NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
23 Segredos revelados
O clima na vida do casal Grissom parecia ter encontrado uma calmaria superficial, mas as correntes subterrâneas continuavam perigosas. Sara, decidida a colocar um ponto final na ousadia de Ted, finalmente o confrontou após dois dias de silêncio.
Sara foi direta e profissional, mas com um tom que não admitia réplicas.
"Ted, eu fui clara da última vez e serei agora: eu exijo respeito. O que você fez na sorveteria foi uma invasão e eu não vou tolerar isso novamente. Se quisermos continuar mantendo qualquer tipo de convivência, você precisa entender que sou uma mulher casada e amo o meu marido."Ted, embora tenha ouvido o pedido, não desistiu completamente. Ele manteve aquele ar de "vítima apaixonada" que tanto irritava o supervisor:
"Tudo bem, Sara. Eu vou respeitar o seu espaço e o seu casamento. Mas não me peça para mentir sobre o que eu sinto. Meus sentimentos por você não mudam com um pedido, mas eu vou me afastar como você quer."Grissom percebeu o afastamento de Ted e sentiu um alívio momentâneo, mas a semente da discórdia já havia sido plantada. Lady Heather, agindo como uma confidente preocupada, não perdia uma oportunidade de instigar a dúvida no entomologista.
Sempre que tinha chance, ela soltava comentários ácidos disfarçados de observações:
LH: É curioso como o Ted recuou tão rápido, não acha, Gil? Quase como se ele e Sara tivessem combinado um código de conduta para não levantar suspeitas..."
"Cuidado com esse silêncio repentino. Às vezes, o que não vemos é o que mais deveria nos preocupar."
Essas palavras martelavam na cabeça de Grissom. Ele olhava para Sara e via a mulher que amava, mas logo em seguida lembrava do beijo na sorveteria e das insinuações de Heather. A confiança dele, antes inabalável, começava a mostrar rachaduras sob a pressão do envenenamento mental da Dominatrix.
Enquanto isso, o corpo de Sara começava a dar sinais mais claros. O mal-estar matinal que ela atribuía ao estresse estava se tornando frequente. Ela ainda não tinha coragem de fazer o teste, com medo de que a tensão no casamento pudesse afetar qualquer possibilidade de uma notícia boa.
Alguns dias depois, Gil Grissom foi enviado a trabalho para Nova York e, como já vinha acontecendo com frequência preocupante, Heather Kessler deu um jeito de “coincidentemente” estar por perto.
No quarto do hotel, o silêncio era pesado.
Grissom encarava o papel em suas mãos.
Os resultados.
A atmosfera no quarto de hotel em Nova York era de puro desolamento. O papel que Grissom segurava entre os dedos parecia pesar toneladas. O veredito, forjado habilmente pelos cúmplices de Heather, estava diante de seus olhos em letras frias e técnicas: Infertilidade.
— Heather, aqui diz que eu não posso ter filhos... — A voz de Grissom falhou, algo raro para um homem tão contido. — Meu Deus, meu sonho foi por água abaixo! Eu queria tanto um filho com a Sara!
Heather aproximou-se, colocando uma mão consoladora em seu ombro, ocultando perfeitamente a satisfação que sentia.
— Grissom, fique calmo! — ela disse, com uma suavidade estudada. — Olha, vocês já têm o Augusto, veja que maravilha de menino ele é.
— Eu amo meu filho, amo o Augusto com toda a minha alma — ele rebateu, levantando-se e andando de um lado para o outro. — Mas eu queria um fruto direto do nosso amor, uma mistura nossa... Como eu vou contar isso para ela? Ela vai ficar arrasada.
— Não pense nisso agora, Gil. Você está em choque — Heather sugeriu, sutilmente conduzindo-o para fora do quarto. — Vamos fazer o seguinte: vamos tomar uma bebida lá no bar do hotel, espairecer um pouco. Você precisa de ar.
Grissom, atordoado demais para protestar, deixou-se levar. No bar luxuoso do hotel, ele encarava o copo de uísque com o olhar perdido, enquanto Heather mantinha uma proximidade que, para qualquer observador externo, sugeria algo muito além de amizade.
O que eles não esperavam era que, em uma das mesas laterais, uma promotora de justiça de Las Vegas, grande amiga de Sara e que estava em Nova York para uma conferência, observava a cena com olhos atentos. Ela reconheceu Grissom imediatamente e, ao ver a mão de Heather pousada sobre a dele e o semblante íntimo dos dois, sentiu o sangue ferver pensando em sua amiga.
Grissom, cujo racionalismo costumava ser sua armadura, estava completamente desarmado pela notícia da suposta infertilidade. O álcool, consumido rapidamente em seu estado de choque, começou a turvar seus reflexos e seu julgamento.
Heather, percebendo que ele mal conseguia manter o foco, viu a oportunidade perfeita para consolidar a destruição daquele casamento.
— Gil, você não está em condições de ficar aqui — ela sussurrou, aproximando-se o suficiente para que seu perfume o envolvesse. — Vamos subir. Vou te ajudar a descansar e processar tudo isso.
Ela passou o braço pela cintura dele, sustentando parte do seu peso. Grissom, zonzo e com o coração pesado, deixou-se guiar. Para quem olhava de fora, a cena era inequívoca: um homem entregue aos cuidados carinhosos de uma mulher que claramente exercia influência sobre ele.
A promotora, imóvel em sua mesa, não perdeu um detalhe. Ela viu Heather conduzi-lo até o elevador, com a cabeça de Grissom pendida levemente para o lado, quase encostando no ombro da Dominatrix.
"Inacreditável, Grissom...", pensou a promotora.
O toque do celular cortou o silêncio do quarto como um balde de água fria.
Grissom baixou os olhos para a tela iluminada sobre a mesinha de cabeceira e sentiu o estômago virar. Sara. O nome da esposa piscava na tela com uma inocência que ele, naquele momento, simplesmente não merecia.
Os dedos de Heather ainda repousavam sobre as lapelas do seu paletó.
— Preciso atender — ele disse, a voz saindo mais rouca do que pretendia. O álcool ainda zumbia nas bordas do pensamento, mas havia algo no nome iluminado na tela que o deixou subitamente muito sóbrio.
Heather recuou um passo, leu a situação com a perspicácia de sempre e, sem uma palavra, pegou sua bolsa da poltrona próxima à janela.
— Descanse, Gil — murmurou ela, antes de fechar a porta sem fazer barulho.
Ele atendeu na terceira chamada.
— Sara.
— Oi, você. — A voz dela chegou quente pelo aparelho, completamente alheia a tudo. — Estava com saudade. Tudo bem por aí?
Grissom passou uma mão pelo rosto e se deixou cair na beira da cama.
— Tudo bem — respondeu, e a frase soou vaga demais, larga demais.
Houve uma pausa curta do outro lado da linha.
— Gil Grissom. — O tom de Sara mudou, divertido agora, investigativo. — Você está bêbado?!
Não era uma pergunta.
Ele abriu a boca para negar e desistiu no meio do caminho.
— Talvez um pouco.
A risada dela explodiu pelo fone — franca, gostosa, completamente sem julgamento — e algo no peito dele afrouxou de um jeito que só ela conseguia provocar.
— Vai dormir, seu idiota — disse Sara, ainda rindo. — A gente se fala amanhã quando você estiver em condições de formar uma frase completa.
— Sara...
— Durma. — A voz dela ficou mais suave na última palavra. — Boa noite, Gil.
A ligação caiu. Grissom ficou parado por um momento, o celular ainda na mão, o quarto de hotel silencioso ao redor.
Em Vegas, no dia seguinte, após novamente passar mal, Cath levou Sara para realizar exames.
O consultório ainda cheirava a antisséptico quando a médica saiu deixando as duas sozinhas com o resultado impresso nas mãos de Sara.
Catherine foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Eu sabia. — Ela cruzou os braços com um sorriso no canto da boca, satisfeita consigo mesma. — Desde ontem de manhã, quando você empalideceu no corredor, eu sabia.
Sara não respondeu de imediato. Ficou olhando para o papel como se as palavras precisassem de mais tempo para fazer sentido, como se positivo fosse um conceito novo que ela estava aprendendo a conjugar.
— Grissom vai ficar radiante — disse Catherine, mais suave agora. — Sara, ele vai ficar completamente radiante.
Sara levantou os olhos do exame. E sorriu — um sorriso que começou pequeno e foi crescendo até tomar o rosto inteiro.
— Você não imagina como eu estou feliz, Cath. — A voz saiu um pouco embargada, e ela não fez nenhum esforço para disfarçar. — E o Augusto... você acredita que ele já estava me cobrando um irmão?
Catherine soltou uma risada que ecoou pelo corredor vazio.
— Acredito completamente. — Ela balançou a cabeça, divertida. — A Lindsey também me cobrava, sabe? Parou faz pouco tempo. Sabe por quê? Ela me disse, com toda a seriedade do mundo, que o Augusto já é o irmão dela. Assunto encerrado.
Sara riu, e dessa vez o riso veio fundo, do tipo que limpa.
— Eles dois são demais.
— São a nossa cara. — Catherine deu um tapinha no joelho da amiga e se levantou, estendendo a mão para ajudá-la. — E então? Quando você vai contar para Grissom?
Sara dobrou o exame com cuidado, como se fosse algo frágil, e guardou dentro da bolsa.
— Assim que ele voltar.
Passado alguns dias o supervisor voltou.
O voo de volta para Vegas tinha pousado com quarenta minutos de atraso, e Grissom já sabia, antes mesmo de ligar o celular, que o dia não seria simples.
A primeira mensagem era de Brass.
"Reunião com o Prefeito e o Xerife. Hoje. Sem negociação. Te mando o endereço."Ele ficou olhando para a tela por um momento, a mala ainda na esteira rolante à sua frente, e pensou em Sara. Pensou no tom da voz dela na última ligação, aquele calor na fala que ela reservava para quando tinha algo a dizer mas escolhia esperar o momento certo.
Teria que esperar mais um pouco.
A sala de reuniões do décimo segundo andar da prefeitura tinha aquele silêncio artificial de lugares que se levam demasiadamente a sério. Madeira escura, quadros de antecessores nas paredes, água mineral que ninguém tocava.
O Prefeito era um homem de ombros largos e aperto de mão calculado. O Xerife, que Grissom conhecia há anos o suficiente para não se impressionar, estava sentado à cabeceira com uma expressão que dizia você vai ouvir coisas que não vai gostar.
Grissom sentou, abriu o bloco de notas por hábito e esperou.
— Bem-vindo de volta, Dr. Grissom — começou o Prefeito, com aquele tom de quem está prestes a pedir um favor embrulhado em elogio. — Precisamos conversar sobre o departamento.
Enquanto isso a equipe estava as voltas com um caso grande e a correria estava enorme e eles precisaram ir ao tribunal.
O corredor do tribunal estava movimentado como sempre: advogados de pasta na mão, réus de terno apertado, familiares que não sabiam bem onde olhar. Sara, Catherine e Brass caminhavam no ritmo apressado de quem tem mais audiências do que horas no dia quando uma voz familiar cortou o burburinho.
— Que bom vê-los!
Jane Harmon vinha na direção oposta, elegante como sempre, com aquele sorriso de promotora que sorri de verdade.
Sara abriu os braços antes mesmo de pensar.
— Jane! — Ela a abraçou com genuíno afeto. — Que saudade.
— Pensei que você ainda estivesse em Nova York?! — disse Catherine, puxando-a pelo ombro logo em seguida.
— Estava. — Jane ajeitou a pasta sob o braço. — Mas o caso me trouxe de volta. Algumas pontas que só eu posso amarrar, já sabe como é. — Ela virou-se para Sara com um sorriso mais tranquilo. — Sara, sabia que encontrei seu marido por lá?
— Sim. — Sara assentiu, natural. — Ele foi dar suporte a um caso.
Jane hesitou um segundo. Apenas um.
— Com Heather Kessler?
O corredor continuou barulhento. O mundo continuou girando, mas algo no ar entre as quatro pessoas parou.
— Como assim? — A voz de Brass saiu baixa e direta.
— Os encontrei no bar do hotel. — Jane escolheu as palavras com o cuidado de quem não quer causar estrago mas também não sabe mentir. — Chegaram juntos. Saíram juntos. Pareciam... à vontade.
O clima no tribunal, que já era tenso devido ao caso, tornou-se sufocante após as palavras de Jane. A revelação de que Grissom e Heather não apenas estavam no mesmo local, mas agiam com tamanha proximidade, caiu como uma bomba silenciosa sobre o grupo.
Catherine, percebendo o empalidecer de Sara e o olhar de choque de Jim Brass, tentou manter a postura profissional, mas o estrago estava feito.
— Jane, me conta — ela disse, virando o corpo levemente para interceptar o rumo da conversa — como foi fechar aquele caso do condado de Clark? Ouvi que foi uma loucura.
Jane entendeu o recado com a perspicácia de sempre e deixou o assunto morrer ali.
Foram chamados para a audiência pouco depois, e o trabalho engoliu tudo, como o trabalho sempre fazia.
Mas ao final da audiência, quando as portas do tribunal se abriram para o calor seco de Vegas e os três desceram os degraus lado a lado, Sara ficou um passo atrás.
Catherine notou.
— Sara...
— O que Heather estava fazendo com Grissom em Nova York, Cath? — A voz saiu quieta. Controlada demais para ser tranquila. — Eu não quero acreditar... Eu não quero acreditar que ele mentiu para mim... ou pior.
— Não pense nisso. — Catherine se virou para ela, firme mas gentil. — Deve ter sido coincidência. Você conhece Grissom.
Sara não respondeu. Apenas balançou a cabeça devagar, aquele gesto de quem arquiva um pensamento em vez de descartá-lo e continuou caminhando.
— Sara, por favor, não tire conclusões precipitadas agora — Catherine respondeu, segurando firmemente os ombros da amiga. — O Grissom pode ser muitas coisas, mas ele não é mentiroso. Creio que deve ter sido uma coincidência ela estar lá, ou talvez ela tenha se infiltrado no caso por conta própria. Não deixe isso obscurecer a notícia maravilhosa que você tem para dar a ele.
Horas mais tarde...
A casa estava estranhamente silenciosa sem Augusto.
Sara havia se acostumado tão rapidamente ao barulho dele, os passos rápidos pelo corredor, a televisão no volume errado, as perguntas que não esperavam resposta antes da próxima pergunta já chegar que o silêncio agora tinha textura própria.
Ela estava sentada na beirada da cama, observando Grissom desfazer as malas em completo silêncio, cada coisa voltando ao lugar exato de onde havia saído, como se a viagem precisasse ser desfeita com o mesmo cuidado com que havia sido feita.
— Amor. — A voz de Sara saiu leve, casual. — Correu tudo bem em Nova York?
— Sim, tudo bem. — Ele não levantou os olhos da mala.
— Nada de diferente?
Uma pausa. Pequena demais para ser inocente, grande demais para passar despercebida para uma investigadora.
GG: Não, nada aconteceu.
Grissom continuou mexendo na mala, mas seus movimentos agora eram mecânicos, quase rígidos. A mentira pesava em sua língua; ele odiava esconder as coisas de Sara, mas o pavor de admitir que estava com Heather no bar logo após descobrir que supostamente não poderia dar um filho à esposa, o paralisava.
Sara cruzou os braços, encostando-se no batente da porta. O silêncio dele dizia muito mais do que as poucas palavras que ele soltava.
— Engraçado... Encontrei com Jane hoje. No tribunal. — Uma pausa. — Ela me disse que te viu por lá. — Sara disse, com um tom de voz que misturava mágoa e ironia.
O bar do hotel. A luz baixa. Heather do outro lado da mesa. E Jane Harmon, de relance, do outro lado do salão. Ele havia notado e não havia dado importância.
— Ela disse que viu você muito bem acompanhado. No bar do hotel. Com a Lady Heather.
GG: Ela estava em Nova York, Sara. Nós nos esbarramos e ela me ofereceu um drink que eu aceitei.
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior.
Sara não respondeu. Não pressionou. Apenas desviou o olhar para a janela com aquela expressão que Grissom havia aprendido, ao longo dos anos, a temer mais do que qualquer confronto direto.
Era a expressão de quem está somando.
Sara, vendo que ele não falaria nada e estranhando o jeito frio que estava agindo com ela desde que voltou, resolveu soltar o que estava preso.
SS: Chega Grissom, pra mim chega!!!
GG: Que isso Sara? O que aconteceu??
SS: Grissom tem tempos que venho estranhando que em determinados momentos você some sem dar satisfação, mas não quis imaginar besteiras, porém através foi que eu soube que Heather estava com você em Nova York. Iniciei a conversa pra ver se você me falaria algo e nada, silencio total.
GG: Empatamos então. Eu vi o dia que o Ted te beijou, e você também não me falou nada.
Sara abriu a boca, completamente sem palavras por um instante.
SS: Como assim você viu?? Estava me seguindo??
GG: Não. Eu estava indo na sorveteira junto com a...
SS: Junto com a Heather, né Grissom?
Ela deixou o nome cair no ar como uma pedra.
SS: E se viu o beijo, viu também que eu não correspondi, não é??
— Vi! — Grissom rebateu, a voz carregada de uma amargura que ele não conseguia mais conter. — Vi que você o empurrou. Mas vi também o jeito que ele te olhava, Sara!
SS: Então por que está jogando isso na minha cara agora? Eu não te contei porque não significou nada, Grissom. Nada. Eu afastei ele na hora.
GG: E você acha que pra mim foi fácil ver aquilo, Sara? Ver outro homem te beijando?
SS: Difícil? Difícil é eu estar aqui, tentando entender por que o meu marido foi pra Nova York com outra mulher e voltou agindo como se eu fosse uma estranha!
Grissom passou a mão pelo rosto, claramente abalado.
GG: Eu não fui com ela, Sara. A Heather estava lá… coincidência.
SS: Coincidência? Ela estava no seu quarto, Grissom.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante.
GG: Eu estava bêbado… eu nem—
SS: Nem o quê? Nem lembra? Ou prefere fingir que não lembra?
A voz de Sara falhou levemente, mas ela se manteve firme.
SS: Eu liguei pra você aquela noite sem imaginar o que estava acontecendo.
Grissom fechou os olhos por um instante, como se finalmente não tivesse mais para onde fugir.
GG: Eu pedi pra ela sair.
SS: Mas ela estava lá.
Outro silêncio. Dessa vez, mais doloroso.
SS: Sabe o que mais dói? Não é nem a Heather… é você ter escolhido esconder. Mentir pelo silêncio. Me trair.
GG: Eu não quis te machucar.
SS: Pois conseguiu.
GG: Sara...
Ele deu um passo em sua direção, mas ela recuou.
SS: Não me toque agora, Grissom.
As lágrimas desciam pelo rosto dela sem que ela fizesse qualquer esforço para contê-las. Havia algo devastador em ver Sara Sidle chorar, sempre havia sido, e Grissom sentiu o peso daquilo no peito como uma pancada.
GG: Sara… não diz isso…
SS: (chorando, a voz embargada) Mas é isso que eu sinto! Você pode chamar do que quiser… omissão, coincidência, erro… pra mim foi traição.
GG: (a voz mais baixa, mais cuidadosa) Você está me chamando de traidor por ter ido a uma conferência na mesma cidade que ela...
SS: Não é só isso e você sabe disso!! (a voz partindo no meio) É o sigilo, Grissom. É o fato de você chegar frio, distante, como se eu fosse estranha pra você.
Ele ficou quieto. E o silêncio dele disse mais do que qualquer palavra poderia dizer.
SS: Eu abri mão de tanta coisa por você. Voltei pra Las Vegas, construí uma vida aqui, temos um filho... (enxugou o rosto com as costas da mão) E você ainda deixa essa mulher ocupar um espaço que não é dela.
GG: Heather não ocupa espaço nenhum...
SS: Ocupa, Grissom!! (explodiu) Sempre ocupou!! Desde o começo ela ocupa um lugar que eu nunca entendi direito e que você nunca teve coragem de me explicar de verdade!!
O quarto ficou suspenso naquelas palavras. Grissom abriu a boca, fechou. Pela primeira vez em muito tempo, ele não tinha uma resposta pronta.
GG: Não aconteceu nada entre mim e a Heather.
SS: Não é só sobre isso! Por que é tão difícil você entender? Não é só físico!
Ela enxugou as lágrimas com raiva, tentando manter alguma firmeza.
SS: É você escolher outra pessoa pra dividir coisas que deveriam ser nossas. É você esconder. É você me deixar de fora… de novo.
GG: Eu achei que estava protegendo você.
Sara soltou uma risada amarga, desacreditada.
SS: Protegendo? Mentindo? Se afastando? Me deixando desconfiar sozinha?
Ela balançou a cabeça.
SS: Grissom por que você está se envolvendo com Heather de novo?? Ela nos fez tão mal, quase tirou o meu filho de mim!!
GG: Heather me pediu desculpas, estava arrependida. Sara, ela é uma mulher sozinha que está na justiça lutando pelo direito de visitar a neta....
SS: Grissom, essa situação só piorou porque ela fez coisas erradas e acabou por chegar a este ponto, ela procurou por isso.
GG: Sara, que tipo de homem você acha que eu sou??
SS: Grissom, sou sua mulher. Somos casados, e uma das coisas que o relacionamento precisa ter é confiança, além de respeito. Você quebrou a minha confiança ao se encontrar com essa mulher às escondidas, e não me respeitou ao fazer isso em público... você viajou com ela. Você não me protegeu, Grissom… você me deixou vulnerável.
O silêncio caiu entre os dois, pesado.
GG: Eu não sei fazer isso direito, Sara… você sabe.
SS: (olhando direto pra ele) Então aprende. Porque eu não posso continuar em um casamento onde eu me sinto sozinha.
Aquelas palavras atingiram mais forte do que qualquer grito.
GG: Você… você está dizendo que quer ir embora?
Sara hesitou. Aquela era a pergunta que ela vinha evitando desde o início da discussão.
SS: Eu estou dizendo que assim… desse jeito… não dá.
GG: Sara não aja como criança!! Você está querendo achar uma desculpa pra quê??
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo, mas foi suficiente para Sara sentir aquelas palavras como uma bofetada.
SS: Você que está se envolvendo com outra pessoa às escondidas e sou eu que estou arrumando desculpas??
Ela soltou uma risada sem graça, daquelas que doem mais do que o choro.
SS: Faça-me o favor, Grissom!!
Ela virou de costas, tentando se recompor, mas os ombros tremiam. Quando se voltou novamente, os olhos estavam vermelhos mas o olhar era firme.
SS: Sabe o que me dói mais? Não é nem a Heather. É você me chamar de criança quando estou tentando ter uma conversa séria sobre o nosso casamento. É você me fazer sentir que estou exagerando, que estou inventando, que estou errada...
A voz falhou por um instante.
SS: Você é brilhante pra tantas coisas, Grissom. Mas quando o assunto é me fazer sentir pequena... você também é muito bom nisso.
Grissom abriu a boca. Fechou novamente. Havia algo no rosto de Sara naquele momento que ele nunca tinha visto antes, e que o deixou mais assustado do que qualquer confronto poderia deixá-lo.
Não era raiva. Era cansaço.
O telefone da morena tocou, quebrando o silêncio denso do quarto. Sara se afastou para atender, a voz baixa, distante.
Grissom permanecia ali, inquieto. O desconforto crescendo no peito, apertando. Ele começou a andar de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos… mas não conseguia.
Foi quando viu o envelope sobre a mesinha.
Simples. Discreto, mas com o nome de Sara.
Algo dentro dele travou.
Ele pegou. Abriu. Leu.
E o mundo pareceu sair do eixo.
— Não… — murmurou, quase sem voz.
Nesse momento, Sara voltou, ainda segurando o celular. Parou na porta ao ver o envelope nas mãos dele.
O olhar dele… ela nunca tinha visto daquele jeito.
Frio. Perdido. Desconfiado.
GG: Você… está grávida?
Sara hesitou por um segundo, mas decidiu não esconder.
SS: Sim… estou.
Ela deu um passo à frente, tentando se aproximar.
SS: Eu estava esperando você chegar. Queria te fazer uma surpresa, mas…
A frase morreu no ar.
Porque o que veio em seguida não foi dor.
Foi acusação.
GG (duro, cortante): Quem é o pai dessa criança?
O impacto foi imediato.
SS: Como é que é, Grissom? Que história é essa?
Ele perdeu o controle.
GG (aumentando a voz): VOCÊ ENTENDEU MUITO BEM O QUE EU PERGUNTEI! QUEM É O CANALHA COM QUEM VOCÊ FOI PRA CAMA?
Sara ficou paralisada por um segundo, não de culpa, mas de incredulidade.
Então a raiva veio.
SS (gritando): VOCÊ É O PAI, SEU IDIOTA! EU NUNCA TE TRAÍ! VOCÊ ESTÁ MALUCO?!
Grissom riu, mas não havia humor nenhum naquele som.
Só desespero.
GG: SARA… EU NÃO POSSO TER FILHOS.
O silêncio caiu como uma bomba.
GG (mais baixo, mas ainda duro): Eu sou estéril.
Fale com o autor