NOS BRAÇOS DO ALFA

2 Capítulo 1 – Entre Flores e Neve


A neve caía em flocos preguiçosos sobre os telhados de Everbloom Falls, como se o céu estivesse com sono e apenas quisesse ver tudo coberto de branco mais uma vez. As árvores dançavam com o vento leve, e o som distante do riacho era o único ruído além do silêncio pacífico da manhã.

Daisy estava de pé no centro da pequena construção de madeira que, em poucos dias, se tornaria a primeira biblioteca de Everbloom Falls. O cheiro de madeira recém cortada e livros antigos já preenchia o ar. Ela estava com um avental sujo de tinta e poeira até o nariz, empilhando obras em prateleiras ainda tortas, cantarolando baixinho uma música sem melodia.

O som da porta se abrindo devagar fez com que ela se virasse, e então, ali estava ele: Jonathan, parado com a expressão séria de sempre, mas segurando algo inusitado nas mãos, um buquê de flores silvestres, embrulhado em papel rústico.

— Se isso for pra mim, você está prestes a quebrar o coração de metade das lobas da cidade — disse Daisy, com um sorriso maroto.

Jonathan ergueu uma sobrancelha, mas os olhos castanhos suavizaram.

— Não quebrei nada. Só trouxe porque achei que combinava com o lugar.

Daisy pegou o buquê com delicadeza, sentindo o perfume leve das flores.

— A biblioteca agradece o carinho. E eu também, claro.

Os dois se sentaram entre caixas de livros.

— Vai dar trabalho — ele comentou, olhando ao redor.

— Tudo que vale a pena dá — ela respondeu, sorrindo. — Inclusive você.

Jonathan não respondeu. Mas um canto de sua boca se ergueu.

— Aliás — Daisy disse, enquanto folheava um livro —, minha amiga chega em três dias. Lembra da Sofia? Aquela do orfanato?

— A humana? A estudiosa?

— Ela mesma. Vai me ajudar aqui. Prometi que teria livros esperando por ela.

— E você sempre cumpre promessas. — Ele assentiu. — Vai ser bom ver rostos novos.

Daisy apenas sorriu. Mal sabia ele que aquele “rosto novo” seria o centro do terremoto que viria.

Do outro lado da cidade, Dimitri estava parado diante da sacada de sua casa. A neve caía sobre seus ombros, mas ele não sentia frio. Nunca sentia. O corpo quente, a pele fervente — um reflexo do que ele era. Ou do que tentou esquecer.

Mas naquele instante, ele sentia algo diferente. Uma pressão leve no peito. Uma inquietação sutil.

E então, depois de dois anos de silêncio...

Logan falou.

"Elas fizeram algo."

— Selene e Atena? — Dimitri murmurou, com o maxilar travado.

"Sim. E desta vez… parece mais especial."

Dimitri apertou os olhos, o azul intenso neles piscando com mais força por um segundo.

— Eu não quero isso.

"Não é questão de querer. É questão de destino."

— Eu não aguento outro golpe, Logan.

"Talvez… não seja mais sobre sobreviver. Mas sobre viver."

Dimitri não respondeu. Apenas virou o rosto, observando a neve que caía.

Mas por dentro, algo se mexia. Logan estava acordado. E o lobo sabia , algo vinha aí.

Três dias depois…

Na estação de entrada de Everbloom Falls, o mundo parecia feito de gelo e silêncio.

E então, surgiu uma figura… pequena, completamente coberta. Um casaco cinza quase engolia o corpo, luvas grossas, gorro peludo, cachecol envolvendo metade do rosto.

Só os olhos estavam visíveis. Verdes. Intensos. Gentis.

Sofia.

Ela tremia dos pés à cabeça, segurando a mala como se a vida dependesse disso.

— MARSHMALLOW AMBULANTE! — uma voz familiar ecoou antes que ela pudesse dar mais um passo.

Sofia virou e viu Daisy correndo em sua direção, braços abertos, sorriso radiante.

O abraço das duas aqueceu mais do que qualquer jaqueta.

— Você não mudou nada — disse Daisy, apertando o rosto dela.

— E você continua tendo gosto duvidoso pra apelidos — rebateu Sofia, com um sorriso entre os dentes.

— Você está congelando. Vem, vamos direto pra casa. Tenho chá, cobertor, e…

— Livros?

— Uma pilha deles.

Sofia riu, aliviada. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que estava exatamente onde deveria estar.

E lá de longe…

Dimitri sentiu um leve calor pulsar no peito.

— Logan?

"Ela chegou."

~*~

O chalé era pequeno, mas parecia saído de um sonho antigo.

Paredes de madeira clara, janelas com moldura branca, uma pequena varanda com vasos de flores congeladas pelo inverno e um telhado coberto por uma camada gentil de neve. Do lado de dentro, uma lareira apagada, estantes vazias esperando por livros e uma xícara esquecida no balcão da cozinha — cortesia de Daisy, claro.

Sofia parou diante da porta com as mãos nos bolsos, observando tudo com olhos encantados.

— Isso tudo é... meu? — ela murmurou, sem acreditar.

— Por enquanto, é nosso. Até você deixar seu cheiro em tudo — respondeu Daisy com um sorriso, se aproximando por trás e envolvendo a amiga num abraço apertado, abaixando-se um pouco para encaixar o queixo no topo da cabeça de Sofia. — E sim, marshmallow, é todo seu.

Sofia riu, abafado no cachecol.

— Você não cansa desses apelidos?

— Nunca.

As duas riram juntas.

Sofia entrou, girando lentamente, olhando cada detalhe, como se quisesse guardar aquilo na memória para sempre. Ao sair pela porta dos fundos, o terreno se abria para uma pequena clareira… e logo adiante, erguia-se a mansão.

A estrutura era imensa, com arquitetura firme e elegante. Uma mistura de rustico e moderno — tudo com um ar imponente e quase ancestral. Um sopro de poder parecia emanar dela. Algo… difícil de explicar.

— Que lugar é esse? — Sofia perguntou, quase sussurrando.

Daisy, ao seu lado, cruzou os braços.

— É a mansão do Alfa. Nosso líder. O homem mais temido da cidade.

Sofia piscou, surpresa.

— Ele mora… ali?

— Uhum. Bem ali.

— E ele é… sempre assim tão discreto?

Daisy soltou uma risada curta.

— Discreto? Não exatamente. Dimitri não precisa aparecer pra ser notado. Você vai entender quando olhar nos olhos dele.

Sofia franziu o cenho, encarando a casa mais uma vez. Algo dentro dela se agitava, como se o lugar tivesse um coração… e ele estivesse batendo no mesmo ritmo que o dela.

Tem algo especial aqui.

Ela não sabia o quê. Mas sabia que era real.

Depois de ajudar a desempacotar algumas roupas e organizar as primeiras caixas, Daisy puxou Sofia pela mão.

— Vem, você vai amar a cidade. E eu prometo não te congelar até a morte. Talvez.

Sofia pegou o cachecol e riu:

— Com você ameaçando? Acho que o frio é o menor dos problemas.

A cidade de Everbloom Falls parecia ter saído de uma pintura. Casas charmosas, ruas de pedra, luzes suaves nos postes, e criaturas andando lado a lado — bruxas, faes, lobos, ninfas... todos em paz.

Daisy a levou até uma construção maior, com janelas amplas e uma placa pendurada: Clínica Selene.

Lá dentro, o ar era quente e cheirava a chá e ervas. E então, Ellen apareceu.

— Daisy — disse, sorrindo com o carinho de uma mãe — e... quem é essa bonequinha congelada?

Sofia ficou vermelha.

— Sofia. Eu sou amiga da Daisy, acabei de chegar…

Ellen a observou com atenção. Seus olhos cor de mel pareceram enxergar mais do que o exterior. E então, ela sorriu com um carinho quase reverente.

Ela se aproximou e segurou as mãos de Sofia entre as suas.

— Bem-vinda a Everbloom, querida. Que Selene te guie e te proteja… embora, no seu caso, talvez ela tenha outros planos.

Sofia sorriu, um pouco confusa, mas aquecida por dentro. Ellen, porém, a observava com outro olhar.

Abençoada por Atena. Coração gentil. A luz que pode guiar o lobo perdido de volta ao caminho.

Ela não disse isso em voz alta.

Mas ao virar-se para uma prateleira, Ellen sussurrou para si mesma:

— Obrigada, Selene… essa menina vai mexer com o meu filho.