Não Quero Voltar Sozinho
16 Hoje Eu Quero Fugir
Notas iniciais
Quinta-feira.
Gih, William e Gabriel já estavam na escola, esperando a aula começar.
Faltava cinco minutos. Gabriel pegou o celular e viu as horas. Quatro minutos.
[Gabriel] – Será que o Léo vai vir?
[Gih] – Não sei – Gih abaixou a cabeça. Estava segurando na mão de William.
[William] – Quanto tempo falta pra começar a aula?
Gabriel olhou mais uma vez no relógio.
[Gabriel] – Três minutos.
De repente, um carro para na frente do portão da escola. A porta do motorista abre. Laura sai e, logo em seguida, abre a porta do passageiro e Léo estava lá. Ela segurou no braço dele e o ajudou a sair do carro. Os dois foram entrando na escola. Laura não soltava do braço de Léo. Ao passarem pelo portão, os dois pararam. Laura chegou mais perto de Léo e cochichou algo no ouvido dele. Ficaram parados mais algum tempo.
O sinal tocou. Os alunos foram entrando na sala. Gabriel, Gih e William ficaram olhando Léo.
Laura começou a andar de novo com o filho. Passaram por Gabriel, Gih e William. Laura lançou um olhar severo para os três. Entrou na sala de aula e fez Léo sentar-se na carteira dele. Cochichou de novo no ouvido dele – alguns alunos olhavam. Laura saiu e ao passar pelos três amigos de novo. Parou e virou para eles.
[Laura] – Eu – dizia com o dedo indicador direito levantado para os três – não quero que vocês se aproximem nem quinze centímetros do meu filho. Principalmente você, moleque! – falava diretamente para Gabriel – Estejam entendidos! Ah, e se vocês chegarem perto dele, e eu vou saber, ai de vocês...
Laura abaixou o braço e foi embora. Gabriel, Giovana e William entraram na sala. Sentaram-se a duas fileiras de distância da carteira de Léo.
O professor chegou logo em seguida e começou a aula.
No recreio, Léo esperou todos os alunos saírem da sala. Ficou mais uns dois minutos, depois, levantou-se e saiu. Foi andando pelo corredor tateando a parede. Encontrou um lugar vazio e sentou-se. Estava com um lanche que a mãe havia feito. Abriu o lanche que estava embalado e começou a comer. Sua respiração ofegava uma vez ou outra. Parecia que queria chorar.
Gabriel, Giovana e William estavam no lugar de sempre. E, por sorte, eles estavam a uns metros de distância de Léo, assim, conseguiam observá-lo.
[Gih] – Será que a gente deve conversar com ele?
[William] – Ai Gih. Você não lembra que a mãe dele falou? Ela falou que ela ia saber se chegássemos à quinze centímetros do Léo.
[Gabriel] – Nem me lembre. – disse num tom triste – Não esperava acontecer tudo isso.
[Gih] – Ai... Gabriel. Não fica assim. A gente da um jeito de conversar com ele.
Os três voltaram a atenção para Léo que estava sozinho, mas por pouco tempo.
Léo terminou de comer. Amassou o embrulho do lanche. Ele ia se levantar quando sentiu alguém passar por ele e parar bem na frente. Hesitou em levantar.
“Ué Leonardo?” – Léo reconheceu a voz na hora. Era Fábio.
[Léo] – O que você quer? – sua voz transmitia a raiva que estava começando a surgir.
[Fábio] – Quer dizer que agora vem pra escola com a ajuda da mamãezinha? Ai que lindinho esse menininho!
[Léo] – Sai daqui!
[Fábio] – O bebezinho tá bravinho? Tadinho. Cadê seu namoradinho? Hein?
Léo fechou a mão. Estava tremendo.
[Fábio] – Hein? Sua bichinha? Cadê seu namoradinho?
Léo sentiu um frio na barriga e logo em seguida um calor subir pelo corpo. O rosto formigou. Num movimento só ele se levantou do chão, agarrou com uma das mãos o ombro esquerdo de Fábio e com a outra mão meteu-lhe um tapa na cara.
O tapa foi forte o suficiente para fazer barulho e ecoar pela escola. Gabriel, Gih e William que estavam observando se levantaram de onde estavam e puseram-se a correr até Léo.
Foi questão de segundos e uma pequena multidão estava cercando Léo e Fábio.
[Fábio] – Você tá louco, seu viadinho cegueta?
Léo afastou-se, suspirava alto. Seu rosto formigava e suas mãos tremiam.
[Léo] – Cala a boca! Seu... Seu idiota!
Então, aconteceu o inesperado. Fábio empurrou Léo contra a parede, fazendo ele bater a cabeça. Léo foi caindo no chão apoiando as costas na parede. Estava começando a chorar.
[Fábio] – E ai? Vai fazer o que?
De repente, Gabriel, William e Giovana aparecem. William e Gih ajudam Léo. Enquanto Gabriel, chegou perto de Fábio e retribuiu o empurrão.
A fúria tomou conta de Gabriel. Ele começou a estapear Fábio que se defendia das palmadas. Alguns alunos pararam de atiçar a briga e tentou separar os dois. A pequena multidão havia se dividido. Parte separando Gabriel de Fábio e a outra estava ao redor de Léo.
[Gih] – Léo? Você tá bem?
Léo não respondia. Chorava baixo e seu rosto encharcado de lágrima.
[William] – Vamos levar ele lá na diretoria.
William e Gih levantaram Léo. As pessoas que estavam ao redor se afastaram. Eles estavam indo em direção a diretoria. O que foi desnecessário, pois a diretora e o inspetor estavam na frente deles.
[Diretora] – O que está acontecendo? – ela olhou para Léo e viu que ele estava chorando – Meu Deus, por que ele está chorando?
[Gih] – O idiota do Fábio, diretora. Empurrou o Léo na parede!
[Diretora] – O que? – ela voltou o olhar para a multidão que tentava separar Fábio e Gabriel. Foi até eles – Brigando de novo, Gabriel?
Gabriel olhou para a diretora.
[Gabriel] – Você viu o que ele fez com o Léo?
[Fábio] – Eu não fiz nada!
[Gabriel] – Cala a boca! Seu estúpido.
[Diretora] – Parem os dois, agora! – o inspetor chegou e ficou ao lado da diretora – Leve estes dois para a minha sala.
O inspetor pegou Gabriel e Fábio pelos braços de ambos e os foram levando até a diretoria.
Enquanto isso, Gih tentava acalmar Léo até que a Diretora aparece novamente.
[Diretora] – Você está bem, Leonardo? – ele não respondeu – Vem até minha sala.
[Gih] – Vai encrencar ele de novo? – Giovana havia dito sem alguma vergonha.
[Diretora] – Desde quando os assuntos na diretoria é direito seu, senhorita?
Giovana olhou para a professora.
[Gih] – Desculpa. Não queria falar assim. – abaixou a cabeça.
[Diretoria] – Pode em acompanhar até a diretoria, também, se quiser, Giovana.
[Gih] – Não, obrigada.
Na diretoria, Gabriel, Léo e Fábio estavam sentados. A diretora andava de um canto a outro.
[Diretora] – Fábio. Por que você empurrou o Leonardo?
[Fábio] – Porque ele me deu um tapa na cara.
[Diretora] – Isso é verdade? Leonardo?
[Gabriel] – É mentira!
[Diretora] – Eu não lhe perguntei nada, ainda, Gabriel. Léo?
[Léo] – Sim – respondeu de cabeça baixa.
[Diretora] – E qual o motivo de você ter dado um tapa em Fábio?
[Gabriel] – Ele estava irritando o...
[Diretora] – Menino! Ainda estou falando com o Leonardo, não com você! Espere sua vez.
Gabriel abaixou a cabeça também.
[Diretora] – Léo?
[Léo] – Ele estava me irritando, diretora.
[Fábio] – É mentira.
[Léo] – NÃO É! – falou alto – Você estava me irritando sim. Me xingou de... de... de bichinha. Ficou me provocando. Você sabe, Diretora, ele vive fazendo brincadeiras sem graça comigo. Sempre.
[Diretora] – É. Soube da maioria dos casos. Aliás, já pra acabar com toda a história, vou resumir então o que acho o que houve. Você, Léo, estava quieto sozinho e Fábio foi te irritar. Ele te ofendeu e você, que já não devia aguentar mais, deu um tapa nele. Fábio se irritou também e te empurrou. Por isso Gabriel foi brigar com ele. É... Está bem claro. Não suspenderei ninguém, vocês levarão advertências para casa, pelo menos, e vou querer falar com seus pais – apontou para Fábio – Entendeu? Bem, podem voltar para a sala de aula. E sem brigas.
Os três voltaram para a sala.
No final da aula. Todos estavam indo embora. Léo foi indo para casa sozinho, com a advertência em mãos.
Gabriel, Gih e William ficaram. Estavam no portão. De repente, Guilherme aparece. Gabriel vai até ele.
[Gabriel] – Guilherme?
O garoto vira para Gabriel. O encara.
[Guilherme] – Que foi?
[Gabriel] – É... Me... Me desculpa. Me desculpa pela briga... Eu não sabia e... Eu... Eu perdi o controle na hora. Fiquei com raiva... Você sabe... Eu e o Léo né.
[Guilherme] – É. Sei. Eu também te peço desculpas. Foi como você falou, perdi o controle.
Os dois ficaram quietos por alguns segundos. Olharam-se.
[Gabriel] – Então... Tudo ok entre nós né?
[Guilherme] – É.
Os dois apertaram as mãos como num cumprimento. Sorriram um para o outro, até que, repentinamente, Fábio surge atrás de Guilherme.
[Fábio] – O que você tá fazendo com isso, Guilherme?
[Gabriel] – Não te interessa.
[Fábio] – Ui! Que medo.
Gabriel afastou-se. Foi até Gih e William. Atravessaram a rua da escola, mas ainda continuavam em frente ao portão.
Fabio e Guilherme ficaram no portão. Guilherme olhou para o amigo.
[Fábio] – Por que você tava apertando a mão dele? Tava fazendo as pazes?
[Guilherme] – Tenho que falar com você.
[Fábio] – Sobre o que?
Do outro lado da rua, Gabriel via os dois conversarem. Alguns minutos se passaram e ele notou que Guilherme e Fábio estavam brigando. Fábio começou a empurrar Guilherme. Gabriel cutucou Gih e William, os dois se viraram e viram, então, todos foram até Guilherme e Fábio.
[Fábio] – AAAH VOCÊ TAMBÉM É A MERDA DE UM VIADINHO? – deu um soco no braço de Guilherme.
[Guilherme] – Não é isso. Calma.
De repente, Gabriel, Gih e William chegam e param na frente de Guilherme.
[Fábio] – Vão defender essa mocinha é?
[Gih] – Você não brigou o suficiente por hoje, Fábio?
[Fábio] – É... Verdade. Cansei de brigar hoje... Amanhã eu volto – foi indo embora com um sorriso malicioso no rosto.
Gih, William e Gabriel viram-se para Guilherme.
[Gabriel] – Você tá bem?
[Guilherme] – É... Estou. Já esperava isso dele.
[Gih] – Você não deveria mais andar com ele.
[William] – Verdade. Olha como ele te tratou agora. Amanhã, talvez, ele faça pior.
[Guilherme] – É... Vou dar um jeito nisso. E... Obrigado.
Guilherme se despediu dos três e foi embora.
[Gabriel] – Coitado.
[Gih] – Sim. Fiquei com dó dele.
Os três ficaram parados, quietos.
[Gabriel] – É... Acho melhor irmos embora
[Gih] – Ah... Aliás... William.
[William] – O que foi?
[Gih] – Você poderia ir visitar o Léo né?
[William] – Mas você não ouviu o que a mãe dele falou?
[Gih] – Ela falou aquilo pra mim e para o Gabriel. – apontou para Gabriel que tinha abaixado a cabeça – Vai. Por favor.
[William] – Ok. Mais tarde eu vou então.
Os três despediram-se e foram embora. William foi subindo a rua para a casa dele, enquanto Gih e Gabriel desciam a rua.
Em casa, Léo estava no quarto, a porta fechada. O livro de história em mãos. Estava lendo ele.
Laura estava na cozinha, terminando o almoço, enquanto Carlos estava na sala.
[Laura] – Carlos!
[Carlos] – Que foi?
[Laura] – Daqui a pouco, chama o Léo pra vir comer.
[Carlos] – Hmm... Está bem. O programa aqui já está quase acabando – disse apontando para a TV.
Léo havia largado o livro de lado. Encostou na cadeira, pensativo. Pegou o celular, apertou alguns botões.
Parou.
Respiração ofegante.
Abaixou a cabeça. Apertou mais um botão.
“Ligando para Gabriel” – uma voz saiu do celular.
Léo colocou rapidamente o celular no ouvido. Alguns segundos passaram. Ocupado.
Leonardo tentou de novo. Ocupado mais uma vez. Ligou de novo e, nada. Tentou mais uma vez.
“Alô” – era a voz de Gabriel.
[Léo] – Gabriel?
Carlos desligou a TV. Levantou-se do sofá e foi indo até o quarto de Léo. Passou pelo corredor, estava chegando na porta do quarto do filho. Então, diminuiu o passo ao escutar a voz de Léo. Foi andando devagar até a porta. Parou ao chegar nela.
A porta estava encostada. Carlos a empurrou bem devagar e foi escutando o filho falar no telefone.
[Léo] – Ai Gabriel... Eu... Eu quero sair daqui... Eu sei que não posso... Acho melhor eu sair correndo... Não aguento mais... Eu falo assim porque você não sabe como é... E...
[Carlos] – Leonardo?
Léo afastou o celular do ouvido. Os olhos arregalados, a testa começando a suar frio.
“Léo?” – Gabriel chamava no telefone – “Léo? O que aconteceu?”
[Carlos] – Você tá falando com o Gabriel?
Léo desligou o telefone.
[Léo] – N-não.
[Carlos] – Como não? – Carlos aproximou-se de Léo, tirou o celular da mão dele, apertou alguns botões – Aqui. Está aqui, Léo. Você ligou pra ele.
[Léo] – Tá bom. Tá. Agora vai tirar o celular de mim também?
Carlos respirou fundo. Bufou. Pôs o celular de volta a mesa.
[Carlos] – Imagina se sua mãe que vem aqui no quarto?
Léo estranhou a reação do pai.
[Léo] – Hm – resmungou – Eu...
[Carlos] – Achou que eu ia brigar com você?
[Léo] – É.
[Carlos] – Sabe Léo? Eu realmente não sei o que faço a respeito dessa briga.
[Léo] – Como assim? Você não sabe?
[Carlos] – Acho que sua mãe está errada em fazer isso com você. Não deixar você sair de casa, ver seus amigos... E... Mas, acho que não consigo aceitar isso de você. Não sei como encarar, filho. Você e outro garoto.
[Léo] – Mas pai. Não... Não tem o que encarar. É normal, não é?
[Carlos] – Não filho. Não é.
[Léo] – Como não, pai.
[Carlos] – Pra mim não é, Léo. Pra sua mãe também.
Os dois ficaram em silêncio. Carlos ficou encarando o filho que estava de cabeça baixa.
[Carlos] – E... Você tem que parar de fugir de nós.
[Léo] – Parar? Vocês vivem me prendendo e me limitando. Principalmente minha mãe. Não gosto de brigar com vocês, odeio ficar discutindo. Por isso eu sempre saio no meio das brigas e... É por isso que eu quero fazer o intercâmbio também.
[Carlos] – Léo... Já conversamos isso uma vez. Você mudar de país pra fugir da briga.
[Léo] – Não é fugir, pai. Não sei. Eu quero... Não sei o que fazer – os olhos de Léo começaram a lacrimejar.
[Carlos] – Tudo bem Léo. Quer saber, vou tentar conversar com sua mãe, hoje. Mas por agora, não faça nada e... É. Deixa eu tentar.
[Léo] – Tá bom – disse passando a mão nos olhos e limpando as lágrimas.
[Carlos] – Vamos almoçar.
Léo e Carlos saíram do quarto, foram até a cozinha, puseram-se à mesa.
[Laura] – Nossa. Que demora pra virem.
Laura colocou o prato com comida de Léo na frente dele. Ele começou a comer.
No final do almoço, Laura afastou o prato. Olhou para Léo.
[Laura] – Léo? – ele balançou a cabeça – Tudo bem filho? – não respondeu.
Laura respirou fundo. Pegou o prato de Léo e colocou em cima do dela. De repente, alguém chama no portão. Laura corre para ver quem era.
“Léo?” – chamava a voz.
Laura foi até o portão. Era William.
[William] – Oi! O Léo tá ai?
[Laura] – Você é o William né?
[William] – Isso.
[Laura] – O Léo não está.
[William] – Não?
[Laura] – Foi o que ouviu.
William abaixou a cabeça. Pensou em perguntar mais uma vez, porém, desistiu. Foi embora.
Laura voltou pra dentro de casa.
[Léo] – Por que você mentiu?
[Laura] – Olha aqui, Leonardo, não to afim de discutir hoje... Então, se você quiser, vá pro seu quarto e fica lá trancado.
Carlos olhou pra Léo e depois para Laura. Leonardo arrastou a cadeira para trás, levantou-se rapidamente e foi indo para o quarto. Bateu a porta. Só havia saído de lá para ir ao banheiro ou ir na cozinha comer algo.
Anoiteceu. Todos estavam indo dormir. Léo tinha acabado de escovar os dentes e voltou para o quarto pronto para dormir. Laura e Carlos já estavam deitados.
[Carlos] – Laura – chamou a esposa, virando para ela.
[Laura] – O que foi, Carlos?
[Carlos] – É... Você não acha que está sendo dura de mais com o Léo?
[Laura] – Ah não. Você está indo contra mim agora, também?
[Carlos] – Não é isso, Laura, é... Bem, você impedir Léo de sair de casa. De falar com os amigos. Levar ele na escola.
[Laura] – O Léo mal sai de casa. E ele não vai ver mais aqueles amigos dele.
[Carlos] – Laura. Você está sendo radical de mais.
[Laura] – Carlos. Já falei mais cedo, não quero discutir hoje.
[Carlos] – Está bem então.
Laura e Carlos viraram as costas um para o outro e dormiram.
Manhã de sexta feira. Léo acordou quinze minutos antes dos pais e ele, poderia acordar meia hora depois para ajeitar-se pra ir a escola. Havia arrumado o cabelo, escovou os dentes bem rápido e silenciosamente. Voltou para o quarto. Vestiu a calça jeans de sempre, mas não colocou a camisa da escola. Colocou outra camisa. Calçou um sapatênis sem cardaço. Pegou a mochila, abriu ela e colocou algumas roupas dentro. Ao sair do quarto, guardou o celular no bolso e foi andando o mais rápido, porém, fazendo menos barulho possível. Foi indo em direção a porta.
Carlos virava de um lado para o outro na cama. De repente, um barulho. Carlos levanta, olha para os lados. Fica em pé e sai do quarto. Passa no banheiro, depois vai indo para a cozinha. Ao chegar no corredor que dá para a sala, viu alguém abrir a porta, porém, coçou os olhos por segundos e ao parar, a porta estava fechada. Não escutava nada. Foi na cozinha, pegou um copo com água, – fazendo mais barulho do que devia, principalmente ao tossir bem alto na hora de colocar a água no copo – bebeu tudo e voltou para a cama.
Léo saiu pela porta da sala rapidamente sem fazer barulho. Ao chegar no portão de casa, abriu-o bem devagar e saiu. Foi descendo a rua. Passou pelo primeiro quarteirão, encostou numa parede e tirou o celular do bolso.
“Acho que vou mandar uma mensagem para o Gabriel” – pensava enquanto apertava vários botões – “Gabriel, to descendo ai na sua casa. Agora mesmo.”
Enviou a mensagem. Esperou uns três minutos.
“Vou ligar pro Gabriel” – pensou.
Começou a discar. Não atendeu. Tentou mais uma vez...
[Léo] – Vaaaaai Gabriel. Atende – nada.
Léo tentou mais uma vez, enquanto isso, continuou a descer a rua.
“Putz, esqueci minha bengala”
Mas era tarde, pra Léo, voltar pra casa. Os pais poderiam ter acordado já. Continuou a andar e o celular no ouvido. Gabriel não atendia.
Léo desistiu de ligar, mas continuou o caminho. Foi descendo, descendo e descendo a rua. Estava indo para a casa de Gabriel. Já havia andando por alguns minutos. Se certificou de quantos quarteirões atravessou e concluiu que faltava mais dois para atravessar e chegar até a casa de Gabriel.
Leonardo começou a se preocupar por ter esqueci a bengala. Vários pensamentos invadiam sua mente.
“Não acredito que esqueci”
“Será que minha mãe acordou”
“Os dois devem estar desesperados”
“Gabriel, por que você não me atende?”
“Acho que já estou chegando”
“Eu devia voltar para pegar a bengala”
Léo virou a cabeça pra trás, achou que tinha ouvido alguém o chamar. Mas era sua imaginação.
“Nossa, se fosse meu pai eu ia...”
O pensamento foi interrompido. Léo tropeçou numa deformação da calçada. Havia prendido o pé na deformidade. Ela duas pedras rachadas no meio e levantas, fazendo uma espécie de “toca”.
Léo, ao cair, colocou um dos braços na frente do rosto. Sentiu uma dor imensa tomar seu pé direito. O pé que havia ficado preso na deformidade. Começou a chorar.
“Eu estava chegando na casa dele”
“Droga! Merda”
“Por que isso foi acontecer. Eu deveria ter pegado a bengala”
“Sou um idiota”
“Aaaai meu pé dói”
Léo se ajoelhou devagar. Ainda mantendo o pé preso na pedra. Doía muito.
Sentou-se e tentou tirar o pé preso. Depois de um minuto que mais parecia uma hora de esforço, conseguiu tirar o pé de lá. Começou a tatear por ele, passando a mão de leve tentanto sentir algo. O pé estava inchando. E com toda leveza, tirou o sapato.
Chorava mais ainda.
Alguns minutos passaram e Léo começou a pensar que os pais poderiam estar atrás dele. Apesar de não querer que os pais o encontrassem, pelo menos iam socorrer e levá-lo ao pronto socorro. Então, começou a sentir seu corpo ficar mole e pesado. Uma dor de cabeça começou a surgir.
Deitou no chão, colocou o braço que havia apoiado no rosto na hora de cair, sobre a testa. Estava ralado e ardendo.
[Léo] – Alguém... Me... Ajuda.
Disse bem baixinho.
Respirou fundo e voltou a sentar-se. Começou a chorar mais ainda. Pensamentos ruins invadiam sua cabeça, até que...
Continua...
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