A sala de reuniões das Indústrias Black estava silenciosa quando Jacob entrou. A mesa longa de madeira escura refletia a luz natural que vinha das janelas amplas. Ao redor dela, três diretores e dois conselheiros aguardavam com relatórios abertos e semblantes atentos. Jacob não perdeu tempo com formalidades excessivas; ocupou a cadeira principal e abriu a pasta diante de si.

— Vamos direto ao ponto — disse, em tom firme. — Quero entender por que o setor de logística ultrapassou o orçamento em oito por cento no último trimestre.

O diretor financeiro, Arthur Meireles, ajustou os óculos.

— Senhor Black, o aumento no custo do transporte internacional foi superior ao previsto. A nova regulamentação portuária em Tacoma elevou as taxas.

Jacob apoiou os cotovelos na mesa.

— Regulamentação não surge de um dia para o outro. Por que não fomos informados antes da aprovação?

— Recebemos o comunicado oficial apenas após a sanção — respondeu Arthur.

— Então alguém falhou no monitoramento político — replicou Jacob. — E essa falha custou dinheiro.

O responsável pelo setor de operações, Daniel Rocha, interveio.

— Estamos renegociando contratos com duas transportadoras. A previsão é recuperar parte do prejuízo no próximo semestre.

Jacob o encarou por alguns segundos.

— Previsão não paga conta, Daniel. Quero contratos revisados em quinze dias. E um relatório detalhado de impacto por unidade industrial. Não aceito surpresa em números.

Houve um murmúrio de concordância ao redor da mesa.

— Além disso — continuou Jacob —, quero ampliar o investimento na filial de Nova York. O mercado lá está mais estável que o daqui. Se Seattle continuar nesse clima político instável, precisamos ter alternativas sólidas.

Um dos conselheiros assentiu.

— Podemos realocar parte do capital de expansão da costa oeste.

— Faça os cálculos — respondeu Jacob. — Quero propostas concretas, não intenções.

A reunião seguiu por mais vinte minutos, discutindo contratos, fusões estratégicas e ajustes fiscais. Quando finalmente se levantou, todos já tinham tarefas definidas. Jacob fechou a pasta com decisão.

— Mantenham-me informado diariamente — concluiu. — Não quero ruído. Quero resultados.

Ao sair da sala, encontrou sua secretária principal, Helena Duarte, aguardando com um tablet nas mãos.

— Senhor Black — disse ela com profissionalismo impecável —, preciso confirmar sua presença no evento empresarial em Nova York, na próxima semana. A organização solicita resposta ainda hoje.

Jacob diminuiu o passo. O evento. Ele quase havia esquecido. Um encontro de investidores e empresários estratégicos, importante para a expansão da empresa na costa leste.

Por um instante, pensou se era prudente sair de Seattle naquele momento. A cidade estava instável. O julgamento de Edward aproximava-se. O Corvo ainda era uma sombra recente demais na memória coletiva.

Mas não comentou nada.

— Confirme minha presença, Helena — disse, firme. — E reserve duas passagens.

Ela ergueu levemente as sobrancelhas.

— Duas, senhor?

— Sim. Primeira classe.

— Certamente. Providenciarei ainda hoje.

Jacob assentiu e seguiu pelo corredor amplo revestido de vidro e aço. Funcionários o cumprimentavam com respeito discreto. Ele caminhava com postura segura, mas a mente trabalhava em paralelo. Nova York poderia ser estratégica. Poderia também ser uma oportunidade de afastar Renesmee por alguns dias da tensão de Seattle.

Enquanto atravessava o saguão principal, outra assistente aproximou-se com certa hesitação.

— Senhor Black… há alguém na recepção que insiste em falar com o senhor. Disse que é assunto urgente.

Jacob franziu levemente o cenho.

— Nome?

— Comandante Ulley.

Jacob desviou o olhar para a recepção.

Sam Ulley estava de pé, postura ereta, mãos cruzadas diante do corpo. Não vestia uniforme completo, mas o porte denunciava autoridade.

Jacob aproximou-se.

— Comandante Ulley — cumprimentou, estendendo a mão. — Não esperava visita sua aqui.

Sam apertou-lhe a mão com firmeza.

— Senhor Black. Preciso de alguns minutos do seu tempo.

O tom era direto, sem rodeios.

Jacob sustentou o olhar dele por um instante.

— Então vamos conversar — respondeu, igualmente firme.

E, pelo modo como Sam mantinha a expressão fechada, Jacob compreendeu que não se tratava de uma visita cordial.


Jacob conduziu Sam até sua sala sem pressa, mas sem cordialidade excessiva. Assim que a porta se fechou, o ambiente adquiriu outra atmosfera. A sala era ampla, com paredes revestidas em madeira escura e grandes janelas voltadas para o centro de Seattle. Sobre a mesa, documentos organizados com precisão. Nenhum detalhe fora do lugar.

Sam não se sentou de imediato. Caminhou alguns passos pelo escritório, observando em silêncio os quadros, as prateleiras com relatórios encadernados, o cofre embutido quase imperceptível na parede lateral.

Jacob permaneceu atrás da mesa.

— Em que posso ajudá-lo, comandante? — perguntou, com voz controlada.

Sam aproximou-se e deixou uma pasta parda sobre a superfície polida da mesa.

— Talvez o senhor possa me ajudar a esclarecer uma dúvida antiga.

Jacob baixou os olhos para a pasta, mas não a abriu de imediato.

— Estou ouvindo.

— Tenho investigado o Nightwolf há alguns anos — disse Sam, caminhando lentamente pelo escritório. — Não por capricho. Por dever.

Jacob puxou a pasta para perto e abriu-a com tranquilidade estudada.

Fotografias. Relatórios. Mapas de ocorrências. Registros de interceptações. Recortes de jornais. Análises de deslocamento.

Ele percorreu as páginas sem alterar a expressão.

Sam continuou:

— Sempre me intrigou o padrão. O Nightwolf surgia nos locais certos, no momento exato. Tinha acesso a informações privilegiadas. Equipamentos de alto custo. Tecnologia avançada. Recursos que não são exatamente acessíveis a um vigilante comum.

Jacob virou outra página.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntou, ainda sem erguer o olhar.

Sam aproximou-se da mesa.

— Tudo.

Jacob chegou à última página.

Ali estavam as fotografias que encerravam o dossiê. Imagens granuladas, captadas à distância, mas suficientemente claras. Um homem saindo por uma entrada discreta na lateral da mansão Black. Uma moto específica. O mesmo modelo identificado em diversas ocorrências ligadas ao Nightwolf.

Na foto seguinte, a placa parcialmente visível.

Jacob fechou a pasta com calma.

Ergueu os olhos e encarou Sam.

O silêncio se instalou entre os dois homens.

Sam apoiou as mãos no encosto de uma cadeira e sorriu levemente.

— Então, senhor Black… — disse, pausadamente —, a pergunta que me faço é simples. Devo prendê-lo?

A tensão no ambiente era quase palpável. Jacob não desviou o olhar.

— Se tem provas suficientes, comandante, não precisa me perguntar — respondeu, em tom firme.

Sam inclinou a cabeça.

— Provas suficientes para uma prisão formal? Não. Ainda não.

Jacob permaneceu imóvel.

— Então veio aqui blefar? — questionou.

Sam soltou um leve suspiro.

— Não. Vim porque Seattle precisa de resultados. E porque, apesar de tudo, o Nightwolf nunca cruzou a linha que eu não pudesse justificar como legítima defesa ou intervenção emergencial.

Jacob descruzou os braços.

— Está dizendo que aprova vigilantes mascarados?

— Estou dizendo que a cidade enfrenta algo maior do que disputas jurídicas — retrucou Sam. — O Corvo não foi o fim. Foi o início.

Jacob manteve a expressão rígida.

— E qual é exatamente sua proposta?

Sam fechou a pasta e a empurrou levemente de volta para Jacob.

— A partir de hoje, não estamos em lados opostos. Não oficialmente. Eu não o vi entrar nem sair de lugar algum. Mas, se o senhor continuar agindo, fará isso com informações compartilhadas. Sob coordenação. Sem surpresas.

Jacob apoiou as mãos na mesa.

— Quer transformar o Nightwolf em um colaborador informal da polícia.

— Quero impedir que Seattle se transforme em campo de guerra.

Houve um breve silêncio.

Jacob avaliava cada palavra. A revelação poderia arruinar sua imagem, seus negócios, sua relação com Renesmee. Mas a cidade, de fato, estava instável demais para jogos de vaidade.

— E o que o impede de usar isso contra mim quando lhe for conveniente? — perguntou Jacob.

Sam sustentou o olhar.

— Minha palavra.

Jacob soltou um leve sorriso, sem humor.

— Palavra de policial?

— Palavra de homem — corrigiu Sam.

A tensão diminuiu apenas um grau.

— Se eu aceitar — disse Jacob, por fim —, isso não significa que serei controlado.

— Não espero que seja — respondeu Sam. — Só espero que não aja sozinho quando não precisar.

Jacob fechou a pasta definitivamente.

— Então não tem nada a me prender hoje, comandante.

Sam deu um passo atrás.

— Hoje, não.

Caminhou até a porta, mas antes de sair, virou-se novamente.

— Senhor Black… se algo sair do controle, eu não poderei ignorar.

Jacob assentiu.

— E eu não esperaria que ignorasse.

Sam deixou o escritório, fechando a porta atrás de si.

Jacob permaneceu alguns segundos imóvel, os olhos fixos na pasta sobre a mesa.

Não era uma ameaça direta.

Era um aviso.

E, pela primeira vez em muito tempo, o Nightwolf não estava apenas caçando nas sombras.

Agora havia alguém observando cada movimento.


Jacob saiu do prédio das Indústrias Black com o maxilar rígido. Não esperou o motorista. Preferiu dirigir ele mesmo. O carro arrancou com precisão controlada, mas a tensão era evidente na forma como segurava o volante. Seattle passava diante dele em semáforos, fachadas espelhadas e cruzamentos movimentados, mas sua atenção estava distante. A pasta com o dossiê de Nightwolf permanecia no banco do passageiro, fechada, mas presente como uma sombra.

Ele ativou o comunicador integrado ao painel.

— Harry.

A resposta veio quase imediata.

— Estou ouvindo, senhor.

Jacob manteve os olhos na via.

— O comandante Ulley esteve na empresa.

Houve uma pausa curta do outro lado.

— Imagino que não tenha sido visita social.

— Ele tem um dossiê completo sobre o Nightwolf.

O silêncio de Harry desta vez foi mais longo.

— Quão completo, senhor?

— Completo o suficiente para me mostrar fotos saindo da entrada lateral da mansão.

Harry exalou de forma contida.

— Isso é… significativo.

— Ele não tem prova formal. Ainda — completou Jacob, com voz seca.

O carro parou em um semáforo. Jacob tamborilou os dedos no volante.

— Quero saber algo — disse ele. — Há quanto tempo o comandante Ulley está se aproximando da minha casa sob qualquer pretexto?

Harry hesitou.

— Ele esteve lá duas vezes oficialmente. Uma para tratar do caso do Corvo. Outra para falar com a senhorita Leah.

Jacob estreitou os olhos.

— Exatamente.

— O senhor acredita que ele esteja usando o relacionamento com Leah para obter informações? — perguntou Harry, cauteloso.

Jacob virou à direita, acelerando mais do que o necessário.

— Eu não acredito em coincidências.

— Leah é reservada — ponderou Harry. — Sempre foi. Não costuma comentar assuntos da mansão.

— Não estou questionando o caráter dela — respondeu Jacob, firme. — Estou questionando o timing.

O trânsito se adensou próximo ao centro. Ele diminuiu a velocidade, mas a tensão não diminuiu.

— O comandante se aproxima de Leah, frequenta a casa, e pouco depois aparece com um dossiê detalhado sobre o Nightwolf. Isso não é casual.

Harry falou com cuidado.

— O senhor acha que Leah pode ter deixado algo escapar? Sem perceber?

Jacob permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Eu espero que não.

A resposta saiu baixa, mas carregada de peso.

— Leah é médica. Observadora. Inteligente. Mas também é emocional quando se trata de família — acrescentou Harry.

— E Ulley sabe disso — completou Jacob.

O carro avançou por uma avenida larga. A cidade parecia normal demais para os conflitos que se moviam por baixo da superfície.

— Senhor — disse Harry, após um momento —, mesmo que Leah não tenha dito nada explícito, a simples presença do comandante na mansão pode ter permitido observações indiretas. Horários, movimentações, padrões.

Jacob respirou fundo.

— Então o erro foi meu.

— Não necessariamente.

— Foi — retrucou ele. — Eu subestimei o tempo. Achei que minha identidade ainda estivesse segura porque ninguém tinha prova. Mas Ulley estava construindo o quebra-cabeça há anos.

Houve uma pausa.

— O senhor pretende confrontar Leah? — perguntou Harry.

— Não agora.

— E o comandante?

Jacob apertou levemente o volante.

— Ulley quer cooperação. Não confronto. Se eu o pressionar, ele pode optar pela via legal.

— Então o senhor vai aceitar a proposta dele?

Jacob olhou pelo retrovisor, avaliando a via atrás de si.

— Eu não trabalho sob ameaça.

— Ele não o ameaçou diretamente, senhor.

— Não precisou.

O carro entrou na via que levava à mansão. Jacob diminuiu a velocidade, mas a mente permanecia acelerada.

— Fique atento a qualquer movimentação incomum — ordenou. — Especialmente visitas não anunciadas.

— Sim, senhor.

Antes de encerrar a comunicação, Harry acrescentou:

— O senhor ainda confia em Leah?

Jacob não respondeu de imediato. Observou os portões da mansão se abrirem automaticamente à sua aproximação.

— Eu confio na minha família — disse por fim. — Mas não confio em coincidências.

O carro atravessou o portão, e Jacob desligou o motor.

A cidade estava cada vez mais instável. E agora, além de criminosos mascarados, havia também um policial observando cada passo do Nightwolf.

E ele precisava decidir com cuidado em quem realmente podia confiar.