Não Sou Quem Você Imagina!
8 Capítulo 7
Notas iniciais
[RECAPÍTULANDO]
Charles colocou Jane na cadeira em um dos cantos da mesa, de frente para a mãe, e foi acomodar-se na ponta. A dona da casa parecia hipnotizada pelo vestido que ela escolhera.
— Não tenho nada apropriado para o luto — Jane explicou constrangida.
— E claro que não. E nós nem pensamos nisso, não é, Charles?
Ele balançou a cabeça e tocou a garrafa de vinho.
— Anne?
— Não, obrigada.
A taça de fino cristal foi deixada diante do prato de sua mãe.
— Mandarei chamar a costureira amanhã mesmo — Leda decidiu.
— Oh, não se incomode — Jane protestou.
— Não é incômodo algum. Além do mais, você é uma viúva. E uma Bingley. Não deve ser vista em público se não em trajes adequados.
Era verdade. Não poderia usar os vestidos que foram de Anne.
O que a levara a comprá-los? Que tipo de mulher havia sido aquela, afinal?
**********
Charles a observava com expressão estranha.
— Seu sotaque parece mais de Londres que de Steventon — disse.
— Realmente? — Bebeu um gole de água e tentou se mostrar despreocupada. — Creio que acabamos sempre imitando as pessoas que nos cercam, e muitos de meus amigos são de Steventon.
— É verdade?
Ela assentiu.
Charles não parecia convencido, e Jane soube que teria de tomar mais cuidado com as palavras. A situação se tornava cada vez mais complicada e perigosa.
— Disse que pretendia fazer um anúncio, mamãe?
— Oh, sim. Queríamos surpreendê-lo, querido. Anne escolheu um nome para a bebê.
A expressão não revelava curiosidade, nem mesmo interesse.
— Helena Fitzwilliam Bingley — Leda declarou orgulhosa. — Não é um belo nome?
Os dedos em torno do copo de vinho traíram a tensão que o dominou.
— Helena era...
— Minha avó.
— E claro. Sim, é um belo nome.
— E ela levará adiante o nome de Fitzwilliam — Leda concluiu satisfeita.
Uma criada entrou com o jantar. Charles observou enquanto Jane servia-se e segurava os talheres. Comeram em silêncio por alguns minutos.
— Fitzwilliam tinha planos relativos ao trabalho? — ele perguntou.
— Trabalho?
— Sim, trabalho. Ele pretendia assumir uma posição aqui, ou desejava voltar à costa? O telegrama dizia apenas que estava voltando para apresentá-la à família. Fitzwilliam não disse se pretendia ficar desta vez. Talvez só quisesse deixá-la para ter o bebê enquanto ele seguia sua busca de aventuras pelo leste.
— Charles! — a mãe o censurou.
— É verdade. Ele nunca se interessou pelos assuntos comerciais da família. Na verdade, nunca demonstrou muito interesse pela família.
— Charles, por favor. Seu irmão está morto.
Deixe-o descansar em paz, está bem? Está arruinando o jantar de Anne.
— Não — ela negou. Sabia que estava sendo testada, e ressentia-se por isso. — Tenho consciência de que você e Fitzwilliam divergiam sobre uma série de assuntos. Não sei se ele tinha planos de envolver-se nos negócios, mas estou certa de que não teria deixado a esposa sozinha na hora do parto, muito menos para divertir-se, como acabou de insinuar.
— Como pode ter tanta certeza? Só o conhecia há alguns meses.
Jane lembrou o tom amoroso que ele usou ao falar com Anne.
— Tem razão, eu o conhecia havia pouco tempo, mas sei reconhecer o amor quando o encontro.
— É claro que sim, querida. Meu filho está velho e rígido demais para a idade que tem, e acredita que todos devem ser como ele. Não se atreva a aborrecer Anne, Charles. Não vou aceitar seu comportamento rude.
— Desculpe, mamãe. Desculpe, Anne — ele a incluiu no pedido com um rápido movimento de cabeça. — Por que não nos conta um pouco sobre seu relacionamento com meu irmão? Assim poderemos entender melhor a situação.
O sarcasmo em suas palavras era óbvio, mas Mary não parecia notá-lo.
Jane deixou os talheres sobre o prato e segurou o guardanapo.
— Seu irmão foi uma das pessoas mais bondosas e generosas que conheci em toda minha vida. Era compreensivo, carinhoso e terno. Ria alto e amava profundamente. E posso lhe dizer que ele tem menos arrependimentos e pesares do que muitas pessoas terão quando descobrirem que suas vidas chegaram ao fim.
Charles mastigou o alimento devagar e engoliu-o antes de encará-la.
— Já terminou de colocar-me em meu devido lugar?
Não sabia o que fazer com ele, nem com as perguntas que formulava. Seria o ressentimento que demonstrava causado por sua presença, ou pela antiga e conhecida rixa entre irmãos?
— Parem com isso, crianças. Temos assuntos importantes a discutir — Leda interferiu. — E planos para fazer.
— Que planos são esses? — Charles olhou para a mãe, e Jane respirou aliviada.
— O serviço religioso em memória de Fitzwilliam. Agora que Anne sente-se melhor, podemos cuidar disso.
Uma expressão sombria pairou sobre o rosto de Charles. Os lábios apertados formaram uma linha fina.
— Podemos cuidar de tudo, querido — a mãe ofereceu, estendendo a mão para afagar a dele sobre a mesa. — Já fez muito ultimamente, lidando com todos aqueles detalhes em Londres.
— Não me importo, mãe. E não me incomodo de organizar o serviço religioso.
— Creio que nós precisamos cuidar disso — a sra. Bingley insistiu, olhando para Jane em busca de um sinal de confirmação.
O desejo de fazer algo pelo filho morto era tão claro que ela foi forçada a concordar.
— Sim — respondeu em voz baixa. — Gostaria muito de ajudá-la com os preparativos.
Charles assentiu e estudou-a com ar reservado, como se esperasse por uma reação qualquer.
Jane descobriu que não podia comer, apesar de mal ter provado o jantar. Bebendo mais um pouco de água, tentou acalmar-se. Um serviço religioso! Como seria capaz de desempenhar o papel de esposa de Fitzwilliam nesse cenário? O que seria esperado dela? Quantas pessoas teria de enfrentar?
— Creio que uma tarde de sábado seria apropriada — Leda sugeriu.
Uma tarde de sábado. Só uma tarde. Sim, poderia suportar a provação. Jane fez um movimento afirmativo com a cabeça e deu a Mary o que esperava ser um sorriso encorajador.
Charles dobrou o guardanapo e levantou-se de repente.
— Se me dão licença, tenho negócios a administrar.
— E a sobremesa? — a mãe perguntou.
Mas ele já havia saído.
Jane gostaria de poder deixar a sala como Charles fizera, mas metera-se naquela situação com os olhos abertos, e agora teria de ir até o fim sem acovardar-se. Observou a expressão determinada de Leda e resignou-se. O mínimo que podia fazer era amparar e ajudar aquela pobre mulher em um momento tão doloroso. Devia isso a ela. E mais...
Afinal, quanto tempo poderia durar um serviço religioso?
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