NOS BRAÇOS DO ALFA

17 Capítulo 16 – O Nome que Nunca Morreu


A sala da base estava mais silenciosa do que nunca. Jonathan passou os olhos pelas folhas amareladas e digitava com velocidade no notebook à sua frente, até que parou subitamente. O som das teclas cessou, e um silêncio tenso se instalou.

— Encontrei. — sua voz firme quebrou a tensão.

Dimitri se ergueu, os olhos dourados faiscando.

— Fala logo.

— Relatórios antigos… bem antigos. Há registros de dois guerreiros que encontraram uma criança após um ataque em uma padaria no extremo sul da cidade. Não há menção ao autor do massacre, apenas uma frase repetida nos dois relatos: “os olhos eram vermelhos como sangue.”

O ar se rarefez.

Sofia estava sentada, os braços cruzados, mas os olhos fixos no vazio. A lembrança era uma cicatriz viva em sua memória.

— Vlad — sussurrou. — Ele matou meus pais… e me viu.

Richard se encostou na parede, braços cruzados, o rosto fechado.

— Isso explica o ataque. Mas o que ele quer agora?

Sofia mordeu o lábio inferior, pensativa.

— Ele não quer me matar. Pelo menos, não ainda. Ele me quer por causa do meu cérebro.

Jonathan ergueu uma sobrancelha.

— Como assim?

Ela hesitou. Dimitri segurou sua mão, apertando levemente, dando apoio.

— Eu prometi pra minha mãe que nunca mostraria isso a ninguém… Mas agora, se eu posso ajudar, preciso usar o que sei.

Ela se levantou, pegou um caderno e começou a rabiscar na folha em branco com velocidade. Números, esquemas, flechas, nomes. Em menos de cinco minutos, havia montado um plano de ataque com três frentes de cerco para eliminar um clã, usando apenas seis guerreiros — e probabilidades de menos de 2% de erro.

Jonathan e Richard estavam pasmos.

— Isso é genial — disse Jonathan.

— Isso é assustador — comentou Richard, ainda encarando a folha.

Dimitri se levantou lentamente, olhando tudo. Seu olhar, antes tenso, agora carregava um traço de compreensão.

— Se Vlad te pegasse... ele não teria uma rainha. Ele teria uma arma de destruição.

Ela o olhou nos olhos.

— Por isso eu me escondi por tanto tempo. Por isso a minha mãe sempre dizia pra eu fingir ser comum.

Dimitri respirou fundo. Sua postura mudou. O alfa assumiu.

— Isso é maior do que a gente. E ele não está sozinho. Se Vlad voltou, outros virão. Vampiros. Sangue antigo.

Ele se virou para Jonathan.

— Avise o conselho. Vamos convocar todos os líderes de alcatéia. Não podemos enfrentar isso separados.

Jonathan assentiu e saiu da sala com pressa.

Dimitri puxou Sofia para si. Abraçou-a forte.

— Eu vou proteger você, custe o que custar. Mas agora eu entendo... você não é só a mulher que eu amo. Você é a chave. A peça que Vlad quer no tabuleiro. E eu juro... ele nunca vai tocar em você.

Ela o abraçou de volta, o coração acelerado, mas firme.

— Que ele venha. Agora ele vai ver o que acontece quando se mexe com a Luna errada.

E naquele momento, não era mais apenas um amor proibido. Era uma guerra prestes a começar — e Sofia seria o cérebro da resistência.

~*~

A sala de reuniões no coração do território era quase mítica. Circular, com colunas de pedra negra e teto alto, guardava ecos de decisões que mudaram séculos. Naquela manhã, o ar estava denso, carregado pela presença de alfa atrás de alfa, vindos de diferentes regiões. Homens e mulheres de aura feroz, postura imponente, e olhares que avaliavam tudo com desconfiança.

No centro da sala, Dimitri permanecia de pé, em seu posto de liderança. Ao seu lado, Sofia. Cabelos presos, postura ereta, mãos entrelaçadas para não deixar que ninguém visse o leve tremor de nervosismo.

— O que uma humana está fazendo aqui? — rosnou um dos alfas, um brutamontes de barba cheia e olhos acinzentados. — Isso é um conselho de líderes. Não uma excursão turística.

— Cuidado com as palavras, Ário — respondeu Dimitri com voz baixa, mas carregada de autoridade. — Ela é minha Luna. E o motivo de estarmos aqui vivos.

Vários trocaram olhares. Alguns franziram a testa. Outros riram com deboche.

— Isso é uma ofensa à tradição. Luna tem que ser loba — murmurou outra alfa, uma mulher de olhar gélido.

Foi então que Sofia deu um passo à frente. O silêncio caiu como uma pedra.

— Posso ser humana… mas se me deixarem falar cinco minutos, garanto que vão querer ouvir até o fim. Se depois disso acharem que sou inútil, me retiro.

Dimitri apenas a observava. Ele não interferiria. Era o momento dela.

Ário bufou, cruzando os braços.

— Cinco minutos.

Sofia pegou um quadro branco ao lado e começou. Com firmeza e rapidez, desenhou o mapa da região, indicou os pontos frágeis de segurança, rotas de suprimento dos clãs e mencionou as últimas movimentações suspeitas ligadas a Vlad.

— Ele não está apenas atacando. Ele está testando. Ele quer ver como vocês reagem. Se são unidos ou apenas líderes arrogantes divididos pelo ego. — Virou-se para Ário. — E, se me permite a franqueza, está funcionando. Vocês estão discutindo minha linhagem enquanto a ameaça cresce.

Um silêncio pesado caiu.

Ela apontou novamente o quadro.

— Com a ajuda de apenas três alcatéias, conseguimos fazer um cerco com armadilhas que não causam mortes, mas imobilizam. Podemos testar isso em uma área neutra. E isso não é mágica. É lógica. Estratégia.

— Isso é suposição — grunhiu outro alfa.

— Não. Isso é o que Vlad teme — disse Dimitri por fim, a voz baixa e grave. — Ele sabe que com ela, temos algo que ele não tem: inteligência afiada, lealdade incondicional e... o cérebro de uma estrategista que não pensa como um de nós. Ela pensa como ele... e o supera.

O alfa mais velho ali, de cabelos brancos e olhos dourados que pareciam atravessar almas, se levantou.

— Qual o seu nome, garota?

— Sofia.

Ele caminhou lentamente até ela. Sofia sustentou o olhar, sem tremer.

— Você não tem garras. Não tem presas. Mas tem algo mais perigoso: mente fria e coração leal. Ter você ao lado do Alfa Dimitri pode virar essa guerra.

Sofia apenas assentiu.

O ancião se virou para os demais.

— Que os egos fiquem para depois. Estamos diante de uma ameaça ancestral. E eu, Alfa Leone, reconheço a humana Sofia como Luna.

Dimitri sorriu com orgulho. Logan uivava por dentro.

Um a um, os demais alfas — ainda relutantes, mas impactados — deram pequenos acenos ou expressões neutras.

Sofia respirou fundo. Não era só uma conquista pessoal. Era uma declaração ao mundo sobrenatural: ela estava pronta. E nada de sangue ou garras faria com que ela recuasse.