Não Olhe Para Trás

1 Impossível Esquecer


Notas iniciais
Olá pessoal. Espero que aproveitem o capítulo!

Não sentia mais minhas pernas. Corri bastante até chegar na cabana da líder do acampamento para me esconder. Tropecei em um galho no meio do caminho e acabei torcendo o meu pé esquerdo. Agora me sinto segura aqui. Ninguém vai me encontrar. A floresta está totalmente escura. E o pior é que a minha lanterna está falhando, acho que a bateria está acabando.

Minha respiração está ofegante. Tenho que me controlar para não fazer nenhum barulho. Não quero ser vista por ele. Não sei como vou fugir desse acampamento. Só quero sobreviver ao terror que estou passando nesse exato momento.

Tenho medo de sair lá fora. Os gritos ainda me perseguem. O desespero daqueles jovens implorando por misericórdia ainda está gravado em minha mente. Tudo foi tão rápido. Não sei se sou a única viva ainda.

Dizem que a esperança é a última que morre. Talvez a minha já esteja morrendo. O medo dentro de mim fala mais alto. Só quero que alguém me ajude a sair daqui. Ouço passos se aproximando lentamente. Conheço esse som. É ele. Ele voltou para me buscar.

Quero gritar, mas tento impedir que o som saia. Tampo a minha boca com a palma da mão. Fecho os meus olhos, mas logo os abro tentando encontrar os passos que rodeiam a cabana. De repente os passos param. Eu não tenho saída.

Será uma armadilha? Também não quero ficar para ver. Tenho que achar um pouco de coragem dentro de mim. Com cuidado me mexo lentamente. Respiro fundo e saio para fora. Só ouço os grilos. Meus pensamentos estão bloqueados. Não sei o que fazer. Vou caminhando atentamente pela floresta. Tudo está muito tranquilo. Sinto que há algo errado.

Não posso desistir. Cada passo é que dou é crucial para minha sobrevivência. Essa floresta é enorme. Aquela coisa deve conhecer muito bem essa floresta. Meu pé dói muito, mas não posso me acomodar. Olho todos os lados ao meu redor. Paro por um instante e me escondo atrás da árvore. Não consigo andar rápido, por mais que eu queira, não dá.

Após um instante de descanso, novamente sigo por qualquer caminho. Ouço um barulho entre as folhagens e vi uma sombra. Paralisei. Era apenas um cervo. Que alivio. Continuo caminhando pela densa e escura floresta. A respiração já está ofegante. Agacho-me por um momento. Até que em frente vejo luzes piscando. É a estrada. Falta pouco.

Mesmo mancando arranjo forças para prosseguir. Há uma saída. Continuo andando. Ainda permaneço bem atenta. Sinto que devo olhar para trás. É o que faço. Virei-me e ali vi o que não queria.

Ali estava ele com sua máscara branca e seu machado cheio de sangue. Sua risada penetrou o profundo de meu ser.

—NUNCA OLHE PARA TRÁS! -Ele se aproxima e eu tento correr. Seus passos são lentos, parece que ele sabe que não consigo ir tão longe. Ele chegou perto de mim e levantou seu machado para me atingir. Fecho os meus olhos ciente do fim que me aguarda.

Foi um pesadelo. Acordo com meu pai me acalmando de novo. É a quinta vez em menos de um mês que tenho o mesmo pesadelo. É sempre o mesmo sofrimento, a mesma sensação. Minhas mãos estão trêmulas e frias.

—Filha, foi só um pesadelo. Estou aqui para protegê-la. Nada vai acontecer. Fique calma. — ele me abraça fortemente. Sinto-me acolhida e protegida.

—Tudo parece tão real. Será um castigo? Eu continuo revivendo isso...

—Ainda está recente Sarah. Mas, tenho certeza que vai superar. Você é uma garota forte, assim como a sua mãe.

—Não é tão fácil quanto parece. Ainda tenho medo.

—Ele morreu. Você não corre mais perigo. Agora é tudo novo. Tente focar nessa nova fase. O que acha de passearmos por essa nova cidade?

—Por mim, tudo bem. -Concordo positivamente com a cabeça.

Nos mudamos recentemente para Denver. Meu pai é detetive e foi transferido para um novo departamento. Por uma parte achei boa a mudança. Às vezes é bom respirar novos ares. Na minha antiga cidade todos tinham olhar de pena ao me ver. Na escola fizeram um mural em homenagem às vítimas. Todas aquelas fotos me perturbaram.

Eram meus amigos. Ainda penso neles. Aquele dia ainda permanece em minha mente. Aquele acampamento tinha tudo para ser divertido. Mas de repente um monstro decidiu acabar com a nossa alegria.

Denver até que é uma bela cidade. Estamos aqui há uma semana e ainda não terminamos de arrumar a mudança. Nossa casa é linda. Consigo enxergar as montanhas do meu quarto. Pelo tempo que estamos aqui, percebi a tranquilidade que é morar aqui. Alguns vizinhos vieram falar conosco desejando boas vindas. Todos são educados.

Tentei agarrar no sono, mas foi impossível. Meu pai dormiu do meu lado. Sempre preocupado comigo. Depois que minha mãe morreu, nos tornamos grandes companheiros. Perto dele, sinto-me segura. O dia amanheceu rápido e logo levantei-me da cama. Tomei um banho e preparei o café da manhã. Panquecas e um suco de laranja. Nunca gostei de leite.

Meu pai acordou cedo também. Ele não teve uma boa noite de sono graças a mim. Seus cabelos castanhos estavam emaranhados e amassados. Me deu um beijo na testa e perguntou se eu estava bem.

— Sim. -Assenti. -O nosso passeio está de pé?

—Com certeza. Eu só preciso passar na delegacia. Querem me apresentar para o pessoal.

—Ah pai. Não vai demorar? Temos que conhecer essa bela cidade. Sinto que aqui seremos felizes.

— Vai ser rápido. Prometo! – Disse levantando sua mão em ato de juramento.

Passei a manhã toda arrumando as caixas da mudança. Deixei tudo em seu devido lugar. Coloquei vasos de flores e decorei tudo do meu jeito. Finalmente me sinto em casa. Lar doce Lar. Decidi dar uma volta no quarteirão. Admirei-me com a paisagem. A natureza me transmite tranquilidade. Caminhei por cerca de uns quinze minutos. Na volta para casa reparei um cartaz de uma menina desaparecida.

Seu nome é Meghan. Uma jovem loira de quinze anos. Foi vista por último em uma loja de conveniência. Um mês desaparecida. Todos sem notícias. Fico imaginado a dor da família. Pela foto, ela parece ser uma menina adorável. Não há muito o que se esperar. Talvez nem esperança ajude. Fiquei parada em frente ao cartaz, tentando entender como pessoas são capazes de machucar outras.

—Olá! -Assustei-me e vi uma mulher de aparência jovem carregando sacolas de mercado. -Desculpe assusta-la. -Sorriu. Você é a Sarah, a recém chegada?

— Sim, sou eu.

— Muito prazer. Me chamo Rebecca. Eu que mandei o bolo de chocolate. Seu pai disse que é o seu favorito.

— Você que mandou? Aquele bolo estava delicioso. Não sobrou nenhum pedaço. Obrigada.

— Não precisa agradecer. Foi só um bolo de boas-vindas. Será que você pode me ajudar com essas sacolas? Minha casa é logo ali. -Apontou para uma bela amarela com um imenso jardim.

—Claro.

Rebecca pareceu-me muito gentil. Ajudei ela com as sacolas e ela me convidou para tomar um chá. Disse para deixar para a próxima vez, mas ela acabou insistindo.

— O que está achando da cidade? Superou suas expectativas?

— Sim, estou adorando viver aqui. É uma cidade rica em beleza natural. E também parece ser uma cidade tranquila.

— Que bom! A maioria das pessoas não gostam de viver no interior. Aqui era bem mais tranquilo. Agora... -pausou a fala. – Bom, você gosta de natureza, não é? Aqui temos parques florestais, lagos e trilhas para passear. Tenho certeza que você vai amar.

— Por enquanto, quero manter distância de parques florestais. Ainda tenho que colocar algumas coisas em ordem. Agradeço pelo convite. -Despedi-me de Rebecca e voltei para casa.

Meu pai ainda não havia chegado. Mais uma vez o passeio fora adiado. A profissão exige muito dele, mas confesso que admiro. Ele ajuda as pessoas descobrindo o mistério do crime. Às vezes ajudo ele. Também sou boa nisso.

Fui até a cozinha pegar um copo com água e de repente ouvi um barulho muito forte. Achei que fosse meu pai, mas não era. Fiquei parada na tentativa de ouvir novamente. Durante alguns segundos fiquei aguardando algum barulho, porém não ouvi nada.

Não gosto de ficar sozinha. Quando estou nessas situações eu tento me acalmar. Me sinto indefesa e insegura. Sinto que ele pode voltar e terminar o que tentou fazer comigo. Ainda me sinto presa nesse pesadelo. Deixo o copo e vou até a entrada. Eu havia trancado a porta, porém ela estava aberta.

"Não é possível", pensei. Tranquei a porta de novo. Averiguei todos os cômodos. Talvez fosse algo da minha cabeça. O trauma de tudo o que passei me atormenta a cada dia. Fechei os meus olhos e contei até dez. " Não é nada, tudo está perfeitamente bem!"

Para manter a mente ocupada, procurei decorar ainda mais a casa. Até que encontrei uma pequena caixa bem na entrada, a qual eu não havia percebido estar ali. Ao abri-la me deparei com uma foto. A última foto com minhas amigas Zoey e Dany. Um dia antes de morrerem brutalmente.

Meus olhos lacrimejaram e comecei a chorar. Estávamos felizes. Elas eram como irmãs que nunca tive. Eu tento me livrar de tudo, mas as lembranças vêm à tona. Não quero ficar paranoica. Pensei em rasgar a foto, mas não o fiz. Acabei colocando a foto em um porta retrato.

No início da noite, meu pai finalmente chegou. Ele se desculpou. Não havia motivos para se desculpar.

—Todos estavam ansiosos para me conhecer. Você precisava ver Sarah. Eu demorei, pois já me deixaram ciente do que devo investigar.

—Sem querer me envolver, posso saber qual é o mistério da vez? — Perguntei interessada.

—É sobre uma menina desaparecida. Nada demais.

—O nome dela é Meghan. -Informei. Meu pai fez uma cara de surpreso. -Eu vi ela no cartaz.

—Então vamos parar por aí. Não quero ver você envolvida nisso.

Depois de conversarmos e jantarmos fui lavar a louça. Aquela garota não sai da mente. Será que poderia ter alguma chance de ela estar viva? Ao olhar pela janela me deparo com uma pessoa de porte grande olhando para mim. Apenas um feixe de luz a iluminava. Usava um suéter com capuz, não consegui observar mais detalhes. Em seguida aquela pessoa saiu correndo após o meu grito. Comecei a respirar rapidamente. Era a minha crise de ansiedade.

—Sarah, fique tranquila. Estou aqui! Está tudo bem! Respira fundo -Meu pai me tranquilizou.

Na verdade, não estava nada bem. Tudo estava piorando e o medo só aumentava cada vez mais. Ainda sinto que alguém está atrás de mim.

Notas finais
Até o próximo capítulo!