NOS BRAÇOS DO ALFA

4 Capítulo 3 - Sobre Bolos e Cicatrizes


Sofia estava de bico. Literalmente.

Sentada no sofá do chalé, de cobertor nas pernas e um copo de chá nas mãos, ela encarava a parede como se ela tivesse culpa de algo. O cabelo preso em um coque bagunçado, as bochechas levemente coradas… e a aura de revolta silenciosa de quem acabou de ser ignorada por alguém bonito demais para o próprio bem.

Daisy, ao lado, tentava não rir. Tentava. Mas falhava miseravelmente.

— Então... você abre a porta, ele te encara, você quase morre de vergonha, escorrega, ele te salva como um príncipe gelado e... vai embora como um ogro?

Sofia bufou.

— Arrogante. Grossíssimo. Nem um "tudo bem?", nem um "se machucou?"... nada!

— Meu Deus, Sofia. Isso dá um livro. Eu posso ver o título agora: “O Alfa e o Bolo de Maçã”.

Sofia fez um som indignado e escondeu o rosto nas mãos.

— Eu tô tentando ficar irritada, Daisy!

— Desculpa — disse Daisy, rindo tanto que quase deixou o chá cair. — Mas, sério… você faz um bico tão adorável que é impossível levar sua indignação a sério.

Sofia cruzou os braços, mas não conteve o sorriso. Daisy a conhecia demais.

— Ele é o Alfa, né?

— Dimitri Valen. O mais respeitado — e temido — de toda a região.

— E sempre assim? Frio?

— …Nem sempre. — Daisy ficou séria por um momento. — Ele já foi diferente. Brincalhão, provocador, até doce às vezes… mas... algumas feridas vão fundo demais. E o tempo nem sempre cura tudo.

Sofia olhou para o copo em silêncio, os dedos afundados no tecido do cobertor.

Será que alguém pode curar isso?

O pensamento a pegou de surpresa. E com ele, um leve rubor subiu pelas bochechas.

— Sofiaaaa — provocou Daisy, de novo sorrindo — você está corada.

— Eu não estou!

— Está sim. Tá até brilhando!

— Cale a boca, Daisy.

— Caaalmaa, eu só disse que ele é lindo, poderoso e traumatizado. Você, por outro lado, é um raio de sol em forma de gente. Combinação perfeita!

Sofia escondeu o rosto de novo, mas estava rindo. O coração? Um pouco mais aquecido do que antes.

No dia seguinte – Biblioteca em Everbloom Falls

As portas se abriram ao som suave de sinos. Uma nova era começava.

A biblioteca, apesar de pequena, era encantadora. Estantes de madeira clara, luzes pendentes com um brilho quente, mesas de leitura com flores secas em vasos e um espaço especial decorado por Sofia — com almofadas coloridas e livros empilhados em pequenos montes aconchegantes.

Daisy estava de vestido floral e botas, Sofia com uma saia longa, suéter e aquele sorrisinho nervoso de quem estava prestes a viver algo novo.

A cidade apareceu em peso. Lobos curiosos, criaturas de todas as espécies, mães com filhos pequenos, jovens buscando livros... até Ellen passou por lá e entregou um pote de biscoitos.

— Pra adoçar a alma. E se precisar conversar... sabe onde me encontrar.

Sofia apertou a mão da curandeira com carinho. Algo nela a fazia se sentir segura. Como uma mãe que o destino emprestou por alguns instantes.

O dia passou entre cumprimentos, novos cadastros, café quentinho, risadas e olhares curiosos.

Mas, do lado de fora, do alto da mansão…

Dimitri observava tudo.

Logan, inquieto.

O olhar dele preso naquele lugar onde a luz parecia viver agora.

E mesmo à distância… ele sentia o cheiro de maçã outra vez.

~*~

O sol da tarde iluminava as ruas de Everbloom Falls com um brilho suave. A neve derretia devagar, criando pequenos rios gelados entre as pedras da calçada.

Jonathan andava à frente, mãos nos bolsos, passos calmos. Richard ao lado, tagarelando sobre algo que envolvia dois guerreiros desajeitados e um barril de cerveja quebrado. Dimitri vinha atrás, calado, como sempre. Mas seus olhos estavam atentos. E Logan, inquieto.

— Vamos fazer algo útil hoje — disse Jonathan, de repente. — A biblioteca da Daisy abriu. Acho que é hora de fazermos uma visita como bons... vizinhos.

Dimitri grunhiu.

— Isso é uma emboscada.

— Não é não. É apoio emocional — respondeu Jonathan, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.

Richard riu.

— Apoio emocional... e café de graça, talvez?

A campainha da biblioteca soou quando eles entraram.

Daisy, empolgada, largou a prateleira que organizava e correu:

— Aaaaah! Meus lobos favoritos! — Ela pulou no pescoço de Jonathan com um abraço que quase o derrubou. — Sofiaaaaa, vem cá! Quero que conheça três dos idiotas mais queridos dessa cidade!

Do fundo da biblioteca, Sofia apareceu. Usava um vestido leve com um cardigã cinza e uma tiara com pequenos livros decorativos. Um charme. Um problema. Uma faísca.

Dimitri travou. Logan rugiu internamente.

"Ela. Aqui. Agora. Toque nela. Cheire. Reivindique."

— Se você continuar assim, vamos avançar em público.

"Seria tão ruim?"

Sofia parou diante deles e sorriu com leve timidez.

— Oi… sou Sofia. A… a humana.

Richard a encarou e seu sorriso se abriu.

— Uau. Você é pequena. Tipo… muito pequena.

Sofia fez o bico imediatamente.

— Eu sou perfeitamente proporcional, obrigada.

Daisy riu alto, abraçando Sofia de lado.

— Esse bico aí já virou patrimônio da cidade.

Richard fingiu um suspiro dramático.

— Adorável. Parece um biscoitinho bravo.

E, sem pensar, ele tocou o topo da cabeça de Sofia, meio brincando, meio encantado.

Foi aí que aconteceu. Dimitri rosnou.

Um som baixo, gutural, de fazer o chão vibrar.

Todos pararam.

Logan também rosnou por dentro.

"ELE TOCOU ELA. ELE TOCOU. EU VOU…"

— Dimitri — murmurou Jonathan, os olhos arregalados.

Richard, por outro lado, levantou as mãos.

— Calma, Alfa… foi só um toque. Ela não morde. Acho.

Outro rosnado. Mais forte.

Dimitri virou-se sem dizer nada e saiu em passos rápidos, como se o ar da biblioteca tivesse se tornado venenoso.

Do lado de fora, ele pegou o celular e enviou uma mensagem direta a Richard:

“Prepare o relatório da missão de ontem. Aquele que você já entregou.”

Richard soltou um riso abafado e balançou a cabeça.

— Ele surtou. É ciúmes puro.

Sofia, confusa, olhou para a porta.

— Ele é sempre assim… esquisito?

Daisy deu de ombros, rindo.

— Só com você.