NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)
17 Capítulo 17 - NADA É POR ACASO...
Notas iniciais

“O bater de asas de uma borboleta,
O suspiro dos teus lábios entreabertos
A tempestade que destrói,
O sol que nasce e se põe...
Nada é por acaso,
Somos todos interligados,
Seja na vida, seja na morte.
O teu ato, no passado,
Será o amanhã de alguém...”
O templo Senso-ji, com suas lanternas enormes e seu imenso portão laqueado de vermelho estava, praticamente, vazio. O terremoto, mesmo de pequena intensidade, havia afastado quase todos das ruas. Embora fosse tradicional ver, lotado, um dos mais famosos pontos turísticos da capital, nele se encontravam poucas pessoas e dois homens, em especial.
– Você também lembrou... – disse Tadaka para o irmão a sua frente.
Tadashi não respondeu. Seu olhar acompanhava o espiralar do incenso que acendera, oferecendo à Kannon, a deusa da Piedade.
Tadaka aproximou-se, também oferecendo um incenso. Curvou-se, também aos deuses Raijin, deus do Trovão, e Fujin, deus do Vento, ambos os guardiões dos portões do templo e protetores daqueles que comungavam da fé.
– Hoje a terra tremeu como naquele dia. – falou Tadashi.
– Eu também senti isso. Passamos por vários terremotos, mas nenhum tão fraco em intensidade e tão devastador em consequências. Eu estava no meu táxi e, de repente, senti o chão tremer. Não tive medo, poderia até ser a minha hora. Mas, aqui estou e você também. – disse Tadaka com os olhos fechados.
– Naoko estava comigo em casa e eu a questionava sobre os nossos negócios. Ela respondia a tudo com aquele olhar agudo e a ambição personificada nas palavras, falsamente, doces quando o abalo aconteceu. Pode parecer loucura, mas naquele momento eu me dei conta que ela me olha da mesma forma que a mãe dela me olhava. Parece ter sempre uma acusação disfarçada em obediência. Quando a terra tremeu, pareceu-me ver Kayo, a minha frente. – falou Tadashi.
– Kayo foi sua esposa, mas ela sempre soube que o seu coração pertencia a Aiko, Tadashi e você nunca fez questão de esconder sua preferência.
– É, irmão... você foi o único que casou-se com a mulher que amava e que tinha sido destinada a mim.
– Você não a amava. Não fez diferença para você.
– Às vezes eu penso que poderia ter sido diferente. Talvez, se eu tivesse desposado a mulher que me fora destinada, ela me desse um varão e eu não precisasse ter feito o que eu fiz. – reinterou Tadashi.
– O que nós fizemos, irmão. Juntos, nós assumimos um carma. Nunca me eximi deste erro e paguei por ele. Meus filhos morreram em um terremoto e minha mulher vive adoentada. No fim, só agradeço ter tido a oportunidade de amar e ser amado.
Ainda sem virar-se para enfrentar o olhar do irmão, Tadashi continuou:
– Aiko era uma mulher bonita e com fogo no olhar. Ainda lembro a primeira vez que a vi na Casa de chá. Todos a desejavam, mas ela escolheu a mim. Eu ainda não era um oyabun e, mesmo assim, ela desprezou homens de maior poder e foi minha. Foi dela que recebi a maior alegria, um filho e que agora se revela a maior decepção, embora eu o ame e tente torná-lo um homem forte.
– Naquele dia tomamos uma decisão errada e arcamos com o peso desse ato sórdido. Eu deixei a organização, tornando-me um pária e você assumiu a liderança que sempre almejou. Naoko é como você e Hiroaki puxou a mãe. – falou Tadaka.
Tadashi suspirou, seu irmão dizia a verdade. Naoko era o seu espelho, via nela todas as qualidades e defeitos que possuía. Hiroaki puxara a mãe que sempre fora voluntariosa e de espírito livre. Ela era uma cortesã versada na arte de seduzir e ele caíra em sua teia de prazeres e risos. Com ela tudo era leve, até o momento em que a paixão os dominou. Ele se permitiu derramar sua semente dentro dela e ela lhe deu um filho bastardo.
Enquanto isso, sua esposa, também grávida, lhe dera uma menina. Por uma ironia dos deuses, as duas engravidaram na mesma época e sentiram as dores do parto no mesmo dia e hora.
O dia em que a terra tremeu como se também tivesse entrado em trabalho de parto ele eliminara um rival e, com sangue nas mãos, fora até aquela que amava. Mesmo amando-a, mentiu que o filho deles não tinha sobrevivido e tomou-lhe a criança, colocando-a no lugar da filha que sua esposa lhe dera.
A menina foi encaminhada para doação e Hiroaki tornou-se o filho legítimo, a partir de então. Tadaka o ajudara a mentir e concretizar o plano que enganara ambas as mulheres. Seu pecado transformou-se em um segredo entre os dois.
– Sim, olhar para Naoko é como ver-me num espelho. Ela deseja a liderança mesmo sabendo que nenhuma mulher pode almejar tal posição. – disse Tadashi, agora se voltando para o irmão.
– E porque não? *Fumiko controlou seu clã, após a morte do marido e muito bem. Todos sabem disso e todos também foram covardes ao não referendá-la como oyabun, apenas por ser uma mulher.Masahisa Takenaka não durou muito, depois que o elegeram e todos sabem o porquê. Fumiko teria mantido a família com mais pulso e menos violência.
– Os Yamaguchi-gumi são a maior família da Yakuza. Tal mudança acarretaria a destruição deles! – rebateu Tadashi.
– Somos tão familiarizados com a morte que, ao ver outra forma de liderança, preferimos expurgá-la e mantê-la embaixo do tapete como se fosse lixo.
– Você insinua que eu devo...
– Admita que Naoko é quem sustenta o império que você construiu. Hiroaki jamais será como ela. Se insistir com sua teimosia, vai destruir os dois.
– E quem é você para dizer-me isso? Tornou-se um... um taxista!
– Tornei-me um homem livre, enquanto você chafurda na violência e na morte. Creia-me, irmão, apesar de tudo, sou um homem grato aos deuses.
O som do gongo anunciava o recitar dos sutras pelos monges. Tadashi ficou em silêncio, assim como seu irmão. No entanto, as palavras de Tadaka ressoavam em sua mente, enquanto ouvia a voz baixa e monótona dos monges. Naoko é quem sustenta o império que você construiu. Hiroaki jamais será como ela.
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Ikki aproximou o instrumento em forma de caneta, direcionando um facho de luz nos dois olhos abertos de Minos, um de cada vez. De imediato, houve a retração das pupilas e ele ficou satisfeito.
– Muito bem, garoto! Seu cérebro está funcionando. – disse ele.
A enfermeira o havia chamado, assim que Hades mostrara o seu desespero. Agora, o executivo olhava a cena sem dizer uma só palavra. Sentia-se estranhamente vulnerável e, pior que isso, seu autocontrole parecia abandoná-lo cada vez que olhava para Minos. A possibilidade de perdê-lo o apavorava, fazendo-o experimentar uma dor inédita e profunda dentro de si.
Minos voltara a si, mas sua mente estava confusa e ele parecia ir e vir em meio às ondas que o faziam sentir-se enjoado e fora do corpo. Queria falar, mas sua garganta não produzia som algum.
– Ele abriu os olhos, mas não parece estar consciente. – disse Hades, por fim.
– O traumatismo sofrido foi grave, ele vai ficar meio fora do ar. Fico até admirado de ele ter recobrado a consciência tão rapidamente. Esperava que ele, apenas mantivesse os sinais vitais, mas vejo que o garoto tem força. – falou Ikki, enquanto continuava a examinar Minos.
– Ele sente dor? – perguntou o executivo.
Ikki voltou-se para Hades e fitou-o nos olhos.
– Sim, ele sente, mas vou prescrever um sedativo intravenoso e encaminhá-lo para o quarto. Acho que, agora, é hora de você descansar um pouco. Minos voltará a dormir e vou mantê-lo assim até verificar que será mais confortável para ele permanecer acordado.
Hades não respondeu, olhou na direção de Minos vendo-o entreabrir os lábios e gemer baixo. Com muito esforço deixou o quarto, ao sentir seu celular vibrar, enquanto Ikki fazia algumas anotações no prontuário.
– Aiacos?
– Como estão as coisas? – perguntou o hacker.
– Minos está resistindo e eu vou ficar no hospital. E com você? Não entrei em contato com mais ninguém, não sei o andamento da situação e nem como estão todos. – respondeu Hades levando a mão aos cabelos.
– Está tudo sob controle. Aiolia e Ângelo estão cuidando de tudo. O lunático do Johann está sob custódia da polícia e será extraditado para o seu país. Saori já providenciou assistência ao pessoal que estava na festa e está tudo calmo.
– E Lune, como ele ficou?
Houve alguns segundos de silêncio, enquanto Aiacos pensava no que dizer, ao mesmo tempo em que olhava para a sua cama e observava Lune dormir como se fosse um anjo...
E que anjo... Se todos os anjos fossem assim e tivessem aquele corpo, o céu teria que mudar de nome!
Ele o trouxera para o apartamento com a intenção de acalmá-lo e o conforto evoluíra para algo mais...
– Hã... Ele ficou bem, não precisa se preocupar. Quanto ao outro assunto, recebeu o que lhe enviei? – falou Aiacos.
Em outros tempos, Hades teria percebido algo, no entanto, naquele exato instante, sua cabeça estava cheia de preocupações e medos.
– Sim, recebi. Era o que eu pensava. Johann investiu um milhão do próprio bolso e comprou ações a um preço fixo antes que a Bolsa fechasse o pregão. O ato disparou as ações da Cia Germânia e as fez fechar em alta. Mas, a verdade, é que a empresa não tem toda essa liquidez. Quem a comprar terá que arcar com uma série de encargos que foram mascarados pelo blefe.
– Uau! Você sabe mesmo das coisas! – disparou Aiacos.
– Ele fechou negócios com alguém?
– Fechou com a Transportadora Inagawa, empresa da família Tadashi.
– O yakuza.
– Sim, dirigida pelos filhos, Naoko e Hiroaki.
Se a situação fosse outra, Hades teria sorrido com aquela informação. Porém, agora, ele apenas agradecia a sua experiência e intuição e, acima de tudo, pensava em Minos.
– Obrigado, Aiacos.
Assim que desligou, tratou de contatar sua secretária e ordenar que lhe trouxessem um notebook, uma muda de roupas e repassasse, apenas, os negócios mais urgentes de sua agenda. Instalou-se no canto do quarto e ali ficou, trabalhando e vigiando os mínimos movimentos que Minos fazia.
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Pare de bobagem. Encare o medo e, por Deus, não demonstre o seu terror. Pensava Hilda, enquanto engolia em seco e continuava com aquele sorriso congelado no rosto, parecendo estar tendo um AVC.
– Vocês dois estão me dizendo que irão deixar o Dark Sex? Os dois, ao mesmo tempo?
Três, para ser mais exato, mas vamos deixar o golpe de misericórdia para depois. Pensou Afrodite enquanto respondia. – Pois é, aconteceu. Não planejamos, mas... Bem, você é uma mulher experiente e sabe que certas oportunidades não podem ser desperdiçadas.
A cafetina sentiu um embrulho no estômago. Tinha vontade de gritar, mas manteve a mesma careta esquisita que já não enganava ninguém, mas pelo menos mantinha a sua dignidade.
– Temos um contrato. – disse ela, por fim.
– Nós sabemos. – respondeu Afrodite, enquanto Shun continuava em silêncio.
Hilda aguçou os profundos e cristalinos olhos, fixando-os em Shun.
– Não pensem que eu vou facilitar. Acolhi vocês como se fossem meus filhos, mas também sou uma mulher de negócios. – disse ela tentando fazer aflorar a culpa por a estarem abandonando.
Afrodite sorriu. Ângelo e Aiolia já os tinham instruído e até mesmo redigido uma quebra de contrato e providenciado o ressarcimento devido à cafetina. Era uma proposta irrecusável, não só pelo montante, mas também pela forma de pagamento que a deixaria livre de impostos e outros tributos...
– Tome. Leia e veja se está bom assim. – disse Afrodite estendendo uma pasta para Hilda.
Ao abrir e ler o conteúdo da pasta, Hilda levantou-se, de imediato, da poltrona de sua escrivaninha como se ela, de repente, estivesse revestida de pregos.
Afrodite e Shun a encararam e Aldebaran que, durante todo o tempo permanecera calado aproximou-se dela, vendo-a empalidecer.
– Você está bem? – perguntou o segurança, preocupado.
Ela devolveu o olhar, mas desta vez, havia um sorriso genuíno em seus lábios.
– Estou. Estou muito bem! Bem, vamos providenciar a saída dos rapazes! Aldebaran traga champanhe! – disse ela de muito bom humor.
Só então Shun se permitiu sorrir. No fundo, ele se sentia grato à Hilda por lhe propiciar um teto, comida e roupas quando se prostituía nas ruas sem segurança, nem comodidade.
– Um brinde aos novos começos! – disse Shun.
Hilda sorriu e Afrodite também. Com uma expressão um tanto desconfiada, Aldebaran foi convidado a participar e logo, os quatro esvaziavam mais uma garrafa de champanhe para comemorar...
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Decidida, Naoko ergueu a mão trêmula e bateu na porta imponente do escritório de seu pai. Encerrado lá dentro, Tadashi olhava para a manchete nos jornais.
A prisão de um estrangeiro famoso, as consequências do terremoto e as notícias da Bolsa de Valores chamaram a atenção do yakuza.
Ele não pode me culpar por mais um erro de Hiroaki, mas é isso que ele fará! Disse Naoko para si mesma, pois a primeira coisa que fizera foi ler o jornal.Secou as palmas úmidas na saia justa e negra. Tornou a bater.
A porta se abriu e ela tentou sorrir, encontrando o olhar severo do pai.
– Bom dia, senhor meu pai.
– Você disse que não havia concordado com este negócio. – disse ele mostrando a notícia no jornal.
– Sim, meu pai. Mas, Hiroaki insistiu em levá-lo adiante. Eu disse a ele que devíamos investigar melhor, mas ele...
– Ele não conhece esse tipo de negociação como você. – cortou Tadashi.
– Exato. Mas, ele será o oyabun desta família e eu lhe devo respeito e obediência. – disse ela e, neste momento, encarou o pai com aquele olhar.
Tadashi indicou-lhe a poltrona em frente a sua escrivaninha. Naoko sentou e viu-o contornar a mesa sinuosa e aproximar-se da janela.
– Tem coisas que jamais irão mudar, enquanto outras transcendem a nossa vontade. Você tem o vigor masculino em um corpo de mulher. Já seu irmão se constitui num desafio do qual não posso mais ignorar. Uma decisão se faz necessária.
Com o coração disparado, Naoko pensou: está errado, novamente, meu pai. Eu tenho a sagacidade feminina num corpo feminino! Ser competente nunca foi uma prerrogativa masculina. E observou o pai virar-se, encarando-a antes de se acomodar na escrivaninha.
– Acho que posso contornar esse problema, meu pai. Dê-me tempo e farei com que as coisas retornem ao normal. Só peço que deixe Hiroaki fora destas questões até que ele aprenda. – disse ela, ocultando seus verdadeiros pensamentos.
Um músculo contraiu no maxilar de Tadashi e seu olhar penetrante sondou o dela. Ela era sua filha, portanto colocava os interesses da família em primeiro lugar. Como bem dissera Tadaka, Naoko era responsável pelo sucesso dos empreendimentos da família e era parecida consigo, não podia mais negar essa evidência.
– Vou perguntar, somente uma vez... Se você tivesse a oportunidade de liderar esta família, o que faria para que meus homens a seguissem e respeitassem?
A pergunta pegou Naoko desprevenida e ela engoliu em seco. Jamais esperara ouvir aquelas palavras da boca de seu pai. Pensou em limpar a garganta, mas esse pequenino gesto mostraria vulnerabilidade. Então elevou o queixo e fitou o rosto envelhecido de Tadashi.
– Eu não precisaria fazer nada além do que já faço. Sou sua filha, tenho o seu sangue e a sua têmpera. A Gardênia é a segunda facção mais reconhecida dentro da Yakuza e, desde que comecei a cuidar da empresa, somos conhecidos não pela violência, mas pela sagacidade nos negócios. Eu tenho competência para nos fazer voar, ainda mais alto.
Tadashi olhou-a, em silêncio. Era fácil, agora, perceber-se nela. Talvez fosse a hora de purgar seus pecados e admitir que o melhor da sua linhagem permanecera em uma mulher. Kayo devia estar sorrindo no além vida e Aiko também. Talvez as duas o tivessem amaldiçoado em segredo sem que ele soubesse...
Ainda em profundo silêncio, abriu a porta do escritório e chamou seu segurança.
– Raiden, mande chamar Hiroaki e reúna os homens. Depois, leve minha mensagem à família Yamaguchi. Os planos mudaram, convoco uma reunião amanhã em minha casa.
– Sim, Tadashi-sama.
O segurança olhou de relance para Naoko que se mantinha séria e um tanto surpresa. Em seguida deixou a casa, enquanto o patriarca da Gardênia voltava a sentar-se em sua escrivaninha.
– Pai? O senhor vai...
– Deixe-me sozinho e aguarde meu chamado.
Sentindo um rio na espinha, Naoko obedeceu. Ao sair, deparou-se com a irmã caçula que se dirigia à aula de dança. Não pode conter o sorriso, o que deixou a menina desconfiada.
– O que foi? Parece que nunca me viu sorrir. – disse ela para Tsuki.
A jovem franziu o cenho e pensou que nunca vira sua irmã sorrir, depois que se tornara uma executiva.
– Por que está tão feliz? – perguntou Tsuki.
Naoko olhou-a bem no fundo dos olhos.
– Porque tudo indica que terei a chance de mostrar que as mulheres podem ser líderes tão ou mais competentes quanto os homens. E isso, é por você também irmãzinha. – respondeu, ela.
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Dor. Muita dor!
Minos lutava contra as dolorosas sensações que o atingiam. Já o haviam desentubado, mantendo apenas o oxigênio para facilitar-lhe a respiração. Queria manter os olhos abertos, mas a cabeça parecia rodar e rodar, vertiginosamente, e seu corpo estava em fogo. Ouvia as vozes, mas nenhuma delas era conhecida. Onde estava Hades? Ele o ouvira dizer: eu amo você! Mas agora, não ouvia mais a voz dele... Hades...
Hades notou a agitação de Minos e chamou a enfermeira.
– Ele está com febre. Vou chamar o doutor. – disse ela.
Em seguida, Ikki adentrou o quarto. Após outra pequena série de exames, ele prescreveu um antitérmico e verificou os sinais.
– A febre já era esperada, mas teremos de aguentar um pouco a angústia de vê-lo se debater. Quero deixá-lo um pouco assim.
– O que quer dizer? – questionou Hades.
– Quero dizer que a febre é sinal que o corpo está resistindo a um princípio de infecção. Só temos de mantê-la num nível que não comprometa o organismo.Vamos tratá-lo contando com a própria resistência orgânica dele.
Hades fitou o médico dentro dos olhos e Ikki permaneceu firme e certo do que dizia. Essa era uma característica que o executivo admirava e, portanto, resolveu confiar naquele médico jovem e confiante em si mesmo.
– Salve-o e terá o que desejar, doutor. – falou o executivo segurando a mão de Minos.
Ikki sorriu.
– O que eu desejo é impossível para você.
– Como pode saber?
– Vejo que é um homem rico, mas o poder do dinheiro é limitado. Existem perdas que nem ele pode resgatar.
– Você perdeu alguém, é isso?
– Sim, perdi meu irmão caçula em um terremoto na década de 90. Ele nunca foi encontrado e eu acabei sendo levado por uma ONG para os EUA e adotado lá. É terrível nunca ter encontrado um corpo, uma prova. Mas, eu prefiro pensar que ele também sobreviveu e... também tenha tido uma vida em algum lugar.
Hades ficou em silêncio, analisando a fala do médico.
– Qual ONG o levou?
– Médicos Sem Fronteiras! Minha inspiração para cuidar dos outros que foi incentivada pelo meu pai adotivo que também era médico. Bem, estão me chamando. – disse Ikki ao visualizar a enfermeira no corredor.
– Obrigado, doutor. – disse Hades e, em seguida, ligou para Aiacos.
– Fala, juiz! – disse o hacker ao perceber o número, enquanto acariciava a coxa de Lune.
– Puxe todos os dados das últimas atuações dos Médicos Sem fronteiras no período desde 1990 em diante e descubra qual o responsável pelas operações resgate em terremotos no Japão nesse ínterim.
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Halldora olhou-se no espelho. A marca arroxeada no rosto já estava ficando amarelada. O braço permanecia com o gesso e os hematomas no restante do corpo iriam sumir dali alguns dias.
Analisou seu corpo seminu, percebendo que ele exibia as marcas da idade madura, não por ela ser velha e sim pelos excessos que cometera, até então.
Cigarros, álcool, sexo promíscuo. Podia listar tudo de degradante que fizera desde a morte da irmã mais velha. Parecia uma pequena vingança por ter sido abandonada com uma responsabilidade que não desejara, o pequeno Minos.
Olhando as dobrinhas indesejadas na cintura e a flacidez da pele em outros lugares deu-se conta que, apesar de ter 40 anos, não fora ela quem cuidara do sobrinho e sim fora cuidada e sustentada por ele. O que a sua irmã diria se soubesse que tinha deixado Minos prostituir-se para que pudessem viver?Que espécie de tia ela era para só dar-se conta de seus erros, após uma tragédia?
– Senhorita Halldora? Precisa de ajuda?
A voz suave, seguida de uma batida na porta do banheiro arrancou-a das divagações.
– Eu estou bem, enfermeira. Já estou saindo.
A enfermeira aguardou e quando Halldora deixou o banheiro, estendeu-lhe um pacote.
– O senhor Hades enviou para a senhora. Ele pediu que assim que se sinta bem, vá conversar com ele.
– E onde ele está?
– No quarto do seu sobrinho.
Halldora percebera que havia algo entre Minos e aquele homem. Talvez fosse um amante ou um cliente. Tinha de descobrir, já que tomara a decisão de mudar as coisas.
No quarto de Minos, Hades permanecia alerta à qualquer movimento do jovem e só quando percebia que ele estava sereno, dava atenção ao notebook.
Quando Halldora entrou no quarto, viu-o em pé, próximo à cama do sobrinho. Notou a forma com que ele olhava para Minos. Não era um homem velho e tinha feições incrivelmente bonitas. Havia autoridade no rosto masculino e o físico emanava vigor e sensualidade, mesmo parecendo cansado.
– Deseja falar comigo?
– Sim, mas não aqui. Minos está mais tranquilo e a febre diminuiu. Vamos até o restaurante do hospital, sei que deve estar curiosa para saber quem eu sou e minhas intenções com o seu sobrinho.
Halldora tentou sorrir, enquanto Hades fechava seu notebook e a acompanhava para fora do quarto.
Quando os dois tomaram a direção do restaurante, Hiroaki esgueirou-se e entrou no quarto de Minos. Estivera ali um bom tempo, esperando uma oportunidade e pensando nos acontecimentos. Já tinha visto na banca de jornal os assuntos em destaque. Depois, descobrira que o tal Johann havia feito uma manobra duvidosa na Bolsa de Valores. E eu fechei negócio com aquele filho da puta! Merda! Mais uma prá coleção de fracassos! Desta vez, não escaparei ao yubizume.
O japonês aproximou-se da cama e ficou um bom tempo olhando o rosto pálido, mas com as faces coradas pela febre. Levou a mão em direção aos lábios de Minos, mas se deteve. Não podia tocá-lo. Até mesmo ele sabia que pacientes em risco não deviam interagir com pessoas vindas de fora. Suspirou e direcionou a mão para os cabelos platinados.
– Griffon, Griffon... Acho que esta é a nossa despedida. Preferia que fosse de outro jeito. Queria te comer uma última vez... Mas, talvez seja melhor assim. Esse teu rabo é um vício e parece que tem outro na parada que mataria por ele. Eu... Eu só queria que me desculpasse pelo o que eu disse antes. Você tem mais honra e decência que muito otário metido a bom. Você é melhor até do que... eu. E eu...
Hiroaki interrompeu a fala e passou a mão no rosto, suspirando mais fundo. Talvez fosse o momento de dizer tudo o que nunca dissera ao prostituto, afinal ele nem estaria ouvindo. Entretanto, antes que ele proferisse outra palavra, Minos abriu os olhos.
– Ei! Você acordou seu puto! – gritou Hiroaki com uma alegria quase infantil.
Minos continuava confuso e sua garganta estava seca. Automaticamente, sua mão segurou o braço do japonês.
– H-Hades... ele...onde ele está? – conseguiu dizer com muito esforço.
Antes que Hiroaki respondesse, Hades voltou, encontrando-o próximo a Minos.
O que você está fazendo aqui? – falou o executivo.
O yakuza não se abalou.
– Chegou o otário! Não precisa fazer essa cara, ele perguntou por você, assim que abriu os olhos. – disse o japonês de má vontade.
Minos engoliu com dificuldade e tentou se levantar.
– Não! – gritaram Hiroaki e Hades, ao mesmo tempo.
– M-Merda... que dor. – murmurou Minos, enquanto Hades chamava uma enfermeira.
Cassiopeia entrou, sentindo a animosidade no ar. Porém, acostumada com três irmãos, ela tinha bastante experiência com explosões de testosterona. Olhou firme para os dois homens próximos ao paciente que mais pareciam dois cães de guarda disputando território e abriu passagem. Calmamente ela dirigiu-se a Minos, sorriu e tocou, gentilmente, em seu braço.
– Vejo que acordou e está quase sem febre. Não faça movimentos bruscos. Vou aplicar um analgésico para a dor. – disse ela.
Minos olhou para os tubos que o alimentavam por via intravenosa. Também estava ligado a alguns monitores que faziam bip o tempo todo. Seu tórax estava ferido e tinha uma vaga lembrança de ter sido operado. Olhou para Hiroaki e Hades, os dois com os olhos fixos em si.
– Ele não pode se cansar. Ainda corre risco de vida, portanto, comportem-se, senhores. – disse a enfermeira entre dentes, próximo dos dois.
Hades aproximou-se da cama e Hiroaki também.
– Você nos deu um susto. – disse o executivo com um meio sorriso.
Minos tentou sorrir, olhando para Hades e depois para Hiroaki.
– O que aconteceu...? – perguntou o jovem.
– Uma parede desabou sobre você. – respondeu Hades.
– É, a parede da Fundação que esse aí, preside. Aliás, foi só a Fundação que desabou. Material de primeira, não? – ironizou Hiroaki.
Hades olhou-o com desprezo, mas o yakuza pareceu não se importar.
– É melhor você sair. Minos não pode se cansar. – disse Hades encarando Hiroaki.
– Se eu saio, você também sai! – rebateu o japonês.
– Parem... os dois... – falou Minos. – Eu fico feliz... por se preocuparem, mas parem... de brigar. – concluiu fechando os olhos, quase de imediato.
– O que aconteceu? – perguntou Hiroaki com o cenho franzido.
– Ele está dormindo. – respondeu Hades acariciando a face de Minos.
– Ei, não é apropriado tocar no paciente. – falou Hiroaki.
– Eu não saí do hospital. Estive com ele o tempo todo, portanto essa regra não se aplica a mim. Já você...
Hiroaki olhou os dois juntos, lembrando que fora o nome de Hades que Minos dissera, assim que ficara consciente. Odiava o executivo, mas era apaixonado pelo prostituto. E o prostituto amava aquele otário, estava na cara. Já era hora de aprender quando jogar a toalha.
– Eu não vou com a tua cara. Por mim, era você quem deveria ter levado aquela parede pelos cornos e não o Griffon. Mas, ele gosta de você e... Eu já to acostumado com perdas. Só digo uma coisa, se você fizer algo que magoe o meu puto preferido... Eu volto e te mato!
Hades não respondeu, apenas ficou encarando o yakuza.
Hiroaki olhou na direção de Minos por alguns segundos, depois deu as costas, e deixou o quarto. Uma lágrima teimosa insistiu em escorrer pelo seu rosto, enquanto ele andava pelos corredores brancos e iluminados. Ele a limpou com as costas da mão e elevou a cabeça. Depois, olhou para a mão molhada e riu de forma insana.
Aproveite e veja a sua mão completinha como veio ao mundo, porque logo mais só restarão quatro dedos inteiros...
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