O Deus-Máquina primordial levantou de seu assento, sua altura imponente fez Reno suar frio e engolir a seco seus planos de quebrar a cara de Andrômeda.

— Ei Victor, o que eu faço agora? Converso com ele? Luto com ele? — Perguntou Reno, preparando seu bastão e tomando postura de combate.

— Eu nunca soube ao certo como agir todas vezes que vim aqui. Andrômeda irá decidir.

Parei a alguns metros de distância de Reno, que agora estava entre mim e o Deus-Máquina que se aproximava lentamente do jovem trêmulo.

Realmente achei que Reno fosse mais esperto que isso. Mas óbvio que não, ele era como um animal ingênuo na porta do abatedouro que ainda não fazia ideia de seu destino final.

Andrômeda possuía um longo e espesso cabo preso em suas costas, ligado a um artefato de aparência anciã, como uma espécie de bateria.

As vozes começaram a ecoar em nossa mente, Andrômeda buscava um dialeto que pudesse ser compreendido pelos seres humanos, mas os sussurros não encontravam uma linguagem compreensível. Não demorou muito para o sangue brotar de nossas narinas e uma dor escoriante invadir nossas mentes.

— Andrômeda! — Exclamei meio a dor excruciante. — Eis aqui o sacrifício final, o fruto único da interação entre máquinas e humanos! Não é esse seu propósito?

A dor e as vozes cessaram, eu havia conseguido a atenção do Deus-Máquina por mais alguns instantes, ao preço de revelar a verdade dolorosa à Reno.

— Sacrifício final? — Esbravejou o jovem. — Que merda de história é essa? Quer dizer que esse tempo todo as pessoas que desapareciam do vilarejo… Porra, nada do que você diz faz sentido!

— Você sempre quis saber sobre seus pais, sobre sua origem. Aproveite a oportunidade e encare seu progenitor. — Respondi prontamente.

Reno estava visivelmente confuso. Se aproximou mais e mais de Andrômeda, encarando o Deus-Máquina frente a frente, podendo sentir o calor e a energia que seu corpo mecânico emitia.

Andrômeda não reagia, apenas estava ali, parado estoico enquanto eu observava o desfecho daquele último sacrifício.

Ninguém do vilarejo sabia dessa realidade, nossa existência ali sob a proteção de Andrômeda custava vidas humanas de tempos em tempos. Logo no começo, quando Kaede e eu começamos o treinamento de Reno, eu tive uma epifania. E se Andrômeda estivesse nos testando? Feito aquele velho da bíblia que teve que sacrificar o próprio filho ou algo assim?

Apenas me ocorreu que no momento certo, Reno seria um sacrifício adequado para manter nossa vila viva por um bom tempo, e quem sabe nesse tempo nós poderíamos descobrir algo novo! Ou talvez Andrômeda nos abençoe com outras crianças! Eu não sei. Mas era tarde demais agora, Reno precisava morrer.

— Isso não faz sentido! — Esbravejou Reno, golpeando o peito de Andrômeda com seu bastão que se partiu em dois no impacto. — Não vou ser sacrifício pra Deus nenhum!

— Se você não morrer aqui, todos do vilarejo estão condenados! — Gritei de volta para aquele jovem tolo.

— Então que assim seja!

Com agilidade impressionante, Reno correu em direção ao cubo mecânico que aparentemente alimentava os poderes de Andrômeda, o golpeando com violência e desconectando o cabo no processo.

— Idiota! Vai matar a todos nós!

— Pode ser que sim, Victor, mas também vou ser o único homem vivo a derrotar um maldito Deus-Máquina!

No momento em que o cabo foi desconectado toda a estrutura do Obelisco tremeu momentaneamente como se algum sistema tivesse sido desativado naquela torre. Andrômeda perdeu sua luz alaranjada e a energia que emanava de seu corpo cessou completamente.

— Você... Matou ele? — Perguntei incrédulo, esperando nada menos do que nossa destruição eminente. — Você matou um Deus-Máquina?

Reno tremia e sorria de maneira errática. O suor que escorria por aquele rosto magro havia encharcado sua túnica.

Antes que Reno pudesse responder, Andrômeda fez um ruído estridente, liberando uma espessa cortina de vapor da tubulação em suas costas.

A cabeça do Deus-Máquina foi ao chão, revelando ser apenas uma armadura vazia. Suas costas, braços e pernas se abriram como um convite inesperado, sugerindo que Reno devesse vestir a carapaça morta daquele Deus.

— Não tem nada dentro. — Observou Reno estupefato. — É só uma armadura, uma casca vazia.

— Isso não faz sentido… — Murmurei enquanto procurava uma explicação razoável para aquilo. — Não, não, Ele deve estar nos testando! Só pode ser isso!

Reno ignorou meu desespero e entrou nas costas de Andrômeda, vestindo o corpo mecânico do Deus-Máquina como uma armadura que deixava exposta apenas sua cabeça.

Em questão de instantes a armadura se adaptou a estrutura corporal de Reno, diminuindo suas proporções e mudando sua cor, do antigo cinza metálico para um preto lustroso.

O jovem andou até a cabeça de Andrômeda que repousava próximo a mim, a ajuntando e selando sobre sua própria cabeça. Assim como o corpo, o elmo mudou sua cor e proporções se transfigurando em algo vezes mais obscuro do que o original.

— Isso é… Isso é… — Balbuciou Reno, sua voz metálica ecoando através do elmo. — O poder de um Deus-Máquina! Eu posso sentir! Essa armadura sempre esperou por mim!

Eu estava sem palavras, nem nos meus sonhos mais delirantes eu prediria que isso fosse terminar assim. Estava tudo acabado, falhei com o vilarejo e tentei entregar a vida de meu discípulo para um falso deus. Eu não desejava morrer, mas estava pronto para aceitar qualquer punição que Reno decretasse. Talvez eu até ainda pudesse o convencer a salvar o vilarejo afinal de contas.

Foi tudo minha culpa.

— Eu não fazia ideia de que as coisas terminariam assim, Reno. Eu…

Com um movimento de sua mão direita, Reno selou minha voz completamente com seus poderes recém adquiridos.

— Não gaste saliva, Victor. — Reno me interrompeu. — Vou cruzar o deserto negro em busca de um lugar melhor para Kaede e os outros. E quem sabe, testar os poderes dessa armadura com qualquer outro deus falso que eu venha a cruzar meu caminho. Mas quando voltar, e eu irei, nós teremos uma conversa séria. De homem para Deus.

Senti minhas pernas fraquejarem e minha vista pesar. A última coisa que ouvi foi um ruído ensurdecedor. Quando me dei por conta, estava deitado em minha tenda no centro da aldeia, sob os cuidados de Kaede e os demais.

— Por favor, Victor, me diga que estamos à salvo? — Perguntou Kaede com os olhos cheios d’água.

Tateei minha boca, percebendo que a habilidade silenciadora de Reno havia sido desfeita.

— Tudo depende de Reno agora. — Respondi ainda debilitado.

Por quanto tempo mais vamos viver uma mentira neste mundo arruinado? Eu já nem me importo mais. Não há esperança para a raça humana de qualquer forma.

Meu único desejo agora é que o jovem Reno encontre a verdade além das areias negras e jamais retorne para essa aldeia fadada ao esquecimento.

Deixe que a humanidade seja esquecida de uma vez por todas.

Notas finais
Comentários, críticas e sugestões serão sempre bem vindos! Obrigado pela leitura e não perca o próximo capítulo!