NO LIMITE DO ATRITO
13 Uma única equipe
Notas iniciais
Capítulo 13:Uma única equipe.
🏎️ POV BELLA
O bip cadenciado dos monitores cardíacos era o único som que cortava o silêncio denso da UTI. Minha cabeça parecia pesar toneladas, tomada por um nevoeiro denso fruto do impacto brutale dos analgésicos. Minha boca estava seca, com um gosto metálico amargo, e cada respiração profunda ainda trazia um incômodo sutil no peito.
Pisquei devagar. A luz branca do teto desfocou minha visão por alguns instantes até que o teto do hospital se tornasse nítido. A imagem das chamas em Suzuka, o calor escaldante e o cheiro de combustível queimado voltaram como uma avalanche na minha mente.
Girei a cabeça com rapidez no travesseiro, o coração disparando e fazendo o monitor apitar mais rápido.
— Meu Deus... Pai... o Edward! — exclamei, minha voz saindo rouca, trêmula e carregada de pavor. — Ele me tirou de dentro do carro... Ele tá bem?! Por favor, me diz que ele tá bem!
Charlie, que estava sentado ao lado da cama com a cabeça baixa e as mãos cobrindo o rosto, ergueu o olhar. O semblante dele estava devastado, com olheiras profundas e os olhos vermelhos. Ele não disse uma palavra de imediato. Apenas deu um suspiro longo e fez um leve movimento com o queixo em direção ao vidro do quarto de observação.
Acompanhei o gesto. Do outro lado da janela da UTI, em pé no corredor, estava Edward. Ele parecia exausto, com marcas de fuligem na pele perto do cabelo e os braços enfaixados por baixo da jaqueta, mas os olhos verdes dele estavam cravados em mim, brilhando com uma intensidade que fez meu peito apertar.
No momento em que nossos olhares se cruzaram através do vidro, ele ignorou qualquer orientação dos enfermeiros, empurrou a porta de acesso e entrou no quarto. Ele não se importava com os flashes das câmeras que ainda espionavam ao longe no final do corredor, nem com as regras do hospital, e muito menos com a presença intimidadora do meu pai.
Edward caminhou até a minha cama e segurou minha mão com as duas dele, entrelaçando nossos dedos com força. O toque quente dele contra a minha pele fria foi o único chão firme que encontrei naquele mar de confusão.
— Eu tô aqui, amor...— Edward murmurou, a voz embargada, levando minha mão aos lábios e beijando os nós dos meus dedos. — Eu não vou a lugar nenhum.
Inspirei fundo, sentindo uma onda de alívio me inundar, mas a postura do meu pai ao lado do leito continuava rígida. Charlie nos observava com uma mistura de posse, dor e um cansaço que parecia envelhecê-lo dez anos.
— Você quase morreu, Bells — Charlie falou, a voz falhando, carregada de uma severidade trêmula. — Na mesma curva. Da mesma forma. Eu passei as últimas horas revivendo o pior dia da minha vida... Vendo a telemetria do seu carro ir a zero exatamente onde o Emmett se foi. Chega. Acabou. Você não vai voltar para aquela pista. Não vou deixar essa corrida tirar mais um filho de mim.
— Pai... — tentei argumentar, mas a fraqueza na minha voz me traiu.
— Você não tem mais o direito de brincar com a sua vida, Bella — Charlie interrompeu, encarando-me com uma gravidade que me congelou por dentro. — Não é só sobre você mais.
Franzindo a testa, olhei de Charlie para Edward, completamente perdida.
— Do que você tá falando, pai?
Charlie engoliu em seco. A armadura do homem forte da Swan-Black rachou por completo. Ele olhou para as nossas mãos dadas, a minha e a de Edward, e depois voltou os olhos para mim.
— O impacto do acidente foi devastador, mas os médicos conseguiram conter os danos — disse ele, a voz baixinha. — O seu corpo estava lutando por dois, Bella. Você... você está grávida.
O quarto pareceu girar.
Grávida?
A palavra ecoou no meu cérebro como um trovão. Minha mão livre instintivamente voou para a minha barriga ainda reta sob o lençol do hospital. Olhei para Edward, buscando confirmação, e vi as lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto dele. Ele sabia. Ele já sabia.
Um turbilhão de emoções me atingiu de uma só vez: um choque paralisante, seguido por um medo avassalador ao pensar no fogo, na explosão e no perigo ao qual expus uma vida sem nem saber. Mas, logo abaixo de todo o pavor, uma fagulha de alegria contida, quente e profunda, acendeu no fundo do meu peito. Era o nosso filho. Um milagre que tinha sobrevivido à tragédia de Suzuka.
Charlie observou minha reação e depois encarou Edward. A raiva que o consumir no corredor parecia ter se esgotado, dando lugar a uma dolorosa clareza.
— Eu passei anos odiando a família Cullen — Charlie começou a falar, a voz embargada pelo choro que ele não conseguia mais conter. — Cultivei essa rixa, culpei vocês por tudo, e deixei a rivalidade cegar a minha família. Mas hoje...
Ele fez uma pausa, cobrindo a boca enquanto as lágrimas caíam abertamente pelo seu rosto.
— Hoje eu vi você correr em direção às chamas, Edward. Você nem hesitou. Ficou com os braços queimados, se jogou no fogo e tirou a minha filha daquele inferno para não deixar a história do Emmett se repetir. Nenhum piloto faria isso. Um Cullen fez isso pela minha filha.
Edward apenas ouviu, mantendo a cabeça erguida, sem soltar minha mão.
Charlie levantou-se devagar, aproximou-se de Edward e colocou uma mão pesada sobre o ombro dele. Era a primeira vez na vida que vi meu pai abaixar a guarda para alguém da família Cullen.
— Obrigado por salvar a minha filha... e o meu neto — Charlie sussurrou, a voz quebrada de emoção. — Que Deus abençoe vocês dois. A briga da Swan-Black com a Cullen acaba aqui.
Sem dizer mais nada, Charlie deu um beijo carinhoso na minha testa, passou a mão nos olhos e caminhou até a porta. Ele nos olhou uma última vez antes de sair e fechar a porta de vidro, deixando-nos completamente sozinhos na quietude do quarto.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da nossa respiração. Olhei para Edward, vendo as cicatrizes recentes, a poeira e o amor puro estampado em seu rosto.
— A gente quase perdeu tudo, não foi? — murmurei, com as lágrimas finalmente transbordando.
Edward se curvou sobre o leito, apoiando a testa com cuidado contra a minha, segurando meu rosto com delicadeza.
— Mas não perdemos, meu amor — ele respondeu, a voz rouca e cheia de emoção. — Nós estamos aqui. Você, eu... e o nosso bebê.
— Chega de brigas, Edward — falei, pousando minha mão sobre a dele na minha barriga. — Chega de segredos na imprensa, de orgulho em coletiva, de fingir que a gente não se ama por causa de campeonato ou de equipes. A vida é curta demais para essa guerra. Se eu aprendi alguma coisa no meio daquele fogo... é que nada disso importa se eu não tiver você.
Edward deu um sorriso fraco, o primeiro sorriso verdadeiro em semanas, e selou nossos lábios num beijo calmo, profundo e repleto de promessas.
— O mundo que se dane — Edward declarou, olhando nos meus olhos com uma certeza inabalável. — A partir de hoje, a única equipe que importa somos nós três.
🏎️ POV EDWARD
O ritmado bip... bip... bip... do monitor cardíaco era a única melodia que me mantinha são naquele quarto de UTI penumbroso.
Apoiei os cotovelos sobre a beirada da cama, observando o peito de Bella subir e descer devagar sob a manta hospitalar. Ela havia pegado no sono há cerca de vinte minutos, exausta pelas emoções intensas e pelo coquetel de remédios leves que os médicos liberaram. O rosto dela, antes tão tenso e marcado pelo terror de Suzuka, agora repousava em uma serenidade abençoada.
Levei minha mão enfaixada até a dela, roçando os polegares com extrema delicadeza. Desci meu olhar para a barriga dela, coberta pelo lençol plano. Era surreal. Inacreditável. Ali dentro, silencioso e protegido do mundo exterior, batia um segundo coração. O nosso filho.
Pensar no nosso futuro me trazia um misto de frio na espinha e uma paz que eu nunca tinha experimentado na vida. Por anos, a minha única perspectiva de futuro era a próxima curva, os milésimos de segundo no cronômetro e a rivalidade idiota contra a cor vermelha da Ferrari. Agora? O campeonato mundial parecia um detalhe insignificante. Se eu tivesse que queimar todos os meus macacões e nunca mais pisar em um cockpit para garantir que ela e esse bebê ficassem em segurança, eu faria sem pensar duas vezes. A vida que estávamos construindo juntas valia infinitamente mais do que qualquer troféu de prata.
Uma vibração forte no meu bolso quebrou a minha contemplação. Peguei o celular e vi o visor abarrotado de notificações.
A tempestade lá fora tinha atingido proporções catastróficas.
A imagem da Porsche azul-marinho atravessada no meio do setor três e do meu resgate desabalado, arrancando a Bella das chamas de Suzuka minutos antes da explosão, simplesmente dominava todas as capas de jornais, portais e redes sociais do planeta. Mas o verdadeiro incêndio não era o da pista. Vazamentos de bastidores do hospital já faziam a imprensa internacional especular abertamente sobre o estado de saúde de Bella e, pior, rumores sobre uma suposta gravidez começaram a pipocar na mídia europeia.
A crise de relações públicas entre a Ferrari/Swan-Black e a Porsche/Cullen Racing era brutal. A imprensa acusava a Cullen Racing de amadorismo e perigo na pista, enquanto outros veículos atacavam a Swan-Black alegando que a equipe escondeu a condição física da sua principal piloto.
Levantei-me devagar para não acordar Bella e caminhei até a sala de reuniões privativa do andar executivo do hospital, onde o nosso "comitê de crise" se reunira de emergência.
Ao entrar, a tensão na sala podia ser cortada com uma faca.
Carlisle estava de pé ao lado da janela, ao telefone, tentando conter os investidores alemães da Porsche. Ele equilibrava com maestria a frieza de um gestor com o instinto de um pai que só queria proteger a mim, a Bella e o neto de um linchamento midiático. Jasper, como nosso estrategista e gestor de imagem, analisava três Ipads simultaneamente ao lado de Jacob Black, Billy e do jovem Seth, todos com frestas de desespero estampadas no rosto.
— A assessoria da FIA está pressionando por uma nota oficial nas próximas duas horas — Jasper dizia, sem levantar os olhos da tela. — Se não controlarmos a narrativa da gravidez e da aposentadoria agora, o valor de mercado das duas equipes vai despencar e a imprensa vai massacrar a Bella na porta do hospital.
De repente, a porta se abriu. Para a surpresa de todos, Bella entrou no recinto, caminhando devagar, apoiada em um suporte de soro. Eu corri imediatamente para o lado dela, envolvendo sua cintura para firmar seus passos.
— Bella? O que você está fazendo fora da cama, amor ? — perguntei, preocupado.
— Eu ouvi o barulho. Não vou ficar no quarto enquanto vocês decidem o meu futuro sem mim... — ela respondeu, a voz fraca, mas com aquele olhar obstinado que eu conhecia tão bem.
Charlie entrou logo atrás dela, mantendo a feição abatida, porém decidida. Ele olhou para os mecânicos da Swan-Black, Jacob, Billy e Seth, e pigarreou, assumindo a palavra frente à equipe.
— Escutem todos — Charlie começou, a voz falhando por um segundo antes de retomar a firmeza. — Eu chamei vocês aqui para dar uma notícia oficial. A Bells não vai voltar a correr. A decisão tá tomada. O foco dela a partir de hoje será a gestação. Com todos os riscos que esse acidente trouxe e com a gravidez em estágio delicado, a carreira dela na Fórmula 1 encerra aqui.
O impacto da declaração caiu como uma bomba na sala.
Seth arregalou os olhos, cobrindo a boca, com as lágrimas transbordando instantaneamente. Jacob deu dois passos para trás, encostando na parede e enterrando as mãos no rosto, completamente arrasado. Ele tinha dedicado a vida a preparar aquele carro para a Bella; ver o sonho dos dois terminar no hospital era doloroso demais.
Billy Black, da sua cadeira de rodas, suspirou profundamente. Ele olhou para o filho devastado, depois para Charlie e Bella, e balançou a cabeça devagar.
— É uma dor desgraçada ver o talento dela sair das pistas... — Billy disse, a voz grave e embargada. — Mas o Charlie tá certo. Depois do que aconteceu com o Emmett... e com essa vida nova vindo aí, é melhor assim. A segurança da família vem primeiro.
Jasper franziu a testa e deu um passo à frente, olhando diretamente para Bella.
— Bella, você tem certeza disso? — Jasper argumentou, mantendo a razão fria. — Você está no auge da sua carreira, liderando o campeonato. A pressão da mídia vai ser implacável se você simplesmente renunciar agora. Tem certeza de que não é uma decisão precipitada tomada no calor do choque?
Bella olhou para Jasper, depois passou os olhos por Jacob e Seth, que choravam em silêncio. Ela pousou a mão sobre a própria barriga, ajustando a postura com uma serenidade que calou a sala inteira.
— Eu amo correr, Jasper — Bella respondeu, com a voz embargada, mas cheia de uma convicção inabalável, ela sorriu acariciando a barriga lisa. — Eu amo a velocidade, a adrenalina e tudo o que conquistei naquela pista... Mas eu amo esse serzinho vivendo dentro de mim mais do que qualquer coisa no mundo. Nada, nenhum título, nenhuma vitória, nenhuma pressão de patrocínio, vale o risco de perder o meu filho.
Um silêncio emocionante tomou conta do ambiente. Olhei para ela, sentindo o peito explodir de orgulho e amor.
Ajustei minha posição ao lado dela, segurei sua mão com firmeza e olhei para Carlisle, Charlie e Jasper.
— Se a Bella não vai mais para a pista, as coisas mudam para todos nós — declarei, tomando a atenção da sala. — Eu não vou deixar a Swan-Black ruir, e não vou permitir que o Jacob, o Seth ou qualquer membro da equipe saiam prejudicados por isso. Nós vamos unificar as equipes.
Charlie ergueu a sobrancelha, surpreso. Jacob levantou a cabeça, encarando-me.
— Unificar? — Carlisle perguntou, me incentivando a continuar.
— Sim — respondi com firmeza. — Vamos fusioar a estrutura da Swan-Black e da Cullen Racing. Criaremos uma única equipe. Eu corro pelo nosso time unificado, garantindo os contratos de patrocínio e protegendo o emprego de cada mecânico que trabalhou com a Bella e com o Emmett. Jacob e a engenharia da Swan-Black assumem a telemetria do meu carro junto com a Cullen. A rixa acabou. Se a imprensa quer uma história para cobrir, eles terão a maior fusão da história do automobilismo.
Carlisle sorriu com orgulho, assentindo imediatamente:
— Como presidente do conselho, eu aprovo a fusão. Protegemos a Bella, abafamos os escândalos e mantemos todos protegidos sob o mesmo teto.
Charlie olhou para mim por longos segundos. A antiga rivalidade finalmente evaporou dos olhos dele, substituída por um respeito mútuo. Ele caminhou até mim e apertou minha mão.
— Uma única equipe — Charlie concordou.
Puxei Bella suavemente para perto do meu peito. A tempestade lá fora ainda rugia, a mídia continuava insaciável, mas ali dentro, de mãos dadas, nós tínhamos acabado de construir a nossa verdadeira fortaleza.
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