Nós
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quem.... Sou eu?
Conexões.
Durante toda a sua vida ela buscou por conexões. Como se quisesse alcançar os sentimentos alheios e entrelaça-los com os seus. Mas, não existia seu. Nunca houve nada dela. Mesmo agora, com toda a sua presença, com seus olhos circulando cada ponto consideravelmente importante, tudo poderia sumir e reaparecer completamente diferente.
— Eleanor, o que você está olhando? – Por detrás dos óculos havia uma confusão familiar. Havia estranhamento e dúvida, eram digeríveis, fáceis de circundar. Por isso que ela abriu um sorriso, pois ele resolveria.
— Você parece bonita hoje, cortou o cabelo? – Sua cabeça pendeu enquanto seu corpo se remexia confortavelmente na cadeira. – Ou talvez sejam os óculos? — Seus olhos se arregalaram comicamente. – Você comprou óculos novos? –
Os olhos da psicóloga tornaram-se fendas e ela negou com a cabeça, suspirando. Algo como decepção e frustração. Não tão fácil agora.
— Faltam quinze minutos para a sessão acabar Eleanor. – A sua voz se tornou mais densa e baixa, como se não conseguisse mais gastar energia.– Você tem certeza que não tem nada para falar para mim? –
Algo para falar? O que ela falaria? Sobre sua briga com o irmão? Sobre o último evento de sua mãe que ela se recusou a participar? Que relevância aquilo teria se todas as novas informações não eram mais dela? Eleanor piscou, o rosto inexpressivo, cavando profundamente em qualquer lugar de sua memória. Seus lábios se abriram e hesitantes, começaram a falar.
— Meu time perdeu o torneio estadual de vôlei. – Mas aquilo todos já sabiam. Todos, sem qualquer tipo de exceção. Ela ainda podia lembrar da bola girando em sua mão, do quão alto ela pulou. E o quanto a queda tinha sido mais profunda do que a altura do pulo.
— E então? – Os olhos da mulher pareciam carinhosos em sua direção, pedindo, silenciosamente, por qualquer ínfima conexão.
— Luci apareceu por uma semana inteira e eu fui incapaz de voltar. – Aquilo foi proferido de maneira tão natural que ela seria capaz de rir se não fosse tão ridiculamente trágico. Como ela foi capaz de esquecer dessa maneira? Como ela continuava com dificuldades tão orgulhosas?
— Eu pensei que já tivéssemos feito progresso, principalmente em situações em que você está em desvantagem. –
A frase, apesar de acusatória, tinha soado com uma preocupação evidente.
— Eu não estava em desvantagem! – A sua voz saiu mais alta do que deveria. — Eu... – Começou errado. – Nós.... – Enfatizou. – Não estávamos preparados para uma estratégia com uma defesa tão boa. – Normalizou o tom ao terminar a frase de maneira satisfatória, de maneira que foi ensinada a pensar.
— Se você pensasse realmente assim, eu não teria três sessões com Luci. –
— Ela veio? – Eleanor franziu o cenho.
— Fiquei tão surpresa quanto você. – A mulher assentiu. – Só consegui distinguir na metade da segunda sessão. –
A adolescente abriu a boca, cautelosa.
Quem.... sou eu?
— Como você descobriu que não era eu e sim ela? – A frase saiu cadenciada, como se ela tivesse medo de resposta.
— Otimismo. – A psicóloga deu de ombros. – Ela parecia querer me convencer de que não precisava mais de ajuda, de que estava ótima, de que Luci e Charlie apareceriam cada vez menos. – Um olhar cansado surgiu no rosto da adolescente, sua cabeça se inclinou para apoiar-se na cadeira, sua atenção fixa na parede branca do consultório.
— Otimismo. – Sua boca se contorceu em desgosto. – Eu posso ser otimista. – Deu de ombros, insegurança tremeluzindo em suas expressões sempre tão confiantes. A psicóloga cerrou os olhos por segundos, analisando a posição orgulhosa que Eleanor se encontrava.
— Suas mãos, estão limpas agora. – Continuou enquanto entrelaçava os dedos. Aparentava desistência. Ela seria a única que falaria hoje. – Você me confidenciou que Luci gosta de desenhos. –
— Bom, então, para provar que sou eu, preciso ter higiene básica, realmente esclarecedor. – Zombou, todo o seu desprezo jorrado na frase. Tudo aquilo era assustador, mas, ao mesmo tempo, ridículo. Luci era como um monstro, mas um monstro desajeitado, alguém querendo destruir a sua vida, mas sendo péssimo nisso. Era como se Luci fosse uma adolescente. Não. Ela não admitiria isso. Luci não era real. Era a porra de uma doença mental.
— Ela parecia bastante esforçada na farsa. – Murmurou a psicóloga. – Mas aparentava falta de experiência, isso é bom. –
Isso é bom?
— Falta de experiência? – Eleanor indagou. – O que determina falta de experiência para esse tipo de situação? –
— Nervosismo. – A psicóloga deu de ombros. – E você nunca fica nervosa nas sessões. – Observou a atenção de Eleanor focada em cada rachadura do teto. – E também, nunca me olha nos olhos. – Instantaneamente, a mulher mais velha se viu presa no olhar sempre frustrado da adolescente. Era como se ela quisesse provar algo, mas que soubesse que estava errada. Como uma raiva contida não tão contida assim. Outro monótono silêncio dentro da sala e Eleanor foi a primeira a vacilar, a expressão se suavizando enquanto um suspiro saía de seu peito. Agora faltavam três minutos para a sessão acabar.
— Vou servir como isca na próxima estratégia. – Murmurou, acariciando o estofado do divã com o dedo indicador, a sua atenção desnecessariamente fixada ali.
— E isso seria uma notícia ruim? – Eleanor sorriu, ainda com um olhar fixo.
— Se nós perdermos de novo, sim. –
— Eleanor…- A adolescente interrompeu o começo de uma nova conversação se levantando de maneira abrupta.
— Eu preciso ir. – Puxou a mochila que estava logo ao lado do divã e a puxou pela alça. – Hoje foi realmente muito bom, obrigada. – E sorriu novamente, com toda a simpatia que conseguia espremer de si mesma.
— Você sabe que essa conversa não me diz nada, não é? – Murmurou, enquanto pendia o rosto na palma da mão esquerda. – Em algum momento, você precisa me dizer. – Eleanor abriu a porta, se virou e franziu o cenho.
— Você mudou a cor deles, não é? –
— O que? –
— O óculos, preto combina com você. –
A mulher mais velha suspirou, assentindo.
— Obrigada. –
E a porta se fechou.
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