Mystic

6 "Pai"


– Vamos rapido! Não deixem que escapem! — gritou um ogro apontando para um elfo que saia da sua casa correndo com a filha nos braços. Antes mesmo que pudessem fugir uma lança atravessou o seu corpo e também de sua filha, caíram ambos mortos no chão.

A chuva era densa agora, pesada, as ruas antes que brilhavam mostrando uma beleza única, agora estavam repletas de sangue e corpos espalhados por todos os lugares. O fogo tomava conta de quase tudo, os cristais antes belos que enfeitavam a cidade, não passavam agora de simples cacos espalhados pelo chão.

Dentro castelo, próximo a porta que dava para a sala do rei, guardas reais estavam de prontidão para defender a vida do seu senhor. Ao olharem para a escadaria que ligava ate aquela porta, uma sombra surgia subindo na parede, a principio não sabiam o que era, não tinha forma de um ogro, porem não tinha forma de um Elfo, amigo ou inimigo? Essa pergunta penetrava no coração daqueles Elfos. Com os olhares atentos na direção da escada, leves gotas de suor caiam do rosto de alguns, mãos tremulas de outros, medo.

Era mesmo inacreditável que 15 Elfos altamente treinados e 2 generais pudessem estar com tanto medo. Eles temiam que o ser que se aproximara pudesse ser aquele a qual outros guardas antes de morrer o denominaram de ceifador, pois não importava quantos estavam a sua frente ele matava a todos, e para a infelicidade deles, finalmente apareceu o Devil e era o mesmo que levou a morte vários elfos naquele mesmo dia. Ele era alto, seus olhos negros como um abismo, seu rosto estava escondido pelo seu manto, não podia se ver sua boca ou o nariz apenas os olhos, olhos que ninguém gostaria de ver.

Do outro lado da porta na sala do rei, Rei Tarius Del’chio III e mais 3 de seus generais estavam também de prontidão para a batalha.

– Meu senhor, é melhor usar a passagem secreta e fugir, nos ficaremos aqui e deteremos qualquer um que entrar para que vossa graça escape. — disse General Millos desembainhando sua espada.

– Em todos os meus anos de vida nunca corri de uma batalha, nosso reino não se ergueu ate aqui correndo de batalhas... não percam as esperanças, sabemos que minha filha esta segura, enquanto um dos meus filhos viver nosso reino sempre se erguera! — falou o Rei Tarius, com fúria em seu rosto e determinado para enfrentar tudo e todos.

– Meu Pai é melho... — o príncipe Pyllos, que também era general foi interrompido pelos gritos de agonia vindo do outro lado da porta, sentiu um arrepio na espinha. Todos naquela sala olharam para a porta espantados. Rei Tarius nunca ouvira alguém gritar daquela maneira antes de morrer em todas as suas batalhas.

Podia se ouvir os estrondos na porta, como se corpos caíssem e se chocassem contra ela, podia se ver o sangue escorrendo pela fresta em baixo da porta, foi quando então que se fez silencio. Não se ouvia mais nada, nenhum passo ou movimento, estava quieto, suas respirações estavam ofegantes, todos com espadas nas mãos esperando alguma coisa algum barulho, mas nada se ouvia, o sangue se espalhava lentamente para dentro da sala. Só se ouvia a chuva batendo nas janelas.

– verif.. — antes mesmo de o Rei pudesse dizer, a porta se arrebentou toda para dentro da sala, um forte estrondo se ouviu, como que um sopro muito forte jogou todos para traz, poeira e pedaços de madeira se espalhavam pelo ar e caiam ao chão.

– Vic, fique calma! — disse Maria abraçando a princesa após ver aquela cena do reino, sua casa em chamas.

– É Rem! Seu plano não foi bom, devemos voltar o quanto antes para encontrar o General Orlando e os outros, devemos informar a situação. — disse Flecher com um olhar profundo olhando para Rem e ao mesmo tempo assustado.

– Não! — exclamou Vic — não podemos voltar, precisamos ajudar o meu pai e os outros! — levando as costas da mão nos seus olhos enxugando as lagrimas.

– Princesa, entendo que esta abatida, mas Flecher tem Razão, somos apenas 4.. tem um exercito ali em baixo, mesmo querendo ajuda você é o mesmo que ir para a morte! — falou Rem tentando mostrar a ela a situação.

– Não posso partir, preciso ver meu pai — insistiu a princesa.

– Vic, não tem como passar por tantos ogros assim, iremos morrer antes mesmo de chegar no castelo — disse Maria olhando nos olhos da princesa com a voz meiga tentando acalmá-la.

– Nós não vamos passar por eles, eu cresci nessas terras, há passagens que levam direto a sala do rei.. Meu pai as programou para um escape também. Por favor, estou implorando a vocês! Nós não seremos vistos, eu garanto.

Olharam um para o outro, não sabiam o que dizer, ela quase morreu umas horas a traz tinha o direito de ver o pai, pensou Rem e no mesmo momento falou:

– Esta certo — olhou para o castelo, com uma expressão serena mais seria — vamos para sala do Rei!

Andando lentamente entre os destroços da porta, indo em direção ao Rei Tarius, a qual este estava no chão quase desacordado, com um zunido nos ouvidos, visão embaçada, destroços e poeira tinham tomado conta daquela sala. Aos poucos sua visão ia voltando ao normal, sentiu uma dor no lado esquerdo do tórax, levou a mão para sentir o porquê, sentiu que tinha um grande pedaço de madeira cravado no seu corpo, sua mão ficou ensangüentada com um simples toque, tentou se levantar, mas estava fraco de mais. Com a visão retornando, olhou para aquele ser estranho em pé com o braço levantado, erguendo alguém, ouviu gemidos, quando reconheceu era seu filho que estava sendo estrangulado pelo Devil.

– Pa-re mal-dito. — tentou exclamar o rei pela vida do filho, apenas ouviu um estralo, como de algo quebrando, foi o pescoço de seu filho, que agora estava morto.

Como se não fosse nada o Devil atirou o corpo do belo príncipe pyllos no chão, o rei desbancou a chorar, ainda lembrara como se fosse ontem, aquele garotinho correndo na beira do lago de cristal. Empunhando um pedaço de pau na mão imaginando ser uma espada, gritando e fazendo sons como se estivesse lutando com alguém. O rei lembrara-se de como ele sorria, de como ele tinha orgulho de dizer que um dia queria ser rei igual ao pai, que seria o maior guerreiro do reino Élfico, mas agora ali no chão no pó com os olhos abertos, vazios, estava sem sorriso e sem sonhos.

– ora, ora ora — ouviu aquela voz, e com os olhos cheios de lagrimas tentou olhar para ver quem era, mas não reconheceu. — o tão bondoso e poderoso Rei Tarius Del’chio III caído no chão prestes a morrer — um riso irônico saiu da boca daquele ser — foi rápido de mais, sempre achei que você era bem mais que isso. Estou decepcionado com você meu velho amigo Tarius.

– Lucios?!... — disse o Rei Tarius ao reconhecer a voz. Não sabia o certo que era ele mesmo, pois o Devil cobria o rosto com um capuz apenas dava pra ver sua boca a se mover.

– bravo, lembrou de mim — deu uma gargalhada — vejo que já conhece o meu cavaleiro, como seus soldados o chamam? Ceifador, realmente o nome apropriado para ele não concorda?

– O que quer aqui Lucios, achei que.. — parou o rei para tossir, já também cuspindo sangue — achei que nunca mais o veria depois de que Radan lhe tirou os poderes — falou ofegante.

– Não se pode tirar o poder de um Devil majestade, Radan apenas os selou, mas você sabe muito bem que isso faz mais de mil anos, eu dei um jeito de romper esse selo. Confesso que ainda não estou completamente recuperado, era de se esperar daquele maldito.

Aproximando-se do Rei agachou-se do seu lado, segurou o seu rosto e disse:

– Não vim aqui falar de mim Tarius, eu vim buscar a sua metade do medalhão... Onde você o escondeu?

Cuspindo sangue na face de Lucios rei Tarius respondeu — Vá para o inferno!

Com um sorriso cruel no rosto, limpando o sangue com uma das mãos Lucios falou — Eu vim de lá para te buscar! — com magia criou uma adaga de gelo, um gelo negro na sua mão e cravou no peito do Rei Tarius, naquele momento se ouviu algo parecido com um suspiro.

Lucios ergueu a cabeça, olhando para os lados, achando aquilo estranho, mas não viu nada de mais, levantou, cochichou qualquer coisa no ouvido do seu poderoso guerreiro e ambos deram as costas e saíram.

Atrás de umas das estantes dos livros daquela sala, estava Rem, Flecher, Maria e a princesa, que ao ver a cena do pai sendo morto por aquele monstro quis gritar, mas Rem rapidamente fechou sua boca com as mãos.

– Essa foi por pouco! — disse Rem com o suor correndo no rosto. Soltando as mãos deixou a princesa respirar.

No mesmo momento Vic abriu à estante e foi ao encontro do pai, caiu de joelhos ao lado do rei e o abraçou, soluçando, chorando e acariciando-lhe o rosto. — pai, pai, pai — repetia a princesa.

– Flecher! A porta... Fique de olho — disse Rem sussurrando com medo de que ainda estivessem perto.

– Minha.... Filha — disse o rei com a respiração fraca.

– Pai! — gritou a princesa confusa tentando fazer alguma coisa para ajudar o pai — fique calmo eu vou levar você daqui, vamos dar um jeito de curar você pai!

– Não... Não há mais tempo para mim.... Eu vou morrer — disse olhando para a filha com um leve sorriso.

– não, não, não!... Não diga isso pai, eu to aqui, eu vou cuida do senhor! — ela tentava conter as lagrimas, mas não conseguia, pois via seu pai morrer aos poucos nos seus braços.

– Filha.. Quero que vá para a sala secreta... — respirou fundo — no baú de sua mãe — inspirou mais forte — tem uma caixa pequena, vermelha, pegue o que tem dentro e leve com você e não dê a ninguém — sua voz ficava fraca e mais baixa. As gostas das lagrimas de Vic caiam sobre o rosto de seu pai. — Prometa Vickinha que fará isso — Vic olhando para o pai deu um leve sorriso aos choros, por o ouvir ele a chamar ela de Vickinha. Ela lembrara que ele chamava-lhe assim quando ela era pequenininha, quando ela ainda brincava com as suas bonecas, ela lembrara que ele a colocava nos ombros e saia correndo pelo campo. Como ela gostava daquilo, mas agora ali seu pai não tinha forças nem para respirar.

– Sim pai — tentando conter as lagrimas — eu prometo.

– Que bom meu bem...

Aos poucos Vic viu a vida de seu pai indo embora, ela só tinha forças para chorar e abraçar o pai bem forte, com um leve balanço, chorava cada vez mais. Suas mãos acariciavam o rosto daquele que ela tanto amava e com um leve beijo na sua testa Vic deu adeus ao seu pai, seu Rei, seu amigo...

– Adeus! — olhando nos olhos do pai disse com a voz meiga e suave — Eu te amo.... PAI!

Notas finais
Mystic – Pai - FIM