NOS BRAÇOS DO ALFA

3 Capítulo 2 – Cheiro de Destino


A floresta ao redor da mansão estava silenciosa, coberta por um véu suave de neve. O vento passava entre as árvores como um sussurro antigo, mas naquela manhã havia algo diferente no ar.

Logan sentiu primeiro.

"Ela está perto."

— Fica quieto.

"Eu reconheceria esse cheiro em qualquer lugar."

— Eu disse... cala a boca, Logan.

Mas o lobo não se calava. Dentro da mente de Dimitri, o instinto rugia, vibrava, pressionava suas costelas como se quisesse sair.

"Só quero ver. Só cheirar. Uma vez."

— E depois? Você vai querer tocar. E depois disso… o quê, Logan? Você vai me obrigar a sentir de novo?

O silêncio foi momentâneo, mas pesado.

"Você tem medo."

— Eu tenho cicatrizes.

"E se ela for a cura?"

— Ou mais uma faca.

Dimitri travou o maxilar. O azul nos olhos brilhou sutilmente, revelando a guerra interna. Ele estava com os braços cruzados, encostado na varanda da mansão, de onde podia ver o chalé... o chalé novo.

Ali. Onde o cheiro doce de bolo de maçã com canela e café fresco começava a alcançar até os ventos.

Richard e Jonathan chegaram por trás, em meio a uma conversa qualquer sobre estratégia e o novo reforço na patrulha.

— Cara, tá sentindo isso? — Richard fungou. — Isso é... bolo? Café? Amor em forma de aroma?

Jonathan olhou ao redor com calma, mas reparou no olhar fixo de Dimitri.

— Novo vizinho? — perguntou.

"Vizinha" — Logan respondeu, mas foi abafado por Dimitri.

— Só uma humana. Nova funcionária da biblioteca.

Richard abriu um sorriso debochado.

— Humana, hein? Já chegou mexendo com mais do que as panelas…

O olhar de Dimitri foi afiado como uma lâmina. Richard engoliu o restante do comentário com um pigarro e deu dois passos pro lado, disfarçando.

— Só dizendo... parece bom. O cheiro — murmurou, tentando não provocar mais.

Jonathan, sempre observador, notou algo estranho. O brilho nos olhos de Dimitri. A tensão no corpo. A... inquietação.

Mas não disse nada. Ainda.

Do outro lado da clareira, Sofia estava feliz.

Entre caixas abertas, cobertores dobrados e livros organizados por cor e tamanho, o chalé agora tinha vida. As paredes ainda estavam nuas, mas cheias de possibilidades. E a cozinha… bem, ali era onde ela se sentia mais ela mesma.

Ela cantarolava baixinho enquanto misturava a massa. A receita era da mãe — bolo de maçã com açúcar mascavo e canela. O café fervia ao lado, exalando conforto em forma de cheiro.

Sofia abriu a janela um pouco, deixando o vapor escapar com o aroma.

— Pronto, casa... agora você é um lar — disse baixinho, sorrindo.

Na varanda da mansão, Dimitri inalou profundamente, tentando lutar contra a vontade.

— Eu só vou caminhar.

"Claro que vai. Com direção e propósito."

— Logan…

" Anda logo. O bolo pode esfriar."

Dimitri cerrou os punhos e desceu as escadas da mansão.

Com a promessa de que era só um passeio. Só um olhar. Só uma verificação de rotina.

Mas o lobo sabia. A deusa sabia.

O destino… estava apenas começando a assoprar sua brisa quente no inverno do Alfa.

O bolo já estava no forno, o café pronto na garrafa térmica, e Sofia ajeitava as últimas almofadas no sofá quando ouviu.

Passos.

Lentos, firmes... próximos.

Ela parou no mesmo instante. O coração acelerou um pouco, não por medo, mas por curiosidade. Quem estaria caminhando por ali? Daisy não voltaria tão cedo. A vizinhança era tranquila demais para aquele som soar normal.

Sofia caminhou até a porta e a abriu com cuidado. Um vento frio soprou no rosto dela, mas o que a fez prender a respiração não foi o clima.

Foi ele.

Parado a poucos metros, com as mãos nos bolsos do sobretudo escuro, olhos azuis fixos nela, como se tentasse decifrar algo que ele mesmo não entendia. O vento bagunçava os cabelos escuros de um jeito quase artístico. A presença dele era... quase sufocante.

Era ele. O Alfa. O homem que todos respeitavam.

Sofia não esperava sentir aquilo. Um leve aperto no peito, como se estivesse sendo analisada por inteiro. Ela corou, desconfortável sob o olhar dele.

— Posso... ajudar? — ela perguntou, com a voz meio trêmula, mas firme.

Dimitri não respondeu de imediato. Apenas a observou.

Logan, por dentro, estava uivando, pulando, implorando.

"É ela. É ELA. Sinta, toque, diga algo."

"Eu não posso, Logan. Não agora. Não com ela olhando assim."

Mas Logan já se agitava tanto que Dimitri perdeu o fio da respiração. E Sofia, sem saber o que fazer, virou-se rapidamente para voltar pra dentro.

Foi aí que tudo aconteceu de forma rápida demais.

O gelo na entrada.

O pé escorregando.

O corpo dela indo pra trás.

E em meio a isso, braços fortes a envolveram, impedindo a queda.

Sofia abriu os olhos, surpresa.

Dimitri a segurava, próximo o bastante para ela sentir o calor absurdo que emanava dele. Era como ser abraçada por uma fornalha viva — e, de algum jeito, aquele calor... acalmava.

Mas durou pouco.

— Cuidado por onde anda — disse ele, voz grave e fria, soltando-a rapidamente.

Sofia piscou, sem entender a mudança brusca.

— Obrigada… eu acho. — Ela ergueu uma sobrancelha, ainda confusa.

Dimitri apenas se virou e saiu andando rápido, sem olhar para trás.

Sofia cruzou os braços, emburrada:

— Arrogante.

Dimitri caminhava rápido. O lobo rugia por dentro. Queria voltar. Queria senti-la mais.

"VOCÊ A TOCOU! E NÃO FICOU!"

— Eu não posso me perder de novo.

"Ela é o destino."

— Ela é o perigo.

Com os pensamentos em chamas, ele seguiu direto até o campo de treinamento, onde os sons de grunhidos e golpes ecoavam.

Jerry, seu pai, estava no centro, corrigindo a postura de dois jovens.

Ao ver o filho se aproximar com os olhos oscilando entre o azul intenso e o azul brilhante de Logan, Jerry não disse nada. Apenas se afastou dos novatos, levantou o queixo… e expôs o pescoço.

— Vai.

— Pai...

— Eu sei o que está queimando aí dentro.

— Ela...

— Descarrega. Agora.

Foi tudo que precisou. O lobo explodiu.

Dimitri se lançou pra cima do pai com um rosnado gutural.

Jerry o recebeu com firmeza. Não era só um treino. Era o exorcismo de um sentimento que Dimitri estava tentando suprimir.

Cada golpe, cada investida… era a negação de um vínculo que o corpo inteiro dele já reconhecia.

Mas não importava quantos socos ele desse...

O cheiro de bolo e maçã ainda estava lá.

Grudado na pele. E, pior: no coração.