Já fazia anos desde que Reno e Andrômeda deixaram a aldeia, nossa pequena população já havia caído para pouco mais de quinze pessoas. Estávamos velhos e fracos, aguardando um fim que nunca chegava.

Nosso pequeno oásis já não nos sustentava como antes, a ausência de Andrômeda havia enfraquecido ainda mais nossas terras e aumentado a expansão das areias negras ao nosso redor. Se não morrêssemos de fome, sede ou velhice, eventualmente nossa aldeia seria tomada pelo deserto.

— Viver sem esperança é pior que morrer de vez. — Resmungou Kaede, sentada frente ao braseiro no centro do vilarejo. — Se ao menos eu tivesse coragem pra isso…

A velha instrutora de artes marciais já não tinha a mesma vivacidade depois da partida de Reno. O tempo havia lhe corroído por dentro e por fora a deixando quase irreconhecível.

— Não diga esse tipo de coisa, sei que de alguma forma nós vamos sair dessa situação. Deve haver uma maneira. — Respondi mesmo sem acreditar em tais palavras enquanto observava o último pedaço da brasa se apagar.

Kaede nada respondeu, tampouco os demais aldeões ali reunidos.

Um forte clarão repentino nos tirou daquele estado mental miserável. As ruínas do Obelisco tremeram e um poderoso vento se ergueu no vilarejo, criando redemoinhos de areia negra e soprando para longe nossas tendas improvisadas.

Durou apenas alguns segundos e quando pudemos abrir nossos olhos novamente lá estava Ela. A mesma Deusa-Máquina que destruiu a ponte do Brooklyn em frente aos meus olhos muitos e muitos anos atrás.

Ela era alta e imponente, seu corpo metálico era esguio em um tom azul escuro. Em suas costas, um par de majestosas asas mecânicas.

Eu poderia passar o resto da eternidade admirando aquele ser de outro mundo, mas a surpresa aterrorizante que ela trazia em uma de suas mãos era simplesmente demais para qualquer um de nós processar naquele momento.

— Não pode ser verdade… — Disse incrédulo, caindo de joelhos perante à Deusa.

Em sua mão direita, Ela segurava pelos cabelos um corpo partido ao meio, com as entranhas e sangue ainda quentes escapando pelo torso dilacerado com armadura e tudo.

Aquele rosto distorcido pela dor e aquela armadura negra… Reno!

A Deusa jogou o cadáver aos nossos pés tingindo o chão arenoso do mais puro escarlate.

Os aldeões estavam imóveis, paralisados pela forma mais genuína de terror que já haviam sentido. Apenas lágrimas surgiam no lugar das palavras.

Mesmo quando não há esperança, o ser humano nunca está realmente preparado para aceitar a morte de braços abertos. E nós percebemos isso tarde demais.

— Quem é você? — Busquei forças para perguntar a primeira coisa que viesse à mente.

A Deusa-Máquina pressiona algo em seu pescoço, liberando jatos de vapor de seu capacete que muito se assemelhava ao bico de uma ave de rapina. Suas mãos vão até o alto e com um simples movimento ela remove sua própria cabeça, revelando uma verdade vezes mais incompreensível do que eu havia presenciado anos atrás com Reno e Andrômeda.

Não era uma máquina, uma divindade, um monstro ou qualquer outra criatura vinda do espaço.

Atrás daquela armadura estava algo pior e mais cruel do que qualquer outra espécie: um ser humano.

Um ser humano como nós e como você: com a mesma arrogância estampada no rosto e o mesmo coração repleto de ódio.

FIM

Notas finais
Comentários, críticas e sugestões serão sempre bem vindos! Obrigado por acompanhar essa história até aqui, espero que tenha gostado! Será mesmo que o universo dos Deuses-Máquina terminou por aqui?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!