NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)

8 Capítulo 8 - CARELESS WHISPERS...


Notas iniciais
♡♥ Olá, galera amada!!! Mais um capítulo, enquanto ainda estou em férias!! Adianto que, após essa postagem irei atualizar as fics mais antigas, novamente, até retornar a esta. Bjs e espero que gostem do capítulo!!! ** O poema que abre o capítulo não é meu e foi retirado do blog LusoPoemas.

“Sorve a minha saliva,
Possui o meu corpo,
Entre beijos e sussurros,
Faz de mim tua loucura...

Já vestido, Hades olhou para a cama. Minos dormia profundamente, a respiração quase inaudível, o corpo nu, totalmente, relaxado.

Seus olhos frios detiveram-se no rosto em repouso, os traços belos oscilando entre o clássico e o selvagem, a expressão adolescente que costumava enfrentá-lo, os lábios deliciosos que adorava sentir nos seus...

Alguma coisa, dentro de si, havia mudado. Já não era um simples fetiche como muitos que tivera. Nunca desejara tanto um homem, como desejava Minos e também jamais fora tão longe para ter um homem na cama.

Como dominador, era fácil atrair e subjugar, mas com Minos era diferente, não havia nele o traço principal de um submisso, a obediência. Mesmo quando parecia ceder, ele o fazia por uma necessidade, totalmente, sua e não para agradar ou submeter-se. Essa era a contradição que sentia em si, pois, mesmo que sua personalidade encontrasse prazer em ter o controle, a peculiaridade encontrada em Minos o agradava de forma profunda e excitante...

Minos virou-se e abriu os olhos, sentindo o olhar de Hades sobre si. Ele franziu o cenho ainda vendo tudo um tanto borrado pelo sono.

— Aconteceu alguma coisa?

— Surgiu um imprevisto. – respondeu Hades. – Vou ter que voltar a Tóquio para resolver um problema, mas pretendo voltar logo.

— Algo me diz que não é lance de trabalho. Se eu puder ajudar...

Hades sorriu. A perspicácia do prostituto mais uma vez o surpreendia.

— Não, não é. Obrigado por oferecer ajuda, mas é algo que somente eu posso resolver. Volte a dormir, quando acordar eu já estarei de volta e pronto para retomar a nossa conversa.— disse Hades com a voz grave, a mão descendo para acariciar a coxa e, em seguida as nádegas expostas de Minos.

Minos sorriu e antes que Hades fizesse o próximo movimento, elevou o corpo e beijou-o de forma apaixonada. O mais velho entreabriu seus lábios permitindo que a língua cálida invadisse sua boca numa lânguida exploração, sentindo seu corpo responder de imediato. Então, devagarinho, Minos afastou os lábios, sentindo o ofego prazeroso que escapou da boca de Hades.

— Isso é para dar sorte. – disse o jovem com um sorrisinho malicioso.

Hades estava sério, mas por dentro sentia uma exigência que precisava domar para não sucumbir ao desejo. Mergulhou nos olhos de Minos e lhe pareceu vislumbrar algo mais que a sedução natural pertencente ao prostituto. Então sorriu, também e, desta vez, foi ele quem plantou um beijo demorado nos lábios do jovem.

— Já tive a sorte de encontrá-lo, Griffon. Se algo der errado, um carro virá pegá-lo e eu deixei seu cheque na mesinha. Agora volte a dormir. – disse Hades deixando o aposento.

As palavras ecoaram pela mente de Minos, “já tive a sorte de encontrá-lo, Griffon”, enquanto ouvia o som do carro se afastando. Então caminhou até a porta, chegando a tempo de ver o carro sumindo por entre as cerejeiras iluminadas na escuridão. Inspirou fundo e depois foi até a mesinha, achando o envelope que Hades deixara.

Quando pegou o cheque em mãos, ficou chocado com a quantia. Era uma pequena fortuna que o deixaria muito bem por meses... No entanto, algo dentro de si remexeu-se, desconfortável. Olhou para a quantia e fez um muxoxo com os lábios. Tinha decidido passar o fim de semana por vontade própria e não porque ele o pagaria. As noites já tinham sido acertadas, portanto os dias pertenciam a si e escolhera permanecer com ele, porque era a primeira vez que sentia prazer de verdade, sem artifícios ou jogos.

Uma vez você me disse que eu não tinha escolha... Mas, eu tenho e vou mostrar isso a você. Sem pestanejar e da forma impulsiva com que agia sempre, Minos rasgou o cheque em pedacinhos, colocou dentro do envelope e sorrindo, voltou para o futon e dormiu.

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Pandora estava em posição fetal, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado, o corpo oscilando como um pêndulo...

Horas antes ela se deixara conduzir pelo belo Radamanthys e ousara permitir-se transar no primeiro encontro. Era adulta, gostava de sexo e desde que seu pai morrera, ela não havia encontrado um homem capaz de satisfazer seus desejos e caprichos.

Primeiro ela se interessara pelo amigo jovem do irmão, mas, em seguida surgira ele, Radamanthys, um homem mais velho, sedutor e com aquele brilho nos olhos que ela reconhecia... Ele gostava de dominar e a desejava. E ela... Ela nascera para ser submissa e num conceito muito mais amplo que apenas ceder aos desejos de um homem. Ela gostava da disciplina, da humilhação consentida, da dor e do abandono nos braços do Dom... Ela precisava que tomassem conta de si.

Radamanthys era um homem experiente e notara os sinais que ela lhe enviara. Num primeiro momento, hesitara por ser ela irmã do amigo e rival nos negócios. Porém, a revelação que ela era uma sub à procura de um Dom despertou-lhe o prazer do jogo que lhe era familiar e ele embarcou nas trevas do desejo dela...

Quando despiram as roupas, ambos ficaram maravilhados com o corpo um do outro. Ele era esguio, o abdômen definido, os músculos desenvolvidos da maneira certa. Unido a tudo isso, a postura ereta e a voz rouca e grave formava um conjunto completo.

Ela era do tipo mignon, seios pequenos e firmes, quadris estreitos como os das ninfas retratadas na arte clássica. Os olhos violáceos brilhando e dizendo o que os lábios não ousavam pronunciar...

Como um autêntico Dom ele percebeu sua urgência. Mas como todo dominador experiente, ele a questionou. O consenso e a clareza, nesse caso, era sempre inquestionável e imprescindível.

— Está consciente do que acontecerá se me permitir trazê-la ao meu mundo, Pandora?

Ela sorriu. Amava aquela escuridão... a escuridão dos desejos proibidos, a ausência de limites, a dor e o prazer tão intimamente entrelaçados.

— Seu mundo também é meu. Me faça sua... Me domine, se for capaz.

Um brilho malicioso perpassou os olhos dourados, enquanto Radamanthys analisava a prontidão da resposta.

— Muito bem... Posso sentir-me lisonjeado em ter uma mulher tão bela em minha cama, mas sabe que essa postura arrogante tem de ser corrigida, não?

Ela fechou os olhos em êxtase, sim, ela o sabia...

Radamanthys a puxou para a cama, colocando-a deitada sobre o seu colo e fazendo-a gemer. Enroscou uma das mãos nos cabelos fartos e os puxou até o limite da dor suportável.

— Serão vinte golpes, sua safe é vermelho. Se for demais para você, diga-a em alto e bom tom. Haverá somente essa palavra, nenhuma outra me fará parar, entendeu?

— Sim...

— Sim o quê?

— Sim, meu senhor!

— Ótimo, minha cadelinha... Então vamos começar...

Os golpes nas nádegas vieram a seguir, fortes e com a mão aberta. Os dedos marcando e permanecendo na pele clara, os gemidos irrompendo dos lábios arfantes e a contagem evoluindo em intervalos curtos. Pandora contava cada uma, aos gritos, a excitação e a dor tomando seu corpo.

Sentia a ereção de Radamanthys crescendo embaixo do seu corpo e uma pontada que iniciava no clitóris e a percorria como um feixe elétrico até chegar à vagina...

A contagem prosseguiu e os golpes também deixando os dois embriagados de prazer e dor. Lágrimas brotaram entre risos histéricos e a mente de Pandora, inesperadamente, viajou, entrando em sub space regressivo. A safe não foi pronunciada, embora suas nádegas estivessem rubras e a dor das pancadas já ultrapassasse o suportável.

Radamanthys percebeu o retesar da musculatura e, em seguida, o desfalecimento do corpo, a falta de reação, os olhos fechados e a boca entreaberta... Sinal vermelho, ela estava em transe!

Ele parou, trazendo-a para junto de si.

— Pandora... Pandora... Volte, menina! – disse ele com uma voz grave e pausada.

Ela ouvia o seu nome como um sussurro longínquo, seu corpo estava ausente e sua mente divagava entre o passado e o presente de forma vertiginosa, deixando-a confusa, carente, como se estivesse caindo num poço escuro e sem fim.

Imagens da infância, do mesmo ato sendo executado tantas vezes que ela já nem sabia quando começara... Aos cinco, aos sete anos? As palmadas corretivas que, mais tarde, lhe descortinaram um universo erótico e perverso lhe foram apresentadas pelo próprio pai, um Dom exigente e habilidoso que a tornou uma Sub exemplar. Podia lembrar, claramente, o olhar de aprovação de sua mãe, quando ele dominava a ambas e as encoleirava, colocando-as aos seus pés, sujeitando-as ao seu prazer... Entretanto, ele estava morto... Morto!

O choro convulsivo irrompeu quando ela abriu os olhos, sentindo o aconchego dos braços de Radamanthys, porém sua mente não conseguia organizar os fragmentos advindos da experiência atual e da memória do passado. Seu corpo tremia e ela não conseguia se acalmar.

— Acalme-se, menina... – dizia Radamanthys, enquanto a tomava nos braços e a levava para o banheiro.

A voz dele se fundia a outra que escutara desde pequena. A saudade e a vergonha se mesclavam, mas o amor era mais forte. Ele a instruira, ele a disciplinara, ele a tornara sua menina, sua puta, sua eterna cadelinha no cio...

— Papai... me perdoe... me perdoe por traí-lo... – sussurrava ela, enquanto Radamanthys a colocava embaixo do chuveiro morno.

— Pandora, feche os olhos e relaxe... – disse ele. – O que aconteceu é normal, você superestimou seus limites e eu não devia ter começado com algo tão radical. Relaxe agora...

Ela obedeceu, o corpo ainda trêmulo. Aos poucos ela foi voltando a si. Radamanthys a tomou nos braços e levou para o quarto. Enxugou-a como faria com uma criança e a colocou na cama.

— Vamos, tome isso. Vai se sentir melhor depois que dormir um pouco. – disse ele colocando uma pílula na boca de Pandora.

Como se estivesse em estado hipnótico, ela obedeceu e deitou-se, enquanto Radamanthys a cobria com o lençol.

— Agora descanse, quando acordar estará bem. – disse ele beijando-a no rosto.

Ela nada disse, apenas fechou os olhos e caiu em um sono profundo.

Radamanthys fitou-a e cuidou de seu sono até a chegada de Hades.

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Ângelo e Aiolia deixaram o Dark Sex sob os aplausos dos amigos. Os dois não estavam muito falantes, porém Saga não se importava, havia provado suas teorias sobre sexo, oportunidade e que o puto certo era capaz de desvirtuar até um santo.

— Bem, rapazes. A aposta está paga. – disse Saga.

Saga colocou o braço sobre os ombros de Aiolia que sorriu meio torto e deixou passar as piadinhas sobre quem havia comido quem.

— O que querem fazer agora? – perguntou Saga.

— Eu estou indo prá casa. – disse Máscara se encaminhando para o carro e com a mesma cara de poucos amigos que mostrara no início da noite.

— Eu também. — disse Aiolia.

— Ah, vamos beber em outro lugar! A noite é apenas uma criança e é sexta-feira. – falou Saga.

— Para mim, chega por hoje!- disse Ângelo.

— Tem certeza? – insistiu Saga.

— Absoluta. – respondeu ele, já entrando no carro.

Saga riu e olhou para Aiolia.

— E você? Também está na vibe de se enfurnar em seu apartamento vazio? – perguntou o grego.

Aiolia coçou a cabeça. Na verdade, detestava ficar sozinho e não queira pensar no que acabara de acontecer consigo. Tinha sido estranho e assustador o prazer que experimentara com aquele prostituto.

— Está bem, eu aceito beber mais por aí. – respondeu o leonino.

O grego riu e abraçou Aiolia depositando um beijo em ambas as bochechas do leonino. Logo, os dois estavam em outro clube noturno onde havia uma pista de dança e o som era, essencialmente pop.

O leonino tentou se distrair e até flertar com mulheres, mas a imagem de Andrômeda permanecia em sua mente e aqueles olhos... Os olhos dele eram de uma doçura que jamais encontrara em nenhuma mulher e, o pior de tudo, era que isso nunca fora uma característica que importasse para si.

Gostava de mulheres femininas, mas fortes e Marin o atraíra por ter essas qualidades. Haviam se conhecido na adolescência e o namoro acabara em casamento. Sempre acreditara suprir as necessidades dela, até o momento em que flagrara a traição.

Doía ter sido trocado por uma mulher e ter ouvido que sua esposa sentia-se mais segura com a amante do que com ele. Shina me satisfaz em todos os níveis. Não é só sexo, mas o prazer que tenho com ela me faz feliz como eu nunca fui. Sinto muito, Aiolia.

— E então amigo, como foi lá? – perguntou Saga colocando mais uma garrafa de cerveja nas mãos do leonino e interrompendo as lembranças dolorosas.

Aiolia tentou sorrir, mas estava confuso e não queria dividir sua intimidade com Saga, naquele momento.

— Vamos falar de outra coisa, está bem? Vim aqui para beber e curtir. – disse ele entornando a cerveja recém-trazida.

Saga piscou para os outros. Depois, se aproximou de Aiolia e falou:

— Bem-vindo ao mundo real, amigo. Que todos os armários sejam abertos! Vamos brindar a isso!

Enquanto Aiolia bebia com Saga, Ângelo chegava em casa, o corpo ainda vibrando com o orgasmo vivido com o prostituto chamado Rose.

Tirou o paletó e olhou para a fotografia em destaque, sobre a escrivaninha. Sentiu uma pontada de culpa diante da imagem de sua mulher e de seu filho sorrindo, tendo ao fundo a praia de Toscana, o céu azul e a água límpida...

Aquela foto imortalizara a última viagem em família, antes que a tragédia os tirasse de sua vida. Já havia se passado cinco anos, mas a dor da perda permanecia dentro dele, tornando-o um predador nos negócios e um solitário na vida privada.

Agora, sentia-se traindo a memória de sua família por estar, profundamente em paz, depois de tanto tempo. Como podia ter se sentido daquela forma com um homem?

Foi até o bar e se serviu de uma dose de saquê. A aguardente japonesa desceu quente pela garganta e ele fechou os olhos, sentindo um arrepio no corpo. Preciso de um banho frio e uma boa noite de sono! Pensou ele, olhando a fotografia de sua família, mais uma vez, e pedindo perdão por ter vivenciado um momento de prazer intenso...

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Naoko entrou no jardim onde seu pai meditava sob a luz prateada da lua. Ele parecia uma bela e antiga escultura, imóvel e serena daquele jeito. Respeitosa, ela esperou que ele movesse o corpo, antes de dirigir-se a ele.

— Aproxime-se. – disse Tadashi.

— Perdoe-me por interrompê-lo, senhor meu pai. Mas...

— Mais desatinos do seu irmão?

Com uma expressão fingida de desconforto, Naoko sentou-se aos pés do pai.

— Sinto ser eu, sempre a trazer-lhe más notícias. Mas, Hiroaki foi longe demais, ele matou Ozaki por ele ter me contado sobre o prostituto.

Tadashi inspirou fundo. Então se levantou e foi até a fonte onde carpas coloridas deslizavam, languidamente. A mão envelhecida tocou a superfície da água e, em seguida, olhou para o céu.

— Meu filho está para mim como a ilusão que tenho de tocar a lua nesta água. Creio que preciso intervir de maneira mais enfática para que ele aprenda de vez a lição.

— Pai, sabe que estou ao seu lado. Afaste Hiroaki, por algum tempo, e deixe-me cuidar dos negócios. Eu já provei que tenho inteligência o suficiente para conduzir nossos investimentos.

Os olhos do velho miraram os da filha. Ele percebia a ansiedade e certo prazer nela, cada vez que seu varão cometia um desatino.

— Você é mulher. Deixe os negócios da família para os homens. Tenho que escolher um marido para você para que tenha filhos e cumpra o seu papel.

Naoko fechou os punhos, ao ponto de cravar as unhas na palma das mãos, porém manteve o rosto sereno. Doía nela o fato de seu pai preferir o irmão incapaz e imaturo. Não era apenas a tradição a culpada por tal favorecimento. Tadashi preferia Hiroaki e o amava mais que qualquer uma de suas filhas. Não importava o que ele fizesse, nem mesmo a preferência que ele tinha por homens!

Seu sonho era desmascarar de vez o filhinho querido e mostrar que, mesmo sendo uma mulher, era mais inteligente e capaz que o irmão irresponsável.

— Como quiser, senhor meu pai. – disse ela, curvando-se.

Tadashi fez um gesto com a mão dispensando-a. Em seguida, ordenou a um dos criados que lhe trouxesse mais chá.

Andando com passos duros, Naoko foi até o aposento do irmão constatando que ele não estava. Deve estar no prostíbulo fodendo aquele prostituto! Disse para si mesma, enquanto deixava a casa principal e se dirigia aos aposentos dos empregados, através do caminho feito de pedras e bonsais.

Chegando aos fundos da mansão, pode ver a luz no interior do aposento que lhe interessava. Então ela abriu a porta com cuidado e entrou, encontrando Raiden, um dos homens mais eficientes à serviço de seu pai. O japonês estava nu, costas e peito exibindo as tatuagens com o símbolo do clã a quem servia.

Ele olhou-a sem surpreender-se com a invasão repentina. Em seguida, sorriu de um jeito malicioso, enquanto percorria o corpo feminino com o desejo estampado nos olhos negros.

— Eu pretendia entrar sozinho no ofurô, mas creio ser mais agradável ter a sua companhia.

— Não vim aqui para isso! – disse ela irritada. – Vista-se.

Um tanto decepcionado, Raiden colocou um kimono e, em seguida, serviu-se de saquê.

— A que devo a honra? – perguntou ele.

— Hiroaki matou Ozaki. – disse ela cruzando os braços.

— E?

— Como assim, E? Você sabe muito bem o que isso significa!

— Ele será o próximo oyabun e não há nada que você possa fazer.

O olhar fulminante que ela lhe lançou o fez franzir o cenho.

— Eu vou impedir que aquele fraco tome conta dos negócios. Você está comigo ou não?

Raiden suspirou e bebeu mais um gole de saquê.

— Nunca uma mulher foi eleita oyabun. Você vai acabar se destruindo se continuar com essa história.

— Foi-se o tempo que a Yakuza era poderosa, apenas pelo uso da violência. Dedos decepados, inimigos mortos à espada, tudo isso faz parte do passado, mas aquele idiota continua agindo como se estivéssemos no século dezessete!

— Pode até ser, mas seu pai lidera a Gardênia à moda antiga e Hiroaki segue os seus passos, apesar de tudo.

— Pois vou mostrar que é possível fazer diferente e vou provar que Hiroaki, apesar de ser o primogênito, não é adequado para comandar.

— E como pretende fazer isso?

Naoko sorriu, passando a unha bem feita e afiada no bíceps de Raiden.

— Segredos de mulher... Agora, quero que me diga, está comigo ou não?

— Não quero acabar como Ozaki e não tenho estômago para ser um traidor.

— Seu covarde! – disse ela levantando a mão para bater no rosto do japonês.

Raiden segurou o pulso delicado no ar e com força, impedindo-a de prosseguir com a agressão. Em seguida, olhou bem fundo nos olhos dela e puxou-a para si, beijando-a com violência. Ela tentou reagir, mas a força daqueles braços a mantiveram junto ao corpo forte, enquanto a língua ávida tocava a sua, fazendo-a estremecer. Por alguns segundos ela pareceu corresponder e então se afastou, furiosa e ofegante.

— Não ouse me tocar! – a voz saiu fraca e desapontada. – Não serei amante de um covarde.

— Naoko... – murmurou ele.

— Se não está comigo, está contra mim. Depois não diga que eu não avisei! – disse ela dando as costas ao yakuza e deixando o aposento aos tropeções.

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Radamanthys fez questão de ser ele mesmo a receber Hades. Apreciava a amizade dele, mesmo que fossem rivais nos negócios e, por mais constrangedor que fosse a situação, ele lhe devia explicações.

— Então, Radamanthys, o que houve com minha irmã? – perguntou Hades ao ser recebido na cobertura do amigo.

— Antes de tudo, acho que ambos vamos precisar de uma bebida. – respondeu Radamanthys indo até o bar e preparando duas doses de uísque.

— Onde ela está? – questionou Hades.

— Está dormindo no quarto. Dei-lhe um calmante suave. – disse Radamanthys estendendo-lhe o copo com a bebida.

Hades se manteve em pé, mesmo após aceitar a bebida. Radamanthys sorveu um gole e, em seguida dirigiu-se ao amigo.

— Vou ser direto, porque não costumo ficar enrolando. Eu e sua irmã fomos para a cama e ela sofreu um distúrbio. Talvez tenha acessado a um fato traumático e... Bem, eu achei que era melhor deixá-lo a par do que aconteceu, porque me pareceu algo um tanto grave.

O olhar de Hades encontrou o de Radamanthys e friamente, ele perguntou:

— Você é Dom?

Radamanthys pigarreou, porém sustentou o olhar, antes de responder.

— Sim, eu sou. Fazia muito tempo que eu... Bem, você sabe que na nossa profissão existem épocas que são impossíveis para manter certos prazeres. Pelo visto, você também conhece o universo do BDSM ao ponto de me reconhecer como dominador. Eu quero que saiba que só fui adiante com Pandora, por que...

— Porque ela é uma submissa com rompantes de rebeldia.— completou Hades sorvendo o restante do uísque num só gole.

— Você já sabia?

Hades olhou para Radamanthys e sua expressão já não estava tão isenta quanto no início. Ele respirou fundo e foi até o bar servir-se de mais uma dose.

— Meu pai a iniciou. – disse ele, sem entrar em mais detalhes.

Levando a mão aos cabelos acobreados, Radamanthys ficou sem o que dizer. Embora tivesse seus fetiches, incesto era um ponto nevrálgico e raro, dentro do BDSM.

Instaurou-se um silêncio denso no ambiente e nenhum dos dois ousava falar. Radamanthys em respeito ao amigo e Hades, pelo simples fato que não havia nada a ser dito.

Passados alguns minutos, Hades olhou para o restinho de bebida em seu copo e então falou:

— Vou levá-la para casa.

— Ela não vai acordar tão cedo. Deixe-a dormir aqui, eu cuido dela. – disse Radamanthys.

Hades olhou-o com o cenho franzido e surpreso com a oferta.

— Não me olhe assim, só quero ajudá-la. Fique tranquilo.

— Está bem. Se ela acordar antes do previsto, me ligue. Eu e Pandora precisamos conversar, seriamente.

— Pode deixar.

Hades deixou a cobertura e colocou-se na estrada, novamente. Sua mente fervilhava, tirando-o da zona de conforto construída por anos.

A visita de Pandora reabrira o portal proibido, cuidadosamente fechado quando seus pais o mandaram para um colégio interno, caro e distante. Ele sempre desconfiara das atenções do pai para com Pandora e também das atitudes extremamente resignadas de sua mãe. Juntos, seus pais eram excelentes administradores e haviam feito fortuna com trabalho e competência no gerenciamento de recursos obtidos com pesquisas no campo da ecologia. No entanto, a realidade familiar era permeada pelo abuso incestuoso do pai, para com Pandora e da conivência de sua mãe que amava mais o marido que os filhos.

Muitos dominadores e submissas assumiam relacionamentos baunilha, tinham filhos e conseguiam manter seus fetiches entre as quatro paredes do quarto. Não era o caso de seu pai que, como Dom exercia o controle da mulher e da filha, tornando-as parceiras para acentuar o prazer erótico que tinha em dominá-las.

Quando atingiu a compreensão do que acontecia em casa, ele tentara salvar Pandora do assédio, porém era apenas um adolescente e, até atingir a maioridade, fora deixado à margem da família sendo enviado para estudar fora de casa.

Numa tentativa desesperada, ousara denunciar aquela situação para um professor, dentro do internato, porém Pandora negara tudo, enquanto seus pais alegavam que ele possuía um distúrbio psicótico e que estava tentando destruir a família.

O assunto acabou não sendo levado adiante, porque ninguém acreditava que um casal tão feliz e com filhos tão belos pudesse ocultar tanta sujeira e perversidade. Como sempre, a aparência mascarava a realidade e, em sua juventude, ele vivenciara a impotência, fato que o marcaria e o faria tomar uma difícil decisão.

E Pandora... ela escolhera permanecer ao lado do pai e a dor de vê-la colocar-se ao lado do abusador, abraçando aquele amor doentio, acabou por fazê-lo desistir de tudo e decidir deixar tudo para trás...

País, amigos, família foram abandonados e ele construiu uma nova identidade, liberta de laços e de qualquer sentimento que o enfraquecesse, embora o lado sombrio que tanto negara, permanecesse em si e se revelara, quando adulto, na frieza com que se relacionava com as pessoas.

Também sentia atração pelo domínio, entretanto, não criava vínculos e usufruía de seus fetiches em locais onde apenas o sexo importava. Nada de relacionamentos baunilha, nem de paixões que arranhassem a superfície cínica e fria com que conduzia sua vida pessoal. Não desejava amor, nem filhos. Não deixaria a ninguém o legado de sua miséria, como havia lido, certa vez, em um posfácio de um livro estrangeiro.

Uma chuva fina começou a cair e Hades pisou no acelerador. Queria chegar logo a Quioto, voltar aos momentos prazerosos com Griffon e esquecer aquele maldito estigma familiar que retornava à sua vida.

Imerso em reflexões, ele não parou no cruzamento. O sinal estava verde e podia seguir em frente. Pensava no que fazer com Pandora, depois no corpo voluptuoso de Griffon, das emoções que ele lhe despertava e como ele começava a ocupar um espaço jamais oferecido a ninguém...

Não viu um carro ultrapassando o cruzamento do outro lado em sua direção, até que seus instintos sinalizaram algo errado. Por um microssegundo ele soube que o carro ia bater no seu, mas não pode fazer nada, além de tentar minimizar o impacto ao virar a direção para o lado contrário.

A colisão fez o Nissan dar um giro de trezentos e sessenta graus, porém Hades se manteve firme na direção. Quando o carro parou de rodar ele ouviu uma sirene e logo um carro de polícia estava junto do seu. A chuva continuava e tudo parecia desfocado. Ele estava um pouco tonto, mas consciente. O outro carro havia batido e se afastado, de forma que ficaram um de frente para o outro.

— O senhor está bem? – perguntou o policial.

— Sim... – respondeu Hades.

— O senhor tem um corte feio no supercílio. Saia do carro que vamos encaminhá-lo ao hospital.

— Não é necessário, eu estou bem. – insistiu Hades.

— Não podemos deixá-lo ir embora. Bateu a cabeça e está sangrando. A ambulância está chegando e vamos colocá-lo nela.

Hades sentiu algo quente e molhado no rosto. Tocou verificando ser seu sangue que escorria do ferimento. A ambulância chegou em menos de cinco minutos e os paramédicos já caminhavam na sua direção. Então suspirou, resignado, e olhou para o outro lado onde um Lexus negro exibia um amassado na lateral e o motorista parecia alterado, enquanto o policial parecia um tanto constrangido em insistir que ele devia acompanhá-lo.

O policial ao seu lado informou a ocorrência ao motorista da ambulância e pediu licença para apoiar seu companheiro no impasse com o infrator.

Só então Hades notou que o responsável pelo acidente estava sem ferimentos e tirara a jaqueta de couro preta exibindo as tatuagens tradicionais da máfia como se isso garantisse a sua impunidade.

A discussão estava se tornando acalorada quando, mesmo um pouco tonto, Hades percebeu conhecer o japonês que colidira com seu carro. Ele franziu o cenho e focou no corpo esguio que gesticulava, freneticamente, enquanto os policiais mantinham a postura ereta e educada que os caracterizava. Quando os olhos negros e puxados fixaram-se nos seus, Hades pode ver com clareza, era Hiroaki o yakuza que disputava consigo a companhia de Griffon...

Notas finais
♡♥Agradecimentos a todas que leem, comentam, me deixam feliz com todo esse carinho expresso de tantas formas, sejam elas ativas ou silenciosas. Obrigada, SEMPRE!!!! Algumas coisinhas da fic: **** sub space regressivo é um estado psicológico alterado que é alcançado durante a relação entre Dom e submisso(a). A grande maioria das pessoas associa o BDSM ao seu aspecto físico e acaba esquecendo dos aspectos psicológicos, que devem ser considerados durante a relação. Sub-space é muito parecido com um transe hipnótico, onde a pessoa consegue mentalmente se separar do ambiente enquanto processa a experiência. Geralmente acontece quando a pessoa se aprofunda e foca mais nas sensações físicas da sessão, o mundo pode desaparecer restando apenas o sub, o Dom o que está acontecendo. A sensação dupla de prazer e dor gera uma resposta do sistema nervoso simpático, que causa a liberação de epinefrina das glândulas suprarrenais e uma descarga de endorfinas e encefalinas. Essa mistura de químicos tem um efeito parecido de drogas como a morfina, gerando um tipo de anestésico natural aumentando a tolerância de dor e induzindo um estado de euforia e algo relatado como experiência “fora do corpo”. Esse estado mental pode durar horas ou dias. **** Safeword- palavra de segurança, previamente combinada entre as partes envolvidas numa atividade BDSM para indicar que se atingiu determinado tipo de limite físico ou psicológico, ou que alguma coisa não está bem, como por exemplo câimbras, tonturas, dificuldades para respirar, etc. Ou, simplesmente que não se está obtendo prazer e se quer parar. ****BDSM é uma sigla para a expressão "Bondage (Bondage é um tipo específico de fetiche, geralmente relacionado com sadomasoquismo, onde a principal fonte de prazer consiste em amarrar e imobilizar seu parceiro ou pessoa envolvida. Pode ou não envolver a prática de sexo com penetração), Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo" um grupo de padrões de comportamento sexual humano. A sigla descreve os maiores subgrupos: • Bondage e Disciplina (BD) • Dominação e Submissão (DS) • Sadismo e Masoquismo ou Sadomasoquismo (SM) **** Relações baunilha são relações comuns. ****“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Esse é o autor estrangeiro citado por Hades.