A luz suave da manhã entrou pelas cortinas, forçando Renesmee a abrir os olhos. Por um instante, ela desejou que tudo tivesse sido apenas um pesadelo — a bebida no bar, o carro, o beco, os gritos, e aquela figura sombria que surgira para salvá-la.

Mas a memória veio como um corte afiado: o som do vidro quebrando, as mãos fortes arrancando seus agressores um a um, e o olhar profundo do homem por trás da máscara.

Ela respirou fundo, lembrando-se das palavras de sua psicóloga sobre enfrentar o trauma de frente. "Você não pode controlar o que aconteceu, mas pode controlar como reage a isso."

Empurrando o cobertor para o lado, levantou-se e saiu do quarto. No corredor, encontrou Henry, que estava prestes a sair do próprio quarto. O irmão não disse nada — apenas a envolveu em um abraço caloroso.

Renesmee fechou os olhos por um momento, sentindo um nó se desfazer em seu peito.

— Bom dia, Nessie. — disse ele, com um sorriso suave.

Seguindo o som baixo da TV, ela caminhou até a sala. O telejornal local Seattle Daily News exibia, em letras grandes:

“ALEC VOLTURI ACUSA LOBO DA NOITE DE AGRESSÃO”

A imagem seguinte mostrava Alec, com a mão enfaixada, falando diante de microfones:

— “Fui atacado sem motivo. A senhorita Cullen estava comigo por vontade própria. Toda essa história não passa de um mal-entendido.”

Renesmee sentiu o estômago revirar.

— É mentira… — murmurou, a voz carregada de raiva.

Foi nesse momento que Bella e Edward, atraídos pelo tom dela, apareceram à porta da sala. Ao vê-los, a repórter do jornal apareceu novamente na TV, informando que Renesmee Cullen havia acusado Alec Volturi de tentativa de abuso sexual, mas que ele negava categoricamente.

Bella se aproximou e segurou a mão da filha. Edward colocou a outra mão em seu ombro.

— Filha… — disse Bella, com a voz suave.

— Ele está mentindo. O Lobo da Noite me salvou… Alec… ele tentou… — a voz de Nessie falhou, mas o olhar firme mostrava que não havia recuo.

Edward a abraçou, protegendo-a com os braços.

— Eu já falei com nossos advogados. — o tom dele era firme. — Alec Volturi vai pagar por isso.

Renesmee se apoiou no pai, mas, em algum canto de sua mente, não conseguia parar de pensar no homem que a salvara. A lenda urbana tinha um rosto agora — e ela queria descobrir quem ele era.


O aroma forte do café recém-passado se espalhava pela ampla cozinha da mansão Black. Jacob estava sentado à cabeceira, camisa aberta no peito e expressão impassível, enquanto a televisão, presa na parede de frente para ele, exibia a mesma reportagem que tomava conta das manchetes.

A imagem de Alec Volturi, com a mão engessada e a expressão de vítima, aparecia seguida por uma foto desfocada de Nightwolf, capturada de costas, momentos após o resgate.

Harry entrou com passos firmes, trazendo o Seattle Daily News dobrado embaixo do braço. Sem dizer palavra, colocou o jornal sobre a mesa diante de Jacob. A manchete gritava:

“LOBO DA NOITE: PROTETOR OU PREDADOR?”

Abaixo, uma foto granada do herói urbano, o rosto coberto pela sombra da máscara, e a legenda acusatória: “Agressor ainda não identificado.”

— E então? — perguntou Harry, cruzando os braços. — O que vai fazer? O Volturi está tentando difamar a senhorita Cullen.

Jacob olhou para a tela por mais alguns segundos, tomou um gole do café e então encarou Harry com frieza.

— Assim ela aprende a não andar com filhinhos de papai sem escrúpulos.

Harry estreitou os olhos, analisando cada nuance da fala.

— Eu conheço você bem o suficiente pra saber que não vai ficar parado. — disse, num tom controlado. — Não é bom pra sua imagem permitir que sujem a reputação dos Cullen.

Jacob pousou lentamente a xícara no pires. Nesse instante, a peça se encaixou no quebra-cabeça.

— É uma armadilha… — murmurou. — O Cullen rompeu a aliança com os Volturi. Agora Aro Volturi vai tentar a prefeitura. Difamar a filha do Edward é atingir o próprio Edward.

Harry assentiu, já acompanhando o raciocínio.

— Então… o que vai fazer?

Jacob se levantou, ajustando o relógio no pulso e lançando um olhar gélido para o mordomo.

— Jacob Black vai fazer a parte dele…

Ele caminhou até a janela, observando o horizonte cinzento de Seattle. O tom da voz mudou — mais baixo, mais sombrio.

— … e o Lobo da Noite vai fazer uma visita ao Alec Volturi.



O som de salto alto ecoava pelo corredor de mármore do Seattle Daily News. Renesmee atravessava a redação como um furacão, ignorando os olhares curiosos dos colegas. O ambiente, normalmente preenchido por cliques de teclados e murmúrios, ficou subitamente silencioso.

Ela foi direto à mesa do redator responsável pela publicação. O homem, de óculos escorregando no nariz e dedos ainda sobre o teclado, levantou a cabeça assustado.

— Que diabos foi isso que você publicou? — a voz dela cortou o ar, carregada de raiva. — Eu sou a vítima e o Lobo da Noite me salvou!

O redator engoliu seco, tentando manter a postura.

— Eu… só cumpri ordens. — disse, evitando o contato visual.

Renesmee estreitou os olhos, já pressentindo o próximo passo.

— Ordens de quem?

— Do chefe…

Ela não esperou mais nenhuma palavra. Avançou pelos corredores até a sala envidraçada no fundo, onde o nome Mike Newton – Editor-Chefe brilhava em letras douradas. Abriu a porta sem bater.

Mike estava atrás da mesa, mexendo no celular. Levantou os olhos com um sorriso falso.

— Ah, Renesmee, já imaginava que viria falar comigo.

— O que foi aquilo, Mike? Uma mentira descarada sobre mim e sobre o meu salvador?

Ele deu de ombros, como quem fala do clima.

— Isso é o que vende, querida. E, sinceramente, você deveria aceitar o conselho: por que não cobre a nova coleção de roupas de outono? É mais… o seu perfil.

O sangue ferveu nas veias dela.

Sem pensar, Renesmee pegou a caneca de café fumegante da mesa e despejou o líquido sobre o terno impecável dele.

— Seu porco nojento! — gritou, enquanto Mike pulava para trás tentando se limpar.

— Você está demitida! — vociferou, furioso.

Ela abriu um sorriso frio.

— Errado, Mike. Eu me demito.

Virou as costas e saiu, ignorando os cochichos que se espalhavam pela redação. A cada passo, sentia-se mais leve… e mais decidida.



O ronco grave do motor do Maserati preto ecoou na longa entrada da mansão Cullen. Jacob Black saiu do carro com passos firmes, a expressão indecifrável, e foi recebido por um dos empregados, que o conduziu até o hall principal.

Lá, um homem de cabelos grisalhos e olhar atento o aguardava. Charlie Swan, o secretário de polícia de Seattle, estendeu a mão com um sorriso contido.

— Jacob Black… — disse, analisando-o de cima a baixo. — Cresceu, rapaz. A última vez que o vi pessoalmente, você era um menino… naquela noite.

A menção à morte dos pais caiu como um peso no ar. Jacob apertou o maxilar, mantendo o olhar firme, mas mudou de assunto sem hesitar.

— Muito tempo passou desde então, senhor Swan.

Charlie assentiu, percebendo o recado silencioso para não aprofundar o tema.

Nesse instante, Edward Cullen surgiu, impecável em um terno cinza, o sorriso calculado de quem sabe que está diante de um aliado valioso.

— Senhor Black. — cumprimentou, oferecendo a mão.

— Senhor Cullen. — Jacob respondeu, firme. — Vim ver se a senhorita Cullen precisa de alguma coisa.

Edward arqueou discretamente a sobrancelha, avaliando o peso daquelas palavras.

— Ela está a caminho. — disse, com um sorriso controlado. — E agradeço sua preocupação.

Jacob assentiu, as mãos nos bolsos, sem perder a postura. Edward, por sua vez, observava o homem à sua frente com mais atenção do que demonstrava. Aquilo não era apenas cortesia — havia uma energia diferente no tom de Jacob quando mencionava sua filha mais velha.

E Edward Cullen, sempre estratégico, percebeu que talvez houvesse ali algo que ia além da política… e ele gostou da ideia.


O som leve dos saltos ecoou pelo corredor de mármore, anunciando a chegada de Renesmee. O cabelo castanho-avermelhado caía solto sobre os ombros, mas o olhar trazia sombras de uma noite que ela preferia esquecer. Ao entrar no hall, a primeira visão foi a do avô Charlie, e a tensão em seu corpo suavizou.

— Vovô! — exclamou, abraçando-o com força. — Estou bem… e que bom que está aqui. Precisamos fazer alguma coisa.

Charlie trocou um olhar rápido com Edward, mas manteve a expressão neutra. Antes que pudesse responder, Edward interveio:

— Já estou cuidando disso, Renesmee.

Foi então que ela percebeu Jacob parado a poucos passos. Os olhos de ambos se encontraram, e ela piscou, surpresa.

— Senhor Black… não esperava vê-lo aqui.

Jacob inclinou levemente a cabeça, sério.

— Fiquei preocupado com você.

Edward, com o tom de anfitrião calculado, acrescentou:

— Charlie, preciso conversar com você a sós. Enquanto isso, Renesmee, por que não mostra a biblioteca ao senhor Black?

Nessie reconheceu o jogo político do pai de imediato. A sugestão soava inocente, mas o olhar dele deixava claro que havia uma segunda intenção. Ainda assim, respirou fundo e disfarçou a irritação com um sorriso controlado.

— Claro, pai.

Charlie e Edward se retiraram, e o silêncio que restou entre os dois parecia mais pesado que as paredes da mansão.

Jacob foi o primeiro a falar, a voz grave, direta:

— Fiquei surpreso com a notícia no jornal. Nunca imaginei que você pudesse acusar o Lobo da Noite.

Renesmee cruzou os braços, o olhar firme.

— Porque aquilo é mentira. Vou provar.

Jacob estudou seu rosto por um instante, depois perguntou:

— Então… você não acha que ele seja um criminoso?

Ela hesitou apenas um segundo, o suficiente para transmitir sinceridade.

— Até agora, só vi um homem mascarado fazendo o que a polícia não faz.