Método Único
20 Capítulo 15
Érick
Nossa, está caindo o céu lá fora.
Escutei o som vindo da sala de música. O piano... Ela deve estar tocando. Me aproximei, mas a porta estava fechada. Por quê?
Se bem que o som... não tem nenhuma melodia.
Abri a porta. — Mãe, o que está tocan-
Congelei ao vê-la despida, sendo beijada por um cara em cima do piano.
— Érick?!
Senti uma raiva que nunca tinha sentido na vida. Um cara que não era meu pai estava a tocando daquela forma...
Quando vi já estava o socando. Arrastei ele até lá fora, e voltei a soca-lo. Minha adrenalina estava a mil, não conseguia respirar direito, mas também não conseguia parar de bater nele, assim como não conseguia parar de chorar. Minha mãe gritava para que eu parasse, enquanto chorava desesperadamente. As pessoas na rua vieram para me segurar. Minha mão estava com o sangue dele e eu tremia dos pés a cabeça.
Acordei. Estava na minha cama e já era noite. Um sonho ruim...
...
Não, uma lembrança ruim.
Desde daquele dia não voltei mais para casa. Nunca mais falei com meus pais direito. E isso já fazem dois anos.
Meu pai continua com ela. Provavelmente não pediu o divórcio para não sair na mídia e manchar sua imagem. Eles realmente atuam bem, naquela festa realmente pareciam que ainda estavam juntos.
Orgulhoso demais... Ele nunca perdoaria minha mãe. Até porque pra isso ele teria que reconhecer que errou também, algo impossível....
Tentei afastar aqueles pensamentos para bem longe, e voltar a dormir. Mas não consegui. E a insônia chegou, como sempre toda vez que me lembrava daquele dia.
Levantei, fui até a sala e leguei a TV. Passei por todos os canais, mas não havia nada interessante, então a desliguei. Fui até a estante e peguei meu livro de física avançada, contas sempre me distraíam.
Abri na página marcada com uma via de mercado. Li três vezes a mesma frase. Não parava de lembrar em como Mia tinha ficado transtornada naquela hora. Mas ela devia saber que a situação dela era diferente da minha...
Ah, por que estou sentindo meu peito tão pesado? Eu... não queria ter discutido com ela de novo...
Fechei o livro e decidi dar uma volta para arejar a cabeça. Havia um lugar, um pouco longe, mas que sempre fazia eu me acalmar. Troquei de roupa e caminhei até a estação.
Não demorou muito para eu chegar na empresa abandonada. Até hoje nunca descobri com o que se mexiam ali. Subi as escadas enferrujadas, que davam até uma cobertura do velho edifício. Parei com as mãos nos bolsos do casaco, apreciando uma vista maravilhosa da cidade iluminada, deixando o vento gelado queimar um pouco meu rosto.
“Dê mais valor a sua família antes que a vida a tire de você também!”
É, acho que nem aqui tenho escapatória...
Suspirei, olhando para o relógio no pulso. Já era meia noite, então achei melhor não arriscar andar só por aí nesse horário.
Decidi ir pelo caminho mais longo, pois era mais iluminado que o caminho que estava acostumado a pegar de volta a estação. E quando passava por alguns barzinhos, um deles me chamou a atenção.
A música... Essa voz...
Resolvi entrar, e logo na parede a frente estava escrito Pub. Virei a esquerda e dei de cara com Mia tocando piano em cima de um palco, acompanhada de David, sentado num banquinho mais ao fundo com os olhos fixos nela, assim como toda a plateia do lugar lotado.
Percebi que era a mesma melodia calma que a ouvi cantarolando na sala de música, quando ainda estava de muleta, Mas só tinha escutado um trecho.
Ela estava com os olhos fechados, certamente sentindo a música. Encostei na parede da entrada, curioso para ouvir toda a letra.
Meu mundo mudou
Assim, do nada
Estava tão feliz
Mas foi só piscar os olhos
Que toda essa felicidade acabou
Meu mar de alegria secou
E quando eu digo que não dá mais para continuar
Quando percebo que não há mais saída
Vejo uma passagem para o outro lado da vida
E começo a enxergar o lado bom dessa situação
Passo a escutar mais meu coração
Passo a acreditar em uma segunda chance
Por que dar novas chances para que as lágrimas caiam de novo,
E não dar chance para que o sorriso reapareça em nosso rosto?
A perda te amadurece
A dor te fortalece
Pessoas cometem erros
Afinal, somos seres imperfeitos
Mas crescemos a cada lição
É... é a vida
Sim, ela é boa
Mas sempre tem sua exceção
As palmas me fizeram sair do transe. Cada palavra me envolveu, mas o refrão final... Olhei para cima, mas não podia mais vê-la, todos dali estavam aplaudindo em pé.
“Dê mais valor a sua família antes que a vida a tire de você também!”
...
Dei meia volta e fui até a estação.
...
O que estou fazendo? Por que estou aqui?
Droga...Apoiei-me na parede perto da porta e, sem querer, apertei a campainha.
Droga!
Ela abriu a porta surpresa. Logo atrás veio meu pai, que se aproximou e apoiou sua mão calorosamente em seu ombro. Também me olhava surpreso.
Mas o único surpreso ali era eu...
— Vocês... eu achei... – por que sinto minha garganta fechar?
De repente, ela se pendurou em mim e me abraçou.
Ela chorou... eu chorei... E meu pai... Bem, ele veio devagar sem falar nada, e tocou calorosamente minhas costas.
— Eu sinto muito...
Mia
— Mia, eu sei que está triste. Mas chega de pensar nisso e se culpar. Você disse o que pensava.
Eu --> Desanimo em pessoa.
— Você se lembra que a gente recebe o boletim hoje?
Eu --> Mais desanimada ainda.
Camila suspirou. Sentou sobre a carteira atrás de mim e começou a trançar meu cabelo.
— Sabe, Mia. Ás vezes as pessoas precisam levar um “chacoalhão” para que possam refletir sobre suas atitudes. E para isso, precisam que pessoas de fora interfiram, e isso não quer dizer que essa pessoa é intrometida, mas sim que se preocupa... Por exemplo, se a Sra. Park e sua tia não tivessem feito o que fizeram, você nunca teria começado a levar os estudos a sério.
Isso... é verdade. Camila tem razão. Eu passei dos limites quando disse todas aquelas coisas para ele, mas se eu explicar que me importo com ele, talvez entenda. Mesmo que o que eu disse não mude a situação com os pais, eu quero que ele saiba que eu não o julgo...
E que ele realmente não deveria dar bola para as bobagens que eu falo. Qual é? Eu sou a aprendiz, ele é o professor! Eu só sou uma garota do primeiro ano, ele já está quase no fim do colegial!
A professora encarregada de entregar os boletins chegou. Eu estaria uma pilha agora se não estivesse tão deprimida...
Meu nome foi chamado. Levantei sem pressa, peguei o boletim e me sentei.
Arregalei os olhos e comecei a tremer.
A folha... Estava sem qualquer cor vermelha.
Sem chance...
Olhei mais uma vez, nota por nota. A menor era de matemática: 7,4.
Meu coração estava batendo muito rápido. Eu... passei direto. Pela primeira vez!
Camila tomou o boletim da minha mão preocupada. Arregalou os olhos também.
Nos olhamos. — Kyaaaaaaaaaaaa!! – nos abraçamos e começamos a pular que nem duas doidas.
— Ei, vocês duas! Recomponham-se! – disse a professora meio brava.
Sentamos nos nossos lugares.
No final da aula Sra. Lourdes veio até mim. — A propósito... Parabéns, Amélia.
Agradeci.
— Ah professora, já que está aqui, gostaria de falar sobre a prova de matemática. Não acha... – Camila foi fazendo sua reclamação enquanto acompanhava a professora, que tentava escapar dela.
— Com licença... – um garoto alto com um topete apareceu do nada – Você conhece Amélia Diaz?
— Eu! – levantei a mão --> Costume por responder chamada.
E sem dizer muito me entregou um bilhete e foi embora.
Precisamos conversar. Encontre-me no ginásio depois da aula. ~Érick ~
Ele... quer falar comigo? Certo! Essa é minha chance!
Comecei a ficar nervosa. Como hoje foi entrega dos boletins já podíamos ir para casa se não tivessemos nenhuma reclamação.
Isso quer dizer que... devo me encontrar com ele agora?
— Argh, aquela professora não sabe elaborar uma prova direito e... Mia?
— Ah, pode indo na frente. Lembrei que tenho que resolver algumas coisas.
— Quer ajuda?
— Não precisa, obrigada! Tenho que fazer isso sozinha... — corri antes que ela perguntasse mais coisas.
Cheguei rápido no ginásio, mas não o encontrei ali.
Acho que cheguei cedo demais...
Comecei instintivamente a procura-lo em todos os lados, até dentro do depósito. De repente, a porta bateu me trancando ali dentro, já que era automática.
E-escuro... I-isso não pode estar acontecendo... Eu odeio o escuro!
Érick
Fiquei esperando por ela na saída.
Não sei como encará-la ou como me desculpar, mas eu preciso falar com ela.
Vi Camila e David saindo juntos, mas não vi Mia.
— Ei, vocês viram a Mia?
David fechou a cara.
— Ah, ela ficou para resolver não-sei-o-que. – respondeu Camila.
Agradeci e fui direto procurá-la na sala. Isso quer dizer que está sozinha, melhor ainda.
Mas não estava ali.
Procurei no clube. Nada.
Sem essa... Tenho que falar com ela hoje. Não me encontraria mais come ela, as aulas particulares acabaram assim que começaram as provas. E não sei se ela viria nos outros dias.
Então a procurei em todos os lugares possíveis, até no ginásio!
Quando ia saindo encontrei o chaveiro de panda dela jogado no chão.
Mia? — Mia!
O nome dela ecoou pelo ginásio. Então escutei algum som vindo do depósito.
Sem chance...
Quanto mais me aproximava, mais podia escutar a voz dela gritando, enquanto batia na porta.
Mas que diabos...? Por que ela estava trancada ali?
— Mia, se afasta da porta!
Precisei de três chutes para derrubar a porta. Assim que a derrubei, Mia correu até mim e me abraçou tão desesperada que até me derrubou sentado.
Com o rosto enterrado na minha camisa, ela chorava como uma criança assustada. Eu não sabia o que fazer, só queria que ela parasse de tremer. Então a apertei bem forte num abraço, envolvendo quase todo seu pequeno corpo.
Ela estava muito assustada, por isso demorou a se acalmar.
— O que veio fazer aqui?
— Han? Vo-você que... pediu. – sentou-se direito, tirando um bilhete do bolso e me entregou.
— Nunca escrevi isso.
Parecendo confusa, ela enxugou os olhos na manga da blusa.
Olhei mais uma vez o bilhete. Essa letra me é familiar...Quem quer que seja, quis assustá-la, então teria que se entender comigo.
Ela ainda parecia um pouco assustada, mas mesmo que as lágrimas não tivessem cessado, ela puxou sua mochila e tirou um papel.
Era o boletim escolar. Todas as suas notas estavam acima de sete.
Desviei da folha e olhei para ela. Ainda soluçava e secava as últimas lágrimas, mas sorria de orelha a orelha.
Não sorria assim, meu coração acelera, idiota...
Instantaneamente afaguei seu cabelo.
— Sinto muito.
Ela me olhou surpresa.
— Era por isso que estava te procurando. Você... tinha razão. Eu... conversei com os meus pais. Estive tanto tempo os evitando que realmente nem sabia mais como estava a situação entre eles.
Ela abriu um sorriso ainda maior, mas parecendo se lembrar de algo, aos poucos deixou o sorriso murchar.
— Eu vim aqui... – levantou a cabeça e me olhou – Queria muito te encontrar... Queria me desculpar por ter gritado com você e... pelas coisas que eu falei.
— É, aquilo me assustou. Alguém do seu tamanho conseguir liberar tanta raiva...
Ela deu um tapa na própria testa. — Sinto muito por isso.
Não me aguentei e ri. Não esperava pelo tapa.
— Idiota... Se não fosse por você, nunca teria falado com eles. Então... Obrigado.
Pareceu surpresa, mas ficou contente.
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