NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)
10 Capítulo 10 VERTIGO
Notas iniciais
“Quando em batalha feroz , meu corpo reclama o teu,
Me transformo nas rochas em confronto com o mar...
Despedaço-me, tentando ignorar meu desejo,
E retorno, sinfonia selvagem, ao precipício, denso e profundo, do teu olhar...”
Afrodite estreitou os olhos como de fosse uma fera selvagem focando a presa. A prostituta que acompanhava Máscara da Morte era a Grega safada. Sua especialidade: tornar-se o sonho de qualquer homem, fazer sexo em posições atléticas e gozar várias vezes com um prazer genuíno e, por vezes, escandaloso. Tinha um corpo estonteante, os seios opulentos pareciam saltar do corpete preto, os quadris eram largos e suas longas pernas acentuavam sua aura de femme fatale.
Isso fazia sentido? Mas claro que sim... ele está tentando se reafirmar como macho. Quer saber se sentirá o mesmo prazer... Bem, que experimente! Sua queda, meu lindo, será vertiginosa, profunda e... dolorosa. E sim, estou rogando uma praga e das mais fortes! Pensou o loiro.
Mesmo que toda aquela cena espezinhasse o seu orgulho, era um absurdo ficar se remoendo por causa de um cliente que vira, apenas uma vez. Afrodite desviou os olhos e concentrou-se em achar outro.
Ao lado do loiro, Shun também mantinha uma expressão resignada. Nessas horas, se transportava para o mundo fantástico das histórias que lia. Havia nelas muita dor, mas também superação. Um dos personagens que gostava muito era Eren Jaeger, um jovem corajoso, capaz de tudo para defender os outros. Muitas vezes, imaginava ser como ele, agressivo e disposto a ousar, libertar-se das amarras de culpa e gratidão que o mantinha preso àquele lugar.
Logo, um cliente bonito e maduro, olhou na sua direção. O homem aproximou-se como um predador e já foi tocando em suas costas de forma sugestiva, o que fez seus músculos ficarem tensos. O único toque que ele queria era... Esqueça Shun! O belo Aiolia escolheu uma mulher... Cai na real!
O homem retirou a mão convidativa e o segurou pelo braço, oferecendo a bebida que trazia. Shun aceitou e bebeu, descuidando-se do teor alcoólico do drinque e esquecendo que não costumava beber com frequência.
— Você é lindo, sabia? – sussurrou o homem.
Shun sorriu e o homem também. Logo, os dois se encaminharam em direção ao quarto.
Enquanto isso, Aiolia olhava, um tanto desconcertado para a jovem ruiva que sorria, sugestivamente, enquanto o olhava com um desejo explícito. Era uma mulher bonita, com aquele talento de sorrir de forma que fazia qualquer homem pensar que era o ser mais importante do universo.
Ele admirou a silhueta delicada num vestido justo e brilhante que ressaltava os olhos azuis por ser de um tom de azul mais escuro que eles. Porém, quando ela perguntou o que ele desejava fazer com ela, Aiolia percebeu que não estava achando nada divertido.
Lembrou-se da doçura de Shun e, ao mesmo tempo, da sua força e sensualidade. Com ele tudo acontecera de forma natural, mesmo sendo a sua primeira experiência com um homem. Era até estranho recordar que Shun não agira como um prostituto comum, com suas táticas de sedução ensaiada... Embora não acreditasse nessas coisas, Aiolia sentia que eles pareciam ter se encontrado por uma força qualquer do destino e estabelecido um tipo raro de intimidade que jamais tivera com sua mulher.
— Algum problema? – perguntou a jovem começando a despir o leonino.
— Hã... N-Não. Nenhum. – respondeu ele.
Ela passou a mão no peito atlético e se insinuou, descendo e levando os dedos longos ao membro que, diferente de minutos atrás, agora estava se recusando a cooperar.
— Hummm... vamos cuidar do mocinho aqui... – disse ela abrindo o zíper da calça de Aiolia, enquanto o empurrava sobre o futon.
O leonino sentiu-se constrangido, porque a cena já havia acontecido em sua vida privada. Fora uma única vez, quando a tensão o deixara com a libido comprometida e ele não conseguira ter uma ereção. Havia sido um tempo muito difícil nos negócios, acordos que custaram a ser fechados, ações caindo em um ritmo vertiginoso, o perigo de perder milhões... Lembrou-se da frustração de Marin quando estavam na cama e ele não conseguia relaxar e desligar-se do mundo dos negócios.
Foi por isso que ela me deixou?Será que eu sou...? Será que eu estou ficando impotente? Os inúmeros pensamentos brotavam na mente de Aiolia, enquanto a ruiva abria um pacotinho de preservativo com os dentes...
Quando enfim, ela resolveu usar a boca para acordar o membro rebelde, um barulho surdo chamou a atenção do leonino...
0000****0000****0000
Não havia lágrimas nem soluços histéricos. Pandora estava, assustadoramente, calma quando Hades a levou para o apartamento. Parecia que a emoção a havia abandonado.
— Podemos conversar? – perguntou Hades, assim que adentraram na sala ampla.
— Sim. – respondeu ela, mas não o fitou nos olhos.
— Olhe para mim. – disse o moreno num tom imperioso.
Pandora elevou os olhos violáceos de forma lenta. Estava com olheiras, embora nem isso conseguisse destruir o vigor juvenil que fulgurava no interior da íris.
— Eu sei o que vai me dizer. Se fizer alguma diferença, quero que saiba que não planejei nada eu... eu apenas achei que...
— Esse é o seu problema, Pandora, você não pensa, não planeja, apenas vive como se o mundo fosse o seu playground particular! Porque me procurou?
— Por que... Porque eu estou só e você é o único que restou! Eu não consigo... não sei viver sozinha! – disse ela, mordendo o lábio.
Hades levou a mão aos cabelos, a sensação de impotência se avolumando e fazendo-o odiar a si mesmo.
— Não serei sua tábua de salvação, Pandora. Sua escolha foi feita há muito tempo.
— Você jamais vai me perdoar, não é?
Ele a olhou com raiva, a frieza habitual sendo substituída por um furor que quebrou a barreira que ele erguera para se proteger.
— Perdoar? Lembra o que me disse? Que eu era um bastardo de coração frio, um covarde que jamais ia amá-la como eles! Pois bem, minha cara irmã, você tinha razão. Eu não amo ninguém, não tenho um relacionamento decente e certamente, não quero me responsabilizar por uma mulher adulta que vive em seu mundinho medíocre e pervertido!
— Eu era uma criança, Hades... Como pode guardar tanto rancor? – questionou ela com os olhos cheios de lágrimas.
— Sim, você era. Mas você cresceu e, ainda assim, preferiu permanecer com aquele canalha e sua vadia! Eu arrisquei tudo por você e no fim... no fim quem passou por louco e covarde fui eu!
— O que você esperava? Eu tinha seis anos quando... quando tudo começou. Eu não via nada de errado! Eles eram meus pais e eles... me amavam. Mesmo quando você os denunciou, a verdade era que eu me sentia segura e desejada, enquanto você sempre foi... foi tão seguro de si e distante da família. Eu não tinha a noção real, nem a dimensão exata do que eles faziam comigo.
Hades foi até o bar e se serviu de um copo de uísque, bebendo-o em um só gole. Inspirou fundo, antes de olhar para Pandora.
— Quando eu fui afastado, eu jurei deixar o passado para trás. Eu construí uma nova vida aqui, do outro lado do mundo, longe de toda a sordidez da nossa família. Não tenho pai, nem mãe, eles estão mortos e enterrados! Quanto a você...
— Por favor, Hades! Não me abandone! Eu faço o que você quiser... – disse ela indo ao encontro dele para abraçá-lo.
Ele a impediu de fazê-lo. Os olhos frios reluzindo em uma mensagem clara.
— Vai ter de aprender a andar com suas próprias pernas. Não quero e nem posso me responsabilizar por você.
Pandora enxugou as lágrimas com as costas da mão e riu de forma histérica.
— Até mesmo um estranho que acabei de conhecer gosta mais de mim que você. No fim, eu tinha razão mesmo. Você não ama ninguém, nem a si mesmo. Vai morrer sozinho! Mas, não se preocupe, estou indo embora e nunca mais ouvirá falar de mim!
Cuspidas as palavras, ela deixou a sala, sob o olhar impassível de Hades. Ele nada fez, apenas continuou a olhar a paisagem escura contrastando com as luzes noturnas. O ponto nevrálgico de sua relação com Pandora era que ele não sabia como agir.
Lembrou-se do nascimento dela e de como seus pais ficaram felizes em ter uma menina. No início, sentira-se roubado do pouco amor que lhe era direcionado, mas depois se tornara o guardião da irmã. Ela sempre fora graciosa e sedutora, desde bebê, fato que contribuíra para despertar o lado dominador do pai e o ciúme da mãe.
Em sua ingenuidade infantil, não percebera a perversão dos pais até Pandora completar seis anos e falar coisas que não eram pertinentes a sua idade...
Quer me tocar aqui? Ela lhe perguntara, apontando para os genitais.
Claro que não! Por que está perguntando isso?
Ora, o papai me toca e diz que é bom.
Ele te toca aí?
Toca. E eu sinto uma coisa boa e estranha aqui embaixo.
Você contou isso prá mamãe?
Ela sabe...
E agora, passados os anos, sentia-se tão impotente como se ainda tivesse onze anos de idade e tivesse que lidar com todas aquelas informações. Tentara entender, tentara fazer com que aquilo terminasse. Nada aconteceu. Seus pais o afastaram da família e Pandora continuou no círculo doentio do abuso familiar.
A única solução viável fora deixar tudo para trás, varrer para baixo do tapete toda a sujeira que parecia não ter fim. Entretanto, a vinda dela não mostrara, apenas, a sua incompetência para lidar com o assunto, ela tocava na ferida aberta que revelava o medo de possuir a mesma sordidez doentia de seus pais.
0000****0000****0000
O quarto cheirava a rosas e morangos. Máscara da Morte suspirou.
— Você é muito bonita. – disse ele, enquanto deslizava o polegar pelo vale entre os seios da prostituta, sentindo a maciez da pele no fundo da curva daquele decote.
O mamilo dela endureceu quando o polegar dele começou a circular o bico rígido sobre o corpete. Um sorriso malicioso, seguido de um gemido escapou dos lábios carnudos da Grega e ela o puxou em direção à cama coberta de pétalas de rosa vermelha.
Foi neste exato instante que Máscara da Morte visualizou o rosto de Rose e seu corpo se retesou. Parecia que aquela cena estava errada. Rose tinha aquela fragrância em sua pele, era algo tão inebriante que parecia ser uma marca, exclusivamente sua...
A prostituta afundou nos travesseiros e arqueou o corpo, sugerindo que ele a despisse, enquanto o incentivava com a voz lânguida e rouca:
— Sou toda sua, amorzinho...
Ele não soube se fora a frase que soara tão falsa ou se fora a lembrança da fala de Rose: “Se a minha boca o deixou nesse estado, imagina o resto do meu corpo”. O fato, era que o sentimento de inadequação, só fazia aumentar.
Rose falava e agia com uma propriedade marcante no que tocava à sensualidade. Parecia ter nascido com aquele dom de seduzir, mesmo que estivesse fazendo qualquer outra coisa que não fosse sexo.Por alguns segundos reviveu a sensação dos lábios dele em volta do seu membro e...
— O que foi, amorzinho? Não está se sentindo bem? – perguntou a Grega, notando que ele fechava os olhos com uma expressão que mesclava dor e prazer.
— Hã? Não, nada! Eu estou...
Antes de terminar a frase, um barulho surdo na parede fez o executivo recuar, enquanto uma voz juvenil gritava, ecoando fora do quarto...
0000****0000****0000
O homem nu olhava Shun com um brilho maníaco, a ereção pulsando imponente, enquanto o jovem se despia ao som da música oriental... Shun se movia com graça, a tristeza inicial amortecida pela bebida forte.
— O que deseja que eu faça? – perguntou ele de forma lânguida.
Após colocar um preservativo, o homem sinalizou que o queria em seu colo e Shun assim o fez. Encaixou-se nos braços fortes, porém o homem não o penetrou. Segurou-o pelos cabelos fartos e invadiu sua boca pequena com um beijo violento.
Shun arfou de surpresa, o ato feriu seu lábio e o homem pareceu ficar ainda mais excitado com o gosto de sangue. A cena que se seguiu foi tão agressiva quanto o beijo e Shun preparou-se para o que viria a seguir. O cliente empurrou-o ao chão e se jogou sobre ele, fazendo-o ficar de quatro, enquanto o puxava pelos quadris com força, as unhas cravando na carne alva.
— Isso, meu putinho... Agora eu vou te fazer sentir o meu pau dentro desse teu corpinho apertado. – disse ele invadindo Shun com uma estocada forte e profunda.
O jovem gritou de dor, embora tivesse se preparado para a penetração abrupta. O homem começou a estocar rápido e a gemer próximo do rosto de Shun que mordeu o lábio e rezou para que terminasse rápido.
— Tá sentindo, putinho? Vou te esculachar essa bundinha... Você vai ser só meu essa noite! Ninguém mais vai ter esse seu cuzinho... – murmurou o homem, enquanto apertava os quadris de Shun e estapeava as nádegas com força.
Shun estava acostumado a ser submisso no sexo, era o seu papel ali. No entanto, aquele homem o estava violando, agindo com crueldade proposital e isso despertou algo dentro de si. Sentiu nojo e raiva daquele homem. Lembrou-se de como tinha sido com Aiolia, mas nem mesmo isso o estava ajudando a suportar.
— Geme prá mim putinho! Geme! – gritou o homem.
O corpo de Shun estremeceu de dor e então ele fez o inesperado, elevou o corpo tentando escapar da violação, fazendo com que o pênis do homem saísse de dentro do seu corpo.
A reação do homem foi de surpresa e, em seguida, de raiva.
— Mas o quê você está fazendo? – gritou ele.
— Não vou permitir que continue! Você está me machucando! – disse Shun com a respiração alterada.
— Eu estou pagando, puto! Eu posso fazer o que eu quiser contigo! – gritou o homem.
Os olhos doces de Shun transformaram-se em duas esmeraldas vivas e furiosas.
— Não, não pode, seu animal!
Cerrando os dentes, o homem avançou em Shun, desferindo-lhe uma bofetada no rosto e fazendo-o bater com as costas na parede, propagando um barulho seco e alto para outros quartos.
— Pois eu vou te mostrar que posso, putinho insolente! – disse ele avançando na direção do jovem.
Com uma agilidade surpreendente, Shun desviou dele e pegou uma garrafa de champanhe de forma que o objeto tornou-se uma arma.
— Saia deste quarto ou eu te arrebento! – disse o jovem.
Os olhos do homem brilharam, insanos. Ele não era oriental e sim, europeu. Devia ser mais um investidor em viagem pelo Japão ou talvez um psicopata milionário. Shun não queria saber, queria sim que ele deixasse o quarto. Foda-se a total satisfação do cliente! Se ele continuar aqui eu estouro essa garrafa na cabeça dele!
Não foi preciso usar a “arma” que improvisara. Assim que o homem tentou esboçar uma reação, a porta se abriu e Aiolia entrou, junto de Ângelo, mais Afrodite. Os cinco se olharam, um tanto confusos e o homem pegou suas roupas e tentou sair, sendo impedido por Aiolia e Máscara da Morte.
— O que você fez? – perguntou Aiolia ao homem que já não exibia a mesma empáfia de antes.
— Nada! Saia da frente e deixe-me sair. – respondeu o homem forçando a passagem.
Afrodite aproximou-se de Shun tocando-o no rosto.
— Porque não pediu ajuda? – murmurou o loiro vendo o sangue no canto da boca e o hematoma no rosto delicado e cobrindo-o com um robe de seda.
— Estou bem, Afrodite.
Aiolia franziu o cenho ao ver o rosto de Shun e sentiu uma raiva retorcer-se, dentro de si. Ao mesmo tempo, sentiu-se culpado, sem identificar o porquê daquele sentimento.
— Posso ajudar em alguma coisa? – perguntou o leonino.
Shun não ousou olhá-lo nos olhos.
— Não, obrigado. Agora, se não se importar, eu gostaria que voltasse ao quarto onde estava. Está tudo bem, aqui. – respondeu o jovem.
A resposta dita com um tom de voz indiferente fez Aiolia ficar, ainda mais desconfortável do que estava. Todavia, ele achou melhor atender ao pedido de Shun, embora não tencionasse voltar para a prostituta.
— Se precisar de alguma coisa... – disse ele, constrangido.
— Obrigado, mas não precisa se incomodar. – disse Shun alongando o corpo e ignorando a presença do leonino.
— Vou buscar a caixinha de remédios. – disse Afrodite.
Quando o loiro dirigiu-se à porta, Ângelo estava próximo a ela.
— Com licença. – disse Afrodite e estava muito sério.
O executivo cedeu o lugar, observando que o loiro ia atrás do homem que deixara o quarto de Shun. Por curiosidade, seguiu-o, notando a agilidade e dureza no andar do prostituto.
— Ei, você! – gritou Afrodite, enquanto o homem ia se vestindo no caminho.
O cliente parou e encarou Afrodite com um misto de raiva e escárnio. Foi então que, quando se deu conta do acontecido, já tinha ido ao chão com o soco violento que o loiro desferiu em seu rosto.
— Isso é para você pensar muito bem antes de agir como um canalha psicopata!
Máscara da Morte ficou de boca aberta ao ver o homem cair com o nariz sangrando, enquanto Rose chamava o segurança. Jamais podia imaginar que aquele homem tão belo que chegava a ser indecente, teria peito para agir daquela forma.
— S-Seu... S-Seu p-puto! Meu n-nariz... — vociferou o homem, levando a mão ao rosto ensanguentado.
Aldebaran surgiu em toda a sua imponência e nem precisou perguntar nada. Olhou bem dentro dos olhos de Afrodite e pegou o homem pelo colarinho, arrastando-o sob protestos que ora eram ditos em inglês, ora em outra língua que parecia ser alemão. O sangue brotava do nariz quebrado, porém o segurança ignorou o fato e continuou, até colocar o homem para fora do prostíbulo.
Afrodite endireitou os ombros e deu meia-volta, dando de cara com Máscara da Morte que continuava a observá-lo com o cenho franzido.
— O que foi? Nunca viu uma cena Bateu, levou?— questionou o loiro.
Ângelo notou que, apesar de toda a agressividade, o lábio de Rose tremia e que ele segurava a mão delicada, tentando controlar a dor nos nós dos dedos.
— Você está bem? – ele perguntou com um interesse genuíno.
— Melhor impossível! Agora se me dá licença... – respondeu Afrodite com um olhar de desprezo que deixou Ângelo incomodado.
— Rose, eu... – as palavras não saíam e Máscara sentiu-se confuso com aquela cena. Porque se importava? Cenas assim deviam ser comuns nos bordéis! Por que uma pontinha de culpa se insinuava em sua mente?
— Volte para o seu programa. Está tudo resolvido. Aqui, nós sabemos cuidar uns dos outros. Pode me dar licença? – disse Afrodite com um sorrisinho falso e sentindo um prazer ferino em cada palavra dita.
Máscara deixou-o passar, os olhos esquadrinhando o corpo voluptuoso que andava com altivez e firmeza. Passou a mão nos cabelos negros e logo, Aiolia juntou-se a ele.
— Conseguiu fazer alguma coisa antes de tudo isso acontecer? – perguntou o italiano.
— Não. E você?
— Também não.
Os dois se olharam, nervosos, e riram. Haviam pagado uma fortuna e sairiam de mãos abanando, mesmo que isso não lhes parecesse tão ruim, ao final das contas. A experiência tinha servido para confirmar o que ambos sentiam, mas não ousavam compartilhar, nem trazer à consciência. Sentiam-se, fatalmente, atraídos por parceiros do mesmo sexo e isso ainda era muito difícil de engolir...
— Vamos beber em algum lugar, jogar uma sinuca. Estou precisando. – disse Ângelo.
Aiolia concordou, embora a imagem de Shun com seu belo rosto machucado teimasse em permanecer em sua memória.
— Aquele homem... Eu o conheço de algum lugar. – disse Aiolia.
— É o Johann, o dono da Cia Aérea Germânia. Chegou ontem de Berlim. — falou Ângelo.
— Você o conhece bem? Nós temos negócios com esse cara?
— Nós não, mas Hades está para assinar um contrato com ele.
O leonino sabia que não devia misturar as coisas, que negócios e vida pessoal eram, totalmente, dissociados. No entanto, a atitude do homem ficara entalada em sua garganta e sua mente, cada vez mais confusa com os sentimentos que brotavam dentro de si.
— É, meu amigo, vamos beber. Eu também estou precisando. – disse o leonino, por fim.
0000****0000****0000
Minos entrou no Dark Sex pela porta de serviço. Estava ansioso para partilhar tudo que acontecera com Afrodite. No entanto, ao adentrar o salão, percebeu uma movimentação tensa com um homem sendo conduzido por Aldebaran aos trancos e, logo em seguida, a entrada de Hilda em cena. Ela estava séria, porém quando o viu, sorriu e chamou-o.
— Vamos até meu escritório. – disse ela.
— O que aconteceu aqui?
— Ah, um cliente do Shun que passou das medidas.
A menção do nome de Shun fez Minos preocupar-se. O jovem podia ser mais velho que ele, pelo menos era o que ele dizia, porém, sentia-se responsável pelo amigo e temia que algum filho da puta fizesse mal a ele.
— O Shun? Alguém o machucou?
— O assunto já foi resolvido e ele está bem. Venha que temos de acertar, algumas coisinhas.
— Depois. – disse Minos, ignorando a cafetina e indo até os quartos.
Hilda suspirou fundo. Podia gritar e fazer com que ele obedecesse. Porém, de certa forma, aquela união entre os seus meninos assegurava o bom funcionamento da casa. Observou-o pelas costas e sorriu. Griffon era mesmo uma das pratas da casa e tinha um corpo maravilhoso. Não era à toa que dois homens importantes disputavam a sua companhia...
— Está tudo bem com vocês? – a voz de Minos fez Afrodite e Shun virarem a cabeça, ao mesmo tempo.
— Agora está. – respondeu Afrodite sorrindo para o amigo.
— Hilda disse que um cliente saiu da linha com o Shun.
— É, nosso lindo amiguinho, embora adore as histórias nativas, está começando a parecer o personagem daquele desenho animado... aquele desenho americano..como é mesmo o nome? Ah, lembrei, South Park!
Minos franziu o cenho sem entender aonde Afrodite queria chegar. Entretanto, Shun que era um aficionado pelo mundo dos desenhos, mangás e quadrinhos, sabia a que o loiro estava se referindo. Suspirando e revirando os olhos, o jovem falou, tentando sorrir:
— Certamente, ele está me comparando ao Kenny!
— E quem é Kenny? – perguntou Minos.
— Kenny é um personagem que morre em quase todos os episódios da série. Todo mundo adora matá-lo. – respondeu Shun.
— Credo! Que comparação mais infeliz, Afrodite. – falou Minos.
— Mas, Kenny sempre reaparece no próximo, até ser morto de novo e reaparecer e assim, sucessivamente, de novo e de novo! A minha comparação é, apenas, uma alusão à capacidade de superação do nosso lindinho, aqui! disse Afrodite, piscando o olho.
Os três riram, deixando o ambiente mais leve. Minos reparou no rosto machucado do amigo, mas antes que falasse alguma coisa, Hilda entrou sem bater.
— Muito lindo a confaternização dos três. Mas, Minos, eu quero falar com você e é agora!
O jovem obedeceu e, minutos depois estava sendo informado da negociação que havia sido feita.
— O senhor Hiroaki terá prioridade, a partir de terça-feira, o que não significa a noite toda. Mas... se ele estiver disposto a pagar, você dará exclusividade a ele. Fui clara?
— Como água pura, chefe! – brincou Minos.
Os olhos de Hilda se estreitaram e ela pegou uma garrafa de saquê.
— Bebe comigo?
Minos sorriu.
— Beber com a chefe? Não está tentando me envenenar e ficar com todo o lucro, está?
— Deixe de ser insolente, menino! Tome! – disse ela servindo um copo e estendendo ao jovem.
O prostituto não era muito fã de saquê, mas aceitou. Sentia que Hilda queria algo. Bebeu um gole e continuou encarando-a.
— Então, conte-me como foi com o figurão...
A pergunta não pegou Minos desprevenido, mas, estranhamente, ele não gostou. Não queria dividir sua intimidade com ela, mesmo que o assunto não fosse, necessariamente, algo particular. Era um prostituto relatando um serviço prestado a um cliente. Então porque sentia vontade de mandar Hilda cuidar do próprio nariz?
— Nada demais. – respondeu, tentando soar indiferente.
— Como assim, nada demais? O homem pagou uma fortuna para tê-lo e, antes de toda essa confusão com o Shun ele ligou querendo exclusividade na semana, também. Tive que informá-lo que você já estava reservado para outro cliente e...
Minos não estava mais ouvindo. Após a última frase, ele sentiu o peito aquecer e, embora tentasse conter o sorriso, ele brotou, naturalmente, nos lábios bem feitos. Ele me quer...
— É, garoto... não sei o que você fez, mas creio que, daqui para frente, teremos uma briga de foice entre o figurão misterioso e o yakuza. Diga-me, quem é ele? Você sabe, não é? Pelo seu sorrisinho...
A fala de Hilda disparou um alarme no interior do jovem. Quanto menos ela souber...melhor será para você.
— Quando nos encontramos, a conversa fica em último plano. Sabe como é... Esse tipo de cliente quer se sentir no topo da cadeia sexual. – respondeu Minos.
Hilda franziu o cenho, bebeu um gole de saquê e então piscou, demoradamente.
— Você é muito inteligente, garoto... Gosto disso. Bem, enquanto o dinheiro estiver entrando, pouco me importa quem seja. Agora, pode ir.
Sem esperar mais um segundo, Minos levantou-se e deixou a sala. Ainda passou no quarto de Shun que já havia se recolhido e lá encontrou Afrodite junto dele, ambos deitados na cama e o loiro acariciando os cachos sedosos do amigo.
— Estou indo, galera. Está tudo bem mesmo com vocês dois?
— Estamos bem. – disse Afrodite e Shun sorriu.
— Deu tudo certo, afinal. Se aquele cara continuasse, eu rebentava aquela garrafa na cabeça dele. – completou Andrômeda.
Minos sorriu, gostava de ver que, embora fosse uma pessoa dócil, Shun não se portava como vítima. Ainda era um mistério para si o fato de alguém como Shun tornar-se prostituto, mas respeitava o silêncio dele. Talvez um dia ele contasse como fora parar ali.
— Ei, mas antes de ir, conta prá gente como foi com o... cacete milionário. – falou Afrodite com malícia.
Atirando-se na cama, ao lado dos amigos, Minos sorriu e se permitiu compartilhar a alegria que estava sentindo.
— Foi fodasticamente incrível. Se o mundo acabasse amanhã, eu morreria feliz e satisfeito.
— Hummm.... foi tão bom assim? – disseram Shun e Afrodite, ao mesmo tempo.
— Foi. Mas, agora eu tenho mesmo que ir.
Afrodite olhou para Minos, compreendendo o dilema que ele começava a viver. Ele está se apaixonando, mesmo que se recuse a ver. Fingiu não notar nada e então puxou um balde com gelo e uma garrafa de champanhe debaixo da cama.
— Vamos comemorar, então! – falou o loiro.
— Como essa garrafa foi parar aí? – perguntou Shun, surpreso.
— Eu trouxe junto com a caixa de remédios e escondi ali. Afinal, uma boa bebida age como um bálsamo que cura tudo, principalmente se for da melhor champanhe da casa! – respondeu o loiro sorrindo.
Os três riram e cada um bebeu um gole de champanhe no gargalo.
— Um por todos e todos por um! – disse Minos rindo.
A algazarra continuou mais um pouco, até Minos deixar o quarto e o Dark Sex.
Quando o jovem se preparava para ir até o ponto de táxi, uma sombra cruzou o seu caminho. A princípio, ele não achou ser algo perigoso, até notar que mais três silhuetas se aproximavam e agora o cercavam. Eram todos japoneses e usavam jaquetas negras, parecidas com a que Hiroaki sempre usava.
— Você vem conosco. – disse o mais alto deles.
—Como assim? Eu nem os conheço e não faço programa fora do Dark Sex. — devolveu Minos.
O japonês sorriu.
— Você não tem escolha, gaijin. A questão é, virá por bem ou terá que ser por mal?
Minos engoliu em seco, mas não demonstrou sentir medo. Era uma situação inusitada, mas tinha de manter a calma para pensar. Enquanto tentava vislumbrar uma saída, um táxi verde se aproximou, devagar, rente ao meio fio da calçada.
Temendo pelo motorista, que viu ser o senhor Tadaka, Minos apressou-se em concordar. Não queria que o velho fosse machucado por aqueles marginais.
— Está bem, eu vou com vocês.
O japonês sorriu, porém, o assunto estava longe de terminar ali. Minos arregalou os olhos quando viu o velho Tadaka descer do táxi e se aproximar do grupo.
— Esse assunto não lhe diz respeito, velho! Volte para o táxi e esqueça o que viu aqui. – disse o japonês com um tom intimidatório.
— Está tudo bem, senhor Tadaka. Pode ir. – disse Minos, tentando evitar que algo acontecesse ao velho.
Tadaka ignorou ambos os comentários e continuou se aproximando. Quando chegou bem perto do japonês mais alto, abriu os botões da camisa, revelando uma tatuagem no centro do peito. A gardênia em meio a duas serpentes mantinha um colorido forte e linhas bem definidas.
— Quero que deixem o senhor Griffon em paz! – disse ele com um tom que Minos jamais vira em sua voz de ancião.
O japonês ficou boquiaberto, mas nada disse. Sinalizou para os outros, enquanto Minos também fitava, atônito, o peito do velho taxista. O grupo os deixou, tão rápido quanto se aproximara de Minos, enquanto Tadaka puxava o jovem pelo braço.
— Vamos embora, antes que dê alguma merda. — disse o velho.
Com o cenho franzido, Minos obedeceu, mas insistiu em perguntar:
— O senhor... o senhor é um yakuza?
Um suspiro cansado deixou o peito do velho taxista.
— Infelizmente, mesmo não querendo, sempre serei parte deste clã. Mas, vamos embora, eu explico tudo no caminho...
Fale com o autor