Renesmee vestiu a camisola com gestos tranquilos, como se cada movimento fosse uma tentativa de desacelerar o turbilhão dos últimos dias. Parou diante do espelho e pousou a mão sobre o ventre ainda liso. Não havia sinal algum da nova vida que crescia ali, mas ela sentia. Sentia na forma como o coração parecia bater com outro ritmo, na delicadeza repentina com que tocava a própria pele, na maneira como pensava no futuro com uma responsabilidade silenciosa. Não fora planejado. Não estava nos cálculos políticos do pai, nem nos planos impulsivos de Jacob. Ainda assim, era real. E era amado.

O celular vibrou sobre a penteadeira. Ela pegou o aparelho e sorriu ao ler a mensagem.

“Boa noite, minha futura senhora Black. Descanse. Eu amo você.”

O sorriso dela foi suave, sincero. Digitou uma resposta breve, desejando que ele também descansasse, e deixou o telefone de lado. Pensou em ligar. Pensou em ouvir a voz dele antes de dormir. Mas decidiu que o silêncio da noite era mais seguro.

Saiu do quarto descalça, caminhando pelos corredores amplos da mansão Cullen. A casa estava silenciosa, iluminada por luzes indiretas que projetavam sombras discretas nas paredes claras. Desceu as escadas devagar, pretendendo ir até a cozinha buscar água.

Foi então que ouviu a voz do avô.

Não estava alta. Mas havia tensão nela.

Renesmee parou no meio do corredor. A conversa vinha do escritório de Edward. A porta não estava completamente fechada. A luz escapava por uma fresta estreita.

Ela não se aproximou por curiosidade infantil. Aproximou-se por instinto.

— Você foi imprudente, Edward — disse Carlisle, com firmeza contida. — Sabendo de tudo o que aconteceu no passado, permitir que Renesmee se envolvesse com um Black não foi sensato.

O coração dela apertou.

Houve um breve silêncio antes da resposta do pai.

— Eu não permiti nada — disse Edward, em tom controlado. — Ela é adulta. E eu jamais a proibiria de amar alguém.

— Não se trata de proibição — retrucou Carlisle. — Trata-se de consequências. Há coisas que nunca foram totalmente resolvidas entre nossas famílias.

Renesmee franziu a testa. Consequências? Nunca resolvidas?

Edward suspirou, e o som carregava cansaço.

— Justamente por isso achei melhor tê-lo por perto. Jacob sempre foi intenso. Preferi que estivesse próximo de nós do que cultivando ressentimentos à distância.

— Aproximá-lo não apaga o passado — respondeu Carlisle. — Apenas o coloca dentro de casa.

Houve um novo silêncio. Denso.

— Você acredita que ele sabe? — perguntou Carlisle, mais baixo.

— Não — respondeu Edward. — E espero que continue assim.

Renesmee sentiu um arrepio percorrer-lhe os braços.

O que exatamente Jacob não sabia?

Ela recuou um passo, tentando organizar as palavras que ouvira. Não haviam mencionado nomes, nem detalhes. Não falaram de atos concretos. Apenas de “passado”, “consequências”, “ressentimentos”.

Mas o tom dizia mais que as palavras.

— Eu apenas não quero que ela pague por erros que não cometeu — concluiu Carlisle, a voz agora mais branda.

Edward respondeu com firmeza serena:

— Renesmee não é frágil. E eu confio que Jacob também não repetirá erros que não foram dele.

Renesmee afastou-se da porta lentamente, o coração acelerado. Não havia acusações diretas. Não havia confissões. Mas havia algo oculto.

Algo que envolvia os Black.

Algo que envolvia os Cullen.

E algo que Jacob desconhecia.

Subiu as escadas de volta ao quarto com passos silenciosos, a mente agitada. Sentou-se na beira da cama e tentou racionalizar. Poderia ser apenas cautela exagerada. Poderia ser memória de conflitos antigos. Poderia não significar nada.

Mas o instinto dizia o contrário.

Se havia um passado mal resolvido entre as famílias, e se Jacob ignorava parte dele, então o perigo não estava apenas nas ruas de Seattle. Estava nas lacunas.

Renesmee deitou-se, mas o sono não veio. Olhou para o teto por longos minutos, o pensamento firme e decidido.

Ela não confrontaria o pai.

Não ainda.

Primeiro, precisava entender.

E, pela primeira vez, sentiu que proteger Jacob talvez significasse descobrir a verdade antes que ele o fizesse.

Com a mão pousada sobre o ventre, fez uma promessa silenciosa: não permitiria que segredos antigos destruíssem o futuro que estava começando a nascer.


Renesmee não dormiu como imaginara. A noite foi longa, interrompida por pensamentos que insistiam em se organizar e, ao mesmo tempo, se embaralhavam. Quando o relógio marcou pouco depois das seis, ela desistiu de tentar repousar. Levantou-se com cuidado, lavou o rosto na água fria da pia e vestiu uma calça de alfaiataria clara com uma blusa leve de mangas longas. O espelho refletia uma jovem serena, mas os olhos denunciavam a vigília.

Desceu as escadas com postura composta. A mesa do café estava posta com o cuidado habitual de Esme. O aroma de café fresco e pão quente preenchia a sala de jantar. Edward lia o jornal com atenção; Bella conversava com Esme; Carlisle folheava um tablet com notícias; Adam mexia no celular; o pequeno Henry tomava suco concentrado demais, fazendo caretas.

— Bom dia — disse Renesmee com suavidade.

Henry sorriu imediatamente e abriu espaço ao lado dele. Ela se sentou e beijou-lhe os cabelos.

— Dormiu bem, noiva? — perguntou Adam, erguendo o olhar com um meio sorriso.

Renesmee sustentou a expressão doce.

— Dormi, sim. Obrigada por perguntar.

Adam inclinou a cabeça, como se avaliasse a resposta, mas não insistiu.

Esme aproveitou a deixa.

— Eu e Bella estávamos falando sobre o vestido. Talvez possamos ir ainda esta semana à costureira. Com a gravidez, ajustes serão necessários.

Bella assentiu.

— Precisamos pensar também no local da cerimônia civil, já que o prazo é curto.

Renesmee ouviu com atenção e respondeu com delicadeza.

— Eu adoraria resolver isso com vocês. Mas hoje preciso ir ao jornal. Temos algumas decisões importantes para tomar.

Carlisle levantou os olhos do tablet.

— Ah, o novo jornal… como é mesmo o nome? — perguntou, tentando recordar.

— Verdade Urbana, vovô — respondeu ela com um leve sorriso.

— Isso — confirmou ele. — Fiquei sabendo que a reestruturação está avançando.

— Está, sim. Ainda é um começo frágil, mas estamos trabalhando com responsabilidade.

Edward pousou o jornal sobre a mesa.

— Tome cuidado com a exposição, Renesmee. A cidade está instável.

Ela encontrou o olhar do pai com serenidade.

— Eu sei. Prometo ser prudente.

Bella tocou a mão da filha.

— Não se sobrecarregue, meu amor.

Renesmee inclinou-se e beijou o rosto da mãe.

— Não vou. Eu apenas… preciso manter a cabeça ocupada.

Ela terminou o café quase sem perceber o gosto do que comia. Levantou-se com naturalidade, pegou a bolsa sobre o aparador e ajeitou a alça no ombro.

— Volto no fim da tarde — avisou.

Henry acenou com entusiasmo.

— Traz chocolate?

Ela riu.

— Se o papai permitir.

Edward fingiu severidade, mas o sorriso discreto não o traiu.

Renesmee atravessou o hall de entrada com passos firmes. A casa permanecia acolhedora, mas algo nela já se movia com outra intenção. O comentário da noite anterior não saíra de sua mente. “Coisas que nunca foram resolvidas.” “Consequências.”

Ao atravessar os portões da mansão e entrar no carro, não pensava apenas no jornal.

Pensava em arquivos antigos.

Em registros.

E em respostas que talvez estivessem guardadas há muito mais tempo do que imaginara.



Renesmee dirigia pelas ruas de Seattle com atenção redobrada. O trânsito da manhã estava intenso, mas fluía com relativa organização. Ela mantinha as duas mãos no volante, o olhar atento aos sinais, enquanto a mente seguia inquieta. Tentava organizar o que ouvira na noite anterior, separar fato de suposição. Não queria alimentar fantasmas. Ainda assim, a conversa entre o pai e o avô não lhe saía da memória.

O celular conectado ao sistema do carro vibrou. O nome de Jacob surgiu no painel.

Ela atendeu, e a voz dele preencheu o interior do veículo.

— Bom dia, futura senhora Black.

O tom era firme, mas havia um sorriso contido ali.

— Bom dia, Jake — respondeu ela com suavidade. — Já começou a comandar o mundo hoje?

— Alguém precisa manter essa cidade funcionando — replicou ele, levemente seco, mas afetuoso. — E você? Fugindo para o jornal outra vez?

— Não é fuga. É compromisso — disse, doce. — Eu gosto de estar lá.

— Eu sei — respondeu ele. — Só não exagere. Você anda se cobrando demais.

Ela respirou fundo, escolhendo as palavras.

— Estou bem, de verdade. Só quero que as coisas voltem a um ritmo mais estável.

Houve um breve silêncio do outro lado.

— Está escondendo algo de mim, Ness? — perguntou ele, direto.

Ela sorriu, embora ele não pudesse ver.

— Estou apenas com saudade.

A resposta foi estratégica e sincera ao mesmo tempo.

— Então resolvemos isso hoje à noite — disse Jacob, com leve firmeza. — Eu passo aí depois do expediente.

— Eu vou adorar — respondeu ela. — Cuide-se.

Sempre. E você também.

A ligação encerrou-se, deixando no ar uma mistura de conforto e peso. Ela não mencionara a conversa da noite anterior. Não ainda. Precisava de algo mais concreto antes de trazer qualquer suspeita à tona.

Alguns minutos depois, estacionava diante do prédio do Verdade Urbana. As reformas avançavam; andaimes ainda cercavam parte da fachada, mas já era possível ver a nova identidade visual sendo instalada.

Ao entrar, foi recebida pelo som de teclados, vozes cruzadas e o cheiro de café forte.

— A noiva resolveu trabalhar hoje! — brincou Claire, levantando-se da cadeira.

— Claro. Alguém precisa manter vocês organizados — respondeu Renesmee, com leveza.

Jessica apareceu logo atrás, sorrindo.

— Cuidado, Claire. Agora ela tem sobrenome duplo em potencial.

Renesmee riu.

— Ainda continuo sendo a mesma pessoa.

Quil saiu de sua sala com alguns papéis nas mãos.

— Ótimo que chegou. Temos que fechar a pauta do fim de semana.

Eles se reuniram em torno da mesa principal. Conversaram sobre a escalada de violência recente, os desdobramentos políticos e a cobertura do julgamento que se aproximava.

No meio da discussão, Renesmee apoiou os cotovelos na mesa e, com tom casual, lançou:

— Vocês sabem onde consigo acesso a registros antigos da cidade? Coisa de dez, quinze anos atrás. Arquivos públicos, talvez reportagens arquivadas.

Embry ergueu uma sobrancelha.

— Pesquisa histórica?

— Algo assim — respondeu ela, tranquila. — Estou pensando em uma matéria sobre conflitos políticos do passado e como eles influenciam o presente.

Jessica foi a primeira a reagir.

— Arquivos mais antigos? — Ela pensou por um instante. — A Biblioteca Central tem uma ala digitalizada com jornais e registros públicos. Mas se você quer algo mais… específico, talvez o Arquivo Municipal.

Renesmee manteve o tom neutro.

— Arquivo Municipal?

— Sim — continuou Jessica. — Fica no prédio anexo à antiga prefeitura. Lá tem atas, registros de investigações antigas, relatórios administrativos. Não é tão simples conseguir acesso, mas com seu sobrenome…

Ela deixou a frase no ar.

Renesmee apenas assentiu.

— Obrigada, Jess. É exatamente o tipo de lugar que eu procurava.

Quil observou-a com curiosidade.

— Posso saber o que você está tentando descobrir?

Ela sustentou o olhar dele com serenidade.

— Apenas contexto. Às vezes o passado explica mais do que imaginamos.

A conversa seguiu para outros assuntos, mas, dentro dela, a decisão já estava tomada.

Se havia algo mal resolvido entre os Cullen e os Black, os registros estavam em algum lugar.

E ela pretendia encontrá-los antes que outra pessoa o fizesse.