NOS BRAÇOS DO ALFA
12 Capítulo 11 — Entre Barracas e Batimentos Acelerados
O Festival de Equinócio era um dos eventos mais esperados em Everbloom. As ruas estavam tomadas por barracas enfeitadas com luzes delicadas, fitas coloridas dançando com o vento, o cheiro de doces artesanais no ar e sorrisos espalhados como folhas de outono.
Mas o sorriso de Sofia… ah, esse andava meio cansado.
Ela andava de um lado pro outro nos últimos dias, ajudando em tudo que podia: distribuição de materiais, organização das equipes de apoio, até ideias criativas para as crianças. Sua eficiência era tão impressionante que muitos brincavam que ela tinha uma mente abençoada por deusa. E bem… não era exatamente mentira.
— Você é uma Luna de dar orgulho — dissera Ellen na véspera, ao ver Sofia acalmando dois lobinhos briguentos apenas com um olhar doce e um tom calmo.
Mas nem mesmo o carinho da alcatéia inteira estava aplacando o aperto no peito que crescia cada dia mais.
Dimitri andava sumido.
Claro, ele estava ali, em Everbloom. Em algum lugar.
Mas não com ela.
Ele saía antes do sol nascer, com fones no ouvido, roupas táticas, e voltava tão tarde que mal conseguia tirá-la do sofá antes de carregá-la sonolenta para a cama. O olhar cansado dele misturado ao sorriso de “só mais um dia e tudo estará pronto” não ajudava muito com a saudade.
Na manhã do festival, Sofia vestiu seu vestido favorito: azul clarinho, com pequenos detalhes florais e uma fita branca marcando a cintura. Prendeu os cabelos num rabo bagunçado, deixou os olhos com um delineado suave e saiu com Daisy para aproveitar o evento — ou melhor, procurar um certo Alfa encrenqueiro.
— Por que está com essa cara de cachorro sem dono? — provocou Daisy, entregando a ela um morango mergulhado em chocolate.
— Não estou com essa cara... — Sofia deu uma mordida tímida na fruta, tentando disfarçar o olhar perdido entre as barracas.
— Tá sim. Olhos de Luna órfã de Alfa. A senhorita não vive mais sem ele, hein?
— Daisy!
— O quê? Vai negar? Desde que ele sumiu pro “modo segurança”, você tá suspirando por cada canto da cidade. Faltou pouco pra você pendurar uma plaquinha: “Procura-se um Alfa alto, suado e perigosamente gostoso.”
Sofia fez um bico adorável, os olhos semicerrados.
— Eu só queria vê-lo. Uns 10 minutos, já tava bom…
— Aposto que 10 minutos é tempo suficiente pra ele te deixar sem andar de novo.
— DAISY!
As duas riram.
Na torre de vigilância improvisada ao lado do palco central, Dimitri observava tudo.
Óculos escuros, uniforme preto, fone no ouvido esquerdo, mapa da cidade atualizado em tempo real na mão.
E Logan… bem, Logan estava mais dramático do que novela mexicana.
"Ela tá linda… será que ela já sentiu nossa falta?"
— Sim, Logan.
"Será que ela pensou na gente?"
— Ela respira pensando em você.
"Será que ela sente o cheiro da nossa ausência?"
— Você quer que eu pule daqui ou você vai calar a boca?
Mas mesmo com a rabugice, o coração dele estava apertado. Ver Sofia andando por ali, com os olhos procurando por ele… era mais do que ele podia aguentar.
Lá estava ela, a poucos metros, rindo com Daisy, os dedos lambuzados de chocolate e um olhar que procurava com fome, mas também com amor.
E naquele instante… Dimitri soube:
Mesmo com a cidade inteira diante dele, ela era tudo o que importava.
~*~
A música ainda ecoava pela praça central. Crianças corriam com doces nas mãos, casais riam em barracas de jogos e o cheiro de comida pairava no ar como um abraço aconchegante. Mas nem mesmo toda a beleza do Festival de Everbloom conseguia preencher o vazio que Sofia sentia no peito.
Ela se afastou um pouco da agitação, buscando um cantinho tranquilo onde pudesse se recompor. E encontrou: um banco de madeira pintado de branco, sob uma cerejeira em plena florada. O contraste das pétalas rosadas com o céu azul era digno de um quadro — mas nada, nada mesmo se comparava ao desejo que ela sentia naquele momento.
Desejo de ver seu Alfa.
Ela apertou o casaco contra o corpo, olhou o relógio e soltou um suspiro carregado de saudade.
— Eu só queria... dez minutinhos com ele — murmurou, olhando as pétalas caírem suavemente ao seu redor.
— Você tem quinze.
A voz firme, grave e deliciosamente rouca fez seu corpo inteiro reagir.
Ela se virou num pulo, e lá estava ele.
Dimitri.
Uniformizado, tático, másculo até dizer chega. As mangas da blusa puxadas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes e veias salientes. Os cabelos levemente bagunçados pela correria do dia. Os olhos — ah, os olhos — mais intensos do que ela lembrava. E nas mãos? Um croissant recheado e dois cafés.
— Tava com saudade — ele disse, simples assim, como se estivesse narrando uma missão. Mas os olhos… os olhos diziam preciso de você mais do que de ar.
Sofia, com aquele jeitinho único, o encarou por alguns segundos. Depois abaixou o olhar para o croissant e café… e voltou pro uniforme.
— Você… você fica ridiculamente… — ela travou.
— Ridiculamente o quê?
— Ridiculamente sexy com essa roupa, tá bom? Pronto, falei! — disse ela, corando até a alma.
Dimitri arqueou uma sobrancelha, um sorriso ladino surgindo nos lábios, e então…
"Ela nos acha sexy."
Logan cantou dentro da cabeça dele, claramente se abanando com uma toalhinha imaginária.
"Posso beijá-la agora? Posso? Só uma lambidinha no pescoço?"
— Calado, Logan.
Mas era tarde demais.
Dimitri se abaixou ao lado do banco, entregando o café, e Sofia só conseguiu respirar fundo, tentando não derreter. O calor que ele emanava, mesmo no friozinho da cidade, fazia qualquer pensamento racional fugir.
— Achei que estivesse ocupado — disse ela, a voz falha.
— Pedi pro Richard cobrir meu posto. Quinze minutos. Ele fez piada. Dei um soco. Tá tudo certo.
Sofia não segurou a risada. E naquele momento, com a cerejeira acima deles, a cidade em festa ao redor, e o olhar de Dimitri colado no dela como se ela fosse a única coisa que importava no mundo…
Ela soube que aqueles quinze minutos valeriam uma eternidade.
— Então… — ele disse, tomando um gole do próprio café. — Vai me dar um beijo de reencontro ou vai me deixar morrendo de saudade por mais uma semana?
Sofia mordeu o lábio, inclinou-se devagar, e… beijou ele.
Daquele tipo que começa suave, como um reencontro tímido… mas termina como um grito de amor não dito. Os dedos dele na nuca dela, os dela no uniforme dele. Logan urrando de satisfação no fundo da mente. E Sofia? Rindo baixinho no meio do beijo, dizendo:
— Isso foi mais de dez minutos.
— Então aproveita, minha pequena. Ainda restam quatro. E eu sou excelente em aproveitar o tempo.
O beijo ainda pairava nos lábios de Sofia como um sussurro quente. O gosto do café misturado ao do croissant mal tinha tempo de ser apreciado. O que ela mais sentia era ele — Dimitri — e o modo como seus olhos pareciam devorar cada reação dela como se fosse a primeira e a última.
Eles ainda estavam próximos, quando…
— Ahn... desculpa interromper a novela das seis, mas... é muito café pra um casal só?
Daisy.
A voz veio seguida de uma risadinha contida, daquelas que dizem eu avisei. Ao lado dela, Ellen, com os braços cruzados, e Richard, com aquele sorriso malandro que vinha com legenda embutida: sabia que vocês tavam nesse chamego escondido.
— Finalmente, né? Já ia começar a apostar com os anciãos se esse Alfa ia tomar vergonha — comentou Richard, pegando o croissant de Sofia sem nem pedir.
— Ei! — ela protestou. — Isso era meu!
— Não mais. Você tava ocupada trocando saliva e promessas de amor eterno — respondeu ele, com um tom teatral, levando uma cotovelada da Daisy.
Dimitri se endireitou, secando a garganta e tentando — veja bem, tentando — parecer sério e imune ao constrangimento.
— Richard… quer morrer hoje?
— Um pouco. Mas valeu a pena, chefe.
Daisy, rindo mais ainda, puxou Sofia pelo braço.
— Venha, pecadora. Vamos fingir que você não tava a um suspiro de montar nesse homem na frente da praça central.
— DAISY! — Sofia gritou, toda vermelha, tapando o rosto com as mãos.
Ellen sorriu, com aquele ar de quem sabia mais do que dizia, e lançou para Dimitri um olhar tranquilo e cúmplice.
— Bom… pelo menos agora ninguém pode fingir que não sentiu o cheiro. Acho que o mundo finalmente entendeu que ela é sua. — E completou, rindo para Sofia — E que sorte a sua, menina. Porque ser amada por um Alfa como o Dimitri… é ter o mundo inteiro nas mãos.
Sofia arregalou os olhos, prestes a responder algo, mas Richard já estava sendo arrastado por um Jonathan rabugento que surgiu do nada só pra manter a ordem da matilha.
Dimitri apenas ficou ali, parado por um momento, com o segundo café ainda quente na mão.
Ele olhou pro céu. Respirou fundo.
— Quinze minutos eu disse.
Mas com ela, quinze minutos… nunca serão o suficiente.
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