NOS BRAÇOS DO ALFA
5 Capítulo 4 – Entre Sorrisos e Contradições
Dois meses.
Sessenta dias em que Everbloom Falls se tornara lar para Sofia de uma forma que ela nunca imaginou.
A biblioteca florescia, como as plantas que insistiam em nascer mesmo no frio. As crianças vinham todos os dias. Os adultos começavam a se reunir para leituras noturnas. E, dentro desse pequeno mundo de páginas e café quente, Sofia encontrou algo que jamais teve antes: pertencimento.
E amigos.
Ellen, com seu olhar acolhedor, era como uma mãe discreta. Quando Daisy implicava demais — o que era um talento dela —, Sofia sempre dava uma “passadinha rápida” na clínica… que durava horas. Conversavam sobre tudo: livros, temperos, tipos de chá e até sobre como lobos podiam ser mais teimosos que o frio do norte.
Jonathan, calado, sério, mas um verdadeiro gênio do xadrez. Sofia descobrira isso quando um dia, de brincadeira, desafiou-o para uma partida e ele a derrotou em dez movimentos. Desde então, os dois jogavam sempre que podiam — e, surpreendentemente, Sofia estava aprendendo a prever as jogadas dele. Quase.
Richard? Um caso à parte.
Era o irmão mais velho que ela nunca pediu, mas agora não sabia viver sem. Ele implicava, chamava de “miniatura literária”, bagunçava seu cabelo, roubava biscoitos que ela fazia… e era também quem a protegia quando algum visitante olhava demais para ela.
Mas Dimitri…
Ah, Dimitri era o caos encarnado em forma de Alfa.
Sempre distante. Sempre frio. Mas com aquelas malditas exceções.
Uma vez, ele passou na biblioteca com Jonathan e notou um fio de cabelo dela caindo no rosto. Em silêncio, estendeu a mão e o tirou com a ponta dos dedos. O toque foi leve, breve… mas fez a espinha dela arrepiar até o dedão do pé.
Na semana seguinte, ele apareceu na porta do chalé quando ela estava varrendo a neve com um gorro ridiculamente torto.
— Você quer perder uma orelha? — ele disse, ajeitando o gorro.
— Eu tô bem! — Sofia resmungou.
— Está horrível. Ninguém com bom senso se aquece assim.
— Ué, você veio me dar dicas de moda?
— Vim ver se a criatura que não sabe usar gorro ainda estava viva.
E saiu andando. Como se não tivesse acabado de cuidar dela… e insultá-la em uma mesma frase.
Sofia não sabia o que sentir. Mas sabia que aquilo não era normal.
E ele?
Dimitri estava entrando em colapso silencioso.
Logan rugia constantemente. Cada risada dela ecoava nos ossos.
Cada vez que ela abraçava Daisy, ria com Richard ou fazia careta jogando com Jonathan… o lobo queria avançar. Queria tirar todos de perto. Queria ela.
"Por que ela tem que ser tão fofa? Por que ela sorri o tempo todo? Por que ela tem que cheirar como lar?"
O vínculo com Sofia era diferente.
Mais forte. Mais quente.
Era como se o universo inteiro dissesse “agora não tem escapatória”.
E Dimitri? Tinha medo.
Porque ele sabia: quanto mais se aproximasse... não haveria volta.
E se ela rejeitasse também?
E se ela partisse?
Ele não sobreviveria. Não mais.
~*~
A manhã em Everbloom Falls estava especialmente bonita.
O céu limpo, o vento gentil e a neve mais fina do que de costume.
Sofia, animada, decidiu fazer uma trilha curta que ficava nos arredores da cidade. Nada perigoso. Apenas um momento para espairecer, sentir o ar puro e ouvir os próprios pensamentos.
Deixou uma mensagem para Daisy:
“Trilha leve, já volto. Não surta. Levo café se voltar viva. — S.”Vestiu-se com cuidado, gorro e cachecol no lugar, tênis apropriado… e partiu.
Por um tempo, foi tudo como ela imaginava: árvores altas, galhos estalando sob seus pés, o canto suave de pássaros, a paz que só a solidão tranquila consegue oferecer.
Mas então...
Um cervo surgiu de repente entre os arbustos, assustado, e correu bem na frente dela.
Sofia deu um passo em falso, tentou se segurar em uma raiz… mas era tarde demais.
O chão sumiu.
O corpo caiu.
A cabeça bateu em algo. E o mundo apagou.
Na mansão, Dimitri estava revisando mapas com Jonathan, quando uma dor pontuda, incômoda, se instalou entre os olhos. O tipo de dor que vinha do nada... e dizia tudo.
— Logan...?
"Ela. Algo aconteceu."
— Como você…
"Não me faz perguntas. Corre."
Dimitri se levantou sem pensar.
Jogou a camisa no chão, saiu da varanda, e em segundos, Logan assumiu.
A transformação foi rápida, fluida. O lobo negro, gigante, com olhos azuis vibrando, correu pela floresta como se o mundo dependesse disso.
E talvez… dependesse mesmo.
Minutos depois, Logan parou bruscamente. O focinho se mexeu. O coração disparou.
Ali, entre arbustos, galhos quebrados e uma fina camada de neve, ela estava.
Sofia.
Pálida. Inconsciente. Com o rosto machucado, roupas molhadas e o corpo tremendo de frio.
Logan soltou um rosnado de puro desespero.
"Ela vai morrer se não fizermos algo AGORA."
Ele a pegou com cuidado nos dentes, protegendo-a entre o pescoço e o peito, e correu de volta.
Na mansão, Ellen chegou rapidamente.
— O que aconteceu?! — ela perguntou ao ver Dimitri com Sofia nos braços, deitado no sofá da sala principal, tremendo mais que ela.
— Ela caiu. Estava gelada… não respirava direito. Eu... — a voz dele falhou.
Ellen se aproximou, fazendo um rápido exame. A testa, o pulso, os machucados.
— Não foi grave. Ela bateu a cabeça, sim. Mas está estável. Só precisa… — ela sorriu — ser aquecida.
Dimitri não respondeu. Apenas a segurou com mais força contra o peito.
— Vou preparar algo quente. — disse Ellen, piscando para o filho — Mas acho que o melhor cobertor ela já tem.
Ela saiu em silêncio.
Dimitri permaneceu ali.
Deitado ao lado dela. Os corpos colados. O peito dele funcionando como um escudo térmico.
O calor dele sendo a única chama viva que a mantinha aquecida naquele instante.
Os olhos dele não deixavam o rosto dela.
E Logan, por dentro, estava finalmente… em paz.
"Ela está segura. Aqui. Onde deveria estar."
— …E se ela não quiser ficar?
"Então a gente vai lutar até ela querer."
Dimitri encostou o rosto no cabelo úmido de Sofia e sussurrou:
— Não me assusta assim de novo, baixinha.
Fale com o autor