Não Sou Quem Você Imagina!
4 Capítulo 3
Notas iniciais

RECAPÍTULANDO
Mesmo que para isso tivesse de fingir e acompanhar um desconhecido sem sequer saber para onde ia. A sra. Bingley certamente a entenderia. Tinha de acreditar nisso! Fitzwilliam se mostrara generoso e amigo, simpático e caridoso.
Jane rezou para que ele houvesse saído à mãe.
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Charles experimentou uma certa culpa por pensar que Anne não era como as mulheres que Fitzwilliam conhecera no passado. A jovem estava sob forte tensão e sofria desconforto físico, e não podia esperar que ela mantivesse uma conversa estável e constante. As maneiras retraídas e o silêncio que guardava desde que haviam deixado o hospital naquela manhã não refletiam necessariamente sua personalidade. Ou... talvez ela quisesse convencê-lo de que lamentava a morte de Fitzwilliam.
Charles olhou-a de soslaio. Depois do almoço acomodaram-se para a longa jornada, e ela removera o chapéu. Os cabelos, presos de maneira precária e por grampos invisíveis, chamaram sua atenção de imediato. As mechas exibiam uma fascinante mistura de tons, algumas escuras como o mel, outras claras como a palha do milho, algumas quase brancas, com pequenos tufos dourados que entrelaçavam-se nos cachos sedosos. Um deles pendia contra a pele translúcida da têmpora, e outra adornava o gracioso pescoço. As espirais davam a impressão de que se podia esticá-las e vê-las voltar à posição natural imediatamente.
Charles decidiu que não era uma boa ideia examinar seus cabelos e entregar-se a pensamentos tão absurdos, por isso virou-se para apreciar a paisagem da área rural da Steventon, Hampshire. De tempos em tempos, sempre que ela fechava os olhos para descansar, estudava a sombra dos cílios claros contra a pele pálida, a interessante curva dos lábios carnudos e as linhas finas em torno da boca, sinal de que um dia havia sorrido. Imaginava para quem. Fitzwilliam?
Até as orelhas eram delicadas, com uma única pérola enfeitando cada uma. As sobrancelhas eram da mesma cor das mechas mais escuras dos cabelos, finos crescentes sobre os olhos que, já notara, eram de um azul claro e profundo. Tudo nela sugeria sobriedade, desde a expressão até a voz, passando pela maneira vigilante com que se mantinha atenta ao bebê adormecida no cesto a seu lado.
Não podia ignorar o fato intrigante de que ela não correspondia à imagem da mulher que Fitzwilliam descrevera em suas cartas. O irmão não oferecera muitos detalhes, mas comentara a respeito de uma impressionante determinação, do charme e da personalidade energética. Os dados mais concretos haviam sido proporcionados pela investigação que Charles conduzira sobre seu passado.
Ela abriu os olhos e o surpreendeu estudando-a.
— Sente-se bem? — Charles perguntou.
Ela assentiu e os brincos balançaram com o movimento da cabeça.
— Está ficando cansada. Vamos parar para jantar e repousar. A bebê logo estará acordado, sem dúvida.
Um rubor tingiu o rosto pálido. Não imaginara que ela fosse o tipo de mulher que se sentia embaraçada por amamentar a filha e atender aos chamados da natureza. Se não houvesse colhido informações tão reveladoras, imaginaria estar diante de uma jovem criada com esmero.
Cada vez que a criança acordava, o condutor parava a carruagem, e Charles esperava do lado de fora. Haviam parado uma vez para usarem o banheiro de uma estação de descanso, e ficara satisfeito por ter adquirido um par de muletas, pois ela insistira em ser deixada sozinha.
A bebê emitiu gemidos preguiçosos, e ela se debruçou sobre o cesto.
— Há uma cidade logo ali na frente. — Charles abriu a cortina de couro para dar instruções ao condutor, Gruver.
Mais uma vez, Anne colocou o chapéu sobre a cabeça e prendeu-o com o grampo. Em seguida, apanhou as luvas.
— Onde está sua aliança? — ele perguntou, notando a ausência da tradicional jóia.
Os olhos azuis cravaram-se em seu rosto e, rápida, ela desviou o olhar.
— Meus dedos estão inchados — disse, calçando as luvas para ocultar as mãos.
A dama perfeita. Ou uma excelente atriz. O tempo diria.
A carruagem parou diante de um edifício de dois andares. Uma placa de madeira oscilava sobre a porta, e a palavra Hotel fora pintada nela muitos anos antes, a julgar pelo tom desbotado da tinta. Charles estudou o lugar.
— Não parece ser luxuoso, mas é o que temos no momento. Vamos entrar.
— Estou certa de que as acomodações são mais do que adequadas, sr. Bingley.
— Chame-me de Charles. Afinal, somos parentes.
Ela abaixou os olhos, mantendo-os fixos nas luvas.
A porta se abriu e Gruver, o motorista, um homem de cerca de trinta anos, baixou a escada. Charles desceu e foi buscar a cadeira de rodas na parte posterior do veículo. Ele mesmo limpou a poeira da estrada e empurrou-a para perto da escada. Como fizera nas paradas anteriores, Anne aceitou a mão estendida com alguma hesitação e acomodou-se na cadeira.
Ele colocou a cesta com a bebê agitada sobre seus joelhos e empurrou-a para frente. Com a ajuda de Gruver, carregou-a pela escada que levava à entrada do hotel e seguiu em frente, enquanto o motorista retornava para apanhar as malas na carruagem.
Charles assinou o registro e recebeu as chaves.
— O quarto vinte e quatro fica à direita depois da escada — informou o funcionário da recepção. — O vinte e sete fica um pouco mais distante, e o vinte e o oito localiza-se na frente dele.
— Não tem nada neste andar? A sra. Bingley não pode andar.
— Lamento, senhor, mas este andar é destinado à cozinha, ao refeitório e aos aposentos dos empregados.
Charles olhou para Anne. Ela se tornara ainda mais pálida e as sombras escuras em torno de seus olhos pareciam mais profundas. Não podia pedir que fosse mais longe naquela noite. Teriam de ficar ali mesmo.
— Muito bem — disse ao funcionário. — Voltarei em um minuto.
Ele pegou o cesto com a bebê, subiu a escada e localizou o primeiro quarto. Deixou a criança chorando sobre a cama e voltou ao piso inferior.
Anne tinha uma expressão surpresa no rosto quando ele se aproximou. Gruver havia entrado no pequeno saguão com a bagagem. Charles apontou para o segundo andar e entregou uma chave ao empregado.
— Leve a cadeira da sra. Bingley, por favor. — E debruçou-se sobre ela. — Incline-se para a frente.
Os olhos azuis se tornaram ainda maiores, mas o pedido foi atendido. Passando um braço sob seus joelhos e o outro por suas costas, carregou-a sem nenhum esforço aparente, tomando cuidado com a perna fraturada. Ela não era pesada, mas a saia e os saiotes volumosos dificultavam a tarefa. Sua cabeça bateu contra o chapéu de Jane, empurrando-o para o lado, mas ela o segurou antes que caísse. Algumas mechas escaparam dos grampos, os caracóis roçando em seu rosto, desprendendo uma fragrância suave que o tocava em algum ponto primitivo e elementar.
Ela passou um braço em torno de seu pescoço, os seios fartos pressionados contra sua jaqueta. Charles amaldiçoou a reação física imediata e inesperada, mas controlou a resposta inquietante e concentrou-se na escada, vencendo um degrau de cada vez, até chegar ao topo.
Os gritos da bebê ecoavam pelo corredor. O coração de Jane batia tão forte, que temia que ele pudesse senti-lo através das roupas. O peito em contato com seus seios era amplo e forte, tão rígido quanto os braços que a tocavam nas costas e nas pernas. Podia sentir a goma na camisa branca e o aroma do sabão de barbear usado no rosto; traços masculinos que a teriam afetado ainda mais profundamente, se não fosse sensata o bastante para virar a cabeça e ignorá-los.
Os gritos famintos da filha provocaram um formigamento em seus seios acompanhado por uma umidade que, temia, acabaria ensopando as roupas de Charles.
Ele a levou até o quarto e parou. O motorista entrou empurrando a cadeira. Depois colocou o chapéu que ela havia retirado sobre uma cadeira, pediu licença e retirou-se.
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