara respondeu sem hesitar:
— Vamos cuidar.
Enquanto Sara e Grissom avançavam na descoberta sobre a apólice, em outro ponto, o jogo tomava um rumo ainda mais perigoso.
Heather Kessler caminhava de um lado para o outro, pensativa, enquanto Anthony Hertz a observava.
— Então… — começou ela — vamos mudar a estratégia.
Anthony arqueou a sobrancelha.
— Já percebi. E qual é a nova jogada?
Heather parou, encarando-o com um leve sorriso.
— Vamos reaproximar o Grissom de mim…
Fez uma pausa.
— E destruir a relação dele com a Sara… de dentro pra fora.
Anthony soltou um riso curto.
— E como pretende fazer isso?
Ela cruzou os braços.
— Ciúmes.
Ele pensou por um segundo… e então estalou os dedos.
— Tenho um cara na minha equipe… estudou com a Sara em San Francisco.
Heather se interessou na hora.
— E?
— Segundo ele… eles tiveram alguma coisa.
Um brilho perigoso surgiu no olhar dela.
— Perfeito…
Se aproximou.
— Podemos usar isso pra mexer com a cabeça do Grissom.
Anthony assentiu.
— Ele tá no México agora… posso mandar voltar.
Heather sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Enquanto isso, esperamos a poeira baixar.
Deu mais um passo, já arquitetando tudo.
— Mas podemos começar antes…
Anthony franziu a testa.
— Como?
Ela inclinou levemente a cabeça, quase divertida.
— Ele é ex da Sara, não é?
— É.
— Então peça pra ele ligar pro laboratório…
Fez uma pausa, saboreando a ideia.
— Dizendo que está indo pra Vegas e precisa de orientação pra moradia.
Anthony arregalou levemente os olhos… entendendo.
— Você quer plantar a dúvida na cabeça do Grissom…
Heather deu um sorriso lento.
— Exatamente.
— Danada… — ele riu — gostei.
Pegou o telefone.
— Vou instruir ele direitinho.
Heather virou-se, satisfeita.
— O ciúme é silencioso…
Olhou pela janela.
— Mas destrói tudo.
E, naquele momento…
O plano começava a se desenhar.
Alguns dias depois, o plano começava a dar seus primeiros passos.
No laboratório, a equipe estava reunida na sala de descanso quando Juddy apareceu na porta.
— Sara… ligação pra você.
A perita levantou o olhar, estranhando.
— Pra mim?
Sob o olhar curioso de todos — inclusive de Gil Grissom — ela se levantou e foi atender.
Do outro lado da linha, a surpresa:
— Sara? Aqui é o Ted… Ted Frank.
Ela ficou alguns segundos em silêncio, processando.
— Ted?!
A conversa seguiu de forma tranquila, mas cautelosa.
— Obrigado por me ajudar, Sara — disse ele — não conheço ninguém aí em Vegas além de você… e, com certeza, é a melhor pessoa pra me dar uma força, para me acolher, me dar carinho, amor.... estou morrendo de saudades de você Sara.
Sara respirou fundo antes de responder, firme:
— Ted… eu posso te ajudar com informações, indicar lugares… mas só isso.
Fez questão de deixar claro.
— As coisas mudaram… aqui não é São Francisco… e eu também mudei.
Pausa.
— Hoje eu sou uma mulher casada.
Do outro lado, um leve silêncio.
— Ok… minha querida… entendi.
Ela encerrou a ligação e ficou alguns segundos parada, pensativa… antes de voltar para a sala.
Enquanto isso, a equipe continuava conversando sobre os casos… e também sobre a vigilância em Heather Kessler.
— Temos que manter alguém de olho nela o tempo todo — comentou Catherine.
— Concordo — disse Nick — ela não vai ficar parada.
Grissom tentava acompanhar a conversa…
Mas, por mais que quisesse se manter focado, sua mente voltava para a ligação.
O nome.
O tom.
A forma como Sara reagiu.
Quando ela voltou e se integrou ao grupo, tudo parecia normal.
Ela participou, opinou, analisou…
Como sempre.
E mesmo assim…
Algo nele estava inquieto.
Mas, diferente do que faria semanas atrás…
Gil Grissom escolheu o silêncio.
Não perguntou.
Não confrontou.
Não quis parecer inseguro… ou injusto.
Preferiu confiar.
Mesmo com aquele leve incômodo crescendo por dentro.
E, sem perceber…
Era exatamente esse o tipo de rachadura que alguém, em algum lugar…
Esperava criar.
Duas semanas se passaram…
E, apesar de todo o caos recente, a vida encontrou um momento de paz.
Sara Sidle e Gil Grissom se casaram em uma cerimônia simples, mas carregada de significado.
Sem grandes formalidades.
Sem luxo.
Mas com tudo o que realmente importava: amor, verdade… e recomeço.
A equipe esteve presente, emocionada, testemunhando algo que muitos já esperavam há anos.
E, junto com o casamento, veio também a regularização da guarda de Augusto.
Agora, oficialmente, eles eram uma família. Claro que estavam com a guarda provisória, mas já era motivo de felicidade.
E o menino…
Ah, o menino não cabia em si de felicidade.
Corria pela casa nova agora dos três com um sorriso que iluminava tudo.
— Mamãe!! Papai!! — chamava, sem parar, como se quisesse testar o som dessas palavras mil vezes.
Sara observava, com os olhos marejados.
Grissom, ao lado dela, envolveu sua cintura com carinho.
— Acho que alguém está feliz…
Ela riu baixinho.
— Acho que alguém realizou o maior sonho da vida dele…
Augusto voltou correndo e se jogou nos braços dos dois, abraçando-os ao mesmo tempo.
— Agora a gente é uma família de verdade!!!
Grissom e Sara trocaram um olhar.
Daqueles que dizem tudo.
— Sempre fomos… — respondeu Sara, beijando o topo da cabeça do filho.
A casa estava cheia de vida.
De risadas.
De pequenos momentos que pareciam simples… mas significavam tudo.
Na cozinha, Beth Grissom organizava algumas coisas, observando a cena com um sorriso emocionado.
“Eu disse… isso ainda ia dar certo.”
E deu.
Por enquanto…
A felicidade reinava.
Mesmo com a paz que parecia finalmente ter se instalado, Heather Kessler não havia desistido.
Em um momento oportuno, longe dos olhos da equipe e principalmente de Sara, ela conseguiu falar com Gil Grissom.
A abordagem foi calculada.
Nada de confronto. Nada de arrogância.
Dessa vez… vulnerabilidade.
— Grissom… eu preciso falar com você...
A voz dela saiu baixa, embargada.
Ele hesitou por um instante… mas, fiel à sua natureza, não conseguiu simplesmente ignorar.
— Fala, Heather…
Ela respirou fundo… e deixou as lágrimas caírem.
— Eu sei que errei… sei que fui longe demais…
Baixou o olhar, como se envergonhada.
— Mas você não faz ideia do quanto eu estava desesperada…
Grissom franziu a testa, claramente desconfortável.
— Desesperada?
Ela assentiu, enxugando o rosto.
— Eu perdi tudo, Grissom… tudo…
Deu um passo mais perto.
— Você era a única pessoa que me fazia sentir… segura.
A fala era carregada de emoção.
Ou, pelo menos… parecia.
— E eu me agarrei a isso da pior forma possível…
Silêncio.
Ele passou a mão no rosto, dividido.
Heather percebeu.
E avançou.
— Eu não espero que você me perdoe… — continuou — só… não me trata como se eu fosse um monstro.
A voz falhou.
— Eu ainda preciso de você… como amigo.
A palavra foi escolhida com precisão.
Grissom suspirou.
Era exatamente o tipo de apelo que mexia com ele.
— Heather… você fez coisas muito graves…
Ela abaixou a cabeça.
— Eu sei…
Mais lágrimas.
— E vou pagar por isso… mas… por favor…Levantou os olhos, encontrando os dele.
— Não me abandona completamente.
Aquele olhar…
Aquela fragilidade construída…
Era difícil de ignorar.
Grissom, apesar de tudo, ainda era alguém que acreditava nas pessoas.
Que queria ver o melhor nelas.
E Heather sabia disso.
— Eu… não vou te abandonar… — disse ele, por fim — mas as coisas mudaram.
— Eu sei… — respondeu ela rapidamente — eu só… precisava ouvir isso.Deu um pequeno sorriso, ainda entre lágrimas.
— Obrigada, Grissom…
Ela se afastou… aparentemente aliviada.
Mas, ao virar de costas…
O olhar mudou.
Frio.
Calculista.
Porque, mais uma vez…
Ela tinha conseguido exatamente o que queria:
Uma brecha.
Um mês havia se passado desde o casamento…
E, no laboratório, a equipe estava mais unida do que nunca. O clima era leve, cheio de cumplicidade como se, depois de tanta turbulência, todos estivessem finalmente respirando.
Mas nem tudo era tão perfeito assim.
Em um canto mais reservado, Catherine e Sara conversavam em voz baixa.
Sara parecia inquieta.
— Cath… posso te falar uma coisa?
— Claro, amiga…
Ela hesitou por um segundo.
— O Gil… anda estranho.
Catherine franziu levemente a testa.
— Estranho como?
— Sumindo… — respondeu Sara, suspirando — às vezes desaparece por horas, não atende o celular… e quando volta, age como se nada tivesse acontecido.
Catherine cruzou os braços, pensativa.
— Será que ele está em algum caso secreto? Algo pro prefeito, sei lá…
Sara balançou a cabeça.
— Mas me deixaria no escuro desse jeito?
O olhar dela se perdeu por um instante.
— Isso não parece com ele…
Catherine se aproximou um pouco mais, tentando tranquilizá-la.
— É… realmente não parece…
Deu um leve sorriso.
— Mas você sabe o quanto ele te ama.
Sara respirou fundo, como se quisesse acreditar naquilo.
— Eu sei…
Mas havia dúvida.
Pequena… Silenciosa… E crescente.
O que nenhuma das duas sabia…
Era que, naquele mesmo período, Gil Grissom vinha se encontrando às escondidas com Heather Kessler.
Os encontros eram sempre discretos.
Rápidos.
Carregados de conversas que pareciam inofensivas… mas que escondiam algo muito maior.
— Eu não tenho mais ninguém, Grissom… — dizia Heather, com a voz fragilizada — você é a única pessoa que ainda me escuta…
E ele…
Mesmo dividido…
Mesmo sabendo de tudo o que ela já havia feito…
Sentia pena.
Uma culpa mal resolvida.
Uma necessidade quase instintiva de ajudar.
— Eu só quero te ver bem, Heather…
E foi exatamente aí que ele errou.
Porque, ao decidir esconder isso de Sara…
Ele não estava protegendo o casamento.
Estava, sem perceber… Abrindo espaço para que tudo começasse a ruir novamente.
Enquanto Gil Grissom se deixava envolver pelo papel de “ombro amigo” de Heather Kessler… o plano do outro lado começava a ganhar forma.
Ted Frank havia chegado a Las Vegas.
E, como orientado por Anthony Hertz, não perdeu tempo.
Foi direto ao laboratório.
— Bom dia, senhorita! Gostaria de falar com Sara Sidle!
Juddy levantou o olhar, avaliando-o.
— Quem é o senhor?
— Ted Frank… amigo dela desde San Francisco.
Ela assentiu e, aproveitando a passagem de Hodges pelo corredor, o chamou:
— Hodges! Pode avisar a Sara que tem um visitante na recepção?
O técnico, curioso como sempre, foi praticamente saltitando até a sala de descanso.
— Saraaa! — anunciou, chamando atenção de todos — a Juddy pediu pra avisar que tem um rapaz te procurando na recepção!
Sara ergueu o olhar, surpresa.
— Um rapaz? Vou lá ver quem é…
E saiu, sem desconfiar de nada.
Assim que a porta se fechou…
Hodges não resistiu.
— Sei que ninguém perguntou… mas eu falo assim mesmo — cruzou os braços com um ar de importância — o pretendente novo da Sidle atende pelo nome de Ted Frank.
Catherine Willows foi a primeira a reagir.
— David… a Sara não tem pretendente nenhum.
Nick Stokes completou:
— Você não perde essa mania de inventar coisa, né?
Mas, antes que a conversa seguisse…
Um silêncio pesado tomou conta da sala.
Porque o semblante de Grissom havia mudado completamente.
Fechado. Frio.
Controlado… por pouco.
— David… — disse ele, em um tom baixo, mas carregado — se eu ouvir essa história pelos corredores…
Deu um passo à frente.
— Você será demitido. Entendido?
Hodges engoliu seco.
— S-sim, senhor…
E saiu quase correndo.
O clima ficou tenso por alguns segundos…
Até que Greg quebrou o silêncio:
— Duvido que ele fale alguma coisa…
Na recepção, Sara conversava animadamente com Ted Frank.
Risos leves.
Lembranças de San Francisco.
Uma naturalidade que, para quem via de fora… poderia facilmente ser mal interpretada.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Um pouco afastados, Grissom e Catherine observavam a cena.
Catherine, de braços cruzados, falava baixo, tentando conter o amigo:
— Grissom… não começa…
Ele não respondeu de imediato.
Apenas observava.
Cada sorriso. Cada gesto. Cada aproximação.
— É só um amigo… — insistiu ela — você ouviu o que ela disse.
Mas ele já não estava ouvindo Catherine.
Na cabeça dele…
As palavras de Heather Kessler ecoavam.
“Ela é jovem… uma hora vai querer alguém mais… compatível…”
“Você acha mesmo que consegue acompanhar o ritmo dela?”
“Homens mais novos chamam atenção, Grissom…”
Ele fechou o maxilar.
Tentando ignorar.
Mas não conseguindo.
E ali, vendo Sara leve… sorrindo daquele jeito…
A insegurança, que não era incomum nele, começou a ganhar espaço.
— Gil… — Catherine chamou, mais firme — olha pra mim.
Ele desviou o olhar da recepção por um segundo.
— Você confia nela?
Silêncio.
Um segundo que pareceu longo demais.
— Confio… — respondeu, por fim.
Mas não soou tão firme quanto deveria.
Catherine suspirou.
— Então para de alimentar coisa na sua cabeça.
Mas já era tarde.
Ele deu mais uma olhada na cena…
E, sem dizer mais nada, virou-se.
— Vou pra minha sala.
— Grissom…
— Cath, por favor.
O tom não era rude, mas era fechado.
Ela sabia que não adiantava insistir naquele momento.
Minutos depois, já na sala, ele respirou fundo, tentando se recompor.
Pegou o telefone interno.
— Catherine… pode avisar ao pessoal que estão liberados.
Do outro lado, ela estranhou.
— Liberados? Ainda tem coisa pra resolver—
— Pode avisar, por favor.
Pausa.
— Certo…
Ele desligou.
Encostou-se na cadeira.
Passou a mão no rosto.
Tentando afastar aquilo tudo.
Mas as imagens…
As palavras… E a dúvida… Já estavam lá.
E, pela primeira vez desde que haviam se casado…
Gil Grissom não estava em paz.
Sara se despediu de Ted e seguiu direto para a sala de Grissom.
Ao entrar, encontrou o marido concentrado nos relatórios.
Se aproximou por trás, envolvendo-o com carinho e começando uma leve massagem em seus ombros.
— Oiiii… — disse, com um sorriso na voz — você ainda vai ficar por aqui?
— Sim… — respondeu ele, sem virar de imediato — preciso diminuir essa montanha de relatórios…
Sara apoiou o queixo no ombro dele, com aquele jeitinho carinhoso de sempre.
— Eu estava pensando… depois que levarmos o Augusto na escola… a gente podia tomar um banho juntos… aproveitar a manhã…
Houve um pequeno silêncio.
Então ele falou.
Mas… diferente.
— E você quer mesmo aproveitar essa manhã comigo?
O tom sério fez Sara travar.
A mão dela parou no meio do movimento.
Lentamente, ela deu a volta na mesa e ficou de frente para ele.
— O que está acontecendo, Grissom?
Ele evitou o olhar dela.
— Como assim?
Ela franziu a testa, claramente incomodada.
— Como assim?? — a voz subiu levemente — você acabou de perguntar se eu quero ficar com você??? Eu sou sua esposa!
Deu um passo mais perto.
— Você é meu marido… o pai do meu filho… o homem que eu amo…
Os olhos dela já brilhavam, carregados de emoção.
— Com quem mais eu iria querer estar?
O silêncio dele só piorava tudo.
Sara cruzou os braços, magoada.
— Engraçado… você anda sumindo, estranho… e sou eu que não quero ficar com você?
Grissom permaneceu calado, batendo a caneta na mesa… absorvendo cada palavra.
E, principalmente…
Sentindo o peso do que estava causando.
Sara respirou fundo, perdendo a paciência com o silêncio.
— Eu não vou discutir com você aqui.
Virou-se.
— Vou pra casa levar o Augusto pra escola.
Quando ela já estava saindo…
— Espera, Sara!
Ele se levantou rápido e foi até ela.
Sem dar espaço para mais distância… a puxou para um abraço forte.
Apertado. Quase desesperado.
— Me desculpa…
A voz dele saiu baixa, repetindo perto do ouvido dela:
— Me desculpa… me desculpa…
Sara, ainda tensa, demorou um segundo… mas não resistiu ao abraço.
— Eu tô estressado… — continuou ele — acabei descontando em você… não foi justo…
Apertou-a um pouco mais.
— Eu te amo muito…
O corpo dela relaxou aos poucos.
— Vamos aproveitar nossa manhã juntos… por favor…
Ela se afastou só o suficiente para olhar nos olhos dele.
— Eu também te amo… — respondeu, mais suave — mas e os relatórios?
Ele soltou um leve suspiro, quase um sorriso.
— Eles podem esperar…
Passou a mão no rosto dela com carinho.
— Agora eu quero me concentrar em você… e no Augusto.
Sara ainda o observou por um instante… como se quisesse ter certeza.
Mas acabou cedendo ao sentimento.
E sorriu.
Minutos depois…
Os dois já estavam juntos, indo buscar Augusto.
E, por algumas horas…
Entre risadas, rotina e carinho…
Eles conseguiram fazer o que mais precisavam naquele momento:
Ser uma família.
Em um encontro discreto, longe de qualquer suspeita, Heather não escondia a satisfação ao relatar o que havia percebido.
— Em uma das nossas conversas… — começou, com um leve sorriso — o Grissom demonstrou ciúmes.
Anthony se interessou na hora.
— De quem?
— Do Ted.
Ela cruzou os braços, claramente satisfeita.
— Ele não falou diretamente… mas deu pra perceber. Aquela tensão… aquele silêncio… típico dele quando algo incomoda.
Anthony soltou uma risada curta.
— Então funcionou…
Se aproximou um pouco mais.
— Já dei as instruções pro nosso amigo.
Heather arqueou a sobrancelha.
— Que tipo de instruções?
— Simples… — respondeu ele, com um ar frio — alimentar o ciúme.
Ela sorriu, entendendo perfeitamente.
— Como?
— Aproximação… intimidade… lembranças do passado…
Fez uma pausa, quase saboreando a estratégia.
— Pequenas coisas que, aos poucos… fazem qualquer homem começar a duvidar.
Heather assentiu lentamente.
— E o Grissom… — completou ela — não lida bem com esse tipo de insegurança.
Anthony deu de ombros.
— Ninguém lida.
Se encostou, tranquilo.
— E quanto mais ele se sentir ameaçado… mais ele vai agir como animal ferido.
O olhar dela brilhou, malicioso.
— E quanto mais ele agir… mais a Sara vai se afastar.
— Exatamente.
Silêncio por um instante.
Então Heather concluiu, com um sorriso frio:
— Vamos deixar que eles mesmos destruam o casamento.
Anthony concordou.
— A gente só… dá o empurrãozinho.
E, mais uma vez…
O plano avançava.
Naquela noite, tentando fugir do turbilhão na cabeça, Gil Grissom aceitou sair com Jim Brass para um bar na Las Vegas Strip.
O ambiente era barulhento, cheio de luzes e gente… mas, na mesa dos dois, o clima era outro.
Pesado.
Grissom girava o copo de whisky entre os dedos, pensativo, até que finalmente falou:
— Brass… você já teve a sensação de… não ser suficiente?
O capitão arqueou a sobrancelha, surpreso com a pergunta.
— Isso veio do nada ou tem nome e sobrenome?
Grissom soltou um leve suspiro.
— A diferença de idade…
Brass encostou-se na cadeira, entendendo na hora.
— Sara.
Um silêncio confirmou.
— Ela é jovem… cheia de energia… — continuou Grissom, olhando o líquido no copo — e eu…
Parou, sem terminar a frase.
Brass não deixou passar.
— E você é o quê? Um velho acabado?
Grissom deu um meio sorriso sem humor.
— Às vezes parece.
Brass balançou a cabeça, negando.
— Engraçado… porque quando você correu atrás dela, insistiu, reconquistou… casou…
Apontou o dedo, firme.
— A diferença de idade já estava lá.
Se inclinou um pouco à frente.
— E não era problema.
Silêncio.
Grissom levou o copo aos lábios e tomou um gole longo de whisky.
Mas não respondeu. Porque, no fundo…
Ele sabia que Brass estava certo.
O capitão observou o amigo por alguns segundos antes de continuar, mais sério:
— Então me responde uma coisa…
Esperou que ele o encarasse.
— Por que agora virou problema?
Grissom desviou o olhar.
E isso… já era uma resposta.
Brass suspirou, cruzando os braços.
— Você tá deixando alguma coisa entrar na sua cabeça…
Fez uma pausa.
— E eu tenho quase certeza de quem.
Grissom fechou levemente o maxilar.
— Não é isso…
— É sim.
O tom de Brass foi firme, direto.
— Você tá deixando dúvida onde não tinha.
O barulho ao redor parecia distante.
— E vou te falar uma coisa, Gil…
A voz dele baixou, mais séria ainda.
— Toma cuidado com os seus passos.
Grissom voltou o olhar pra ele.
— Porque um passo mal dado…
Pausa.
— E essa relação implode.
Aquilo ficou no ar.
Pesado. Real.
Grissom não respondeu.
Apenas ficou ali… em silêncio…
Sentindo, talvez pela primeira vez, que o problema não estava na diferença de idade.
Mas nas escolhas que ele vinha fazendo.
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