Não Sou Quem Você Imagina!
38 Capítulo 38
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Jane fechou os olhos para resistir à onda de culpa que a invadia. Quando começava a acreditar que o conhecia, quando terminava de preparar todas as defesas, ele fazia ou dizia alguma coisa que realçava sua falta de caráter, sua natureza pequena e mesquinha.
Era a única culpada por aquela situação. Desperdiçara tempo e energia culpando o pai, e a lembrança de George fora como uma tábua de salvação a que se agarrara por muitos meses, mas a verdade era que só ela causara o próprio sofrimento.
Resignada, abriu os olhos.
Charles havia saído.
Deprimida, encolheu-se na cama, tocou a filha em busca de conforto e ignorou o ardor no pé e a dor que tomava conta de seu coração.
Não havia escolha. Jamais haveria.
Teria de ir embora em breve.
****
Na manhã seguinte Charles foi ao quarto de Jane. Ela usava um avental branco sobre um vestido verde, e era a primeira vez que a via em outra cor além do negro.
— Bom dia — ele cumprimentou. — Cheguei a tempo para o banho de Helena?
— Estamos terminando de prepará-la.
— Esqueceu que havia me convidado?
— Não, eu...
— Não pensou que eu viesse.
— Sei que é um homem ocupado.
— Não quero atrapalhar. — De repente questionava se havia sido uma boa ideia ir até lá.
— Não vai atrapalhar. — Levou-o ao quarto de vestir, onde despejou água quente em uma bacia e temperou-a com água fria, verificando a temperatura. — Tudo pronto, sra. Gardiner.
A mulher segurou o bebê com firmeza e Anne começou a lavar seus cabelos.
Aquela era uma rotina com a qual as mulheres e a criança pareciam estar familiarizadas, mas Charles assistia a tudo fascinado. Assim que Anne começou a passar a esponja pela barriga de Helena, ela moveu braços e pernas espalhando água em todas as direções.
Anne riu.
Charles riu.
— Vamos ter de ficar atentos a essa garota durante o piquenique de amanhã — ele comentou. — Helena vai roubar o coração de todos os garotos.
Ela prometera que poderia vê-la sorrir se fosse assistir ao banho do bebê. Por isso aceitara o convite. E não estava arrependido.
A visão era tão bela que se sentia sem ar.
A alegria radiante da maternidade a tornava especial, iluminada, como a excitação exultante da paixão. E tivera oportunidade de vê-la nas duas ocasiões.
Helena chutou com força e jogou água longe, respingando as roupas de Charles. Ele gargalhou alto.
A surpresa nos olhos de Anne o empurrou de volta à realidade. Ela nunca ouvira o som de seu riso.
Anne colocou o bebê sobre a cama e enxugou-a. Em poucos minutos a criança estava vestida e a rotina chegava ao fim. Agora teria de sair e deixá-la vestir roupas secas.
— Sairemos amanhã por volta das dez — ele avisou.
— Estaremos prontos.
— E sua mãe?
— Não se preocupe com ela. A sra. Gardiner vai permanecer vigilante enquanto estivermos fora.
— Não estava preocupado com ela. Pensei que pudesse desejar levá-la para um passeio.
— Oh, eu... vou convidá-la.
No dia anterior levara Caroline para um passeio de carruagem e tivera de passar todo o tempo ouvindo reclamações. Jane não permitira que ela levasse a garrafa de bebida, e por causa disso Caroline resmungara, queixara-se e finalmente se tornara beligerante, obrigando-a a levá-la de volta para casa.
O comportamento instável e hostil a preocupava.
No entanto, a preocupação de Charles a comovia, aumentando o peso da culpa que a atormentava. Todos os dias aprendia um pouco mais sobre ele, o suficiente para elevá-lo em sua estima e diminuí-la ainda mais em sua escala de valores. Não queria nem imaginar como seria o dia seguinte.
Jane ajudou Caroline a vestir-se e certificou-se de que ela não carregava nenhuma garrafa escondida no corpo. Passara horas tentando convencê-la a exibir um bom comportamento à mesa do jantar, e rezava para que tudo corresse bem. Charles e Mary esperavam por elas na sala de jantar.
— Não trouxe Helena? — Mary perguntou.
— Não. Ela está dormindo, e não quis perturbá-la. — Na verdade, o que queria era evitar complicações extras.
— Boa noite, Caroline — Charles cumprimentou-a.
— Boa noite — ela respondeu, sentando-se ao lado de Jane.
— Soube que é muito habilidosa com as agulhas — Mary apontou, tentando amenizar a tensão.
— Fiz alguns trabalhos de costura.
— E ensinou o ofício a Anne.
Caroline pegou o copo de vinho. Jane e Charles trocaram um olhar preocupado.
— Na verdade, Anne sempre quis fazer algo diferente — ela contou.
— Viu todas as peças para as quais sua filha costurou? — Charles perguntou.
— Algumas.
A tensão enrijecia os ombros de Jane. Sobre o que conversariam sem correr o risco de entrarem em assuntos perigosos? Lembrou todos os jornais que Caroline costumava ler e tentou pensar em algo digno de comentários.
Monty Gallamore e Charles haviam falado sobre uma emenda que tramitava no senado e, com um mínimo de estímulo e inteligência surpreendente, Caroline debateu o assunto com Charles até que a sobremesa fosse servida.
— Iremos a um piquenique amanhã. Charles me disse que gostaria de contar com sua presença.
Caroline esvaziou o segundo copo de vinho e recusou o café.
— Prefiro ficar aqui.
— Seria uma boa oportunidade para respirar ar puro — Jane insistiu.
— Sabe como reajo a ambientes abertos.
— Se não quer ir... — Charles encolheu os ombros. — Só queria que soubesse que é bem-vinda entre nós.
— Obrigada, mas não sei lidar muito bem com as pessoas. Creia-me, não ia gostar de me ter por perto.
— A decisão é sua. E agora, se as senhoras me dão licença...
— Tem alguma opinião sobre os modelos que estão sendo usados ultimamente? — Mary perguntou.
Caroline ergueu uma sobrancelha.
— Preciso escolher um vestido para uma determinada ocasião, e não consigo encontrar nada que me agrade. Talvez possa olhar os modelos e me ajudar.
— É claro — Caroline concordou com indiferença. Jane acompanhou-as ao quarto de Mary e mais tarde levou Caroline aos seus aposentos.
— Ela me trata como se eu fosse alguém — a mulher comentou, aceitando ajuda para mudar de roupa.
— Mary é uma pessoa especial. Também trabalhou duro na vida, e por isso não se considera melhor que os outros.
— E os filhos também são muito agradáveis.
Os filhos? Sim, Fitzwilliam era bastante parecido com a mãe. Mas Charles? Tratava os empregados com respeito, tinha de admitir, mas não considerava Anne boa o bastante para fazer parte da família. Mas não podia dizer isso a Caroline.
— Sim, os filhos também.
— Pode me servir uma bebida?
— Não acha que já bebeu bastante durante o jantar?
— Eu mesma avisarei quando estiver satisfeita.
Jane providenciou uma garrafa e deixou-a sozinha.
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