Não conte nada ao Aureo
2 Fardo
Sua respiração estava curta e, sempre que seu peito subia, sentia muita dor. A infeliz conseguiu quebrar uma costela, mas isso era o menor de seus problemas.
Carla estava seriamente ferida, havia ferimentos em todo seu corpo. Uma costela quebrada, pequenos ferimentos provenientes dos cacos de vidro, o lábio inferior teve que levar dois pontos e uma lesão na coluna. Sem duvidas a lesão havia sido a pior. Suas duas pernas não se moveram durante todo o tempo em que ficou no hospital. Mesmo sendo uma mulher adulta, nenhum médico quis falar diretamente com ela, optando assim por falar com sua irmão. Mas não houve como esconder por muito tempo. Ela havia perdido os movimentos das pernas e, como não havia uma explicação do porquê isso aconteceu, o doutor não soube dizer se algum dia Carla voltaria a andar."Sinto muito, senhorita Campos, mas não sabemos o motivo de você não consegui mexer a parte inferior de seu corpo. A lesão foi algo simples e muitas pessoas normalmente já teriam voltado a andar a essa altura, mas parece que houve algum dano que não conseguimos encontrar. Sinto muito, mas não podemos fazer mais nada. Recomendo que faça alguns exames e uma fisioterapia" Doutor Romones disse. Carla deixou de escutar por um tempo. Seus pensamentos foram conduzidos para uma lembrança que havia adquirido a pouco tempo.
A cabeça dele estava encostada na cama dela. Ela queria muito tocar aquele cabelo liso, mas se conteve: ele poderia acordar. O perfume dele parecia invadir todo o quarto e, mesmo com o cheiro doentio do hospital, ela tentava respirar o mais fundo que podia para não deixar que aquele adorado cheiro escapasse de suas narinas. Seus olhos percorriam sua nuca como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento, ela o olhava quase que o devorando. Era o que qualquer um faria no lugar dela. Qualquer um que desejasse uma pessoa que não pode ter a olharia como se a consumisse. Ele respirou profundamente e se sentou lentamente na cadeira ao lado da cama. Depois de um longo bocejo ele a olhou nos olhos e sorriu."A quanto tempo está acordada?"ele perguntou."Acabei de acordar e você? A quanto tempo está ai dormindo?"ela perguntou.
Ele não a respondeu. Aureo ficou somente ali, a olhando nos olhos. Ele estava buscando algo que havia visto a um segundo, aquele olhar estranho que as vezes ele a flagrava tendo enquanto ela o olhava, mas ele nunca conseguia ao certo saber o que era. O rapaz sempre atribuiu aquele olhar a uma possível rejeição da jovem, na verdade, ele sempre achou que a cunhada nunca aprovou o casamento dele com a irmã. Em partes ele estava certo. "Não foi para casa?" ela perguntou, Carla queria ouvir a voz do homem. "Não, Ana estava muito cansada e falei para que ela fosse para casa que eu ficaria aqui" ele respondeu. Ela somente reagiu com um Ah.
"Você vai receber alta amanhã!" Ana disse muito feliz, enquanto arrancava sua irmã de mais uma de suas lembranças. Carla se limitou a sorrir, ela não estava nada contente em voltar para casa. Nem ao menos seria a casa dela. Graças a atuais condições, Carla teria que ficar na casa da irmã e ser cuidada por ela e seu marido. Obvio que ela ficou muito feliz em saber que ela ficaria mais perto de Aureo, mas não queria ficar ao lado da irmã e vê o quanto ela e o marido eram felizes. Ela teria que ficar no quarto que estava sendo preparado para o futuro sobrinho ou sobrinha que sua irmã estava pensando em ter. Isso ainda não havia acontecido por Ana ter problemas para engravidar, mas os preparativos já estavam em andamento.
Carla havia criado uma barreia em sua mente: nenhum sentimento de piedade, alto-compaixão, dor ou qualquer outro sentimento que poderia vim a ter sobre seu estado poderia vim a tona. Tudo foi trancado no fundo de sua mente no momento em que soube que havia ficado invalida. Ela havia chorado? Somente na primeira noite e no dia seguinte a barreira já estava impecavelmente estabelecida. Sua irmã chegou a falar que o doutor havia recomendado um terapeuta, mas ela recusou e deixou claro que não precisava. "Não sou louca" Carla disse na ocasião.
Ana estava subindo na frente, tirando qualquer obstáculo que poderia fazer com que Aureo caísse ao carregar sua irmã. Aquela jovem esposa era completamente fiel ao laço familiar que a única a irmã adotiva. Na verdade, a adotada era ela. "Cuidado com ela" disse Ana ao abrir a porta.
Carla estava dormindo. O doutor prescreveu uma boa quantidade de calmante para que a jovem acidentada não sentisse dor ao ser removida do hospital. Ela ficou extremamente grata por isso. Sua costela já havia se recuperado, mas ela ainda sentia o local dolorido.
Ao coloca a cunhada na cama, Aureo sentiu uma pontada na coluna. Ele já não estava tão novo quanto queria está. O rapaz só tinha 28 anos, mas, por seu trabalho de encanado, parecia que já tinha 45. Enquanto observava a jovem que dormia como um anjo, viu o quanto seu cabelo longo e sua pele branca a deixavam bela, contudo os quatro meses que passou no hospital pareciam tê-la deixado com um ar cansado e doentio. Suas bochechas haviam desaparecido, dando lugar a buracos fundos em seu rosto, olheiras escuras estavam em baixo dos olhos cerrados, que escondiam um olhar amba. Nada naquela mulher que dormia o lembrava a esposa.
Carla era filha de um americano com uma mexicana, Ana era filha de alguém que tinha traços africanos. Ambas eram belas, mas eram como água e vinho, tanto no físico quanto na personalidade. "O que faremos?" Ana perguntou ao terminar de cobrir a irmã. "Não sei" Aureo respondeu, ele estava tão confuso quanto ela.
Eles ficaram ali por um minuto, olhando a nova hospede dormir, depois atravessaram o comodo pequeno e fecharam a porta atrás de si. Eles sempre tentavam ser os melhores que poderiam ser. A caridade era algo que quase estava em seu sangue e eles estavam sempre prontos para ajudar a qualquer um, mas aquilo era diferente. Ajudar alguém que você sabe que vai em bora em algum momento era uma coisa, ajudar alguém que estava fadada a permanecer em sua vida até a morte era algo diferente. Aureo mantinha uma fagulha de esperança e acreditava que sua cunhada poderia voltar a andar, Ana não acreditava nisso e já havia aceitado o fato que iria dar banho em uma mulher adulta pelo resto da vida. Eles não se importariam com o incomodo e a falta de privacidade, Carla era uma mulher que permanecia quieta e nunca deu trabalho aos pais, não seria a irmã que teria dor de cabeça com ela.
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