Mia


Ele está atrasado. Ele nunca se atrasa! Acho que não vai vir hoje. Deve estar com raiva ainda.
Decidi ir passear com Dexter, o cachorro da vizinha. Mas não consegui me distrair, nem fui muito longe para se ele chegasse eu pudesse ver.
Nada.
Ele realmente não viria? Deve realmente estar bravo comigo para faltar um compromisso. Só queria entender o porquê, foi tão de repente, noite passada ele me assustou. Mas ele veio até aqui logo em seguida...
Eu não tive coragem de me desculpar hoje no colégio... nem o procurei.
Agachei-me deprimida. — Dex, eu sou uma pessoa horrível...
Dex latiu.
— Eu sei... – disse desanimada – Eu TENHO que me desculpar!
Dex latiu novamente.
Percebi o tempo se fechando.
— O-ou. Acho que vai chover, Dex. Temos que voltar.
Cheguei em casa e pensei na minha conversa com Dexter. Ele tinha razão. Eu devo me desculpar com Sensei. E eu farei isso hoje! Ele não virá até aqui então eu irei até lá!
Peguei meu casaco e o guarda chuva, mesmo que estivesse caindo o céu lá fora, eu tinha que me desculpar! Enquanto ainda tinha coragem...
Eu lembrava mais ou menos aonde era sua casa. Mas assim que virei uma esquina, vi um garoto debaixo da chuva, agachado no chão, com a mão no peito. Meu coração acelerou quando o reconheci.
— ÉRICK!
Corri para acudi-lo e o cobri com o guarda-chuva. Quando me aproximei percebi seu estado de choque. Estava paralisado, mas seu corpo tremia. Sem conseguir respirar direito, olhava fixo para suas mãos no chão.
Meu peito doía por meu coração bater tão pesado.
O que eu faço? Isso é um ataque de pânico, já tinha visto um. Preciso acalmá-lo... Mas como?
Então lembrei que o que mais me acalmava era a música. Peguei meu celular e coloquei os fones em seus ouvidos. Foi aí que, aos poucos, ele levantou o olhar pra mim e pareceu conseguir voltar a respirar novamente.
Graças a Deus...
Reconheci a rua, e foi fácil me lembrar onde era sua casa. Ajudei-lhe a ir para lá, apoiando-o em mim. Por ser muito alto quase não consigo aguentar até o fim, mas dei meu máximo.
Remexi sua mochila e encontrei a chave. Ele ainda estava branco e sem muita reação. Levei-o direto para o quarto.
Vi-me em uma situação desconfortável. Ou tirava sua roupa molhada ou ele ficaria mais doente do que o previsto, depois de tomar chuva nesse frio.
Tirei os sapatos e as meias. Olhei para o lado e tirei sua camisa. Joguei o lençol por cima e tirei sua calça (puxando pelos pés, é claro). Coloquei dois edredons para aquecê-lo, não iria vesti-lo, tinha chegado ao meu limite na calça.


***


A febre não o deixava relaxar, sua testa estava constantemente franzida. Ele lambeu os lábios secos.
O que é isso? Sede ou fome?
Por fim dei água, era importante se hidratar, ele estava suando bastante. Nem o paninho frio que coloquei estava adiantando. Tinha procurado por remédio, mas não achei nenhum.
Acho melhor fazer uma sopa, quando acordar vai estar com fome. Ainda bem que eu sei cozinhar pelo menos isso... Peguei o resto de arroz que tinha na geladeira, alguns legumes já cozidos e os temperos que encontrei. Joguei tudo na panela.
Isso... Espero que fique comível.
Deixei a sopa ferver para incorporar e pegar o tempero. Enquanto esperava, comecei a reparar no lugar, encostada na pia. Era pequeno e, como esperado, muito organizado. Havia uma estante cheia de livros no canto, e ao meio uma TV média, no centro da sala, uma mesinha de vidro com um livro aberto e um óculos de grau em cima. Fui até ela, para ver o que estava lendo.
História... Claro.
Dois sofás beges de camurça deixavam o espaço menor e logo vinha o balcão da cozinha. Quando meus olhos se direcionaram para o começo do corredor, vi ele cambaleando pelo corredor, enrolado no edredom.
Fui até ele apressada, dizendo que a sopa estava quase pronta.
— Não preciso que faça isso.
— Ah, está tudo bem...
— Não quero que faça isso. Só vá embora e me deixe sozinho.
O que há com ele? Por que não quer minha ajuda?
— Por que continua aqui? – ele me prensou na parede, seu corpo estava quente.
Será que estava delirando por causa da febre?
— Sabe o que eu poderia fazer com você? Estamos sozinhos aqui...
Tão perto. Tão... QUENTE!
Toquei sua testa.
— Está fervendo! E ainda está aqui em pé falando bobagens! – me irritei de vez – Você acha que falar assim vai me assustar, ou me fazer ficar com raiva a ponto de ir embora e fazer o que você quer? Pois saiba que está certo sobre UMA coisa: me deixar com raiva! Agora pare de falar grosserias e vá se deitar até que eu lhe traga a sopa.
Ele se afastou, franzindo a testa.
— O quê? Quer me por para fora? Porque eu só saio daqui à força, e eu acho que você não a tem nesse momento.
Algo se passava na cabeça dele enquanto me encarava daquele jeito. Talvez todos os xingamentos possíveis, mas ele não os disse. — Que seja... – disse suspirando e voltando para o quarto.
MEU DEUS, A SOPA!
Dei-lhe a sopa e, ao contrário do que eu achava, que fosse reclamar, ou dizer que estava sem fome, ele se sentou e aceitou numa boa.
— Gostosa...
— Han? Ah, mesmo? Obrigada... (pensei que tinha salgado).
Bem, acho que não ficou tão ruim. Ou ele realmente estava com muita fome, pois comeu tudo.
Voltou a deitar-se.
Acho que meu trabalho aqui está terminado, é só ele descansar agora.
Lembrei que teria que fazer algo para comer já que titia não viria para casa hoje, pois tinha plantão.
Esfriei o pano mais uma vez e o coloquei de volta em sua testa. Quando estava me levantando, de repente senti sua mão quente segurar meu pulso.
— Fica... – disse com a voz fraca.
Eu engoli seco e senti meu coração acelerar.
Ele queria que eu ficasse? Por quê? Há pouco tempo me queria fora daqui.
Ajoelhada no chão, apoiei a cabeça na mão, em cima da cama, e comecei a observá-lo. Ele, que tinha voltado a dormir, estava com as bochechas vermelhas e a pele suada, sua expressão era diferente. Foi a primeira vez que o vi assim, sem forçar sorrisos, enrugar a testa ou parecer preocupado.
Ele era... muito bonito...Estranho... Meu coração está batendo tão rápido!