NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)
6 Capítulo 6 ENTRELAÇOS...
Notas iniciais
Minos olhou para a pequena caixa que retirara do esconderijo em seu quarto. Com cuidado, afastou a rosa, antes branca, e agora amarelada e seca, que ficava junto dos objetos importantes. Um destes objetos era um envelope. Pegou-o e passou os dedos sobre o papel pardo antes de abri-lo.
Estava guardando dinheiro para várias coisas, uma delas era para o período em que ficaria sem trabalhar preparando-se para entrar no colegial. O sonho de completar os estudos e cursar uma universidade era metade seu e metade de sua mãe.
Ainda lembrava quando ela o pegava no colo e conversava sobre o futuro. Desejo que seja um homem de bem e de sucesso, meu amorzinho. E eu sei que você vai ser alguém muito especial!
Se ela ainda vivesse, certamente não se orgulharia de ter um filho garoto de programa, porém essa opção surgira em meio às adversidades e, de certa forma, fora reforçada pela sua personalidade irrequieta e independente.
O seguro que sua mãe deixara e que seria o suficiente para sustentá-los havia sido roubado por um dos amantes de sua tia, uma mulher que, decididamente não sabia escolher seus relacionamentos.
Prostituir-se, não havia sido uma escolha fácil, mas também não fora o drama maior da sua vida. Antes dessa escolha, seus hormônios já estavam a mil e a descoberta do sexo acontecera de uma maneira inesperada, aos 14 anos,
Parecia que a vida gostava de pregar-lhe peças e assim, uma amizade rápida e inusitada se revelara uma experiência profunda e o levara a ter a sua iniciação sexual com muito prazer, mas também com dor. O garoto com quem transara, pela primeira vez, tinha a mesma idade que a sua e também era um gaijin.
Albafica era o nome dele, e a lembrança do dia em que se conheceram continuava ali, imortalizada na rosa branca que ele lhe dera. Uma simples flor fora a única coisa que restara e, apesar de tudo que havia acontecido e de ambos serem adolescentes, tinha sido um tempo que ele jamais esqueceria. Tocou as pétalas ressequidas e sua mente vagou...
As cerejeiras floridas deixavam um tapete de flores estendidas no chão. A praça estava relativamente vazia, porém eu e meu vizinho brincávamos de jogar beisebol com bastões improvisados.
— Olha lá, Minos! Tá vendo aquele carinha? – perguntara Hideo.
— Sim! O que tem ele?- respondera sem ao menos olhar na direção apontada.
— O pai dele é embaixador. Eu vi os dois na TV.
— E o que tem isso?
— Como o que tem isso? O carinha é importante! Um tanto esquisito, mas não é feio, nem mal-encarado.
Então ele olhara para o “carinha” e se surpreendera. Sim, ele era bonito e diferente. E tinha algo nele que despertou sua curiosidade. Mas, no instante em que os olhares se conectaram, o estranho o ignorou e continuou a ler o livro que detinha em suas mãos.
— Vamos convidá-lo prá jogar? – insistiu Hideo.
— Não creio que ele faça o tipo esportivo. – respondi.
— Ah! Você não sabe de nada! Eu vou lá.
Minutos depois Hideo voltava com a cara amarrada.
— Ele não quis.
Estava na cara, mas Hideo era insuportavelmente insistente quando acreditava obter alguma vantagem. A família dele sempre exaltava a importância das “boas relações” e isso o tornara uma espécie de “olheiro” adolescente, sempre à busca de conhecer gente importante.
— Deixa o cara, Hideo. E, pra falar a verdade, achei ele meio “nojentinho”, do tipo que se acha.
— Não, esse é você! – disse Hideo rindo. – Eu acho é que ele não fala japonês.
Novamente deixei escapar uma risada, agora mais alto, e isso atraiu a atenção do estranho. Em um primeiro momento, avaliei a fala de Hideo. “Será que é isso?” Pensei antes de ir até o garoto e cumprimentá-lo em inglês.
A expressão dele me desarmou. Ele sorriu de um jeito tímido e estendeu a mão.
— Hi, my name is Albafica.
— Minos. – disse eu.
— Pleasure to meet you, Minos.
— It's my pleasure. – respondi.
A partir daquele simples encontro, nós dois passamos a nos ver, enquanto ele permanecia com o pai no Japão. Nos tornamos amigos e eu soube a razão de ele estar ali. Ele estava tentando um tratamento alternativo para a leucemia em estado avançado e que não surtia efeito ao ser tratada com as terapias tradicionais.
Macrobiótica, Reiki, Shiatsu, tudo usado para prolongar-lhe a vida e aumentar-lhe a resistência orgânica. E, o mais engraçado, era que ele não parecia atormentado com isso, o que me fez admirá-lo ainda mais.
— Eu vou morrer isto é fato. – ele dissera em uma tarde que estávamos deitados na grama da casa onde estava hospedado.
— E você não tem medo?- perguntei surpreso com a serenidade dele. Afinal, na nossa idade, morrer parecia tão anti-natural.
— Medo do quê? De morrer? Não. Só fico triste pelo meu pai. Ele faz tudo o que pode e, mesmo assim... vai perder a batalha. – disse ele com um suspiro. — Logo ele que sempre se orgulhou de controlar tudo.
Eu me apoiei nos cotovelos para vê-lo melhor. Ele tinha uma expressão do tipo personagem de mangá ou anime, belo, alvo e com aquele olhar, como se fosse desaparecer no ar a qualquer momento...
Fiquei ali, olhando prá ele e, de repente, me deu uma vontade insana de beijá-lo e eu o fiz. Ele arregalou os olhos, mas depois correspondeu.
Senti um gosto de ginseng misturado com rosas que, segundo ele, vinha de um chá que fazia parte do tratamento. Aquilo me atiçou ainda mais e eu nem questionei o fato que éramos do mesmo sexo.
Foi o meu primeiro beijo e o dele também. Nós sentimos o gosto da língua um do outro e a excitação que isso provocou em nossos corpos. Nos separamos com o coração disparado e um incômodo no baixo-ventre...
— To de pau duro... – disse eu.
Ele sorriu e ficou vermelho.
— Eu também...
Nós não fizemos nada além de ficar nos beijando, naquele dia. Nos próximos, a coisa evoluiu e além dos beijos profundos, as nossas mãos vagavam por nossos corpos, sentindo, aprendendo...
O pai de Albafica gostava que ele tivesse feito amizade e ocupava-se de alguns negócios na embaixada japonesa, enquanto ficávamos sozinhos e nos tornando, cada vez mais íntimos um do outro.
Albafica parecia bem, embora não pudesse fazer muito esforço. Então passávamos o tempo conversando, rindo e às vezes jogando xadrez. Não falávamos sobre a doença, apenas curtíamos a companhia um do outro sem entender o que acontecia, mas sentindo que estávamos mudando...
Numa tarde, ele disse sério que estava indo embora. Eu tentei sorrir, sabia que iria acontecer e, afinal, nós recém havíamos nos conhecido. Nenhum de nós queria aquele afastamento, mas nada poderia ser feito. A amizade que surgira entre nós tinha vindo com prazo de validade.
Eu já tinha perdido minha mãe e pensara que nunca mais algo ia me tocar do mesmo jeito. Mas, na véspera de perder Albafica me senti profundamente triste. Minha reação foi fazer de conta que tudo aquilo tinha sido um sonho. Isso até ele se aproximar de mim e sussurrar:
— Faz amor comigo... não quero ir embora sem saber como é. Quero que seja com você.
Eu o beijei com vontade. Esqueci tudo que não fossemos eu e ele. Estávamos sozinhos no quarto dele, deitados no futon... Eu tirei a roupa e ele também.
No início fiquei preocupado, o que iríamos fazer? Queríamos transar, mas... quem comeria quem? Ele notou a minha hesitação, riu e disse que queria ser meu. Eu também ri e o resto fluiu como devia ser.
Cada vez que ele me olhava com aqueles olhos, me fazia sentir quase um deus, um deus totalmente inexperiente, mas com um tesão enorme. Tesão que me levava à masturbação diária olhando revistas pornográficas com todos os tipos de relação que os amantes da minha tia deixavam embaixo do sofá da sala.No entanto, ali com ele, estava sendo muito diferente, era tudo mais forte, mais excitante.
Entre risos e beijos, pedi prá ele virar de costas. Beijei e mordi sua pele, fazendo-o gemer. Ele ficou de quatro e eu puxei-o para junto de mim. Passei saliva no pênis e comecei a penetrá-lo. Não era fácil e eu podia sentir a dor dele. Fiquei com medo e parei.
— Não para! – ele falou mesmo com os olhos cheios de lágrimas.
— T-Ta apertado... N-Não quero te machucar.
— Passa... isso aqui. – disse ele pegando um potinho debaixo do futon.
— Vaselina? – perguntei ao ver o potinho com uma coisa branca e transparente.
— É um unguento usado na massagem...
Eu peguei e passei no meu pênis e na entrada dele. Depois disso, deslizei para dentro do corpo quente e gemi... Ah, era bom, apertado e fazia meu pênis latejar. Comecei a estocar e o puxei para junto de mim, deixando a marca dos meus dedos nos quadris estreitos e alvos.
Albafica gemia baixo e, de repente, senti que ele deixou escapar o ar com força e começou a tremer. Meu corpo parecia que ia explodir e eu também estremeci.
Era um orgasmo bem diferente de quando eu me masturbava. Não era localizado, era no corpo todo, uma força que me lançava para além de mim mesmo e eu sentia Albafica em mim de um jeito estranho e intenso. Ele era parte de mim e eu, dele.
Ele gritou e gozou, assim como eu.
Ficamos meio zonzos, eu por cima dele e ele arfando sobre o futon. Nossos corações estavam acelerados e nossas peles úmidas de suor.
Jamais esqueci o sorriso dele e a forma como apertou a minha mão. Não conseguíamos nos mover e eu experimentei uma felicidade que não lembrava sentir desde a perda de minha mãe.
— Uau... – disse ele, quase sem forças para mover o corpo.
— Você está bem...? – perguntei ainda estonteado.
— Melhor impossível...
Albafica adormeceu e só então eu notei que havia um pouco de sangue no meu pênis e nas coxas dele. Tive medo de tê-lo machucado, mas como se tivesse lido meus pensamentos ele acordou, tomou a minha mão na sua e a beijou.
— Eu estou bem, Minos...
Eu o beijei com o coração apertado, sabendo que seria a nossa primeira e única vez. Ficamos ali, abraçados, apenas sentindo a respiração acalmar, enquanto a angústia teimava em nos assombrar.
Antes de partir ele me deu uma rosa branca, a mesma usada nos chás que ele havia bebido. Não dissemos adeus, apenas nos abraçamos como se tivéssemos acabado de nos conhecer.
— Não me esqueça. – eu disse.
— Nunca. – ele respondeu.
Foi ali que, tanto eu quanto ele, percebemos os nossos sentimentos. Foram apenas quinze dias e mesmo assim, para nós foi como se outro mundo nos fosse oferecido e agora não sabíamos mais quem seríamos depois de tudo.
Três dias depois da partida dele, eu soube pela internet que ele havia morrido. A notícia em destaque fazendo-me sentir uma dor tão grande que adoeci. Tive febre, não conseguia comer e uma dor terrível no peito me fez sentir falta de ar por uma semana. Não chorei, ele não gostaria disso. Agarrei-me à rosa, até que ela secasse e quando a febre passou, me tornei imune às dores menores.
O que ele tinha me dito ficava ecoando dentro da minha cabeça: “Faz amor comigo... não quero ir embora sem saber como é. Quero que seja com você.”
Era meu primeiro amor adolescente e minha segunda perda importante.
No ano seguinte, quando fiz quinze anos e a tragédia de perder o seguro se abateu sobre nós, surgiu a oportunidade de usar o sexo para nos livrar do pior. Eu não hesitei, já tinha perdido a ingenuidade de achar que havia finais felizes.
Meu corpo continuou a sentir e dar prazer, mas meus sentimentos pareciam ter ido embora com Albafica. Simples assim, sem dramas, nem expectativas. Sou bom de cama e aprendi a usar isso a meu favor.
Viver é uma arte que eu represento muito bem.
— Minos!
A voz esganiçada da tia rompeu as lembranças, trazendo-o à realidade.
— O que é?
— Seu celular está tocando e você deixou ele aqui na estante. – gritou ela.
Minos pegou algumas notas e guardou o restante. Pulou da cama, guardou a caixa no esconderijo e foi até a sala.
— Oi! – disse ao atender.
— Está pronto? – perguntou Afrodite.
— Estou saindo. Você já está na loja? – falou Minos, enquanto sua tia o olhava, fixamente.
— Sim, venha logo!
Colocando o celular no bolso, Minos encarou sua tia.
— O que foi?
— Quero saber se vai ficar fora todo o fim de semana.
— Vou, por quê?
— Mitsuru vem jantar aqui e eu queria fazer uma coisinha especial.
Minos revirou os olhos e balançou a cabeça.
— Te dei dinheiro a semana passada e não foi pouco.
— Bem, eu...
— Olha, aqui Halldora, eu já estou de saco cheio dessa história. Quer foder? Escolha um homem que seja macho o suficiente prá te sustentar e não esses gigolôs que você traz prá cá quando eu saio para trabalhar!
— Trabalhar! Pois sim! Você vai é vender o rabo e ainda que me dar lição de moral! – gritou ela, ofendida.
— Pois é o meu rabo que te sustenta! Porque você foi burra e deixou que um dos teus machos inúteis roubasse o que a minha mãe nos deixou! E agora, se me dá licença, eu tenho mais o que fazer!
— Você não vai me dar o dinheiro...? – perguntou ela, fungando.
— Argh! Mas você não tem vergonha nessa cara mesmo! Toma! – falou Minos tirando duas notas do dinheiro que tinha na carteira. – E não me pede mais nada até o mês que vem!
Halldora sorriu e puxou o sobrinho, beijando-o no rosto. Minos fez uma cara de quem estava sendo estuprado e se afastou.
— Tome cuidado e use camisinha. – disse ela, enquanto ele batia a porta.
Quando Minos chegou, Afrodite já o esperava sentado em um banco próximo, bebendo uma água mineral. Trajava uma camisa azul de malha, jeans claros e estava usando óculos escuros.
— Desculpe te fazer esperar. – disse Minos.
Afrodite abriu um sorriso.
— Sem desculpas! Vamos, estou louco prá te ver escolher roupas novas. Já pensou no que quer?
— Eu quero algo mais clássico, que me faça parecer mais...
— Adulto?
— Mais velho, seu chato! Eu já me considero adulto.
Os dois riram e entraram na loja envidraçada que trabalhava com moda masculina. O interior da loja era bastante contemporâneo, com paredes exibindo cores mais vibrantes, embora as roupas vendidas ali mantivessem um ar clássico e fossem bastante caras.
— Em que posso ajudá-los? – perguntou um jovem japonês que parecia uma versão oriental do ator Johnny Depp.
— Nós gostaríamos de algumas roupas descoladas, mas com aquele toque clássico que deixe o meu amigo aqui mais gostoso... quer dizer, mais lindo do que já é. – adiantou Afrodite, enquanto Minos se distraía com um vídeo sobre moda exibido em telões presos à parede.
— Você também gostaria de ver alguma coisa?
— Não, é só para ele. Eu só estou dando uma espécie de consultoria. – respondeu Afrodite puxando Minos pelo braço.
O vendedor sorriu. No mínimo devem ser amantes... Pensou enquanto observava aquelas belíssimas espécies do sexo masculino com atitudes de intimidade.
— Por favor, acompanhem-me.
Afrodite acomodou-se em uma poltrona ocidental estilo bérgere, enquanto uma jovem sorridente oferecia chá e suco. Em seguida, camisas, calças, blazers e sapatos eram trazidos e mostrados à Minos. Ele experimentou várias combinações e acabou escolhendo roupas em tons escuros que contrastavam com sua pele e olhos.
— Você vai a-rra-sar!— disse o loiro.
Minos se olhou no espelho, gostando da sua aparência e do caimento das roupas que escolhera. Era a primeira vez, em muito tempo, que tinha vontade de sentir-se bonito. A despeito de tudo o que já tinha vivido e enfrentado em seus dezessete anos, ter um cliente como Hades havia trazido uma injeção de ânimo ao seu pequeno mundo.
— Dinheiro ou cartão? – perguntou o vendedor.
— Dinheiro. – respondeu Minos abrindo a carteira.
Ao sair da loja, Afrodite estava feliz pelo amigo. Adorava ajudar e adorava comprar.
— Bem, missão cumprida! – disse ele.
— Não sei como te agradecer. – falou Minos.
— Mas eu sei! Me leve para almoçar e de preferência, num restaurante caro. – disse Afrodite olhando Minos por cima dos óculos escuros.
Minos riu.
— Você merece muito mais.
— Eu sei. Mas, por ora, *feed Me, Seymour! e estamos quites! – disse o loiro sorrindo e os dois caminharam abraçados pela rua movimentada.
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Era sexta-feira e mais um negócio havia sido fechado com êxito. Hades deixou seu escritório e foi para a Fundação, já que Saori programara um almoço para vários executivos japoneses e estrangeiros com o intuito de angariar fundos para as obras assistenciais a que se propusera.
Assim que o elevador parou e as portas se abriram no andar, um mar de rostos conhecidos esperava para cumprimentá-lo. Hades suspirou. Não queria estar ali, mas presidia a Fundação e submetia-se ao papel, porque de certa forma, se sentia grato ao universo por ter tido todas as oportunidades que o colocara onde estava.
— Ah! Aí está ele, nosso amado presidente! – disse uma voz delicada e feminina que ele logo soube a quem pertencia.
— Olá, Saori. Todos já chegaram?
Ela assentiu sorrindo e apontou para o grande salão onde a imprensa já esperava para dar cobertura ao evento.
— Até o gerente-executivo da Nissan está aqui. Ele disse que tem interesse no programa de bolsas para jovens em idade escolar. Desde o colegial até a universidade. Não é ótimo?
— Sim, é ótimo. – disse Hades.
O almoço transcorreu com sucesso e todos estavam na linha de frente, como se costumava dizer. Os programas foram repassados para a imprensa e os acordos, fechados.Quando conversava com um dos assistentes sociais, Hades sentiu seu celular vibrar.
— Sim, Aiolia? Não. Não estarei disponível neste fim de semana. Vamos agendar um jantar de negócios na quarta-feira. Claro, pode enviar o relatório antes. Envie para o meu celular. Até mais.
Assim que desligou, Hades olhou o relógio. Faltavam duas horas para buscar Griffon no Dark Sex e ele se sentia excitado. Fazia muito tempo que não experimentava a sensação de antever o prazer e isso, de certo modo, o agradava.
Uma mulher bonita e de porte elegante aproximou-se de Hades, enquanto ele observava a recepção e pensava no que viria a seguir.
— Só assim para encontrá-lo, meu caro. Sinto a sua falta... Aliás, não só eu. – disse ela.
— Como vai Yuzuriha? Sempre bela. – disse Hades beijando a mão estendida para cumprimentá-lo.
— Eu vou bem, mas... ficaria melhor se aceitasse o convite que lhe enviei.
Os olhos frios se estreitaram.
— Tenho trabalhado muito.
— Ora, não me faça rir, meu querido... Um Dom como você é como um predador que não despreza uma boa carne se lhe é oferecido o estímulo necessário. Poderá estar atolado de trabalho, mas o prazer é um chamado que a sua natureza jamais irá recusar.
Hades riu ao ouvir aquilo. Que bela descrição da sua personalidade, refletiu cinicamente. A verdade era que estava usufruindo de algo diferente e até mesmo o convite para uma cerimônia de encoleiramento não o atraía como antes. Embora, um lado seu ainda encontrasse ressonância do ato de submeter, outro lado emergia após conhecer e transar com Griffon. Era algo sutil e ainda insipiente, mas mexia consigo e o fazia ansiar por mais...
— Verei o que posso fazer, minha cara. Prazer em revê-la. – disse ele com um tom educado.
— Igualmente... – disse ela num tom sussurrante, enquanto Hades beijava, novamente, a sua mão.
Meia hora depois, o celular vibrou, novamente. Era Pandora e Hades lembrou-se que ela ainda estava hospedada em seu apartamento. Apertou o aparelho com força e respirou fundo, antes de atender.
— Sim, Pandora.
— Fui convidada para sair... – disse ela com um tom de suspense.
Hades ficou calado durante alguns segundos e Pandora quase repetia a frase quando ele falou:
— Eu vou ficar fora o final de semana. Divirta-se.
— Não quer saber quem me convidou?
— Tenho certeza que mesmo eu não querendo, ainda assim você vai me dizer.
— Depois daquela indelicadeza de deixar-me para dar uma carona para seu outro amigo, acabei tendo o prazer de conhecer Radamanthys melhor. Ele é um homem charmoso, agradável, bastante interessante e...
— Tudo bem, Pandora. Estou em uma recepção e não posso ficar conversando sobre a sua vida particular.
— Chato! Que espécie de irmão você é? Nem ao menos deseja saber as intenções dele comigo?
— Você é adulta e viveu todo esse tempo sem a minha presença. Faça o que quiser e pare de bancar a jovem adolescente de 27 anos. Boa noite!
— Grosso! Estúpido! E...
— Adeus, Pandora. Bom divertimento.
Hades desligou o celular antes mesmo que Pandora terminasse a frase. Olhou, novamente, as horas e sorriu. Exatamente, 19h45min. Estava na hora de deixar a Fundação.
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O porteiro do Dark Sex interfonara, chamando Griffon. Afrodite foi chamá-lo e encontrou-o estudando o próprio reflexo no espelho.
— Você está incrivelmente lindo! E... ele já está ai! – disse o loiro.
Minos usava uma camisa de malha justa na cor bordô e uma calça social marrom cujo caimento impecável destacava as coxas de forma sutil e elegante. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo baixo e Afrodite havia aparado um pouco os fios rebeldes da franja, deixando à mostra os olhos violáceos.
— Acha mesmo? – perguntou ele.
Afrodite sorriu e tocou o rosto do amigo. Gostava tanto dele! Minos era aberto, generoso e impulsivo. Havia nele uma força de caráter e uma maturidade para muitas coisas, mas isso não evitava que ele continuasse a ser um garoto de dezessete anos com responsabilidades e decisões que não deveriam ser suas. O loiro era o único que sabia da verdade, um segredo guardado com muito cuidado.
— Quantas vezes tenho que dizer que você está um arraso para que acredite, heim? – respondeu Afrodite beijando-o de leve nos lábios. – Vai, divirta-se com o Sr. cacete de ouro...— completou rindo.
O jovem ergueu a cabeça e deixou o Dark Sex pela porta da frente. Estava ansioso, embora consciente que estava mesmo bem vestido para sair com Hades, não importando se fossem direto para o apartamento e lá ficassem nus, transando a noite toda. De forma inconsciente, começava a abrir-se, desejando ser admirado pelo homem que mexia consigo.
Hades deixou o carro no instante em que Minos apontou na entrada do prostíbulo. Os dois se olharam com uma admiração explícita.
— Está muito elegante, Griffon... – disse Hades, quando ele se aproximou.
O olhar de Minos traduzia o que ele pensava sobre Hades. Esse cara me tira o ar... Como alguém pode ser tão... fodasticamente bonito? Pensou ele. O terno de grife marrom, usado com uma camisa bege e uma gravata ocre escuro conferia classe e casualidade, ao mesmo tempo. Os cabelos presos... aquele rosto másculo e belo cuja expressão era sempre sexy e misteriosa o deixavam excitado.
— Você também, embora isso seja o seu normal. – falou Minos
Hades sorriu.
— Vamos. – disse ele abrindo a porta para Minos.
O ato cavalheiresco fez Minos sentir-se orgulhoso de si, mas ele nada disse e fingiu não notar.
Quando o carro foi posto em movimento, Hades colocou a mão na coxa de Minos, pressionando-a de leve.
— Vamos fazer uma pequena viagem. – disse ele.
Minos franziu o cenho, estranhando a frase.
— Viagem? Não vamos para aquele apartamento perto daqui?
— Não. Vamos para Quioto. Tenho uma propriedade lá e são, apenas três horas de carro.
— A Cidade dos Samurais... – murmurou Minos.
— Exato. – disse Hades sorrindo. – Eu sei que tratei, apenas as noites, mas estou disposto a pagá-lo pelos dias, se estiver disponível.
— Você quer um fim de semana inteiro? – questionou Minos.
— Veja desta forma, sou um homem extremamente ocupado. Preciso relaxar um pouco.
— Relaxar?
— Sim.
— Fodendo?
Hades sorriu, enquanto seu olhar subia e descia pelo corpo de Minos.
— Existe uma forma melhor de relaxamento?
Foi a vez de Minos rir e por algum motivo oculto, até para si mesmo, Hades sentiu-se mais leve e à vontade com ele. Parecia que parte de si revelava-se na companhia de Minos de um jeito natural e agradável.
A viagem transcorreu com períodos de conversas e silêncios. Minos observava a paisagem com atenção. Pouco viajava e tudo o que sabia era através de leituras e visualização em sites, quando não estava trabalhando.
Quando estavam próximos da propriedade, Minos notou um caminho de cerejeiras iluminadas, antes de visualizar a magnificência da arquitetura tradicional tanto na construção em si, quanto no terreno em volta. Pedras, bonsais, cerejeiras e plantas criando desenhos e caminhos. Até mesmo o som de água corrente colaborava para despertar uma sensação de paz e aconchego.
— Comprei essa casa daquele homem cujo retrato você viu no apartamento. – disse Hades.
— O senhor Tadaka? Você o conhece? – perguntou Minos, surpreso.
— Sim, acabamos fechando este negócio.
— Mas... ele é um taxista que rala prá caramba e até enfrenta dificuldades financeiras. – falou Minos.
— Nem sempre foi assim, há alguns anos atrás ele era um homem de posses que, por algum motivo que desconheço, deixou de sê-lo.
A revelação de tudo aquilo fez Minos pensar no velho Tadaka e solidarizar-se, ainda mais com ele. Compreendia muito bem o que era acordar, um dia, e ver sua vida desmoronar.
— Quem tirou aquela foto dele? – perguntou Minos.
— Isso eu não sei, aquele apartamento foi adquirido em um leilão.
Minos pronunciou um Humm e continuou olhando a casa. Talvez um dia perguntasse ao velho ou... não. Tem coisas que é melhor deixar no passado. Disse a si mesmo, enquanto seguia ao lado de Hades.
Assim que entraram, ele ficou admirado com a amplitude, beleza e sobriedade do lugar. Mesmo vivendo no Japão desde criança, os espaços que ocupara sempre possuíam uma decoração ocidental. Já visitara alguns Ryokans, mas nunca havia se hospedado em um tão sofisticado. Hades era, realmente, bastante rico para comprar uma hospedaria tradicional e conservá-la, somente para si.
A sala principal, coberta de tatame possuía uma mesa central de madeira polida em formato circular e quatro almofadas verde oliva ao redor. Lâmpadas em formato de antigas lanternas pendiam do teto e a iluminação suave acentuava o aconchego das cores terrosas das paredes. Um conjunto de biombos exibindo pinturas aquareladas separava o ambiente e um pequeno altar com incenso e estatuetas representando os deuses erguiam-se na parede principal.
Um senhor de cabelos grisalhos apresentou-se com um sorriso amável.
— Bem-vindos, senhores. – disse ele curvando-se.
— Boa noite, senhor Akihito. Este é Griffon, meu convidado. Tudo já foi providenciado? – falou Hades, também se curvando para saudar o velho.
— Muito prazer, senhor Griffon. E sim, tudo foi feito de acordo com as suas instruções. Se precisar de mim, é só chamar. Com licença.
Achando aquilo tudo muito formal, mas interessante, Minos olhou para Hades, encontrando um sorriso malicioso e uma expressão deliberadamente sacana.
— Venha... – disse ele.
Minos obedeceu e o que se revelou, a seguir, quando a porta de correr foi afastada, o deixou perplexo. Havia um jardim de pedras com uma piscina no centro cujos vapores criavam efeitos no ar. Era uma fonte natural de água quente em meio ao espaço, cuidadosamente, criado para oferecer prazer e intimidade...
Hades colocou-se atrás de Minos, aproximando a boca e fazendo uma trilha sensual desde o lóbulo da orelha até a extensão do pescoço alvo do jovem.
— Você está muito bonito com essa roupa, mas... vai ter de tirá-la. – sussurrou ele, fazendo Minos sorrir.
O jovem virou-se, encarando os olhos impiedosos de Hades que agora pareciam brilhar, perigosamente. A luxúria transformando frieza em ardor...
— Seu desejo é uma... tentação. – respondeu Minos, provocando.
Com um movimento brusco, Hades puxou Minos para si e beijou-o com força entreabrindo os lábios dele com avidez em uma verdadeira punição prazerosa pelo desafio. Os lábios desenhados procuraram a boca do jovem com um desejo totalmente insano e, os toques furiosos da língua dele na sua, fizeram Minos arder, como se brasas lhe penetrassem fundo as entranhas, deixando-o terrivelmente excitado.
Após um tempo, quando Hades afastou a boca da sua, Minos chocou-se ao perceber como estava ofegante, enquanto o mais velho voltava a sua impassibilidade tradicional.
— Vamos relaxar um pouco. Teremos muito tempo para as tentações.— disse Hades se afastando e começando a se despir.
Minos ficou olhando-o, a boca seca e a sensação que algo estava errado. Não era ele quem devia seduzir? Fazer valer o preço pago pelo seu trabalho?
Como se estivesse lendo a sua mente, Hades deixou as roupas num canto e começou a entrar na água, o corpo nu disputando espaço com os vapores quentes que subiam em transparentes fios.
— Está em meus domínios, Griffon... Relaxe.
O jovem riu e começou a despir-se também.
— Bem, eu já disse que o inferno não é tão ruim... O que tem mais para me oferecer, oh deus do Submundo?
— Vem aqui que eu te mostro. – respondeu Hades que já estava sentado e recostado à beira da piscina natural.
Nu, Minos começou a entrar na água, enquanto Hades sorria como se ele fosse um inseto pronto para ser devorado naquela teia de sedução construída com muito cuidado...
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Hilda suspirou com uma expressão satisfeita ao olhar o saldo da sua conta bancária na tela do computador. Em seguida, desligou tudo e foi preparar-se para a noitada de sexta-feira, um dia tradicionalmente cheio no Dark Sex.
É Minos, meu querido... Você fará falta nestes três dias, mas o mascarado misterioso soube me compensar! Pensou ela, enquanto ia até o grande salão verificar a população da noite e depois encaminhar seus pupilos para o trabalho.
No quarto espaçoso e decorado com fotografias de lugares exóticos e pôsteres de cartazes de cinema, Afrodite estava pensativo e deitado na cama macia, enquanto Shun lia o seu mangá preferido, deitado ao seu lado.
— O que você tanto lê, heim? – perguntou Afrodite, depois de um tempo.
— Histórias.
O loiro revirou os olhos.
— Isso eu sei, né coisinha fofa! Quero saber o assunto.
Shun mostrou a revista para Afrodite que cravou os olhos nos belos desenhos e, principalmente, na cena romântica que viu entre dois personagens masculinos.
— Hummm... Você heim...? – disse ele olhando para Shun que continuou com a mesma expressão inocente que o caracterizava até Afrodite levar a mão aos lábios e fingir que estava chocado com o que via.
— Me devolve! Você não sabe apreciar a arte. – disse Shun, fazendo uma cara feia.
— Ah, me deixa ler mais um pouco, estou gostando da putaria.— falou o loiro mordendo o lábio inferior.
— Não é putaria! Isto é arte e tem muito romance.
Afrodite riu. Adorava implicar com Shun, ele era doce, submisso e dono de um corpo típico dos efebos da Grécia antiga. Porém, quando era preciso, ele sabia lutar pelo que acreditava.
— Estou brincando. – disse o loiro ao ver Shun ficar emburrado.
— Ei vocês! O que estão fazendo aí, ainda? Vão circular que a casa já está cheia e recebemos uma leva de executivos que podem se tornar novos clientes. – disse Hilda surgindo na porta do quarto ocupado pelos dois.
Afrodite suspirou e Shun guardou o mangá. Eles já estavam vestidos e prontos para mais uma noite e, quando o loiro fechou a porta, Shun falou:
— Não estou a fim de nada, hoje.
— Nem eu, mas... se houver algum executivo bonito, fogoso e interessante, eu logo me acendo. – disse Afrodite rindo.
Shun sacudiu a cabeça e também sorriu. Afrodite fazia tudo ficar mais leve e, às vezes, ele agia como alguns dos personagens dos mangás que admirava.
— Então, já que temos de ir... vamos! – disse ele.
— É isso aí! – falou Afrodite beliscando a bunda do amigo.
No grande salão, Aiolia olhava desconfiado para os rapazes e moças que se portavam com discrição, enquanto todos analisavam o menu da casa. Seu amigo Ângelo Buonarroti, mais conhecido como Máscara da Morte, também não estava à vontade e bebia um uísque sem nem ler o que estava escrito no menu.
O único que estava à vontade era Saga, um dos executivos mais bem-sucedidos da empresa. Ele ria e bebia, enquanto seus companheiros pareciam aguardar a execução no corredor da morte.
— Vamos lá, Aiolia! Quem sabe você pode até gostar de variar um pouco! – disse Saga.
— Você sabe muito bem qual é a minha praia. – falou o homem de cabelos acobreados e olhos tão verdes que pareciam duas esmeraldas vivas.
— A tua praia é ser corno, isso sim! Você pegou a Marin na cama com outra mulher e ainda assim insiste. Siga o exemplo do Stallone com a Brigitte Nielsen e esqueça a sua ex-mulher. Parte prá outra! — disse o executivo sorvendo um gole de champanhe.
Irritado com a fala, Aiolia se levantou bruscamente, mas foi segurado por Ângelo.
— Não aceita provocação aqui dentro. Depois a gente cuida desse nosso "colega". – disse o italiano.
— O negócio é o seguinte, meus caros amigos. Vocês dois perderam a aposta e perderam negócios importantes que renderiam muito dinheiro. A punição para isso é ter que passar a noite com um prostituto. Qualquer um. O que vocês vão fazer, não interessa. O que eu quero ver é o quanto vão resistir ao assédio de algumas belezinhas da casa. Por isso, até já escolhi os acompanhantes pra vocês. – disse Saga.
Ângelo e Aiolia se olharam e, em seguida, viram dois jovens se aproximando. Um era loiro e belíssimo. Não fosse pelo corpo esguio e claramente masculino, poderia ser uma mulher. O outro parecia um adolescente com belos e longos cabelos castanhos e olhos tão verdes que rivalizavam com as esmeraldas vivas de Aiolia.
Afrodite olhou para o grupo e logo se deteve em Saga que sorria para ele, exibindo dentes perfeitos e brancos, a expressão do rosto, alegre e cheia de boas-vindas...
— Rose? – perguntou, Saga.
— Sim. – respondeu o loiro também com um sorriso.
— Bem, você, eu não sei, mas o meu amigo aqui, certamente, tirou a sorte grande de ter você nesta noite. – disse Saga tocando o ombro de Máscara da Morte.
O sorriso congelou nos lábios de Afrodite. Puta que pariu, fui ficar com o cara mais mal-humorado do grupo. Pensou o loiro, enquanto estendia a mão delicada para o italiano e dizia:
— Por favor, me acompanhe.
À contra-gosto, Máscara da Morte cumprimentou Afrodite e o seguiu. Após a saída dos dois, Saga anunciou:
— E você Ândromeda, terá o prazer ou... não, de entreter o nosso leãozinho aqui!
Shun notou o constrangimento de Aiolia. Embora bonito, o homem parecia querer fugir dali, naquele exato momento. O prostituto inspirou fundo e sorriu. Então, surpreendendo a todos ali ele disse, simplesmente:
— Senhor Aiolia, podemos passar uma noite muito interessante lendo e conversando. Deseja me acompanhar?
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