Não Sou Quem Você Imagina!
36 Capítulo 36
Notas iniciais

[Recapitulando]
Charles olhou para Jane.
— Ela tem de ir agora? Não podem trocá-la, ou fazer o que for necessário, e deixá-la aqui?
Jane assentiu para a enfermeira, que partiu e voltou com roupas limpas. Jane dispensou-a e trocou o bebê no berço, ruborizando enquanto era observada.
— E só isso?
— Por enquanto.
Ele a pegou novamente e segurou-o por alguns minutos, até que a menina adormeceu.
— Acho que a aborreci.
Jane colocou-a no berço e cobriu-a.
— É hora de Helena dormir — respondeu rindo.
***
Não podia virar-se, porque ficariam frente a frente.
Lágrimas brotaram em seus olhos e ela piscou para contê-las. Havia sido diferente com Mary, Charlotte e todos os outros. Ouvir Charles dizer que sua filha era uma bela criança soava como um elogio. Ela não era uma mulher tomada pela emoção, não era a mãe de Fitzwilliam, cujo julgamento sofria a interferência do amor materno, mas um homem duro que não a aprovava nem gostava dela.
A proximidade fez com que seu coração batesse mais depressa. Era uma tola por sentir algo por aquele homem. Até aquele instante, ele jamais demonstrara um único instante de afeição. Ou estava enganada? Fora terno à sua maneira, tentando confortá-la, preocupando-se com o inchaço de seu tornozelo e carregando-a para preservar a perna ferida. Seria fácil apoiar-se em seu peito e deixar-se envolver pelo calor do corpo másculo. A reação era humilhante, e rezou para que ele se afastasse antes de perceber os sentimentos que provocava.
— Fiquei realmente orgulhoso com a maneira como recebeu meus convidados, Anne.
Os joelhos tremeram.
— Mas...
— Vai mencionar sua mãe?
Ela assentiu.
— Esqueça.
Esperava que ele a censurasse pelo comportamento de Caroline. O silêncio criava a impressão de que Charles esperava por outro incidente a qualquer momento, e não gostava disso.
— Mas o piso da sala...
— Gruver encontrou algumas peças sobressalentes na garagem.
— Oh. E quanto ao vaso de sua mãe?
— Nunca gostei muito dele.
— Mas ela...
— Esqueça. Vamos enterrar esse assunto. Definitivamente.
— Está bem.
— Talvez possa convencê-la a jantar conosco numa noite dessas.
Não queria Charles e Caroline no mesmo ambiente, mas como poderia ser cruel com a mulher?
— Seus cabelos me enlouquecem desde a primeira vez em que a vi — ele confessou em tom íntimo.
As palavras afetaram sua capacidade de raciocínio. Se ele a tocasse, não seria capaz de controlar-se.
— Há muito desejo tocá-los e descobrir se são tão macios quanto parecem. Quando me aproximo de você, sinto o perfume de seus cabelos e desejo acariciá-los.
Estava tão perturbada que não conseguia pensar.
— Sente tudo isso por causa dos meus cabelos?
— Não só pelos cabelos.
Oh, céus! Os olhos se fecharam contra sua vontade, como se assim pudesse proteger-se contra o efeito daquela voz profunda. O sangue corria depressa por suas veias.
— Talvez seja a maneira como os cachos repousam sobre sua nuca, ou a tonalidade da pele. Ela parece ser tão macia quanto a de sua filha.
Sentia arrepios. A ideia de ser tocada por ele provocava um calor tão intenso que temia derreter.
— Posso ver o pulsar da veia em seu pescoço. Tenho certeza de que poderia senti-la se a tocasse com os lábios. Por que seu coração está batendo tão depressa, Anne?
Jane pensou que poderia desmaiar. Procurou algum lugar onde pudesse apoiar-se, e sentiu a mão dele se fechando sobre a sua.
Com a outra mão, Charles tocou seus cabelos e aproximou-se para sentir seu perfume. Os dedos ágeis removeram os grampos e ele afastou as mechas onduladas, aproximando o rosto de sua nuca.
O calor se tornou mais intenso e envolvente.
Os lábios roçaram seu pescoço e viajaram até a orelha, de onde passaram ao queixo.
Jane inclinou a cabeça para trás numa oferta silenciosa; as mãos ergueram-se lentamente. Ele a segurou pelos cabelos e beijou-a.
Jane agarrou-se aos ombros fortes para não cair. O beijo a inflamou como as palavras, os lábios quentes e sedentos despertando sensações desconhecidas. Correspondeu com avidez, com uma ânsia que deixava a modéstia e o pudor em frangalhos.
Jane perdeu a noção do tempo, de lugar e de propriedade.
— Quero você — ele sussurrou, pressionando a prova do desejo contra seu corpo.
A intimidade era chocante e excitante. Devia empurrá-lo. Devia pôr um ponto final naquilo. Mas ele a pressionou contra o corpo, e tudo que Jane conseguiu pensar foi em como seria se estivesse despida.
Charles devia estar imaginando a mesma coisa, porque começou a desabotoar seu vestido. De maneira desavergonhada, ela o ajudou a remover a parte superior do traje, livrando-se também do corpete.
Ele fitou seus seios com um misto de admiração e paixão.
Jane estremeceu. Jamais fora fitada por um homem daquela maneira.
Charles tocou um seio com gentileza e acariciou a pele sensível. Beijou-a novamente, dessa vez com mais ternura, porém com a mesma paixão.
O pai do seu bebê a engravidara, mas nunca a incendiara com seu desejo. O que conhecera com ele não podia ser comparado ao que sentia nesse momento.
Ele a levou para o divã, onde a acomodou sobre as almofadas e acariciou seus ombros nus.
Jane suspirou de prazer, passou um braço em torno de seu pescoço e ergueu o corpo em sinal de rendição. As mãos viajavam por seu corpo, alimentando o fogo que a queimava. Quando abriu os olhos para fitá-lo, não pôde conter-se e tocou o rosto moreno e sério.
Ele abaixou a cabeça e beijou um seio, sugando-o. O prazer prolongou-se até que ela sentiu o leite brotando abundante. Embaraçada, empurrou-o e constatou que Charles atendia ao seu pedido silencioso, embora se mostrasse intrigado com a interrupção. Sem dizer nada, beijou-a novamente nos lábios, abraçando-a e acariciando suas costas.
Depois deslizou as mãos por seu ventre até encontrar o ponto mais íntimo de seu corpo, despertando-a para um prazer que até então desconhecia.
Charles estava confuso com as respostas sinceras e intensas.
Seria capaz de sufocar a vergonha de tê-la seduzido conferindo um prazer que negaria a si mesmo?
Em algum momento o plano fracassara.
Como saberia se ela estava cedendo para conquistar as graças de um homem rico, ou se a abordara num momento de vulnerabilidade e dissera todas as coisas que ela precisava ouvir?
As respostas não eram fingidas. Saberia reconhecê-las.
Mas, pior que tudo, era a dúvida que não conseguia ignorar. Talvez a levasse a pensar em Fitzwilliam. Anne estava solitária. Se houvesse realmente amado seu irmão, podia sentir-se atraída por ele por conta das semelhanças físicas.
Charles ficou quieto. Esperando.
Queria possuí-la, mas odiava a ideia de encerrar o encontro de maneira tão precipitada.
— Charles?
— Sim?
— Não vai...
— Não — respondeu, tomando a difícil decisão.
— Mas... mas...
— Você teve um bebê há pouco tempo, Anne.
— Há meses.
— Mas não precisa ter outro. Não agora.
Ela ergueu o corpo devagar, fitando-o com aqueles olhos cheios de dúvidas. Um rubor intenso tingia seu rosto, mas não saberia dizer se fora provocado pela vergonha ou pela excitação.
— Está tudo bem, Anne.
— Não é o que sinto.
Tentou beijá-la, mas ela virou o rosto. Queria beijá-la. Precisava mais daquele beijo do que da satisfação física que teria sido conferida pela consumação do ato sexual. Por que estava tão preocupado com o que ela sentia ou pensava? Podia tê-la naquele momento, e seria a melhor experiência de sua vida, estava certo disso.
Se a tranqüilizasse, se a afagasse novamente e reacendesse a paixão, ainda poderia possuí-la.
Mas não o faria. Estava envergonhado do próprio comportamento. Plantar sua semente no ventre de Anne apenas para provar que era capaz de conquistá-la não teria o sabor de vitória que havia esperado sentir.
Não provara nada.
Exceto que era incorrigível.
E que ela estava vulnerável.
E que a queria como não desejara qualquer outra coisa em sua vida.
Merecia passar a noite acordado. Merecia aquele sentimento incômodo e doloroso que o devastava.
Mesmo que aquela criança não fosse filho de Fitzwilliam, a mulher que tivera nos braços fora sua esposa, e só um canalha teria pensado em seduzi-la. Desejá-la era terrível. Agir de acordo com esse desejo era ainda pior.
Tinha de preservar o que restava da honra.
Soltou-a e Anne virou-se de costas, ajeitando as roupas com movimentos apressados que traíam seu constrangimento.
— Anne?
Ela levantou a cabeça e fitou-o nos olhos, sem sequer tentar esconder as lágrimas.
— Por favor, não diga nada — pediu. — Só quero ir para o meu quarto.
Não sabia o que teria dito. Que estava arrependido? Seria mentira. Não devia ter planejado o jogo de sedução, mas teria agido de forma diferente, se pudesse voltar atrás? Preferia não ter conhecido a maciez de sua pele ou o sabor de seu corpo? Seria melhor se não a tivesse tocado?
A humilhação estava estampada em seus olhos. Não estava arrependido por tê-la seduzido e excitado. Só lamentava que ela houvesse pertencido a Fitzwilliam primeiro, e que assim o privasse do direito de conhecer as delícias de seu corpo.
Silencioso, afastou-se enquanto Anne pegava o bebê do berço e deixava o escritório como se demônios a perseguissem.
Charles olhou para os grampos espalhados no chão perto do divã. Recolheu-os e apertou-os entre os dedos. Não, não estava arrependido pelo que acontecera.
Só lamentava um dia ter conhecido uma mulher chamada Anne Patrick Bingley.
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