Mia


— Como estão os preparativos para o festival? – David guardava seu violão na capa.
— Preparativos?
— Sim. A gente vai tocar a música que você está compondo não é?
Desanimei.
— O quê? Você tinha esquecido?
— Não, não! – disse logo antes que ele entendesse errado – É que eu não estou conseguindo compor nada. As provas já terminaram, mas estou muito nervosa para receber os resultados.
David parecia surpreso. — É a primeira vez que te vejo nervosa por causa de prova.
— É? Sério? Bem... quero deixar os outros orgulhosos de mim.
Ele afagou meu cabelo. — Eu já sou orgulhoso de você.
Sorri. Ele é sempre tão gentil... E eu estou tão em crédito com ele, nunca mais fui ajudar no bar, a gente acabava trazendo muitos clientes. Mas ele dizia que estava tudo andando muito bem sempre que eu perguntava.
— Pode deixar, David! Vou dar meu melhor e compor a melhor música de todas!
Ele achou graça do meu entusiasmo.
— Sei que vai.
Essa semana vou me dedicar e pensar em algo. E depois do boletim, a preocupação vai acabar e as ideias vão fluír... Eu espero.
Esperamos pela Camila para voltarmos para casa juntos.
— Ei, garota com o uniforme!
Eu e David viramos juntos (já tínhamos deixado Camila em casa e estávamos no meio do caminho para a casa de David).
Uma mulher bem vestida veio andando em nossa direção. Ela era familiar...
— Amélia, não é? – disse sorrindo.
— A mãe do Sensei!
Ela riu. — Me chame de Soraya.
Que nome lindo, combinava com ela.
Soraya olhou para o David e o cumprimentou também, toda sorridente.
Ela era tão radiante... tão diferente do filho.
— Já que estamos aqui, por que não me deixa pagar um lanche para vocês?
— Ah, eu agradeço, mas preciso voltar para casa. – respondeu David com a educação de sempre – Vou indo na frente Mia, me ligue quando chegar em casa. – se voltou para ela — Prazer em conhecê-la.
— Que garoto gentil. Seu namorado? – disse assim que ele se afastou.
Arregalei os olhos. — Não, não! Somos amigos de infância.
Ela pareceu surpresa e meio desconfiada.
Não entendi...
Fomos a uma confeitaria perto dali.
— Pode ficar a vontade, é por minha conta.
— Eh? Mas hoje é a primeira vez que me lembro de trazer dinheiro comigo. As forças do universo estão ao meu favor para ajudar a pagar a conta.
Ela gargalhou. — Forças do universo? (está bem então...)
— É, eu sempre me esqueço de sair com a carteira. Na verdade, eu me esqueço de várias coisas, por isso o Sensei me chama de peixe.
— Peixe? – ela pareceu pensar no assunto, mas antes que pudesse explicar, conseguiu entendeu por ela mesma – Ah, sim. (risos) Porque os peixes tem memória curta (risos).
Tão esperta... Tal mãe tal filho.
Lembrei de repente que saí sem me despedir e agradecer, nem lhe devolvi o vestido apropriadamente.
— Sinto muito por ter saído sem me despedir.
Ela pareceu surpresa de novo, mas sorriu ternamente logo depois.
— Imagina! Você parecia se dar tão bem com meu filho. Naquela festa sempre que o olhava ele estava rindo de algo. Isso confortou meu coração, pois apesar de tudo, ele ainda pode rir daquele jeito.
— Acho que ele é melhor sorrindo. Mas geralmente ele é tão sério...
Seu sorriso murchou. — Nem sempre foi assim.
Sua expressão estava pesada, o sorriso tinha sumido por completo.
— Eu disse algo errado? Descu-
— Não, não... Se importa de me ouvir um pouco?
Balancei a cabeça negando afoitamente.
Ela parecia meio nervosa, encarava suas mãos segurando a xícara de café com demasiada força.
— Eu traí meu marido uma vez... – sua voz era trêmula – Ele estava sempre ausente, sempre voltado ao trabalho. Eu me sentia sozinha... E foi só eu receber mais atenção de outro homem que... – ela respirou fundo — Não esperava que Érick chegasse tão cedo em casa. Ele me viu. Chovia muito aquele dia... ele ficou tão transtornado...
As lágrimas começaram a descer. Ela apertava a xícara cada vez mais, abaixando a cabeça. — Eu o magoei tanto... Eu sou a pior pessoa.
Ela não conseguia me olhar nos olhos. — Meu marido me perdoou, disse que a culpa era dele também. Foi a primeira vez que o vi chorar... Ele disse que as coisas mudariam dali para frente. – ela começou a se acalmar – Ele disse que já era hora de se aposentar, de dar valor a família. Aquele jantar foi para se familiarizar com os possíveis substitutos do cargo dele.
...
— Eu entendo o fato do meu filho me odiar, mas o pai dele não tem que levar a culpa também. Esse é meu maior arrependimento... Meu filho nunca vai me perdoar.
...
Ela riu ironicamente. — Você deve estar se perguntando o quão horrível eu sou, ao ponto de dar uma memória tão dolorosa para o próprio filho.
Soltou a xícara, apoiando as mãos livres na mesa. Estavam tremendo...
Com cuidado as segurei. Aquelas eram as mãos de uma mulher solitária que traiu o marido na própria casa, que descuidadamente permitiu que o próprio filho a visse sendo tão baixa... Mas também eram as mãos de uma mãe arrependida, que nem ao menos conseguiu perdoar a si mesma, que nem mesmo o perdão do marido foi o suficiente para que, o que tinha feito, parasse de perturba-la todas as noites.
Mas não é isso o que acontece por sermos humanos? Nós erramos e nos arrependemos. Temos os nossos defeitos... todos temos. Então por que deveríamos julgar uns ao outros? Por que não podemos perdoar quando já fomos perdoados tantas vezes?
Eu sou uma idiota que não sabe de quase nada do mundo, que esquece das coisas mais importantes como o aniversário da própria tia, que há pouco tempo achava que orgulhava os pais, quando na verdade só havia os decepcionado.
O próprio Érick era alguém frio e grosseiro há pouco tempo. Mas por que tinha que condenar a mãe assim? Ele era tão orgulhoso ao ponto de não querer sentar e conversar com os próprios pais, para esclarecer as coisas, voltarem a ser uma família...? Os pais dele já tinham aprendido a lição, mas e ele?
Sei que é difícil para ele, vi seu estado naquele dia, mas será que isso não é algum tipo de angustia? Até quando jogaria fora a oportunidade de estar com a família de novo?


Érick


Voltando do colégio, algo me chamou atenção em uma das lojas de confeitaria. Parei imediatamente quando vi Mia e minha mãe sentadas na mesma mesa. Fui me aproximando e confirmando que eram elas mesmas. Mia segurava as mãos da minha mãe, a olhando espantada enquanto ela chorava.
Entrei e fui direto a mesa delas. — O que está acontecendo aqui? – perguntei exaltado, todos do lugar olhavam em nossa direção.
As duas se assustaram.
— Filho! Ah, eu encontrei ela...
— Que besteiras estava falando para ela? Está se fazendo de vítima de novo? Por que ela está assim?
— Érick, querido, por favor, todos estão olhando.
— É claro... A imagem da dona Soraya não pode ser manchada, isso é importante demais para você.
— JÁ CHEGA! – Mia levantou com tudo da cadeira e a quase derrubou – Você não pode tratar sua mãe assim!
O quê...?
— Ela errou? Sim, errou! Mas está arrependida!
Por que ela estava assim? O que minha mãe tinha dito para ela?
— Enquanto você exclui seus pais da sua vida, tem gente que daria TUDO para tê-los por perto outra vez. Isso me irrita! Enquanto não posso fazer nada para que tudo volte ao normal, a única coisa que você tem que fazer é perdoá-los!
Ela estava realmente alterada e saiu correndo dali. Inconscientemente, corri atrás dela.
Já estávamos fora da loja. Assim que a segurei, ela jogou minha mão para longe.
— Quem é você para me dizer tudo isso? Você não sabe de nada!
— E dai? Os detalhes da história não importam. Eles estão arrependidos!
— Não estão!
— Como você sabe?
— Como eu sei? Talvez pelo fato daquela mulher ainda sorrir para todos, posar de boazinha e viver para a aparência. Talvez pelo meu pai ainda continuar vivendo para o trabalho, deixando ela sozinha naquela casa.
— A culpa de ela estar sozinha é dos dois então! Você não está fazendo diferente dele! Se sua mãe está só, é porque você também não está lá com ela! – ela começou a chorar – Dê mais valor a sua família antes que a vida a tire de você também!
Deu meia volta e foi embora correndo.


Mia


Assim que cheguei em casa e me acalmei, percebi o quanto passei dos limites.
Ain, eu sou uma idiota! Por que falei coisas tão grosseiras? Deveria ter ficado calada.
...
Não, não podia me calar. Vê-lo tratando a mãe daquele jeito na frente de todos. Por que ele fez isso? Ele não é assim...
Mas ele tem razão... do que eu sei afinal? Deixei as minhas próprias emoções transbordarem, e acabei deixando as palavras saírem como uma metralhadora.