Não Sou Quem Você Imagina!
5 Capítulo 4
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Os gritos famintos da filha provocaram um formigamento em seus seios acompanhado por uma umidade que, temia, acabaria ensopando as roupas de Charles.
Ele a levou até o quarto e parou. O motorista entrou empurrando a cadeira. Depois colocou o chapéu que ela havia retirado sobre uma cadeira, pediu licença e retirou-se.
Gentil, Charles acomodou-a na cadeira.
— Posso ajudá-la com a jaqueta? — perguntou.
— Não! — Olhando para baixo, notou aliviada que o tecido da jaqueta permanecia seco. — Quero dizer, não, obrigada. Posso cuidar do restante sozinha.
— Quer que eu mande uma criada para auxiliá-la?
— Sim, seria ótimo. Obrigada.
Charles recuou um passo, depois virou-se e partiu, fechando a porta sem fazer barulho. Jane lidou com a jaqueta com muita dificuldade, uma situação incômoda por causa dos braços da cadeira, mas finalmente livrou-se dela e desabotoou a blusa.
O bebê moveu a cabeça de um lado para o outro por alguns segundos antes de encontrar a fonte do alimento e sugá-lo com avidez. Jane riu.
— Não se importa com o lugar ou as circunstâncias, não é?
A pequena havia terminado sua refeição quando uma jovem morena com espessas tranças enroladas em torno da cabeça entrou carregando água e toalhas.
— O cavalheiro me pagou com generosidade para que eu a ajudasse com a bebê, senhora. Tenho cinco irmãos, e cuidei de todos eles. Posso banhá-la? Embalá-la, talvez, para que possa repousar?
A consideração de Charles era tocante. Agradecida, permitiu que a garota, Minna, como ela dissera chamar-se, banhasse e vestisse a bebê enquanto ela se acomodava sobre o colchão e apoiava a perna dolorida em alguns travesseiros.
— Sua filha é muito bonita, sra. Bingley. Como se chama?
Os pensamentos de Jane vagavam do rosto sombrio de Charles ao destino misterioso a que se dirigiam, e ela abriu os olhos tomada por um súbito sentimento de vergonha. Como podia ter esquecido algo tão básico quanto dar um nome ao bebê?
— Bem... ainda não pensei em um nome.
Minna encarou-a com curiosidade, mas voltou a concentrar-se na tarefa.
— Sofri um acidente e passei vários dias no hospital — disse, como se precisasse explicar a falta de cuidado com a própria filha.
— Oh. Por isso fraturou a perna?
Jane fez um movimento afirmativo com a cabeça.
— Seu marido é muito atencioso. Tenho certeza de que logo estará melhor.
— O sr. Bingley não é meu marido.
A jovem não se virou, mas Jane sabia o que ela devia estar pensando, e arrependeu-se por ter tocado no assunto.
— Ele é... meu cunhado — disse, oferecendo a explicação mais fácil e a primeira em que conseguiu pensar. Encolhida, esperou pelo estrondo do trovão ou o solavanco de um terremoto, mas o único som que ouviu foi o da água que a criada usava para banhar a bebê.
Alguém bateu na porta. Minna levantou a cabeça, mas tinha as mãos ocupadas.
— Quem é? — Jane perguntou.
— Charles.
— Entre.
Ele apareceu na porta, usando uma camisa limpa sob o paletó escuro. Em silêncio, examinou o panorama do quarto por alguns instantes.
— Gostaria de descer a jantar comigo, ou prefere que eu mande alguém trazer sua refeição?
— Se quiser descer, eu ficarei cuidando da bebê — Minna ofereceu.
Jane imaginou-o carregando-a pela escada e decidiu que seria mais seguro permanecer no quarto.
— Minha cabeça dói terrivelmente — disse. — Importa-se se eu ficar aqui?
— Como quiser. Vou providenciar algum remédio para sua dor de cabeça.
— Obrigada. E muito gentil.
Ele se despediu com um rápido aceno de cabeça e fechou a porta.
— O sr. Bingley é casado? — Minna perguntou. Jane olhou para a porta, a testa franzida numa ruga intrigada provocada pela pergunta da criada. Não sabia nada sobre o homem e sua família.
— Não sei.
Minna colocou a bebê sobre a cama e enxugou-a.
Jane segurou uma das mãos pequeninas, observando os movimentos seguros e experientes da jovem. Havia trocado as roupas da filha algumas vezes ao longo da viagem, mas sempre com dificuldade e de maneira desajeitada. Certamente conquistaria mais confiança em breve. Felizmente Charles providenciara ajuda imediata.
Vou aprender, minha pequena, prometeu em silêncio. Serei a melhor mãe que uma criança pode ter.
— Ele é um bom homem — a jovem prosseguiu. — E muito bonito, também.
Charles Bingley parecia ser um homem admirável. Um homem que merecia mais que um punhado de mentiras. Mas não havia solicitado tanta atenção. Não pedira roupas novas nem criadas para assisti-la. Olhou para a bagagem deixada perto da porta, para todos os itens necessários aos cuidados com o bebê, para as roupas que vestia, e soube que, naquele ritmo, levaria muito tempo para saldar a dívida.
Não tinha mais meios de sobrevivência do que quando o pai a expulsar de casa. Ao partir com Charles, tomara uma decisão. Teria de ser Anne Bingley até concluírem a viagem.
A manhã chegou clara como no inverno, embora fosse princípio de abril. O aroma da primavera pairava no ar, fazendo pensar em terra revolvida e canteiros floridos. Charles decidiu apreciar o cenário e não lamentar as horas de trabalho que perdia por não ter optado pelo trem. Podia contar com Fitzwilliam Dasrcy para cuidar de tudo que surgisse em sua ausência. O trabalho estaria no mesmo lugar quando chegasse.
Anne parecia um pouco melhor naquele dia, menos pálida e mais descansada. A parada da noite anterior a ajudara a recuperar as forças. Ela usava uma blusa limpa sob o conjunto de veludo, e o chapéu fora preso de maneira adequada com grampos.
Pagara ao proprietário de um restaurante para que Anne pudesse usar o banheiro a atender às próprias necessidades e às do bebê.
Teriam de parar por mais uma noite antes de chegarem a Mahoning Valley. A energia dos cavalos não o preocupava, e Gruver dirigira dia e noite sem descanso em diversas ocasiões. Anne era sua única preocupação. Era mais delicada do que havia imaginado, mais refinada, e dava sinais não estar habituada a longas jornadas ou a enfrentar as dificuldades das estradas. Não dissera nada, não reclamara nem fizera comentários que pudessem trair alguma insatisfação. Ele gostaria de poder ter acesso aos pensamentos que habitavam aquela bela cabeça dourada.
— Fitzwilliam contou que se conheceram no último outono — ele comentou.
Jane sentiu o coração saltar dentro do peito, e a mente tratou de encontrar uma forma de evitar perguntas que a forçariam a fabricar novas mentiras.
— Onde está o corpo de Fitzwilliam? — perguntou. Sua expressão tornou-se ainda mais taciturna.
— Foi enviado de trem há alguns dias. Meu irmão está enterrado no cemitério da família. Realizaremos um serviço religioso quando estiver mais forte.
E quanto a sua adorada Anne?, queria perguntar. Teriam desejado repousar lado a lado. Se houvesse uma maneira de dizer a ele... uma oportunidade... teria dito. Estudou-o de maneira disfarçada. Se ele fosse tão severo e inflexível quanto seu pai, sem dúvida a deixaria na estrada. Não podia correr esse risco, tinha de esperar.
Ele estendeu as pernas longas e fortes, e um dos joelhos estalou. Anne tentou imaginar sua idade. Mais de trinta, provavelmente. Gostaria de formular a questão que Minna plantara em sua mente na noite anterior. Estudou a paisagem por alguns minutos, os pensamentos tomados pela incerteza.
— Para onde estamos indo? — atreveu-se a perguntar.
Ele a encarou como se houvesse sido interrogado sobre a cor do céu.
— Então não sabe?
Jane prendeu o fôlego, lamentando a falta de tato. Anne saberia para onde seguia em companhia do marido.
— Só sei que a mãe dele vive em Hertfordshire — disse apressada.
— Em Mahoning Valley — ele especificou. — A fundição, a fábrica e a casa ficam perto de Youngstown.
— Quem mora lá? Na casa, quero dizer...
— Mamãe e eu. E alguns criados.
Ele não mencionou uma esposa. E por que se importava?
— E uma casa muito grande. Há espaço de sobra para você e a bebê.
Não estava preocupada com isso. Só imaginara quantas pessoas estariam aguardando a chegada de Anne. Quanto menos, melhor.
Pararam mais uma vez no meio da tarde, e depois seguiram até St. Petersburg, perto do rio Allegheny. Poderiam ter concluído a viagem naquela mesma noite, conforme Jane ouviu Charles dizendo ao condutor, mas ele não queria submetê-la a sacrifícios desnecessários. Ela era o único empecilho. Todos os outros enfrentavam a viagem com coragem e firmeza, até mesmo o bebê, que comia e dormia sem se dar conta do que o cercava.
O hotel em St. Petersburg dispunha de um elevador puxado por cabos, o que os poupou de uma repetição do encontro da noite anterior. Jane imaginou se Charles escolhera aquele lugar justamente por saber sobre o elevador.
Ele a acompanhou até o quarto.
— Quer que o jantar seja trazido até aqui novamente? — perguntou.
— Por favor.
— Chegaremos à casa de minha família amanhã. Enviei uma mensagem por telégrafo pedindo a presença do médico amanhã à tarde. Os doutores de Londres disseram que os curativos em sua perna precisam ser trocados, e ainda não cuidamos disso. — Começou a fechar a porta.
— Sr. Bingley?
— Charles.
— Charles... Tem sido muito atencioso e gentil. Obrigada mais uma vez.
— O que mais poderia ter feito pela... esposa de meu irmão?
Ela não respondeu. A inflexão em seu tom fora quase... sarcástica.
Mas depois ele desejou boa-noite, fechou a porta, e Jane perguntou-se se realmente ouvira a acusação velada.
Algo a levava a crer que Charles tinha dúvidas. Tratava-a com educação e proporcionava mais do que ela poderia ter pedido, mas as questões estavam lá, por trás de seus olhos, em cada palavra. Dúvidas.
E no dia seguinte, teria de encarar a mãe de Fitzwilliam e revelar a verdade.
Várias vezes, enquanto tentava alimentar-se, enquanto amamentava o bebê e a acomodava em seu cesto, examinou as sofríveis opções. E em cada vez, chegava à conclusão de que não tinha escolha. Ofereceria todas as explicações à mãe de Fitzwilliam Bingley e rezaria pelo melhor.
O que poderia acontecer de pior?
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