NIGHTWOLF- Blood & Roses
39 Celebração
Nas ruas de Seattle, o Nightwolf avançava entre sombras e sirenes distantes, o corpo em tensão constante enquanto desviava de golpes e imobilizava mais um dos homens que insistiam em fugir. O comunicador chiou junto ao seu ouvido, e a voz de Harry surgiu firme, sem espaço para rodeios.
— Vinte minutos, senhor. Se não se apressar, vai chegar atrasado à própria festa de noivado.
Jacob derrubou o último bandido com um movimento seco, algemando-o ao poste mais próximo antes de se afastar.
— Que a polícia recolha o lixo — respondeu, com dureza. — Eu já fiz a minha parte.
Ele correu, escalou a lateral de um prédio baixo e, do alto, observou rapidamente a rua antes de desaparecer. Quando a moto rugiu, o som se perdeu no vento frio da noite.
— Estou a caminho — avisou, enquanto acelerava. — Diga a Renesmee que eu não falho.
— Ela sabe — respondeu Harry. — Estarei esperando.
Jacob chegou ao Kerry Park, parando a moto em um ponto discreto, longe dos curiosos. Harry aguardava dentro do veículo, atento, e abriu a porta assim que o viu se aproximar. Jacob entrou sem cerimônia, ainda respirando fundo, a adrenalina pulsando nos músculos.
— As roupas estão na maleta — informou Harry, estendendo-a para o banco traseiro. — Tudo pronto, como pediu.
Jacob passou a mão pelo rosto, assentindo.
— Ótimo. Hoje à noite não posso errar — disse, num tom mais baixo, mas carregado de determinação. — Não por ela.
O carro arrancou em seguida, deixando para trás o parque silencioso, enquanto o Nightwolf ficava para trás e o homem que amava se preparava para cumprir outra promessa.
Jacob chegou à mansão Cullen poucos minutos depois, atravessando o portão de ferro enquanto o jardim se abria diante dele com uma elegância contida. Lanternas de cristal pendiam das árvores, lançando uma luz suave sobre os caminhos de pedra clara, e mesas baixas, decoradas com arranjos de lírios brancos e folhagens escuras, estavam distribuídas pelo gramado. O ambiente não era ostensivo; havia um cuidado quase silencioso em cada detalhe, como se tudo tivesse sido pensado para impressionar sem pedir atenção.
Alguns convidados já circulavam pelo jardim, conversando em pequenos grupos. Jacob respondeu a cumprimentos com acenos firmes e breves palavras, avançando sem se deter. Seus olhos buscaram apenas um ponto, e quando a encontrou, o restante perdeu importância. Renesmee o aguardava próxima à entrada da mansão, entre Edward e Bella, serena e luminosa de um modo que não precisava ser explicado.
Ela sorriu ao vê-lo se aproximar e deu dois passos à frente, envolvendo-o em um abraço natural, como se aquele gesto fosse um refúgio conhecido. Selou os lábios nos dele com suavidade, demorando-se apenas o suficiente para que o mundo ao redor se tornasse um ruído distante.
— Está 15 minutos atrasado— disse, em voz baixa, doce, como se não houvesse dúvida alguma de que ele chegaria.
— Eu tive um pequeno contratempo — respondeu Jacob, num tom firme, porém contido, pousando a mão em sua cintura por um instante.
— Esse contratempo é o responsável por esse corte?— Ela tocou o ferimento na testa dele.
Jacob sorriu — Ossos do ofício.
De mãos dadas eles se aproximaram de Edward e Bella que apenas observaram o casal e então se voltou para Edward, estendendo a mão.
— Cullen!
— Black — respondeu Edward, com um aceno respeitoso, avaliando-o com atenção tranquila. — Estávamos preocupados com seu atraso.
— Tive um pequeno contratempo.
Bella se aproximou e tocou o braço de Jacob com carinho.
— Que bom que chegou — disse ela, sincera.
Jacob assentiu, voltando o olhar para Renesmee, como se aquela noite só pudesse começar de fato agora que estavam juntos.
Edward conduziu o grupo para o interior da mansão, atravessando o grande hall onde o mármore claro refletia a iluminação discreta dos lustres modernos. O murmúrio das conversas se misturava ao som baixo de um quarteto de cordas ao fundo, criando um clima de solenidade sem rigidez. Renesmee caminhava ao lado de Jacob, mantendo a mão dele entre as suas, num gesto calmo, quase protetor.
— Quero apresentar vocês — disse Edward, parando diante de um pequeno grupo próximo à escadaria. — Meu pai, Carlisle; minha mãe, Esme… e meu irmão mais novo, Adam.
Carlisle deu um passo à frente e estendeu a mão com cordialidade.
— É um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente, Jacob. Ouço muito a seu respeito.
— O prazer é meu, senhor Cullen — respondeu Jacob, com firmeza respeitosa, apertando-lhe a mão. Em seguida, voltou-se para Esme, que o acolheu com um sorriso genuíno.
— Seja bem-vindo à nossa família — disse ela, com suavidade. — Renesmee fala de você com muito carinho.
Jacob inclinou levemente a cabeça.
— Espero estar à altura disso.
Renesmee sorriu, os olhos atentos a cada detalhe, e então percebeu a rigidez silenciosa de Adam. O irmão mais novo de Edward limitou-se a um cumprimento breve, mantendo os braços junto ao corpo e desviando o olhar quase imediatamente. Jacob notou o gesto no mesmo instante; havia algo naquele desconforto que não se explicava pela formalidade do momento.
— Boa noite — disse Jacob a Adam, em tom direto, aguardando uma resposta que veio apenas como um aceno contido.
Adam murmurou algo inaudível e se afastou um passo, como se precisasse de espaço. Renesmee franziu levemente o cenho, mas não disse nada. Jacob, por sua vez, manteve a expressão controlada, embora o instinto lhe dissesse que aquele incômodo não era casual. Algo naquele encontro inicial ficara suspenso no ar, sem nome, aguardando o momento certo para se revelar.
A festa avançava com naturalidade, sustentada por conversas longas e risos contidos. Grupos se formavam e se desfaziam pelos salões da mansão, enquanto garçons circulavam com taças de cristal. Jacob permaneceu por algum tempo entre políticos e empresários, respondendo com frases diretas, sem se estender além do necessário. Ainda assim, sua atenção se desviava com frequência. Adam Cullen surgia aqui e ali, sempre à margem, observando mais do que participando. Quando seus olhares se cruzavam, Adam desviava primeiro, como se o contato lhe fosse incômodo.
Renesmee percebeu a rigidez de Jacob antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa. Aproximou-se com delicadeza, tocou-lhe o braço e sorriu, daquele modo sereno que parecia reorganizar o mundo ao redor.
— Você já cumpriu sua cota de cordialidade por hoje — disse em tom leve. — Agora é só meu.
Sem esperar resposta, conduziu-o pelo corredor lateral até o jardim. As luzes baixas realçavam os caminhos de pedra, cercados por arbustos bem aparados e esculturas discretas. Ali, o som da festa tornava-se distante, quase irrelevante. Renesmee parou diante dele e pousou as mãos em seu peito, olhando-o com afeto tranquilo.
— Estava pensando — murmurou Jacob, a voz mais baixa, mais verdadeira. — Não quero perder nenhum momento dessa gravidez.
Ela sorriu e o beijou com ternura, sem pressa, como se aquele gesto fosse um acordo silencioso entre os dois.
— Tenho certeza que não vai— respondeu ela, doce. — vai sempre estar presente.
Jacob apoiou a testa na dela por um instante.
— Eu fico imaginando… se vai puxar seus olhos ou o meu jeito difícil — disse, quase num sussurro. — Nunca achei que ficaria ansioso assim.
Renesmee segurou o rosto dele com cuidado.
— Você vai ser um pai extraordinário. Mesmo com esse ar de quem enfrenta o mundo sozinho.
Ele sorriu de lado, raro e sincero.
— Por ele, eu enfrento qualquer coisa. Por você, também.
Ela pousou a mão sobre o próprio ventre, guiando a dele até ali. Jacob respirou fundo, como se aquele gesto tornasse tudo concreto pela primeira vez. O peso das tensões pareceu se afastar por alguns segundos. No jardim silencioso, longe dos olhares atentos da festa, havia apenas a promessa de uma vida que crescia e a certeza inquieta de que nada, dali em diante, seria simples — mas seria deles.
O encerramento da festa aconteceu de forma gradual, com os convidados se dispersando aos poucos pelo jardim e pelo salão principal. Renesmee permaneceu ao lado de Jacob enquanto se despedia dos últimos conhecidos, mantendo a mão entrelaçada à dele como se quisesse fixá-lo ali por mais alguns instantes. Quando enfim ficaram a sós perto da escadaria externa, ela inclinou o rosto em sua direção, o sorriso suave contrastando com o cansaço discreto da noite.
— Jake… — chamou, a voz baixa, quase um segredo. — Eu tinha imaginado outra forma de terminar a nossa noite de noivado oficial.
Jacob sorriu, como quem realmente desejava aceitar.
— Eu adoraria você nua na minha cama— respondeu tocando o queixo dela. — Mas não seria correto sair assim e deixar sua família. Hoje não. Eles precisam de você tanto quanto eu.
Renesmee assentiu, compreensiva, sem perder a doçura.
— Eu sei. Só queria ouvir você dizer que também queria.
Ele se aproximou e a beijou com cuidado, um beijo lento, profundo, carregado de promessa mais do que de urgência. Quando se afastou, Jacob desceu lentamente, ajoelhando-se diante dela. Com respeito quase solene, pousou um beijo demorado sobre a barriga de Renesmee, fechando os olhos por um instante, como se fizesse um juramento silencioso.
— Até amanhã, eu te amo.
— Amo você futura senhora Black.
Jacob tocou-lhe o rosto com firmeza contida e seguiu pelo caminho de saída. Pouco depois, entrou no carro onde Harry já o aguardava ao volante.
— Para onde, senhor? — perguntou o motorista.
Jacob olhou uma última vez para a mansão iluminada antes de responder, a voz grave e decidida:
— Para casa.
Jacob entrou em casa em silêncio, retirando o paletó ainda no caminho até a sala. Subia o primeiro degrau da escada quando algo fora do lugar lhe chamou a atenção. Sobre a mesa de centro, perfeitamente alinhada, havia uma caixa de tamanho médio, embrulhada em papel escuro demais para ser um gesto inocente. Ele desceu o pé devagar, como se o próprio assoalho pudesse denunciar sua presença, e se aproximou.
Havia um cartão apoiado sobre a tampa. Jacob o pegou entre os dedos, leu uma única vez e não precisou reler. “Um presente de noivado para Jacob Black.” A caligrafia era firme, quase elegante, e isso lhe causou mais incômodo do que uma ameaça explícita. Seus maxilares se contraíram, e o silêncio da casa pareceu mais pesado do que o habitual.
Ele pousou o cartão de volta sobre a mesa, sem ainda tocar na caixa, a encarou por alguns segundos, avaliando possibilidades, riscos, nomes. Aquilo não era um gesto de celebração; era um aviso. Naquele momento, a felicidade que carregara desde a festa cedeu espaço a uma desconfiança fria, profunda, daquelas que não se dissipam facilmente.
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