NIGHTWOLF- Blood & Roses
42 Investigações
Renesmee atravessou o saguão discreto do Arquivo Municipal com passos contidos, embora por dentro estivesse inquieta. O prédio anexo à antiga prefeitura parecia comum aos olhos de quem passava apressado pela rua, mas guardava décadas de decisões administrativas, acordos políticos e registros que raramente eram revisitados. O jovem responsável pelo setor histórico a conduzira até uma sala reservada depois de ouvir, com evidente interesse, que ela preparava uma matéria sobre alianças institucionais do passado.
Sentada diante de uma mesa ampla, Renesmee espalhara cópias de jornais antigos, atas resumidas e relatórios públicos. Lia com método, voltando páginas quando algo lhe chamava a atenção, marcando datas mentalmente. Era paciente. Não buscava um escândalo imediato, mas conexões.
Uma fotografia, porém, a fez interromper o ritmo.
Billy Black aparecia mais jovem, em traje formal, sentado à mesma mesa que Carlisle Cullen, Richard Callahan e outras autoridades locais da época. Todos pareciam compenetrados em uma reunião estratégica.
A manchete ocupava quase toda a largura da página:
“LIDERANÇAS DE SEATTLE FORMAM COMITÊ PARA REFORMULAR CONTRATOS PÚBLICOS E INVESTIMENTOS INDUSTRIAIS.”
A reportagem, datada de vinte anos atrás, falava sobre a criação de um grupo de trabalho para revisar concessões portuárias e supervisionar a expansão tecnológica da cidade. O texto era técnico, aparentemente inofensivo. Nenhum indício de conflito. Nenhuma palavra que sugerisse tensão.
Ainda assim, algo naquela imagem incomodava.
Ela dobrou cuidadosamente a cópia do recorte e a guardou na bolsa. Continuou a examinar outros documentos da mesma época. Relatórios de reuniões privadas eram citados, mas não detalhados. Havia referências a divergências internas, mas os nomes não apareciam nas versões públicas.
Foi quando percebeu uma pasta de coloração diferente, posicionada ao lado de um conjunto de documentos administrativos. Na capa lia-se, de forma discreta:
“CONFIDENCIAL — USO INTERNO.”
Renesmee a puxou com naturalidade e abriu-a sobre a mesa. Dentro, listas de encontros não divulgados oficialmente, horários e assinaturas parciais. Nada conclusivo, mas sugestivo o bastante para despertar ainda mais perguntas.
Antes que pudesse aprofundar a leitura, o jovem funcionário surgiu à porta, visivelmente ansioso.
— Senhorita Cullen, preciso pedir que encerre por hoje. O expediente terminou e haverá a troca de segurança em poucos minutos. A senhora não pode permanecer aqui após o horário.
Ela fechou a pasta com calma.
— Claro, compreendo perfeitamente — respondeu, com delicadeza. — Agradeço por ter sido tão atencioso.
Enquanto ele recolhia alguns papéis sobre outra mesa, Renesmee deslizou a pasta confidencial para dentro da bolsa com um gesto seguro, ajustando o fecho sem alarde.
— Voltarei em breve — acrescentou, oferecendo um sorriso gentil.
— Estarei à disposição — respondeu o rapaz, aliviado.
Do lado de fora, o ar parecia mais denso. Não havia descoberto uma verdade, mas abrira uma porta.
Ao entrar no carro, seu celular vibrou.
Uma mensagem de Jacob.
“Passo na sua casa para te buscar mais tarde. Preciso ir na mansão antes. Não demoro.”
Ela imaginou o dia que ele devia ter tido. Reuniões, decisões difíceis, pressão constante. Jacob carregava o peso de muitos papéis ao mesmo tempo.
Sem hesitar, ela ligou para Harry.
— Senhorita Cullen — atendeu ele, com o habitual respeito.
— Boa tarde, Harry. Preciso de um favor — disse ela, em tom suave.
— Sempre às ordens.
— Imagino que Jake tenha tido um dia cansativo. Eu gostaria de fazer uma surpresa para ele esta noite. Algo simples. Talvez organizar um jantar diferente, ou preparar o quarto de forma especial. Mas preciso da sua ajuda para que ele não desconfie.
Houve uma breve pausa do outro lado, seguida de um leve sorriso perceptível na voz do homem mais velho.
— Entendo. O senhor Black aprecia gestos discretos.
— Eu sei — respondeu ela, com ternura. — Só quero que ele se sinta cuidado.
— Deixe comigo, senhorita. Providenciarei o necessário.
— Obrigada, Harry.
Ela encerrou a ligação e apoiou as mãos sobre o volante por alguns segundos.
A investigação podia esperar algumas horas.
Naquela noite, antes de qualquer verdade vir à tona, ela queria apenas lembrar a Jacob que, apesar das sombras ao redor, havia algo simples e sólido entre eles.
E isso ainda era o que mais importava.
Renesmee chegou à mansão Black pouco antes do entardecer. O portão se abriu com suavidade, e o carro avançou pela alameda cercada por árvores altas que protegiam a propriedade do olhar curioso da cidade. Ao descer, ajeitou a bolsa no ombro e respirou fundo, como se estivesse entrando não apenas na casa do noivo, mas em um espaço onde precisava manter o equilíbrio entre o amor e as perguntas que começavam a surgir.
Harry foi quem abriu a porta.
— Boa tarde, senhorita Cullen — disse, com a habitual cordialidade.
— Boa tarde, Harry. Espero não estar muito adiantada.
— Pelo contrário. O senhor Black ainda não chegou. Está tudo conforme combinamos.
Ela assentiu com um sorriso discreto e entrou. A sala de estar estava silenciosa, mas vozes vinham da área próxima à escada. Leah e Seth conversavam.
Leah foi a primeira a notar a presença de Renesmee.
— Boa tarde — cumprimentou, com tom neutro, porém educado.
— Boa tarde, Leah — respondeu Renesmee com suavidade.
Seth levantou-se do sofá, animado como sempre.
— Então, futura senhora Black, já está planejando dominar a cozinha da mansão?
Renesmee riu baixo.
— Ainda não cheguei a tanto, Seth.
Leah cruzou os braços, mas a expressão estava menos defensiva do que em outras ocasiões.
— Antes de dominar a cozinha, você precisa iniciar as consultas — disse ela, objetiva. — Gravidez não se acompanha sozinha. E você anda fingindo que está tudo sob controle.
Renesmee tocou instintivamente o próprio ventre.
— Eu sei. Vou marcar ainda esta semana.
Leah sustentou o olhar por um momento, avaliando se a resposta era sincera.
— Não deixe para depois — completou, em tom mais brando. — Estresse não combina com gestação.
Seth aproveitou a pausa para mudar o assunto.
— E o jornal? Já virou magnata da imprensa?
— Estamos reconstruindo com cuidado — respondeu Renesmee. — É um processo lento, mas necessário.
— Meu estágio vai bem, aliás — acrescentou Seth, antecipando a pergunta dela. — Estou aprendendo mais na prática do que imaginei.
— Fico feliz por você — disse ela, genuinamente. — Você sempre teve vocação para isso.
Harry apareceu no corredor.
— Está tudo pronto na cozinha, senhorita.
Seth arregalou os olhos.
— Pronto? O quê exatamente?
Harry manteve o semblante sério, mas havia um brilho divertido em seus olhos.
— A senhorita Cullen pediu alguns ingredientes específicos.
Leah ergueu uma sobrancelha.
— Você vai cozinhar?
— Pretendo tentar — respondeu Renesmee, com leve firmeza. — Não subestimem minhas habilidades.
Seth soltou uma risada.
— Eu preciso ver isso.
— Vocês dois são injustos — rebateu ela, sorrindo. — Sei seguir uma receita.
— Seguir receita é diferente de ter talento — provocou Leah.
Harry interferiu com elegância.
— Tenho certeza de que o senhor Black apreciará qualquer esforço.
Renesmee inclinou a cabeça.
— Obrigada, Harry.
Leah olhou para o relógio.
— Precisamos ir. Tenho plantão mais tarde.
Seth acenou.
— Boa sorte na missão culinária, Nessie.
— Vocês verão — respondeu ela, com leve desafio na voz.
Leah aproximou-se antes de sair.
— E não esqueça das consultas — repetiu, em tom firme, mas não hostil.
— Não vou esquecer — assegurou Renesmee.
Quando a porta se fechou atrás dos dois, a mansão pareceu ainda mais silenciosa.
Harry fez um gesto discreto na direção da cozinha.
— Se me permite, senhorita.
Renesmee o acompanhou. Ao entrar, encontrou os ingredientes organizados sobre a bancada de mármore: massas frescas, temperos, ervas, tomates maduros, queijo, além de uma pequena sobremesa já preparada.
Ela respirou fundo.
— Espero que Jake realmente tenha tido um dia difícil — murmurou.
— Ele teve — confirmou Harry, com serenidade. — Mas não imagina o quanto essa noite pode significar.
Renesmee arregaçou as mangas.
— Então vamos fazer valer a pena.
Renesmee arregaçou as mangas da blusa e prendeu os cabelos em um coque simples antes de começar. Escolhera preparar algo que fugisse do habitual cardápio sofisticado da mansão. Queria algo mais íntimo, mais caseiro. Decidira-se por uma massa fresca com molho artesanal de tomate e ervas, acompanhada de um vinho leve. Nada extravagante. Apenas cuidado traduzido em gesto.
Harry permanecia ao lado dela, auxiliando com cortes precisos e movimentos experientes.
— Nunca imaginei que fosse me ver nessa cozinha com avental — comentou ela, sorrindo enquanto mexia o molho na panela.
— A vida costuma surpreender, senhorita — respondeu Harry, com naturalidade.
O aroma de alho e manjericão começou a se espalhar pelo ambiente. Renesmee sentiu uma satisfação genuína ao perceber que o prato tomava forma com harmonia.
Ela deixou o silêncio se estabelecer por alguns segundos antes de falar novamente, como quem muda de assunto sem intenção evidente.
— Harry… o senhor trabalhou com o senhor Billy por muitos anos, não foi?
O homem não interrompeu o movimento das mãos, mas a atenção se voltou para ela.
— Trabalhei, sim. Desde antes de o senhor Jacob nascer.
— Ele era muito diferente do Jake?
Harry pensou antes de responder.
— Diferente no estilo. Semelhante na determinação. O senhor Billy era firme, mas mais diplomático.
Renesmee mexeu o molho com cuidado.
— Sempre ouvi dizer que ele tinha grande influência na cidade.
— Tinha respeito — corrigiu Harry. — Influência é consequência.
Ela assentiu, como se apenas escutasse por curiosidade.
— E as relações políticas daquela época… eram estáveis?
Harry ergueu os olhos discretamente para ela.
— Eram… complexas.
— Complexas como? — perguntou ela, mantendo o tom leve.
— Como são todas as relações que envolvem poder — respondeu ele, com discrição calculada. — Havia alianças, divergências, negociações.
Renesmee pousou a colher na borda da panela.
— Ele mantinha boa relação com os Cullen?
Harry limpou as mãos em um pano de prato antes de responder.
— Havia respeito institucional.
Ela percebeu a escolha cuidadosa das palavras.
— Mas?
Harry a observou por um instante mais longo.
— Senhorita, certas histórias pertencem ao passado. E nem sempre é prudente revisitá-las sem contexto completo.
A resposta não era negativa, mas tampouco reveladora.
Renesmee sustentou o olhar por um segundo, compreendendo o limite invisível que ele não ultrapassaria.
— Eu só queria entender melhor o homem que criou o Jake — disse ela, com suavidade.
Harry assentiu.
— O senhor Billy era leal à família acima de tudo. E isso, senhorita, às vezes custa caro.
Ela absorveu a frase em silêncio.
Harry afastou-se alguns passos.
— Preciso verificar a adega. Já retorno.
Renesmee ficou sozinha na cozinha. O molho borbulhava em fogo baixo. A casa estava silenciosa.
Sem pensar muito, limpou as mãos e saiu pelo corredor lateral. Seus passos eram leves sobre o piso polido. Subiu a escada principal e caminhou até o escritório de Jacob.
A porta estava entreaberta.
Ela entrou.
O ambiente carregava a presença dele: organização rígida, livros alinhados, relatórios empilhados com precisão. Aproximou-se da estante, percorrendo os títulos com o olhar. Economia, política, estratégia empresarial.
Desviou a atenção para o cofre embutido na parede. Não tinha intenção de abri-lo. Apenas registrava.
Foi então que notou algo sobre a mesa.
Uma caixa.
Simples. De tamanho médio. Fechada.
Não parecia ali por acaso.
Ela aproximou-se, inclinando levemente a cabeça. Não tocou. Apenas observou. Havia algo na maneira como estava posicionada que sugeria recente chegada.
Antes que pudesse refletir mais, a voz de Harry ecoou no corredor.
— Senhorita Cullen?
Renesmee endireitou-se imediatamente e saiu do escritório, descendo as escadas com compostura controlada.
Harry estava à porta da cozinha.
— O senhor Black está a caminho — informou ele, sem perguntar onde ela estivera.
Ela sentiu um leve constrangimento, mas sustentou o sorriso.
— Ótimo. É melhor organizarmos a mesa.
— Concordo.
Voltaram à cozinha. Renesmee começou a dispor os pratos com cuidado, alinhando talheres, posicionando as taças, ajustando as velas discretas no centro da mesa.
Por um momento, conseguiu afastar as perguntas que cresciam em sua mente.
Mas a imagem da caixa sobre a mesa do escritório permanecia.
E, assim como as palavras de Harry, insinuava que a mansão Black guardava mais do que móveis elegantes e memórias familiares.
Guardava histórias ainda não contadas.
Fale com o autor