Método Único
3 Capítulo 3
Mia
ELE É ASSUSTADOR! Como alguém pode agir daquele jeito com uma estranha? Pegar na mão, fazer carinho no meu ombro! Será que ele é um pervertido? Não, não. Ele não tentou nada... Ainda? Ai, será que falo com a tia? Mas ela vai achar que quero fugir desse compromisso. Eu tenho que contar para alguém senão vou ficar louca!! É isso, amanhã vou perguntar o que a Camila acha.
Não dormi direito pensando em como resolveria esse assunto, e assim que cheguei no colégio, fui direto conversar com a Camila.
— Ele o quê?!
Tampei a boca dela, pedindo para que falasse baixo.
— Ah, agora faz sentido. ESSE deve ser o tal método dele...
— Han? Método?
— Você não sabe? Esse tal de Ércik Carter é um aluno bem popular do terceiro ano, que tem fama de ser um professor particular nas horas vagas, e tem uma ótima reputação nesse quesito por ter o que chamam de “Método Único”. – explicou com desdém.
Estou chocada. Passei a tarde toda tendo aula com ele e só fui me tocar agora que não sabia seu nome.
— Método único?
— Exato. E deve ser esse, fazer as garotas se apaixonarem por ele para terem inspiração para estudar.
— Isso não faz sentido para mim.
Ela segurou meus ombros, me olhando com seus olhos arregalados. — Mia, se você quer continuar com isso e voltar para o grupo de música, você tem que estar um passo a frente dele. Jogue as cartas na mesa, diga a ele a verdade e dê um basta nesse tal método.
Camila tem razão, na aula de hoje farei isso.
Espero que seja isso, só um método sem sentido. Que ele não seja um pervertido, que ele não seja um pervertido...
A aula de história começou e, como ele havia pedido ontem, anotei tudo que consegui da aula de hoje, o que estava escrito e até o que não estava.
Ontem eu tentei criar coragem para falar com a Sra. Park, para convencê-la a me deixar frequentando as aulas, garantindo que eu daria meu melhor. Mas desisti no meio do caminho e me escondi no banheiro o resto do intervalo. Na saída, David veio falar comigo, pedindo explicações porque não pude me apresentar na noite passada, então disse tudo a ele. Como eu já esperava, ele ficou furioso. Primeiro achei que fosse comigo, até perceber que era com toda a situação, então ele prometeu que iria hoje comigo falar com a Sra. Park.
O intervalo, como sempre, demorou a chegar, já David, não deu nem cinco minutos e já estava ali.
— Vai mesmo comigo?
— Claro que vou.
— Eu também! – se prontificou Camila.
Como ela...? Ah, David. Tudo bem, não queria envolve-la nas minhas confusões, mas quanto mais gente melhor.
A cada passo que eu dava, rezava para que a Sra. Park tivesse tido uma ótima noite de sono.
Depois que David falou, depois que Camila falou, fui tentar dizer algo, mas ela resumiu em:
— Amélia, eu só quero ver você de novo quando estiver segurando o boletim completamente azul, ou seja, sem nenhuma nota abaixo da média.
Eu sei o que boletim azul significa...
— Mas Sra. Park...
— Assunto encerrado. – ela disse se virando e indo atender o grupo da Abigail.
Estou ferrada! E ainda tem a possibilidade do meu professor particular ser um pervertido! Por falar nele...
Parei no meio do corredor. Olhei para trás, para os lados e até mesmo para o teto. Não queria me encontrar com aquele doido no colégio. Não que ele seja ruim explicando, eu realmente aprendi alguma coisa ontem, mas esse negócio de ficar tão próximo me incomodou.
Depois que David foi para sala, eu e Camila fomos para a nossa. Bem, pelo menos nós tentamos, pois um aglomerado de garotas estava formado em frente a ela, barrando a passagem, e davam gritinhos estridentes sem parar. Cheguei mais perto e lá estava ele, sendo o centro de todo aquele tumultuo.
— Princesa! – disse ele alto, olhando na minha direção.
Automaticamente me virei para trás para ver com quem ele falava, mas não havia ninguém atrás de mim. Virei novamente para ele, com certeza esse cara era doido.
Espera, por que ele está vindo na minha direção? Diz que ele vai passar por mim, diz que ele vai dar meia volta, ou pedir licença para passar...
Tentei até desviar o olhar, para não parecer convidativa, mas não funcionou.
Senti ele colocar uma mão em meu ombro. — Até que enfim pude te encontrar no colégio. Como foi a aula hoje? Copiou tudo como eu pedi?
Confirmei com a cabeça, mas foi mais no automático, pois só conseguia prestar atenção no semblante de todos ali. Pessoas da minha turma, e até os que não eram, cochichavam uns para os outros, me olhando de baixo a cima. Nunca fiquei tão aliviada ao escutar o sinal de fim de intervalo.
Ele disse mais alguma coisa antes de finalmente ir embora, mas eu não pude ouvir, estava muito abalada com tudo aquilo.
Esse foi o pior intervalo de toda minha vida! Ouvir da Sra. Park que eu realmente estava fora do grupo de música, machucou mais do que quando minha tia disse. E ainda teve toda essa cena na porta da minha sala! Estou perdida, agora vou ser alvo de fofoca...
— Será que ela é a nova aluna dele? – ouvi ao longe.
— Ele a chamou de princesa né?
— Não sei, não consegui escutar direito, tinha muita gritaria.
— É, nem eu. Mas acho que mesmo que ela seja a nova sortuda, ele não a trataria como princesa. Fala sério, o que essa garota tem de princesa?
Não tenho absolutamente nada, por isso posso te dar uns tabefes!
Sentei no meu lugar e percebi que todos falavam de mim e me examinavam. Enterrei a cabeça nos braços e fiquei assim até o outro professor chegar.
Tudo isso vai passar, a fofoca é sobre mim, então não vai durar muito tempo. Vai perder a graça até o horário de ir embora.
Passei a aula inteira preocupada com isso, nem consegui me concentrar, e é tudo culpa dele. Por ser meu professor, deveria estar me ajudando a me concentrar nos estudos, e não me dando mais motivos para viajar durante as aulas.
Na saída, vi o mesmo amontoado de garotas, na verdade, agora parecia ter mais gente e, como eu temia, ele estava sendo o centro das atenções de novo, encostado na parede perto ao portão, parecia indiferente a toda aquele alvoroço em cima dele.
Ele é realmente popular.
Na verdade, ele parecia procurar por alguém, e quando me viu, de repente acenou na minha direção com aquele sorriso de príncipe-ator. Quando percebi que era para mim, me escondi rapidamente atrás de David e Camila.
— O que é isso, Mia? – perguntou David, tentando se virar para me ver, enquanto estava agarrada a sua camisa.
Camila percebeu a situação, e como já sabia da história e da minha desconfiança sobre ele, entendeu o motivo rapidamente. Ela se virou para mim e me lançou um olhar que dizia muita coisa, algo do tipo “Vai ficar se escondendo por ai assim, ou vai resolver isso logo? Você é uma mulher ou não?”.
— O que está acontecendo? – perguntou David de novo.
— Briga atrás do colégio! – alguém gritou.
Toda aquela massa de pessoas sumiu em um piscar de olhos.
Como esse povo gosta de um mal feito. Até o David e a Camila correram para ver, que vergonha. Só aquele príncipe-ator maluco ficou.
Aproveitei o momento, corri até ele – que abriu os braços, achando que eu lhe daria um abraço? – mas eu o puxei pelo braço para longe dali.
— Ei, princesa! O que está fazendo?
Soltei seu braço e me apoiei nos joelhos. — Você... Não me chame...disso.
— Já está cansada? Sua condição física é tão ruim assim?
Respirei fundo. — Essa não é a questão aqui. – me levantei e o encarei nos olhos – Seu método. Não preciso dele. As aulas vão continuar, mas sem apelidos bregas, elogios exagerados e contatos físicos. Seja um professor de verdade e faça jus ao dinheiro que minha tia te paga... Por favor. – estava sem ar, acho que me esqueci de respirar, e acabou saindo tudo de uma vez.
Um silêncio absurdo dominou o lugar. Será que ele estava chateado? Talvez bravo? Será que o ofendi? Não era minha intenção.
— Não gosta da minha aula?
Por que ele estava perguntando isso com aquele sorriso de novo? Isso me assusta.
— Não é isso. Você me ajudou muito ontem, mas eu não me sinto a vontade com seu “método único” de ensinar. Preciso que seja rígido, que me dê bronca quando eu errar, mesmo que seja só duas questões.
Ele me encarou de baixo a cima, colocou as mãos nos bolsos da calça. — Se é assim que você prefere... Te vejo no mesmo horário de ontem.
Virou-se e foi embora na frente.
Será que ele estava chateado? Mesmo que tenha sorrido, por que sinto que ele não gostou do pedido que fiz?
Cara estranho...
Corri para pegar o final da briga, mas me cansei a toa. Assim que cheguei, o diretor já estava levando os dois envolvidos para a diretoria pela orelha.
Érick
Como ela tinha descoberto meu método? Ela não gosta? Pff. Quem ela pensa que é? Ela sabe mais do que eu sobre isso por acaso? Meu método funciona muito bem caso ela não saiba. Não foi a toa que a tia dela me contratou.
Ah, que seja. Melhor para mim, não vou precisar ficar puxando o saco dela e fazer papel de idiota.
Ok. Ela quer que eu seja rígido? Um professor de verdade ela disse. Certo, vou ser seu pior pesadelo tampinha.
Droga, por quê esse metrô está demorando tanto hoje?
Fale com o autor