NOS BRAÇOS DO ALFA

6 Capítulo 5 – Confissões e Bochechas Quentes


O primeiro sinal que Sofia teve de que estava viva foi o cheiro.

Amadeirado. Quente. Familiar.

O segundo sinal foi o calor. Uma sensação reconfortante de estar envolvida por algo — ou alguém. Como se estivesse deitada num cobertor gigante feito de músculos e proteção.

Ela sorriu, de olhos fechados, e se aconchegou mais naquele calor.

A pele dela tocou pele quente.

O rosto roçou em tecido grosso.

O som de uma respiração calma perto do ouvido dela fez o coração bater um pouco mais rápido.

Foi então que ela parou.

Espera… onde estou? O que é isso?

Seu corpo enrijeceu. O coração acelerou. E por um segundo, ela teve medo de abrir os olhos e encontrar algo desconhecido… ou pior: conhecido demais.

Mas então ela ouviu.

Uma risada suave. Baixa. Quase mágica.

— Se continuar fazendo essa cara de dúvida, vai explodir — disse uma voz rouca, divertida… que ela conhecia muito bem.

Dimitri.

Sofia arregalou os olhos num pulo, o que foi um erro. A cabeça latejou na mesma hora.

— Ai… — ela gemeu, levando a mão à testa e fazendo um bico dolorido.

Dimitri franziu os lábios, mas Logan rugia de adoração por dentro.

"O bico. De novo o bico. Eu não aguento esse bico."

Ele não disse nada por alguns segundos, apenas estendeu o dedo e catucou a bochecha dela de leve.

— Viu? Você ainda está viva. E resmungando, como sempre.

Sofia o olhou com uma mistura de indignação e confusão.

— O que... aconteceu?

— Você caiu — ele disse, mais sério. — Na trilha. Bateu a cabeça. Estava inconsciente quando te encontrei.

Ela ficou em silêncio. Então olhou ao redor e notou que estava no quarto dele. A lareira acesa. A cama enorme. E… eles estavam dividindo o espaço.

— Você me trouxe pra cá?

— Sim.

— E ficou comigo?

Dimitri desviou o olhar.

— Você precisava de calor.

— E cobertores não eram suficientes?

— Claramente não tão bons quanto eu.

Sofia fez uma careta.

— Arrogante.

Dimitri olhou de volta pra ela. Sério.

— Imprudente.

— Eu deixei um bilhete pra Daisy — disse ela, cruzando os braços. — Eu sabia o caminho. Era uma trilha segura.

— Você estava sozinha.

— Você não manda em mim, Alfa.

Dimitri se inclinou um pouco, os olhos azuis intensos, um brilho estranho neles.

— Talvez não. Mas isso não significa que eu não me importe.

Sofia ficou em silêncio. E então, baixinho:

— Mas… você nem gosta de mim. Vive me ignorando. Me trata como se eu fosse… irritante.

Foi aí que Dimitri falou.

Com a voz baixa. Ferida. Honesta.

— Eu gosto, Sofia. Mais do que deveria. E é exatamente esse o problema.

Ela arregalou os olhos. O coração bateu mais forte.

— Eu tô lutando com tudo o que tenho pra não me deixar levar. Porque da última vez que eu me entreguei… Eu fui destruído.

Ele desviou o olhar, como se admitir aquilo fosse arrancar um pedaço dele.

— E você… com seu sorriso. Sua voz. Esse seu jeito irritantemente fofo… Você tá me matando um pouco mais a cada dia.

Sofia o encarava, sem palavras.

Dimitri inspirou fundo.

— Então se eu sou estranho. Se eu me afasto. Se eu implico com seu gorro torto ou com seu jeito de se aquecer… É porque eu tô tentando me proteger de novo.

— E tá funcionando? — ela perguntou, a voz suave.

Dimitri a olhou por um longo momento.

— Não. Não tá funcionando nem um pouco.


~*~


O chalé estava silencioso.

Sofia estava sentada no sofá, com um cobertor até o queixo e um curativo discreto na cabeça.

Na frente dela, Daisy andava de um lado para o outro, braços cruzados, cara fechada. Ao lado, Jonathan, quieto como sempre, mas com uma sobrancelha arqueada e os braços também cruzados. Era o combo sermão de casal alfa-beta — e ela não tinha escapatória.

— Você achou mesmo que fazer uma trilha sozinha, no meio da neve, com um histórico de “atrair confusões místicas” era uma boa ideia? — disparou Daisy, indignada.

— Eu deixei um bilhete... — Sofia tentou justificar.

— Um bilhete, Sofia? Um bilhete? Isso aqui não é filme de sessão da tarde! Se você tivesse caído mais feio... se o Logan não tivesse sentido...

— Daisy — Jonathan interrompeu, calmo. — Respira. Você tá parecendo a Ellen agora.

Obrigada. — Sofia murmurou, sarcástica.

— Não agradece ainda, mocinha! — Daisy retrucou. — Porque se o Alfa teve que literalmente deitar com você pra te aquecer, é porque a situação foi séria!

Sofia ficou vermelha até as orelhas.

— N-não foi assim...

Jonathan finalmente falou, sério:

— Você importa pra gente. Isso não é sobre controle. É sobre proteção. E isso... — ele apontou para o curativo — não pode acontecer de novo.

Daisy bufou, pegou as coisas dela, deu um beijo na testa de Sofia (com exagero proposital) e disse:

— Se ousar sair sem avisar de novo, eu vou colar um GPS mágico em você. E vai ser rosa.

Jonathan apenas acenou e a seguiu porta afora, lançando um último olhar firme, mas protetor.

O silêncio voltou.

A luz suave da lareira lançava sombras nas paredes enquanto o cheiro leve de ervas ainda pairava no ar

Sofia puxou o cobertor mais para cima, o coração apertado.

Ele gosta de mim. Ele disse isso. Mas... será que é suficiente? Será que ele vai deixar alguém cuidar dele também? Será que vai se permitir ser amado de novo?

Ela suspirou, afundando no sofá, quando a campainha soou.

Levantou-se devagar e abriu a porta.

Ellen estava ali, com um sorriso gentil e uma torta coberta de morangos reluzentes em uma bandeja linda.

— Trouxe reforço emocional. E açúcar.

Sofia quase chorou de alegria.

— Isso é torta de morango?

— Com cobertura tripla. Soube que você gosta.

Gosta? — Sofia abriu espaço para ela entrar. — Eu venderia minha alma por essa torta.

Ellen riu, já indo em direção à cozinha para colocar as coisas na mesa.

As duas se sentaram, e após algumas mordidas e um chá preparado com carinho, a conversa se tornou leve.

Livros, plantas, receitas... até que, depois de um pequeno silêncio, Sofia abaixou os olhos e sussurrou:

— Eu gosto do seu filho, sabe?

Ellen ergueu as sobrancelhas com um sorrisinho.

— Eu imaginei. Você olha pra ele como se ele fosse feito de páginas raras de um livro antigo.

Sofia ficou vermelha.

— É só que... ele é confuso. Quente num momento, gelado no outro. E... quando ele disse que gostava de mim, mas tinha medo... isso ficou na minha cabeça. Eu só não sei se posso... curar alguém tão machucado.

Ellen segurou a mão dela com carinho.

— Às vezes, não é sobre curar. É sobre estar ali. O simples fato de você não ter desistido dele já está fazendo mais do que qualquer magia poderia.

Do lado de fora da casa, Dimitri estava passando pela trilha que contornava o chalé quando ouviu a conversa.

Ele parou.

Logan ficou em silêncio total... e depois começou a rosnar baixinho de alegria.

"Ela gosta da gente. Ela se importa. E... ELLEN GOSTA DELA!"

Dimitri fechou os olhos, inspirou o ar gelado e exalou devagar.

O cheiro de morango com açúcar e... Sofia, preenchia o ar.

Ele sorriu. Apenas um pouco.

Mas Ellen, lá dentro, ergueu o rosto como se sentisse algo.

— Acho que tem lobo rondando o chalé.

— Você acha que é perigoso? — Sofia perguntou, preocupada.

Ellen sorriu com os olhos.

— Não. Acho que é... apaixonado.