Nós

2 Nem tão familiar assim


Eleanor fechou a porta de maneira delicada, a mão direita agarrada a maçaneta como se aquilo fosse suficiente para com que toda a sua ansiedade fosse descarregada. Ela odiava aquelas seções, por arranca-la de sua constante morbidez, de suas ações pragmáticas e repetitivas que não causavam danos colaterais para outras pessoas.

Mas, ela sabia que não era somente aquilo. Estar ali era a comprovação de como tudo estava dando errado e de como ela ainda precisava melhorar, não importava quanto tempo tivesse passado. Ela era orgulhosa demais para aceitar ajuda, mas incapaz de lidar com seus próprios problemas.

Quando o seu aperto não se mostrou o suficiente, suas mãos começaram a se abrir e fechar com força o suficiente para que suas juntas doessem e suas unhas começassem a causar vermelhidões em sua palma.

— E então, como foi? –

A voz familiar chamou a sua atenção e Eleanor franziu o cenho, sua atenção se virando para o garoto de cabelos loiros sentada de maneira despreocupada no sofá da recepção, os olhos verdes entediados, os braços se esticando na parte de cima do estofado, as pernas cruzadas.

— Meu cérebro criou personalidades alternativas. – Murmurou sarcasticamente enquanto acenava para a recepcionista e ia em direção as escadas.

— Tem um elevador logo ali.... – Parou de falar ao ver que Eleanor já estava no terceiro degrau, revirou os olhos, a seguindo. – Estamos no décimo andar. –

— É proposital. – Eleanor sorriu, dando de ombros.

— Você não pode me punir só porque ela me mandou aqui. –

— Isso é porque você ouviu ela –

— Se passou uma semana, nunca foi um período tão grande. –

O rosto de Eleanor se transfigurou em desgosto, a tratavam como se ela não tivesse ciência da sua própria doença mental. Talvez fosse culpa sua, seus comportamentos tranquilos e controlados podiam ser interpretados como estupidez e negligência.

Mas ela era dona de seus próprios problemas e iria conseguir resolve-los.

— Não me trate como criança. –

— Eu também me preocupo com você! – Ele exclamou, o tom de voz se elevando em incredulidade.

Eleanor diminuiu a velocidade, culpa atingindo seu peito, soando através do tom de voz do irmão.

— Me desculpe. – Continuou, com um pouco mais de dificuldade dessa vez, ela não estava com vontade de ir com calma. – Eu só.... Sei o que aconteceu e não preciso de proteção. –

Seu irmão se manteve calado diante da sua fala. O silêncio a agradou, porém, não por muito tempo. Aquilo tinha sido desnecessário. Ela não podia misturar a mágoa que sentia pela mãe contaminar seu irmão.

Porém, a sua preocupação logo desanuviou de sua mente para outra tomar seu lugar. Era normal que suas mãos contivessem tantas marcas de tintas provindas do principal hobby de Luci: a pintura. Porém, aquele desenho desajeitado em seu pulso não era familiar, as bordas das pétalas eram tortas demais, a pintura sem cuidado e a letra que definitivamente não era dela lhe causaram um pânico interno.

— Leo? –

Talvez ela estivesse obsessiva demais, presa em um padrão invisível ou com uma impressão diferente de quem Luci realmente era, mas qualquer indício de qualquer coisa fora do normal era um sinalizador que ela nunca ignoraria.

— Luci falou com alguém que não conhecíamos? -

Seu irmão parou logo ao seu lado depois de alcança-la, parecia pensativo.

— É difícil dizer, nós participamos de um evento beneficente essa semana, Luci conversou com diversas pessoas que não conhecíamos. – Deu de ombros despreocupado, tomando a frente da caminhada. – Mas fique tranquila, Luci é melhor que você em situações como essa. – Sorriu, abrindo a porta de maneira educada, a ação se distorcendo com o sorriso zombador que cruzava seu rosto.

— Ela não ficou com sozinha com ninguém? – Ela perguntou novamente, os olhos fixos nas expressões do irmão, que revirou os olhos.

— Como poderia? Ela é a Luci! Gosta de ser vista fazendo coisas boas, não faz sentido ela se isolar em algum lugar. –Pensou de maneira de despreocupada, porém, lógica.

Os pensamentos de Eleanor se alinharam depois das palavras do irmão. Era idiotice, eventos beneficentes eram cheios de crianças órfãs, idosos e sem tetos, qualquer coisa explicaria o desenho desregulado em seu pulso.

Ao chegarem perto do carro de Leonardo, seu celular vibrou de maneira insistente, como um lembrete da vida real.

— Eles não vão ligar, atenda. – Leonardo remexeu a mão de maneira encorajadora. – Eles estão no Rio de Janeiro resolvendo alguns problemas. –

— Problemas? – Eleanor franziu o cenho, colocando o celular no ouvido logo após ver o número no visor.

— Eleanor? Você finalmente achou seu celular? – A voz era irritadiça e divertida, o tom de voz borbulhava saudade e emoção.

— Meu celular? –

— Sim! O único método de conversar com você durante essa semana turbulenta. – Resmungou. – Enfim, eu estou com saudades suas, vamos nos encontrar? –

Eleanor piscou, surpresa. Elas estavam no meio das férias de julho, geralmente ela e Maria ficavam juntas nesse período e até mesmo Luci simpatizava com essa sua amizade em particular.

— Ah, claro, onde? – Uma felicidade transfigurou seu rosto em um sorriso animado enquanto pulava para dentro do sedan. A perspectiva de perceber de que tudo estava lá, do mesmo jeito que tinha deixado a deixava eufórica, como se ela conseguisse tomar controle de tudo novamente, como se Luci e Charlie não fossem capazes contra ela.

De fato, você consegue ser otimista.

Eleanor afundou qualquer distração no fundo da sua mente ao sorrir, olhando para o irmão dirigindo pacientemente.

— Na padaria na frente de sua casa, estou com o Leo, chegaremos em cinco minutos. – Falou em um fôlego só, arrancando um olhar questionador do irmão. Sua boca se contorceu com o nome Maria.

Era engraçado observar a reação dos dois. Seu irmão pareceu surpreso por alguns segundos, o comportamento transformando-se em ansioso e eufórico segundos depois. O carro reclamou quando ele errou a marcha.

— Na verdade, talvez uns quinze minutos? – Tombou a cabeça, divertida.

— Ele vem?! – A exclamação de Maria era hilária.

— Me agradeça depois. – Murmurou, seu sorriso se alargando ao escutar os passos apressados da amiga.

—O que você acha que eu deveria vestir? –A frase saiu como um eco, como se ela tivesse deixado o celular em algum lugar.

— Como você mesma. –

— Isso não ajuda muito. –

— Bom, você não é a única que compartilha essa ansiedade. – Os olhos de Eleanor observavam o velocímetro. – Vamos chegar em menos de cinco minutos possivelmente. –

— Pare com a mudança de perspectiva de tempo! -

— Desculpe se eu não consigo acompanhar o espírito apaixonado de vocês dois. – Zombou.

Um suspiro exasperado e a ligação se encerrou.

— Ela falou de mim? –

— A conversa inteira girou em torno de você. –O tom de escárnio de Eleanor continuou. – Agora, você pode ir mais devagar? –

Os dedos de Leonardo se remexeram no volante, os ombros tensos enquanto uma expressão de felicidade contida parecia invadir cada músculo de seu rosto.

Aquilo era agradável de se observar, como o sentimento alheio se contorcia para fora, se alastrando, como uma necessidade pungente de se libertar e contaminando os outros ao seu redor. As coisas se tornavam mais bonitas aos olhos apaixonados.

Agora deite-se

Sobre o enorme campo, beijada pelo sol

Como um ambulante girassol

Levado pelo vento

Com suas cores em tom de amarelo

E amor

— Essa música é muito bonita. – Seu irmão disse, observando uma Eleanor se olhos fechados. – Qual é o nome? –

Eleanor abriu os olhos e franziu o cenho.

— Eu não sei. –

E de fato não sabia. A canção tinha se infiltrado por dentro de seus lábios, a origem desconhecida.

— A cor do amor? – Leo murmurou, pensativo, observando a padaria de longe, fazendo com que Eleanor notasse que eles já tinham chegado.

— Não, amor já é uma cor. – Resmungou, saindo do carro.

Leonardo parecia divertido, seguindo os passos decididos de Eleanor e entrando dentro do recinto.

O aroma de café e pães deixou tudo melhor automaticamente.

Leonardo olhou ao redor até achar um pequeno braço estendido numa das últimas mesas, os dedos miúdos chamando a atenção dos dois irmãos em conjunto com um sorriso alegre.

— Rosa, com certeza rosa. – Murmurou Leandro, começando a se aproximar com passos largos enquanto limpava o suor das mãos nas calças jeans e ajeitava a camiseta branca.

Eleanor ignorou o irmão, seus olhos indo preguiçosamente para os doces. Talvez o amor fosse doce e amanteigado, ou coberto por camadas e camadas de chantilly, tão marrom quanto o mais delicioso chocolate.

— Hm... Estou com dificuldades para escolher. – Uma voz desconhecida chamou a sua atenção e Eleanor virou seu rosto, sua atenção sendo capturada por cabelos castanhos e sorriso gentil. – Os cookies deles são tão decepcionantes quanto os pães de queijo? – Brincou.

Eleanor franziu o cenho, não lembrava quem ela era.

— Ahm.... As cucas são boas. – Respondeu de maneira confusa, seus olhos nunca desgrudando da pessoa desconhecidas.

O sorriso aumentou e Eleanor piscou.

Quem era ela? Quem era ela?

Ela não conseguia lembrar de absolutamente nada envolvendo aquela garota, era como se ela fosse a personificação do que Eleanor mais temia. A garota pediu alguma coisa que Eleanor não prestou a atenção, seus olhos nunca desgrudando do sorriso tranquilo e das mãos nos bolsos.

— Eu sinceramente achei que nunca nos encontraríamos de novo, você e a sua família são tão ocupados. – Continuou. – Eu senti a sua falta. –

“Senti sua falta”

A frase só poderia ser dita se duas pessoas deixassem de se ver por um período significativo de tempo. Aquilo não revelava nada, a não ser um grande ponto de interrogação de quem de fato essa garota tinha conhecido.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.