Método Único
2 Capítulo 2
Érick
Aluguel: 450 U$
Luz: 65 U$
Água: 20 U$
Comida: 375 U$
Concerto da geladeira: 200 U$
Pelo menos dessa vez a luz veio bem menor do que da última. Consegui, por fim, contar bem os gastos. E com a aula que vou começar a dar agora, vai melhorar bastante. A mãe dela disse que me daria o almoço e até a janta se eu precisasse. Na verdade, é o mínimo, já que vou ter que ficar um bom tempo por lá. Que tipo de pessoa não tem facilidade em nenhuma matéria?
Bem, pelo menos a burrice da filha dela vai me dar três meses de sossego.
Sendo a filha dela do meu colégio (primeiro ano ela disse?) já pude calcular com antecedência o tempo necessário de aula até as próximas provas bimestrais. Três meses. Tempo suficiente para se aprender algo ao ponto de garantir, pelo menos, a nota mínima.
Meu celular começou a tocar, o que tirou o sorriso do meu rosto.
— Oi.
— Érick, você vem almoçar em casa hoje?
— Não, tenho compromisso.
— Mas seu pai vai estar aqui...
É por isso mesmo que eu não vou.
— Ainda continuo tendo um compromisso.
Desliguei antes que ela começasse a querer insistir demais e eu perdesse a paciência de novo. Não posso ficar me desgastando de qualquer maneira, o dia hoje vai ser longo.
Guardei as contas na gaveta e voltei a estudar. Pelo menos até alguém bater na porta. Deveria ser o vizinho querendo algo emprestado de novo.
— Sim, Sr. Brown?
— Quem?
— Talía? — o que ela está fazendo aqui de novo? – Princesa, eu já disse para não vir até minha casa assim sem avisar.
— Eu sei, mas eu senti sua falta e quis te visitar. Posso entrar um...
Coloquei o braço rapidamente no meio da porta a impedindo de passar. Ela me olhou surpresa.
— Aqui está uma bagunça. Não quero que veja isso.
Fechei logo a porta, e ela deu sua risada estranha.
— Então você tem um defeito?
Forcei uma risada. Ainda não sabia por que dava bola para ela, mas nunca se sabe quando posso precisar de dinheiro e... ela já era uma jogada certa.
— Princesa, eu preciso voltar a estudar. – peguei a mão dela e coloquei seu cabelo atrás da orelha – Mesmo que eu tenha ficado feliz por você ter vindo aqui, eu prefiro que não venha, as pessoas podem pensar em coisas imprudentes. Sabe como são as fofocas.
Ela ficou um pimentão como sempre. — Você sempre cuidando tão bem de mim. — abaixou a cabeça e me estendeu uma cestinha – Aproveite bem.
Despediu-se e, por fim, foi embora.
— É uma bela namorada. – Sr. Brown apareceu de repente, regando seu jardim.
Tenho que confessar que as aulas são uma maneira de ganhar dinheiro fácil, e funcionam muito bem com meu método único. Mas depois essas garotas me dão um trabalho... Grudam no meu pé como se eu fosse seus namorados. A maioria acaba só me ligando, mas essa é mais ousada, mesmo que fique toda vermelha quando dou-lhe a atenção que quer. Vai entender...
Fui até ele e lhe entreguei a cestinha. — Não tenho namorada.
Entrei de volta e, pelo horário, já fui tomar banho e me arrumar. Primeiro dia, então devo causar uma boa impressão, esse é o primeiro passo para o método dar certo.
Chequei o endereço e eu só poderia estar com sorte mesmo nesses dias, a casa dela era uma rua atrás da minha. Poderia ficar para jantar sem me preocupar, voltar de noite não seria problema. Além de não ter que ficar inventando desculpas para não jantar em casa. Não me sentira mais culpado por mentir.
No caminho para a casa dela, fiquei tentando lembrar se já a tinha visto alguma vez na escola.
Amélia Diaz? Primeiro ano? Não, acho que não.
Tentei procurar por ela no colégio hoje, mas não a encontrei na sala no intervalo, nem na praça de alimentação, então acabei desistindo.
A mãe dela me ligou na terça a noite, querendo, na verdade, só saber da aula, como funciona, e quanto eu cobrava. Eu expliquei tudo, mas ela só foi me retornar ontem perto do almoço. Um detalhe que eu achei estranho é por ela ter apresentado a filha como aluna. “Como funciona para marcar aulas particulares para uma nova aluna?”, foi esse o tempo que ela usou, ao invés de “Como marco aulas para minha filha?”.
Será que ela tem vergonha da filha ser tão ignorante? Ainda estou chocado por essa garota não ter facilidade em nada, ao ponto de precisar de aulas particulares em todas as matérias.
Entrei na rua dela e logo achei a casa correspondente ao número. Olhei no relógio e ainda eram 14h55min. De casa para cá é realmente rápido. Acho que cheguei cedo, o combinado era às 15h e, o segundo passo do meu método é ser pontual, nenhum minuto a mais nem a menos. Nesses minutos, talvez ela esteja se arrumando ou algo assim.
Eu dei aula para uma garota que foi para o salão de beleza antes de ter minha primeira aula. Talvez porque já me conhecesse, depois dela, Amélia será a segunda garota do mesmo colégio a quem darei aula particular.
Quinze horas em ponto apertei a campainha.
Uma mulher morena atendeu a porta, era alta e aparentava ter, pelo menos, trinta e sete anos. As linhas de expressão em seu rosto mostravam o trabalho que deveria ter com a filha.
— Nossa! Você é bem pontual. – ela abriu um sorriso largo, talvez pelo fato da última esperança de ajustar a filha tivesse acabado de chegar.
Observei a casa, que era simples, mas aconchegante e ajeitada. As escadas, que davam ao segundo andar, eram de frente com a porta, na sala havia um sofá bege e dois pufes marrons, que faziam a vez do outro sofá, e das diversas prateleiras, uma era reservada para vários troféus.
— Sente- se, fique a vontade! Desculpe-me, Mia está atrasada.
— Ela não sabia que eu vinha hoje?
— Sim, sabia. Ela é horrível com horários, desculpe.
A mãe dela foi até perto das escadas, acho que para verificar se ela estava vindo.
— Mia? – ela olhou para mim e sorriu rápido – MIA!
Subiu dois degraus.
— Tia, me chamou?
Tia? Essa mulher não é a mãe dela?
Ah, agora entendo a falta de pulso, faz mais sentido. Mas por que ela mora com a tia?
A mulher voltou a sorrir sem jeito para mim. — O professor particular chegou.
— Ah, sim.
Não escutei os passos dela na escada por estar cheio de perguntas na cabeça, mas então vi uma figura surpreendente a descer as escadas e parando na minha frente. Usava pantufas de coelho com meias brancas, leg preta e um moletom rosa, que deveria ser o dobro do seu tamanho, com um urso desenhado. Os cabelos presos em um coque mal feito com os óculos de grau segurando a franja. Ela era tão branca que provavelmente nunca tinha tomado sol na vida.
Levantei-me. — Boa tarde. – sorri e fui estender a mão para cumprimentá-la, mas ela ergueu de leve os cantos da boca para um sorriso, e disse “Oi” balançando a mão como se estivéssemos muito longe um do outro.
Ela era tímida? Ela não estava vermelha, mas também não me olhava nos olhos.
— Vocês podem subir. Fique a vontade, viu? Eu deixei preparado um lanche para mais tarde e quando sentirem fome é só se servir. Eu preciso ir para o hospital agora.
Amélia se despediu da tia, trancou a porta e começou a subir as escadas na frente sem dizer nada, então eu só a segui.
Muita confiança dessa tia para deixar uma garota sozinha em casa com um adolescente estranho. Será que os pais dela sabem que a tia dá toda essa liberdade a ela?
— Pode colocar a mochila em cima da cama.
Ela se sentou no chão em frente a uma mesa redonda e eu sentei ao seu lado, mas por alguma razão senti ela se afastar um pouco.
— Por onde devemos começar?
Ela deu de ombros e ficou olhando para os dedos.
Garota estranha...
— Qual matéria você tem mais dificuldade?
Ela pareceu pensar. — Todas?
— Ah... – cocei a cabeça. – Tudo bem, a gente da um jeito.
— Você sabe mesmo todas as matérias? – foi a primeira vez que ela me olhou nos olhos.
— Pode se dizer que sim.
— Hoje eu me esqueci que você vinha, então... não estou preparada psicologicamente para começar pelo mais difícil. (e eu também estou com preguiça) – acho que isso não era para eu ter escutado – Vamos começar por essa aqui.
— Inglês? – que surpresa – Certo. Você deve saber alguma coisa, então eu vou te ajudar com os dois primeiros exercícios e depois você faz o resto sozinha.
Mia concordou com a cabeça. E mais uma vez, para minha surpresa, ela realmente ficou atenta nas minhas explicações em cada exercício. Pelo jeito desmazelado de se vestir e pelo o que disse agora a pouco, sobre estar com preguiça, esperava que eu fosse ter dificuldade em conseguir sua atenção.
Meia hora depois, ela só conseguiu terminar dez exercícios. Devo admitir que sua pronuncia era muito boa, mas percebi que tinha dificuldade de interpretar as perguntas e também de gravar as regras gramaticais.
Se essa é a matéria que ela não tem tanta dificuldade, não quero nem ver a que ela realmente é ruim.
Fiquei corrigindo as questões enquanto ela desceu para beber água. Quando ela voltou a se sentar ao meu lado, eu aproveitei para dar minha primeira cartada, para colocar de vez meu método pra funcionar.
Coloquei minha mão sobre a sua, e a encarei. — Você conseguiu acertar seis, mais da metade em uma aula. Isso é melhor do que eu esperava.
Percebi que ela ficou olhando para o centro da mesa e seu rosto expressava confusão.
Sorri e voltei a olhar para o livro.
— Vou separar mais alguns exercícios para você fazer. – disse retirando minha mão da dela.
Ela concordou, colocando as mãos para debaixo da mesa. Admito que me fez querer rir. Consegui mexer com ela, um ponto para mim.
É assim que funciona. A cada cartada que mando, sendo carinhoso, elogiando os pequenos acertos, tendo paciência nos erros e sorrindo ao tirar as dúvidas... tudo isso mexe com o psicológico delas, o que faz com que queiram estudar mais, para ter mais acertos, produzir mais perguntas e, consequentemente, ter mais carinho meu.
Minha segunda cartada foi novamente elogiá-la, tocando em seu ombro. Dessa vez, suas bochechas rosaram um pouco. E a tarde não foi tão cansativa, na verdade, até que rendeu bem. Acho que por eu ainda ser um estranho, ela não falou mais que o necessário. As tímidas são as melhores de se trabalhar, eu realmente estava com sorte. E para quem disse que estava com preguiça, até que ela se esforçou bastante.
Estava satisfeito com o primeiro dia. Quando ela ficar mais à vontade comigo vai render mais, e quando o meu método começar a surgir efeito realmente, ela vai se dedicar mais ainda. Essa com certeza vai ser a grana mais fácil que já ganhei. E eu pensando que seria alguém difícil de trabalhar... Talvez ela só não estude por falta de estímulo. Eu darei esse estímulo, na verdade, eu serei esse estímulo.
A tia dela chegou quando eu estava de saída, perto das 18h40min, e me convidou para jantar com elas. Durante a janta, a tia foi quem mais falou, fez várias perguntas e Mia só respondia o necessário. Será que ela era normalmente assim? Ou só por que eu estava ali? Ou por que ela ainda estava chocada com meu método? Isso é bom, realmente bom, depois que a surpresa passa elas tendem a quererem mais.
— Obrigado pela comida.
— O que é isso, imagina. Obrigada pela paciência com a Mia.
Sorri. — Já vou indo então. Até amanhã...
— Vá com cuidado, querido!
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