Não Sou Quem Você Imagina!
7 Capítulo 6
Notas iniciais
[RECAPÍTULANDO]
Não tinha coragem de dizer as palavras que destruiriam uma mulher que já perdera um filho. Todas as boas intenções desapareceram como folhas secas levadas por um vento forte, e o segredo buscou abrigo em um canto escuro de seu coração.
Agora não. Depois...
Podia esperar. Pelo menos até Mary recuperar-se da dolorosa perda. Até lá sua perna estaria melhor, e poderia partir sem depender de ninguém. Até lá...
Que mal poderia causar deixando-a acreditar que eram uma família?
Jane rezou para jamais descobrir a resposta.
*********
A sra. Gardiner cumpria suas obrigações com dedicação e seriedade. Lavava as roupas do bebê, banhava-a e o mantinha sempre limpa e seca, mas jamais se mantinha no caminho quando Jane demonstrava a intenção de realizar as tarefas pessoalmente. Na verdade, estava sempre disposta a compartilhar de seus conhecimentos, responder às perguntas da jovem mãe e assisti-la no aprendizado da rotina diária.
Mary visitava Jane e a bebê diariamente, mas Charles passou alguns dias sem aparecer. O médico também fora vê-la duas vezes e atestara o progresso de cura da fratura, mas ainda não a libertara da horrenda cadeira de rodas. Verificara o ferimento em sua cabeça, perguntara sobre os hábitos alimentares da bebê, examinara-a e partira desejando um bom dia.
Jane e a filha dormiam, comiam e se fortaleciam. Às vezes, sob o olhar preocupado de Mary, ela não se sentia tão sozinha... até lembrar que a pobre mulher acreditava estar hospedando outra pessoa. Sua identidade era um segredo que só ela conhecia. Um fardo que carregava dia e noite, um peso que aos poucos ia esmagando coração e consciência.
Em um determinado final de tarde Mary foi visitá-la e poucos depois uma criada serviu o chá.
— Achei que poderíamos decidir hoje — a dona da casa comentou esperançosa.
— Decidir o quê, sra. Bingley?
— Mary, por favor. O nome da bebê, é claro.
— O Lh, sim... é claro.
— Você e Fitzwilliam tinham alguma ideia ou preferência? O nome de sua mãe, talvez?
Jane não sabia qual era o nome da mãe de Anne, e por isso recusou a sugestão. O de sua própria mãe só serviria para fazê-la lembrar a dolorosa perda da mãe.
— Gosto de Sara. Ou Gabrielle. Lydia também é bonito. Tem alguma preferência?
— Bem... O nome da minha mãe era Hortência. E a da mãe de Fitzwilliam era Teresa.
Jane esperava que ela tivesse parentes com nomes mais aceitáveis.
— O nome de minha avó era Helena — Leda recordou.
— Helena é muito bonito.
— Gostou?
— Sim, muito.
— A bebê vai precisar de um segundo nome.
— É verdade.
— Que tal Fitzwilliam? Apesar de estranho é uma maneira de lembrá-lo.
Jane pensou no homem generoso que a resgatara em uma noite chuvosa e cedera sua própria cama. Se houvesse estado em sua cabine, provavelmente estaria vivo. Dar a filha o nome desse homem não seria suficiente para saldar a dívida de gratidão, mas considerava a escolha apropriada.
— Fitzwilliam é uma excelente ideia.
Leda uniu as mãos numa expressão de contentamento quase infantil.
— Helena Fitzwilliam Bingley! Não é um nome grandioso?
A culpa a invadiu novamente. Mas a felicidade da sra. Bingley era tão comovente que não ousava perturbá-la.
— Sim, é um nome maravilhoso.
— Charles virá buscá-la para o jantar esta noite — ela disse enquanto se levantava. — Diremos a ele durante a refeição. — E saiu do quarto.
Jane moveu a cadeira pela alcova até bem perto do berço de ferro forjado que Leda havia comprado. Tocou os cabelos da filha e sentiu-se invadida por uma imensa ternura.
— Helena. Minha doce Helena.
Mas... o que havia feito?
As dúvidas e a vergonha encontraram o caminho até a superfície, e ela foi forçada a admitir que acabara de criar outra mentira, essa ainda mais sórdida. Não contara a verdade a Charles. Também não revelara o segredo à mãe dele. Tanto tempo se passou que eles jamais seriam capazes de compreendê-la e perdoá-la.
E acabara de permitir que a sra. Bingley desse a bebê o nome de salvador. Um Bingley!
Acabara de ultrapassar o ponto de onde não haveria retorno.
Escolher o vestido para o jantar foi um problema. Os baús de Anne haviam sido deixados em seu quarto, e a criada de Leda aparecera para informar que passara todos os vestidos e os pendurara no armário.
Jane abriu as portas de madeira entalhada e olhou para a coleção de roupas. Cetins e sedas, cores vivas com decotes amplos e saiotes atrevidos visíveis sob as bainhas bordadas. Que gosto grotesco tivera a esposa de Fitzwilliam! Não havia nada adequado para alguém em período de luto. Nada que pudesse vestir. Finalmente encontrou um vestido de seda preta com aplicações de renda no corpete e no decote, e pediu à sra. Gardiner para ajudá-la a vesti-lo.
Era uma suposta viúva, e negro era uma escolha propícia. Mas a cor a empalidecia, e por isso ela beliscou as faces e aplicou um toque de corante para lábios que encontrou em uma gaveta da cômoda. Anne possuía uma coleção espantosa de pinturas faciais e frascos com as mais variadas essências. Jane cheirou um deles e tampou-o depressa. Era forte demais para o seu gosto sóbrio. Além do mais, sentia-se estranha por estar usando as coisas que pertenceram a Anne.
Charles apareceu no horário combinado. A sra. Gardinert ficou com Helena enquanto ele a carregava para o andar de baixo.
— Minha cadeira — Jane lembrou, olhando por cima de seu ombro.
— Não vai precisar dela. Não terá de ir a nenhum lugar aonde eu não possa carregá-la.
As palavras e o tom de voz provocaram um arrepio na espinha, e a reação à proximidade física a surpreendeu e assustou.
Concentrou-se na casa. A decoração e a mobília era tão belas... não, eram ainda mais adoráveis que as da casa do pai em Londres, mais caras, porém mais simples e discretas. A sala de jantar era revestida em nogueira, com dois armários e uma cristaleira repleta de porcelana chinesa. Quadros retratando cenas de caça e rios caudalosos cobriam as paredes.
Leda os esperava impaciente.
— Boa noite, queridos!
Charles colocou Jane na cadeira em um dos cantos da mesa, de frente para a mãe, e foi acomodar-se na ponta. A dona da casa parecia hipnotizada pelo vestido que ela escolhera.
— Não tenho nada apropriado para o luto — Jane explicou constrangida.
— E claro que não. E nós nem pensamos nisso, não é, Charles?
Ele balançou a cabeça e tocou a garrafa de vinho.
— Anne?
— Não, obrigada.
A taça de fino cristal foi deixada diante do prato de sua mãe.
— Mandarei chamar a costureira amanhã mesmo — Leda decidiu.
— Oh, não se incomode — Jane protestou.
— Não é incômodo algum. Além do mais, você é uma viúva. E uma Bingley. Não deve ser vista em público se não em trajes adequados.
Era verdade. Não poderia usar os vestidos que foram de Anne.
O que a levara a comprá-los? Que tipo de mulher havia sido aquela, afinal?
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