NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)
16 Capítulo 16 A NOITE ESCURA DA ALMA...
Notas iniciais
“As janelas da minha alma
foram abertas ao sopro cálido dos teus lábios,
Eu olho para dentro de mim,
sentindo a fúria das palavras não ditas, ancoradas ao medo
e estranheza deste sentir...
Teus olhos, fantoches lunáticos,
a atrair-me para ti, descortinam o amor desesperado,
a loucura que me atiça a buscar-te além de mim...
Não te afastes de mim,
senão, serei eu, um corpo vazio,
uma alma solitária, um nada,
Senhor dos farrapos,
da escória
e da eterna escuridão.”
O refeitório estava lotado. As mesas grandes e retangulares exibiam um buffet variado de frutos do mar e os convidados já estavam se encaminhando às mesas individuais, dispostas de forma a acomodar seis pessoas em cada uma.
Aiacos procurava Minos e Hades quando Lune se aproximou.
— Você viu onde Hades está? – perguntou o jovem artista.
— Hã... também estou procurando por ele. – respondeu Aiacos surpreso e, ao mesmo tempo, fascinado pela beleza etérea do artista.
— Está vendo aquele homem ali? Ele... ele está me perseguindo. Hades disse que chamaria o segurança e até agora...
— Está falando do homem que preside uma das maiores companhias aéreas do mundo? Quer que eu fale com ele?
— Oh, não! Você não! Você me parece intelectual demais para lidar com um homem como ele! Pode não parecer, mas ele é violento. – disse Lune.
Um sorriso se abriu nos lábios de Aiacos.
— Você se surpreenderia do que eu sou capaz...
Enquanto Lune e Aiacos trocavam impressões, Johann foi acometido pelo ciúme atroz. Lune, o seu Lune estava próximo demais daquele homem... Estava na hora de colocar seu plano em prática!
Ele olhou para os quatro cantos do refeitório, tentando localizar os homens que contratara para o grande teatro que faria ali. Havia gastado algum tempo e muito dinheiro recrutando homens que lhe dariam cobertura, mas valeria a pena. O ato mostraria à Lune que ele não era um fraco e que estava disposto a morrer por amor! Se Lune voltasse a amá-lo, só haveria o artista em sua vida. Ele o encheria de presentes, não mais priorizaria os negócios, viveria só para agradá-lo e amá-lo. Depois de tantas desgraças que a vida havia posto em sua porta, teria o seu final feliz!
O sinal combinado foi feito, a mão levada aos cabelos já grisalhos fez com que os seus contratados assumissem uma atitude de prontidão. Estavam em dez, o mesmo número de seguranças do evento e haviam sido recrutados próximo ao Kabukicho. O pagamento fora generoso e se, fosse necessário, eles agiriam para protegê-lo e permitir que ele seguisse com seu intento.
— Lune! – gritou ele e sua voz reverberou pelo espaço amplo do refeitório.
O jovem artista voltou-se para a direção da voz e quando focou em Johann, seus olhos se arregalaram ao vê-lo abrir o paletó.O executivo usava um colete com vários bolsos, onde se podiam ver pacotes contendo explosivos que se ligavam por um fio ao dispositivo vermelho que ele tinha em mãos.
— Veja, estou lhe dando a prova do meu mais puro amor! Se você não voltar para mim, eu não quero mais viver!
— É melhor fazer o que ele diz, rapaz! E o restante de vocês, apenas assistam! – gritou um jovem japonês que fazia uma expressão de homem mau e era seguido pelos outros nove que, agora, apontavam suas armas para os seguranças.
Gritos de pavor irromperam o ar, enquanto Lune sentia todo o seu corpo estremecer.
Hades chegou encarando Johann. Ele sabia que seus amigos estavam ali, Aiolia e Ângelo, assim como Saori, representantes de empresas e o grande grupo de jovens a ser beneficiados com o programa de incentivo ao trabalho lançado pela Fundação. Não havia espaço para atitudes intempestivas que comprometessem a vida daquelas pessoas.
Seus olhos afiançaram que o executivo estava fora de controle e a situação era delicada. Se ele estivesse mesmo com bombas de verdade atreladas ao corpo e as explodisse, mataria todos ali, pois a ação desse tipo de explosivo varria tudo num raio de até 200 metros. Teria de ser cuidadoso e firme, havia muita gente inocente sob o risco de uma tragédia.
Os seguranças estavam sendo cautelosos, como exigia a situação e mantinham suas armas abaixadas.
— Johann! O que está fazendo, homem? Tenha bom senso! – chamou ele, na esperança de atrair a atenção do executivo.
— Não se meta! Você não o quis! Sim... eu sei de toda a história do passado de vocês dois! Você o usou e desprezou e... mesmo assim, uma vez em que estávamos juntos, ele murmurou o seu nome! O seu nome em um momento íntimo!
— Johann, não há necessidade de tudo isso. Escute-me! – insistiu Hades.
— Não! – gritou o alemão e mais gritos escaparam dos presentes quando notaram que o executivo fazia menção de apertar o botão do dispositivo que acionava os explosivos em sua mão esquerda.
— Acalme-se. Você não quer morrer e nem matar todos aqui. Mande seus homens abaixar as armas – falou Hades sem se alterar e com um tom firme e tranquilo.
O suor brotava da testa de Johann, mas ele não se atrevia a enxugá-lo. Tinha de manter a atenção de todos ali.
— Eu estou calmo... Meus homens manterão os seus na linha, enquanto eu e Lune resolvemos as coisas!
O homem é louco! Pensou Hades, enquanto continuava a avançar, devagar, na direção de Johann.
— Pare aí! Não se aproxime mais, nem você, nem ninguém! Isso é entre Lune e eu! – gritou Johann.
— Está bem, eu não vou me aproximar. – disse Hades, estancando.
Naquele exato momento, Minos deixava a pequena sala e se dirigia à saída. Sentia-se ofegante pelo nervosismo. Hades não voltara o que sinalizava algo grave. Mas o que seria? Um assalto?Um ato terrorista? Sua mente dava voltas, enquanto ele rumava até a porta ampla. Ao descer a escadaria, ele deu de cara com Hiroaki que voltava, após ter estacionado o carro em um local bastante longe e estava irritado.
— Griffon? Onde está indo? – perguntou o yakuza.
— Aconteceu alguma coisa lá dentro. Vou chamar a polícia. – respondeu o jovem pegando o seu celular.
— Espere! Não precisa ligar prá polícia, meus homens estão por perto. Vou chamá-los. – disse Hiroaki.
Minos franziu o cenho. Não o agradava passar por cima do pedido de Hades. Uma ordem na verdade. Mas, se ele o havia dito daquele modo era porque a situação assim o exigia.
— Hiroaki, acho melhor não. – falou Minos, mas o yakuza já vociferava ordens e entrava na Fundação.
Frente aquela cena, Minos hesitou e resolveu seguir Hiroaki que sacara uma pistola e caminhava a passos rápidos. Droga! Se esse cara fizer merda, Hades me mata!
No refeitório, Aiolia e Ângelo se mantinham juntos de Shun e Afrodite. Como não estavam muito próximos de Johann, podiam comentar baixinho uma estratégia a ser colocada em prática.
— Ele não está com a atenção focada em nós... – murmurou Aiolia.
— É, mas os vagabundos que ele trouxe consigo estão atentos prá ninguém sair. Se nós criarmos uma distração, Afrodite e Shun podem escapar pela porta lateral. – emendou Máscara da Morte.
Afrodite parecia, estranhamente, calmo. Ele olhou demoradamente para Aiolia e depois cravou o olhar em Ângelo antes de falar.
— Eu não vou me afastar de você.
— Escute, bello eu disse que faria tudo para protegê-lo e é o que eu pretendo fazer.
— Eu sei. Mas é melhor ficarmos juntos. – disse Afrodite com um breve sorriso que derreteu o implacável executivo.
— Afrodite tem razão. Eu também acho que não devemos fazer nada por enquanto. – completou Shun.
Ângelo e Aiolia se olharam e bufaram. Mas, interiormente, sentiram orgulho de seus parceiros. Eles podiam ter aquela beleza delicada e extasiante, mas eram fortes, internamente e possuíam uma coragem invejável. Talvez ambos tivessem razão e fosse melhor esperar sem realizar nenhum gesto brusco.
Hiroaki encostou-se a uma parede e observou a cena de longe. Hades estava em sua linha de tiro e ele sorriu. Podia acabar com aquele otário, digamos por... um lamentável acidente. Fez sinal para os seus homens ficarem mais à frente e a postos.
— Não faça nada que coloque a vida de Hades em risco. – cochichou Minos que o alcançara e agora o puxava pelo braço, após ver o que se tratava.
O japonês olhou-o com o cenho franzido.
— Qual é a sua, Griffon?
— Sei que não é o momento certo, mas você deve saber que eu e Hades estamos juntos e eu vou deixar o Dark Sex.
Por alguns segundos, a cor fugiu do rosto de Hiroaki. Porém, em seguida ele sentiu o rosto arder e pegou Minos pelo colarinho, empurrando-o de encontro à parede.
— Então é isso... Você e aquele otário arrogante que eu odeio, fodendo! Depois dessa, a minha vontade é encher ele de bala!— falou o yakuza entre dentes.
— Eu não sou um objeto seu ou de qualquer outro, Hiroaki, e nunca signifiquei nada além de um puto que te satisfaz. Não estou entendendo porque está tão irado e agora, me solte! – disse Minos em tom baixo, mas encarando o japonês com raiva.
A fala desestabilizou o japonês. O que o prostituto dizia era verdade. O que havia restado? Ia casar-se, tornar-se líder da família e era isso! Nada do que se apresentava como o seu futuro o agradava. Os únicos momentos em que podia ser ele mesmo haviam sido passados na companhia de Minos e era isso que o alimentava e o fazia suportar a carga das exigências de seu pai. Mas até isso era ilusório e havia acabado... Merda, tinha se apaixonado por um puto! Um puto que amava outro homem! Isso só completava o círculo patético que compunha a sua vida!
— Você é um puto que já ganhou muito comigo! Não pense que ser a gueixa daquele otário vai mudar alguma coisa! Ele vai te foder por um tempo e depois te descartar como lixo. Não tenha ilusões, Griffon, até eu faria o mesmo! – disse com desdém.
Minos não rebateu a ofensa. Apenas olhou para o japonês e falou baixo:
— Eu fiz mal em confiar em você. Vou chamar a polícia.
— Espera. Eu fiz negócios com aquele alemão filho da puta. Não sei o que tá rolando ali, mas eu dou conta. Fica aqui. – falou Hiroaki destravando a pistola.
Enquanto as coisas iam acontecendo nos bastidores, Johann continuava a falar emocionado, pedindo que Lune o perdoasse.
— Diga-me... Por favor, diga que me perdoa!
Lune olhou para Hades, encontrando o olhar denso, porém firme do executivo. De forma quase imperceptível, ele ordenou que o jovem concordasse com tudo.
— E-Está bem... E-Eu o perdoo. Mas, agora, largue esse dispositivo. P-Por favor...
Johann sorriu, a loucura transbordando pelo olhar cristalino.
— Será, somente, você e eu! – disse ele.
— S-Sim. – falou Lune, enquanto o via andar em sua direção.
Ao ouvir a última fala do executivo, Hiroaki, pela primeira vez, analisou tudo de forma racional. Aquele homem o havia procurado, após romper com Hades. Tudo se encaixava, agora que o via agir como um idiota apaixonado. Ele vendera uma empresa de sucesso e agora fazia aquele papel patético perante todos. O otário vai acabar descobrindo que o puto não vai voltar... Se encheu de explosivo e vai acabar matando todo mundo aqui. Essa é que é a verdade.
A constatação fez Hiroaki tomar uma decisão. Ele ordenou que seus homens ficassem escondidos e adentrou o refeitório.
— Larga a porra deste dispositivo ou eu estouro a tua cabeça! – gritou o yakuza atraindo toda a atenção para si.
Saori que, até então, havia ficado em silêncio, levou a mão delicada à boca e falou de forma quase inaudível:
— Por favor... vamos sentar e conversar como gente civilizada.
O som de armas sendo destravadas tomou conta do ambiente e ninguém pareceu dar importância à fala de Saori, todos continuaram com os olhos presos nos três homens que compunham um trio revestido de uma aura sombria.
Hades voltou-se com um olhar sério e surpreso. Johann, por alguns segundos vislumbrou a imagem do japonês lhe apontando uma arma. O público, ao invés de manifestar-se, mergulhou em um silêncio denso, quase atordoante.
— O-O q-que você está fazendo aqui?- balbuciou Johann, olhando para Hiroaki.
— O que te parece, seu idiota? — respondeu o japonês.
Um barulho surdo atravessou o ar, no mesmo instante que o yakuza falou e o piso estremeceu violentamente.
Johann se desequilibrou e Hades aproveitou para saltar sobre ele, impedindo-o de apertar o dispositivo que tinha em mãos. Os homens que o alemão contratara ficaram atônitos e largaram as armas, ficando na mira dos seguranças da Fundação. O restante viu as paredes e o teto sacudirem quase em câmera lenta. As luzes piscaram e a decoração balançou loucamente, enquanto as mesas declinavam e a louça ia ao chão provocando um barulho estridente.
— Terremoto!— alguém gritou.
Aiolia e Ângelo arrastaram Shun e Afrodite para a saída, enquanto todos buscavam a saída quase sem pânico, acostumados àquela intervenção da natureza que os visitava, de tempos em tempos. Aquele não fora um terremoto de grande magnitude, parecera mais uma intervenção milagrosa ao que se desenrolava ali. Mesmo assim, muitos buscaram seus celulares para saber se acontecera algo mais grave, além dali.
O som do primeiro abalo esmoreceu e tudo parecia voltar ao normal. Hades estava sobre Johann e já havia arrancado o dispositivo das mãos do executivo quando viu Minos vir em sua direção e a parede lateral oscilar e desmoronar.
— Minos! – gritou ele em desespero.
Minos só teve tempo de erguer os braços e logo uma chuva de pedras caiu sobre si. Hiroaki também viu a cena e correu, gritando para que seus homens o acompanhassem.
Desvencilhando-se de Johann, Hades moveu-se na direção de Minos, o coração disparado e um desespero palpável. Tanto ele, quanto Hiroaki começaram a retirar as pedras, assim como os homens do yakuza e Aiacos que permanecera e juntava-se ao grupo.
As pedras mais pesadas foram removidas de cima de Minos deixando à mostra o corpo coberto de pó e sangue.
— Minos! – falou Hades tocando-o, mas não deixando que o movessem, pois sabia que um movimento em falso podia comprometer a vida do jovem.
— Vamos tirá-lo daí! – gritou Hiroaki.
— Não! Podemos matá-lo se fizermos isso! – rebateu Hades pegando seu celular e pedindo ajuda.
Com a eficiência que caracterizava a ação japonesa, logo, equipes médicas e de resgate chegavam ao local e faziam o seu trabalho de forma impecável e ágil. Minos foi retirado e colocado na ambulância.
Aiolia e Ângelo, após deixarem os amantes em segurança, voltaram para ajudar Hades e certificaram-se de que Johann, assim como os seus comparsas, estava detido pelos seguranças da Fundação. Lune estava petrificado, incapaz de se mover e Aiacos tratou de confortá-lo e levá-lo até uma ambulância para que ele pudesse ser medicado.
Hades agia automaticamente, mas sob a fachada calma havia um medo tão forte que quase o paralisava. O cheiro do medo lhe invadia as narinas cada vez que respirava e seu coração batia freneticamente quando olhava para Minos desacordado e com o flanco direito afundado e molhado de sangue. Ele nunca se sentira tão impotente, nem mesmo quando Pandora recusara sua ajuda. Era diferente, agora. Se algo acontecesse com Minos, sua vida mergulharia no mais profundo inferno. Deus, não permita... não o tire de mim! Repetia para si mesmo, enquanto acompanhava Minos ainda inconsciente.
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A madrugada se fazia presente e nas ruas, as notícias não eram trágicas. O terremoto fora leve, dentro da tradição que assolava o Japão. Tóquio continuava com suas luzes e neons funcionando e poucas construções haviam sido danificadas. Um relatório das províncias adjacentes mostrava que só a capital havia sido atingida e, por uma ironia do destino, a Fundação Saori Kido ficara bem próxima ao epicentro, por isso sua estrutura fora bastante abalada.
Seiko olhava para os objetos que havia comprado. Assim que o tremor iniciara, ela correra até o quarto e abraçara os pertences que acreditava ter o poder de mudar a sua vida. Agora, quando tudo havia voltado ao normal, ela se perguntava se seu noivo estaria bem. Tradicionalmente, uma futura esposa de um yakuza jamais tomava a iniciativa. Ela devia esperar que ele a contatasse. Porém, ela não era o que deveria ser. Mordendo o lábio, ela pegou o celular e ligou.
Hiroaki sentiu o vibrar em seu bolso, mas não reconheceu o número.
— Quem é? – perguntou de má vontade, enquanto via levarem Minos.
— Hiroaki-sama... só queria saber se estava bem. Vejo, por sua voz que sim, então... perdoe-me a ousadia.
O yakuza franziu o cenho ao ouvir a voz delicada e feminina.
— Seiko?
— Sim. Perdoe-me, mas eu não poderia dormir em paz sem ouvi-lo.
A situação tensa e o fato de estar entrando em um hospital não permitia que Hiroaki raciocinasse de imediato. Reconhecera a voz da noiva pelo simples detalhe de ela ter-lhe falado, apenas uma vez. Lembrou-se da forma tímida com que ela lhe dirigira a palavra contrastando com o olhar ardente que ela manifestara.
— Tudo bem. Eu estou no hospital Sanno.
— Está ferido, Hiroaki-sama? – a voz suave, genuinamente, preocupada.
— Não, meu amigo é quem está. – respondeu o japonês coçando a cabeça. – Agora tenho de desligar. Obrigado por... se preocupar.
Por uma sincronicidade, o hospital mais próximo da Fundação era o Sanno, o mesmo onde Halldora estava internada. Assim que Minos chegou, uma equipe médica o recebeu, levando-o rapidamente para a UTI.
Após trinta angustiantes minutos, um médico veio até Hades, que permanecia ansioso, na sala de espera. Ao seu lado, Hiroaki também andava de um lado a outro, nervoso com a situação de Minos e surpreso com a ousadia de sua futura esposa. Nenhum dos dois conversava apenas se encaram durante alguns segundos e tornavam a permanecer em seus mundos internos.
— Senhores, a situação do jovem é muito grave. Ele teve um afundamento do tórax e uma das costelas perfurou o pulmão provocando uma hemorragia subconjuntiva e um trauma grave com possíveis lesões vasculares. Temos de operá-lo, mas é uma cirurgia de risco. Ele tem 80% de chances de óbito. Precisamos de autorização de um familiar.
— A tia dele está internada neste hospital. O nome dela é Halldora. – falou Hades.
— Vamos levar o termo de autorização até ela. – disse o médico.
— Doutor, essa cirurgia... Quem vai executá-la? – perguntou Hades.
— Se serve de consolo, quem vai operar o jovem é um cirurgião famoso por conseguir milagres. Ele juntou-se à nossa equipe recentemente, mas já fez muito por aqui. O nome dele é Ikki Amamiya e dizem que desde que começou a clinicar, recebeu o apelido de Fênix por fazer muitos pacientes ressurgir das cinzas. Vamos apostar que ele possa salvar este jovem, também.
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Shun estava trêmulo. Mesmo que o tremor tivesse sido fraco, algo dentro dele reviveu o trauma de infância e quando Aiolia o abraçou, ele correspondeu convulsivamente.
— Eu estou aqui... – murmurou Aiolia.
Lágrimas quentes escaparam pelos olhos de Shun e a dor dele atingiu o leonino.
— Venha, vou pedir que um médico o atenda e lhe dê um calmante, para que possa relaxar.
— Não é preciso, apenas me abrace. – disse o jovem, aos soluços.
Às palavras de conforto somaram-se um abraço ainda mais apertado e nenhum dos dois se constrangeu ao fazê-lo ali, em meio aos pacientes, familiares e equipes médicas de emergência que caminhavam pelos corredores do hospital.
Afrodite, acompanhado de perto por Ângelo, se aproximou dos dois com copos de café fumegante e os estendeu aos amigos.
— Eu soube que o Minos vai ser operado. – disse o loiro.
— Ele está muito ferido? – perguntou Shun.
— Bastante. Hades disse que... a cirurgia é de risco. – respondeu Afrodite.
— I-Isso quer dizer que ele... pode morrer?
— Sim... – disse o loiro com lágrimas nos olhos.
Uma comoção geral apoderou-se do grupo. Em seguida, o celular de Afrodite tocou e a voz preocupada de Hilda se fez ouvir. A cafetina silenciou quando lhes contaram a situação de Minos. Depois, se recompôs e disse algo que fez Afrodite suspirar.
— Espero que ela esteja preparada para mais um baque, quando revelarmos a ela a nossa decisão. – falou o prostituto.
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Ikki Amamiya olhou-se no espelho, enquanto higienizava as mãos para a cirurgia. Parecia que a vida não cansava de lhe pregar peças... Nem bem voltara ao Japão e um terremoto se fizera presente, como se o estivesse avisando para não permanecer ali.
Deixara o Japão quando criança, após um terrível terremoto que matara muitos, inclusive a sua família. A tragédia atraíram diversas ONGs e ele acabara embarcando em uma jornada que o levara para um país estranho e o fizera ser adotado por um americano chamado Guilty.
O homem que o adotou era médico e de caráter severo. Ele também havia perdido parte de sua família em um acidente e só lhe restara a filha de nome Esmeralda. Pouco tempo depois da sua integração àquela família, Esmeralda contraiu uma doença tropical, nas muitas viagens que seu pai fazia e veio a falecer. A partir dali, ele se tornara o único filho do médico e toda a atenção e exigências voltara-se para si.
Seguindo a profissão do pai, ele se consagrara como um dos mais respeitados cirurgiões dos Estados Unidos. Fizera a sua residência no Johns Hopkins Hospital o hospital universitário que integrava o topo da lista onde constavm os maiores e melhores hospitais do mundo. Fora ali que recebera o apelido de Fênix, porque conseguia resgatar a vida de pacientes desenganados ou os trazia de volta à vida, após as pequenas mortes comumente conhecidas por paradas cardiorrespiratórias.
A grande ironia era que esta capacidade regenerativa não se aplicava a si. Ainda doía o fato de ter perdido Shun, depois Esmeralda, a irmã adotiva que era tão parecida com seu falecido irmão e tão afetuosa quanto. A vida parecia desafiá-lo, constantemente, com perdas pessoais significativas, mas, no entanto lhe conferira o talento de curar estranhos.
— Dr. Ikki, a sala já está pronta.
A voz do enfermeiro buscou-o e ele sentiu-se agradecido por isso. Não queria viver no passado, nem ressuscitar antigas dores. Por isso, jogava-se de corpo e alma no trabalho, sem dar espaço para nada mais que não fosse salvar vidas.
Então, Fênix, vamos lá tentar manter mais um neste mundo!— disse para si mesmo, enquanto deixava o pequeno compartimento.
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Minos ouvia vozes e sentia o bruxuleio das luzes e reflexos sobre si. A dor permanecia sufocando-o de forma terrível e, de repente, o alívio...
A cena mudou e ele podia ver a si mesmo flutuando acima de tudo aquilo. Seu corpo estava sendo entubado e um bisturi cortava sua pele como se ela fosse feita de manteiga, mas não havia dor em nenhum dos procedimentos...
— Os sinais caíram! Ele parou de respirar! – disse a enfermeira olhando os monitores que sibilavam.
— Epinefrina!— gritou Ikki.
A enfermeira aplicou a injeção direto no coração, enquanto o médico abria um pouco abaixo da costela flutuante e deixava o sangue sair, aliviando a pressão intratorácica, mas ainda com risco de forte hemorragia.
— Vamos, garoto! Resista! – dizia Ikki, enquanto limpava a incisão e verificava se a injeção fizera efeito.
— Nenhum sinal, doutor. – falou a enfermeira.
— Desfibrilador!
Duas pequenas pás foram colocadas no tórax de Minos. O choque veio e o corpo do jovem arqueou para trás.
Uma!
Duas!
Três vezes!
Na terceira vez, a paz que Minos sentia evanesceu e ele sentiu uma espécie de empurrão que o obrigou a permanecer no seu corpo ferido.
— Isso, rapaz! Fique aqui... – dizia Ikki, enquanto suas mãos trabalhavam com destreza, encontrando as lesões no corpo do jovem e tratando-as com eficiência.
Enquanto o médico fazia o seu trabalho, duas forças agiam sobre o paciente. Uma o levava a permanecer e outra o puxava para além da dor, onde um rosto conhecido surgiu olhando-o com ternura.
Albafica...
— Como está a pressão? – perguntou Ikki.
— Baixando, doutor. Estamos perdendo-o de novo!
— Precisamos de sangue! Coloque a bolsa e rápido! – gritou Ikki.
Uma agulha foi introduzida no braço de Minos e logo o líquido vermelho fluiu para dentro do seu corpo, numa tentativa de estabilizar a hipotenção causada pela perda abundante de sangue.
— Aplicar mais 5cc de epinefrina! – disse Ikki e depois, voltando-se para o paciente, falou: — Escute, aqui, rapaz! Eu não posso fazer tudo sozinho, você vai ter que me ajudar!
Ele tem razão! Você tem de resistir.
— Resista! Caralho, você é jovem demais prá se entregar! — gritou Ikki sem se importar do palavrão que dissera em altos brados.
Minos ouvia as duas vozes sobrepostas, como se fosse um daqueles cantos religiosos que ouvira quando criança nos templos xintoístas. Aos poucos, a voz grave do médico parecia arrancá-lo da paz que sua alma desejava, enquanto a voz suave ficava cada vez mais longe, muito longe...
— Isso, garoto! Fique! – disse Ikki quando os aparelhos passaram a registrar os batimentos cardíacos num ritmo aceitável.
Rapidamente, Ikki fechou a incisão que fizera e olhou para o rosto pálido de Minos. Ainda não podia comemorar, pois a situação continuava grave. As vinte e quatro horas subsequentes seriam cruciais e ele o sabia.
— Muito bem, Minos. Esse é o seu nome, não? Agora é com você. – falou o médico, enquanto o jovem era encaminhado de volta à UTI.
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Ela seria sua mulher, pensou Radamanthys segurando Pandora em seus braços e sentindo prazer em olhá-la nua. O contraste da pele alva sobre os lençóis escuros o deixava estarrecido, assim como o sexo entre eles que havia sido intenso e prazeroso, de modo que a sintonia entre as necessidades de ambos fora perfeita.
Os dois não haviam ido ao jantar beneficente, mas haveria outros. A vontade de estar juntos havia sido mais forte e nenhum dos dois quis lutar contra ela...
Pandora sorria, enquanto Radamanthys acariciava-lhe as costas, murmurando entre beijos o quanto amava cada curva do seu corpo. Ela tocou-lhe a face e, de repente o quarto tremeu. Acostumado com o fato, o executivo agiu rápido, protegendo-a com seu corpo até que o tremor cessasse.
— O-O q-que é isso?- ela perguntou, assustada.
— Um pequeno terremoto, mas fique tranquila, este prédio foi feito para aguentar um tremor bem maior que esse.
Pandora se permitiu abraçar, sentindo a respiração cálida de Radamanthys em seu rosto. Quando tudo ficou silencioso, ela desvencilhou-se dos braços do executivo, levantou-se e começou a recolher as suas roupas.
— O que está fazendo? – perguntou Radamanthys.
— Hades! Eu... Eu devia ter ido até a Fundação. Será que ele está bem?
— Vamos ver se já tem alguma notícia no Tóquio News. – falou o executivo acionando a gigantesca TV que ocupava quase uma parede inteira do quarto.

Um terremoto de pequena magnitude ocorreu esta noite em Tóquio atingindo 5.5 na escala Richter, deixando poucos feridos e apenas um morto. A Fundação Saori Kido que estava próxima ao epicentro sofreu rachaduras em sua estrutura e um pequeno desmoronamento onde causou ferimentos graves em um jovem cujo nome ainda não foi revelado. Continuaremos informando durante toda a madrugada. Tóquio News, direto dos nossos estúdios para os seus lares. Fiquem conosco!
— A Fundação teve um desmoronamento. Todos foram encaminhados ao Hospital Sanno que é perto dali. – disse Radamanthys, após ouvir as notícias.
— Meu Deus... Hades!
— Fique tranquila. Se Hades tivesse sofrido algum ferimento, seria notícia agora.
Pandora olhou para Radamanthys.
— Ele precisa de mim. Eu não posso deixá-lo sozinho...
— Eu sei, Pandora. Eu vou levar você até ele.
Uma hora depois, Pandora entrou no hospital e procurou em volta. Radamanthys falou com a recepcionista e logo ambos encontraram Hades em uma saleta pequena e próxima da UTI. Quando ele voltou-se para a porta, Pandora ficou bastante assustada. Hades exalava tensão por todos os poros. Seu rosto contraído acentuava as linhas firmes de sua face. Seus olhos sempre tão implacáveis transpareciam uma dor profunda que a fez perder a respiração. Ela deu um passo em sua direção e ele crispou as mãos. Como sempre, ele se fechava para ela, mas era preciso continuar.
— Hades? Você está bem? – ela perguntou numa voz quase inaudível, mas verdadeiramente preocupada.
Ele relaxou as mãos, soltou um profundo suspiro que pareceu atravessá-la e se aproximou.
— Vocês parecem bem. – a voz dele soou rouca e estranha.
Pandora se arrepiou. De perto, ela viu as olheiras de cansaço no rosto altivo e aquele sofrimento de fundo que ela só vira uma única vez. O dia em que Hades dissera adeus e jamais voltara.
— Nós estamos, mas você... você parece estar sofrendo tanto! Conte-me o que aconteceu. Não me rejeite, por favor...
Hades se aproximou ainda mais, encarando-a. Os dois ficaram parados por longo tempo. O silêncio permeando e tornando o ar tenso e escasso. Pandora levantou a mão trêmula e hesitante para tocá-lo no rosto. Por ínfimos segundos, ela achou que ele se afastaria, mas, excepcionalmente, ele tomou-lhe a mão e a puxou contra o corpo firme, abraçando-a como se nunca mais quisesse soltá-la.
Pandora estremeceu e tentou conter as lágrimas que lhe inundavam os olhos. Sentiu que as mãos de Hades tremiam ao estreitá-la contra si e então tomou coragem de dizer o que nunca havia dito.
— Perdoe-me... Eu te amo tanto, irmão. Divida o seu sofrimento comigo.
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Halldora apoiou-se no braço da enfermeira. Quando soubera o que havia acontecido com seu sobrinho, exigira sair da cama e vê-lo, mesmo que fosse, apenas, através do vidro da UTI. Assinara a permissão para a cirurgia com o coração apertado e um medo atroz. O esforço a deixara exausta e, pela primeira vez na vida, ela rezou.
Pediu para que Minos resistisse, não porque ele a sustentava, mas porque o amava. Sim, amava. Descobrira isso ao permanecer naquele hospital e sentir que ele era a única pessoa que tinha na vida. Por mais egoísta que ela tivesse sido a vida toda, a ameaça de perder Minos lhe era insuportável. Fracassara em tudo, não tinha profissão, sentia inveja da irmã bem-sucedida e não se responsabilizara pelo sobrinho como deveria. Queria desesperadamente ter a chance de cultivar um novo relacionamento entre eles. Arranjaria um emprego e não deixaria mais que ele vendesse o corpo para sustentá-los. Mesmo que tivesse de esfregar o chão e limpar banheiros, faria o que uma mulher adulta devia fazer para manter a sua família.
— Senhora Halldora?
A voz masculina, acompanhada de um toque em seu ombro a fez voltar-se para trás.
— Sou o doutor Bernard. A senhora precisa descansar para estar bem quando eu lhe der alta.
As lágrimas escorreram quentes pelo rosto de Halldora.
— Diga que ele não vai morrer, doutor...
— Nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance. Agora só depende da capacidade de resistência do seu sobrinho. Por favor, volte ao seu quarto.
Halldora obedeceu e se agarrou à ideia de que Minos era forte. Ele fora o único sobrevivente do grave acidente que matara a sua irmã. Ele era saudável e jovem. Muita gente que não merecia sobrevivia a cirurgias e coisas piores. Minos era bom e certamente se recuperaria.
Aceitou o sedativo que o médico lhe ofereceu somente depois de ele afirmar que ela, apenas relaxaria. Queria estar bem acordada e consciente quando amanhecesse.
Amanhã será um novo dia e Minos sairá dessa! Repetiu para si mesma como se fosse uma oração...
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Hades estava com as duas mãos encostadas no vidro, seu olhar perscrutava aflito aquele que amava, sabia que Minos estava lutando para sobreviver. Recusara-se a ir para casa, mas pedira que Radamanthys levasse Pandora e que seus amigos cuidassem dois demais.
Saori e Lune estavam prestando depoimento à polícia sobre o ocorrido e Johann estava detido. Hiroaki sumira e agora, só ele permanecia ali, vigilante.
Na UTI, Minos estava isolado de tudo e todos. Os tubos o mantinham respirando, enquanto drenavam as secreções e o sangue. Os monitores sinalização a frequência cardíaca e a pressão. O rosto dele estava tão pálido que se confundia com a brancura dos lençóis.
— Sei que ele deve ser importante para você, mas ficar aqui não vai adiantar de muita coisa. – disse Ikki aproximando-se do executivo.
— Não vou deixá-lo sozinho. – falou Hades.
Ikki nada disse, reconhecendo naquele homem o mesmo desespero mudo que sofrera um dia. Tocou-o no ombro e abriu a porta da UTI, deixando- o entrar.
Hades olhou-o com estranheza.
— Vista isso e lave bem as mãos. Vou permitir que fique ao lado dele. Talvez isso o ajude a resistir. – disse o médico estendendo um avental ao executivo.
Vestindo o avental azul, após higienizar as mãos, Hades agradeceu ao médico que o deixou as sós com o paciente. Em seguida, aproximou-se de Minos e tocou-lhe a face com ternura. Sentiu-o frio e estremeceu.
— Minos... – murmurou, sentindo, mais uma vez, o gosto amargo do medo.
Não havia nenhum sinal do Minos rebelde e sensual, nem da vivacidade costumeira que o caracterizava. Parecia que a vida se esvaía dele, deixando-o inerte e, levando consigo, parte de si. Por longas horas, Hades ficou observando-o, como se a sua vigilância pudesse manter a vida do rapaz. Ele piscou uma vez, durante a madrugada e, de repente, viu um rapaz de branco próximo à cama de Minos.
— Não o vi entrar. – disse Hades, achando que a figura era um enfermeiro.
— Você está cansado. Porque não descansa um pouco? Eu cuido dele. – falou o jovem.
— Não. Eu só saio daqui quando ele estiver fora de perigo. Preciso vê-lo abrir os olhos.
O jovem virou-se e sorriu. À meia luz, Hades pode perceber-lhe os traços belos. Ele não parecia ser um enfermeiro.
— Você tem de chamá-lo. Ele precisa ouvir a sua voz. – disse o belo rapaz.
— Eu chamo, mas ele não me ouve. – Hades se ouvia falar, mas tudo parecia tão longínquo...
— Diga que o ama. Ele precisa saber...— insistiu o rapaz.
Hades piscou, novamente.
— Quem é você e como sabe que eu...?
Diga que o ama... Diga e ele ouvirá. Ele precisa ouvir!— a voz tornou a repetir.
— Senhor Hades?
A voz feminina despertou-o. Já havia amanhecido e ele havia cochilado. A enfermeira o olhava com preocupação, pois ele estava em pé e com os olhos bem abertos, embora parecesse estar em transe.
— O doutor Ikki falou que permitiu a sua permanência aqui, mas o senhor precisa descansar. Está dormindo em pé. Eu conferi os sinais e o paciente continua na mesma situação.
— Ele... Ele precisa ouvir. – falou Hades.
— Como? Quem precisa ouvir? Se está se referindo ao paciente, ele está em coma. – disse a enfermeira.
Hades a ignorou e se aproximou da cama, tomando a mão gelada de Minos na sua.
— Minos, eu amo você! Amo mais que qualquer coisa em minha vida. Fique comigo!
— Senhor Hades, é melhor o senhor sair... Não é bom tocar no paciente, isso pode acarretar uma infecção e...
O executivo continuou ignorando-a, o desespero, enfim sendo liberado, enquanto segurava a mão de Minos e repetia que o amava.
O jovem permanecia inerte, o corpo cada vez mais pálido, parecendo fundir-se ao branco hospitalar da cama e paredes...
— Minos, resista! – Hades quase gritava, sua mão trêmula tocava o rosto da amado, sentindo-o cada vez mais frio.
— Eu vou chamar o médico! – disse a enfermeira deixando o quarto.
As sombras dançavam a sua volta e Minos ouvia Hades falar com ele em várias línguas e, por mais estranho que parecesse, ele as entendia. Eram palavras de incentivo, mas havia algo de errado... Ele ouvia o executivo dizer eu amo você, mas Hades nunca dissera isso. Ele o desejava, ele o protegia... Mas amá-lo?
Estou sonhando... Pensou Minos e as sombras espiralaram, novamente, atraindo-o, levando-o para longe da dor... Porém, logo o rosto de Albafica apareceu.
Ele o ama! Disse ele e Minos surpreendeu-se em vê-lo ali.
Albafica... você morreu, então eu também estou morto.
Não, você vai viver! Ouça... Ele o está chamando. Vá, vocês precisam um do outro!
Minos franziu o cenho, vendo a imagem de o seu primeiro amor fundir-se às espirais que teimavam em envolvê-lo como se fossem uma pele adicional.
Eu amo você, Minos!
Mais uma vez, a voz de Hades se sobrepôs à cena surreal, abrindo caminho para as lembranças... Johann ameaçando Lune. Hiroaki dando uma de herói e Hades gritando seu nome, enquanto a parede desabava...
Em meio à enxurrada de imagens, Minos abriu os olhos. Estava no hospital cheio de tubos. Hades estava ao seu lado. Ele não podia falar, mas seus olhos cravaram nos do executivo que o fitavam aflitos e cheios de lágrimas.
Hades sentiu o coração disparar quando os olhos violáceos buscaram os seus e, pela primeira vez em sua vida, se permitiu chorar.
— Minos...
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